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Neon Azul, de Eric Novello

* post fixo e mutante – acompanhe as atualizações do blog logo abaixo.

Estarei no Fantasticon (SP) autografando o livro nos dias 28 e 29 de agosto. Passem por lá.

Pré-venda: Você encontra o livro na Livraria Cultura,  na Livraria Saraiva, na livraria Moonshadow, e também na Siciliano.

Leia na página oficial do Neon Azul o release e trechos dos capítulos 1, 2, 3 e 4.

Em setembro, uma promoção unindo Neon Azul e Vaporpunk – a coletânea steampunk que vai dar o que falar.

Entrevista com Rodrigo del Arc

* entrevista publicada anteriormente no Aguarrás.

01. Você comentou no último pocket show que trabalhava de manhã, estava ocupado a tarde e só de noite conseguia parar para compor. Como foi o processo? Você criou um cantinho à parte de tudo para trabalhar suas músicas ou a adrenalina do dia ajudava de alguma forma?

Em 2007, quando estava compondo o disco que viria a ser o “A KIND OF BOSSA”, a minha vida estava virada de ponta-cabeça. Tinha perdido meu pai inesperadamente e tive que arrumar um trabalho fixo rápido para poder ajudar em casa. Não foi nada fácil, e realmente trabalhei demais naquele ano, incluindo folgas e feriados em que eu arrumava uns comerciais de TV para fazer. Lembro que no ano não trabalhei apenas 7 dias, sendo que em um destes dias eu fiquei bastante doente. Foi uma situação nada agradável para mim, pois, além de tudo, eu queria dedicar todo o meu tempo para a música e não podia. O tempo livre que sobrava para a música era quase sempre no período da noite.

Eu, na verdade, acho difícil separar um cantinho à parte do dia para compor, porque na maioria das vezes as ideias vem quando paro um minuto para descansar. Então foram incontáveis madrugadas em que eu ficava acordado junto com os meus parceiros, Edu e Nick, para compor, arranjar e produzir as músicas. Quando a inspiração não vinha, a gente dava uma volta no centrão de São Paulo. A gente falava de arte, conversava, tomava um café (e quantos cafés a gente tomou!), muitas idéias surgiam assim, no meio de uma conversa, daí a gente pegava o violão e corria para o computador para gravar tudo!

02. E como foi encontrar brasilidade nessa mistura de sonoridades que é o A Kind of Bossa? Você sentou já sabendo o que queria fazer ou foi definindo o som aos poucos?

A sonoridade do disco foi se definindo aos poucos, não estava preocupado em ficar preso a um único estilo, ou a “estilo” algum. Acho que a brasilidade vem das minhas influências e dos ritmos brasileiros que me fascinam. O Brasil tá no swing e na “malandragem”, no bom sentido da palavra, é claro. No começo até estranhava algumas misturas, depois fui acostumando e acreditando cada vez mais no que estava fazendo. Isso foi se definindo pela emoção, o termômetro era o simples fato de eu estar curtindo ou não. Acho que música pode ser feita assim; a sua emoção é o que determina o que vai ficar e o que não vai ficar numa música.

03. Ouvi da minha irmã no Rio a máxima que “Ao vivo o Del Arc faz todo o sentido”. Aqui em São Paulo tive uma impressão parecida, de que o som do cd, os vídeos no youtube, as tuitadas com os fãs, tudo isso se soma num crescente ao vivo, numa energia diferente. Como você vê essa relação do som do artista apresentado no cd e do som feito ao vivo?

Eu realmente me emociono muito cantando. Quando estou no palco, quando eu canto, eu estou tentando dizer alguma coisa, quero passar uma mensagem e sentir cada palavra da letra. Quero estar integrado na música, junto com ela, vivendo ela.

No CD “A Kind of Bossa”, procurei deixar tudo do melhor jeito possível para que todos os elementos na gravação conversassem entre si, que fizessem um sentido. Junto com os meus produtores Nick Gutierrez e Edu Maranhão, sem pressa, cuidamos dos mínimos detalhes, até por isso trabalhamos por quase 2 anos até finalizar o disco. Esse tempo é muito especial e precioso, um privilégio. Agora, por mais que o CD seja feito com muito carinho e cuidado com os detalhes, nada se compara com a emoção de viver as musicas ao vivo. No show, eu consigo olhar para a plateia e sentir a reação das pessoas. As energias se somam com as de quem está assistindo, a interação é maior. O mais legal de um show é que um nunca será igual ao outro.

04. Tem conseguido abertura que esperava? Ou o fato de cantar em inglês exige uma etapa extra de convencimento das pessoas?

Acredito que estou tendo uma abertura até maior do que esperava, principalmente no Brasil. Às vezes o inglês exige sim uma etapa extra. As pessoas precisam sentir mais do que nunca as palavras. Eu vejo isso como um incentivo para me entregar cada vez mais.

05. Fale um pouquinho do contrato no Japão. Quais são as expectativas em torno?

Fui muito bem recebido no Japão, e estou sendo bem divulgado pelo mesmo selo que trabalha com Milton Nascimento, Seu Jorge, entre outros grandes nomes da MPB. Graças a essa boa exposição, chamei a atenção de outro selo forte na Coréia do Sul. Vou lançar o disco por lá também entre abril e maio com 3 faixas extras: uma releitura do clássico “The Look Of Love”, do grande compositor Burt Bacharach (letra de Hal David), e duas versões da faixa 5 – “Trip”, remixadas pelo YUBABA que é uma dupla mineira de DJs que está crescendo cada vez mais no cenário eletrônico internacional. Estamos na expectativa de ficar mais conhecido por lá, e futuramente levar o nosso show para a Ásia toda, representar o Brasil e a nossa música. Acho que muitas coisas boas devem acontecer este ano por lá.

06. Como você usa ferramentas como Mypsace e mídias sociais para divulgar o seu trabalho? Elas realmente fazem a diferença?

As mídias sociais, como o MySpace, já são ferramentas básicas para o artista de hoje. Eu quero ficar perto dos meus ouvintes, e as pessoas também querem ficar cada vez mais próximas dos artistas. Ninguém quer mais aquele artista enlatado que só se via na televisão. As pessoas querem mais interatividade, querem participar da carreira, querem fazer parte. E de fato, fazem parte. A conexão que existe entre o público e artista hoje é muito mais próxima do que era há 15 anos. Graças à internet esse contato ficou direto, e eu quero ficar por dentro de tudo isso.

07. Para fechar, que música você sugere como primeiro passo para quem quer conhecer o seu trabalho? Por quê?

Pergunta difícil para mim… Acho que os sambas “Slip Into Precision” e “The Question Song”. A primeira porque ela abre o disco com uma mensagem: “As coisas boas e as coisas ruins da vida são passageiras; viva seus sonhos hoje e acredite no amanhã”. A segunda porque ela aponta o dedo pra você e te diz: “Se você fugir dos seus sonhos hoje, amanhã eles voltam para te pegar”. Não adianta ter medo e fugir, seus sonhos são o que você é.

WE SHINE INSIDE THE LIGHT

Na gráfica!

Ô frase boa. Faz tempo que eu não falava isso: meu livro novo foi para a gráfica. Aê! Como o prazo era hoje de manhã, fiquei ontem até meia-noite mexendo nele com o editor, criando umas brincadeiras novas. Podem me chamar de compulsivo ou de maluco mesmo, mas é que o Neon Azul exigia uma atenção extra por não ser uma narrativa linear e de vez em quando colocar a dimensão tempo em segundo plano, privilegiando os personagens, que sempre serão o centro do meu processo criativo.

Os leitores mais doidos do que eu podem até ler os capítulos em uma ordem aleatória, mudando o momento das revelações do livro. Acho isso bem bacana. Eu escolhi a ordem que será impressa com o objetivo de conduzir o leitor por um passeio dentro do Neon Azul. Como assim? Eu explico.

Você começa conhecendo o ponto de vista de um personagem que está sempre na porta. Depois, entra no Neon e conhece o primeiro andar, sobe para o mezanino e vai investigando cada canto, cada história e detalhe sombrio, até que você deixa o Neon Azul junto com dois dos personagens que eu mais gosto e vai para a casa de um deles, para o quarto mais especificamente ;) e volta para o conforto da sua consciência. Um belo programa turístico na minha mente conturbada. Mas, nada impede que o leitor sacuda tudo e decida ler de trás pra frente, por que não?

Como eu disse, o mais importante ali são os personagens, os dramas de cada um, o que eles precisam enfrentar para conseguir o que eles querem. Alguns precisarão literalmente tacar fogo no passado, outros matar a família (e ir ao cinema?), um deles terá que assinar um papel, aquele mesmo que você está pensando. Torço para que o leitor curta o meu parque de diversões e que goste mais ainda das companhias. Depois da leitura, teremos muito o que debater.

Sempre lembrando, não tenho nenhuma ilusão de perfeição. Aliás, acho que um livro perfeito seria um livro chato, e o que eu gosto mesmo é de me arriscar, de expandir meus horizontes e os do leitor. Tenho certeza que muitos leitores verão coisas no livro que eu não vi, dividirão interpretações que serão melhores do que as minhas, porque é para isso que um livro existe, para ser uma viagem particular, sem regras, sem limites. É um mundo dentro do reflexo do espelho de outro espelho de outro espelho. É um mundo também dentro de um sonho, de uma viagem louca de LSD, ou uma realidade árida, causticante, cheia de lunáticos religiosos e figurões do crime. O Neon Azul tem isso tudo dentro dele. Ou não. Depende do dia, depende da dose. Vocês, eu, a gente descobre dia 28 de agosto lá no Fantasticon.

Cyber Brasiliana, de Richard Diegues

Dia 22 de julho rola o lançamento de Cyber Brasiliana, primeiro romance de ficção-científica do Richard Diegues, um livro pós-cyber. Nele o leitor se depara com uma Realidade Alternativa, que se desenvolve em um universo Pós-cyber, no qual os países do eixo-norte do globo se encontram em decadência, confrontados pelas três grandes potências surgidas no eixo-sul: a União da República Brasiliana, a Africanísia e a Euronova. A qualidade de vida abaixo da linha do equador assume ares de utopia, enquanto no outro hemisfério as corporações lutam pelo controle dos espólios dos antigos países. Nesse cenário, em que uma parte da economia mundial está visivelmente instável, o equilíbrio é mantido por meio da força, de uma consistente e bem defendida base econômica, e da tecnologia que avançou a passos largos até se tornar fundamental à vida.

O lançamento será 19 horas na Saraiva do Pátio Paulista, que já virou point de quem curte literatura fantástica. Para marcar a data, pedi ao Richard que desse umas hot tips sobre o romance, e cá está esse dossiê secreto:

“No Cyber Brasiliana, eu tentei criar diversas inovações em cima da temática recorrente do Cyberpunk. Uma das coisas que mais chamou a atenção dos profissionais envolvidos na finalização do livro foi o fato de que inicio o primeiro capítulo apresentando um Brasil utópico – mais especificamente uma São Paulo –, com níveis de poluição praticamente zerados, sem a visão caótica de trânsito e do habitual “formigueiro humano”. Isso se explica pelo próprio cenário de Realidade Alternativa, onde os países do eixo-norte do globo entraram em uma decadência acentuada, permitindo o surgimento de três grandes potências abaixo do equador: a União da República Brasiliana, a Africanísia e a Euronova (unificações dos países em cada um dos três respectivos continentes hoje existentes). Com isso temos um cenário de três conglomerados hiper-desenvolvidos, com tecnologia e capital suficiente para provocar grandes mudanças”.

“A República Brasiliana detém a quase totalidade da criação do gado de corte mundial, o que a levou a avançar em muito com a tecnologia de confinamento, em edifícios que são verdadeiros bunkers sob o solo. Obviamente essa tecnologia de construção civil passou a se estender para as construções convencionais, com os edifícios paulatinamente sendo substituídos, devido a um temor inicial de guerras (que certamente teriam ocorrido caso o Brasil não dominasse a tecnologia nuclear para obter uma “moeda de troca” em caso de ataques). Com o desenvolvimento do Hipermundo, uma mega-rede de servidores com um software operacional de realidade aumentada, cada vez mais a necessidade das pessoas saírem de casa para trabalho, lazer ou uma simples interação pessoal, passou a ser nula. O fluxo de pessoas nas ruas passou a ser ínfimo, diminuindo o caos e a poluição urbana. A criminalidade passou a ser nula com o regime militar unificado ao presidencialismo, que ocorreu por meio de um golpe de estado. Leis severas, porém justas, inibiram a criminalidade e criaram laços patrióticos entre a população e o país. Uma utopia, como eu disse no início. Mas o cenário dark ainda sobrevive em minha obra, porém apenas no decadente eixo-norte. O segundo detalhe que gera alguma inovação é o fato de que, mesmo com esse ambiente fortemente desenvolvido, a trama se passa em sua grande maioria dentro do próprio Hipermundo, fato esse colocado nitidamente como segundo colocado em termos de “contravenção” aos preceitos convencionais do cyberpunk”.


Entrevista com John Makinson, CEO da Penguim

“Você foi citado no ranking dos nomes mais importantes da mídia em 2010 segundo o MediaGuardian por ações no mercado digital. Quais os próximos passos da Penguin nesse sentido?

O interessante desse ranking foi o argumento de que estamos redefinindo a indústria do livro. Alguns dos aplicativos que estamos desenvolvendo serão bem diferentes de tudo o que fizemos até agora. A maneira como apresentamos informações de viagem no iPad, ou como fazemos livros ilustrados para criança virem à vida, ou ainda como envolvemos redes sociais e comunidades de um jeito novo no mercado para adolescente. Isso tudo é muito novo e requer novas habilidades de editores. Significa que temos de entender novas tecnologias, novos critérios para determinar preços, temos de ser criativos na maneira de pensar no leitor. Não diminuo as questões que você levantou, a pirataria, a preocupação com lucro, são questões sérias. Mas, acima de tudo, estamos muito otimistas”, na íntegra no Estadão.

 

A Penguim é a nova parceira da Cia das Letras no Brasil. A editora é citada geralmente em eventos de literatura especulativa por dizer que não publica ficção-científica e por colocá-la no mesmo balaio da autoajuda. Entretanto, seu catálogo conta com um dos grandes clássicos da ficção-científica 1984, de George Orwell, e ela já publicou a história alternativa (um subgênero da ficção-científica) Associação Judaica de Polícia, do Michael Chabon. O que mostra mais falta de conhecimento do que preconceito no posicionamento estratégico.

Neon Neon, lá nos primórdios

Me dei conta de que julho está chegando à metade e me bateu um desespero de meio de ano de que não conseguirei fazer nada do que gostaria  em 2010. É um desespero diferente, porque está tudo encaminhado e eu não tenho muito o que fazer além de esperar. Fico na torcida pelas minhas novidades e pelas novidades dos amigos. Já estou com trabalho agendado para 2011, veja que bacana, cheio de idéias e alguns “okays” do povo do dinheiro.

Quando decidi que queria ser escritor 8 anos atrás, tinha 4 histórias na cabeça. O Dante, que foi meu primeiro livro. O Histórias da Noite Carioca, o segundo. Uma versão de Alice, super experimental e inédita. E o Neon Azul, que sai agora em agosto, com lançamento no Fantasticon. Quando eu escrevi o Neon, me deparei com várias das minhas limitações de autor. Ele era um livro muito maior do que eu, exigia mais do que eu sabia oferecer. Então ele foi para a gaveta, passou anos quietinho nela enquanto eu lia, escrevia, aprendia. Aí eu fiz a primeira revisão e mandei para duas editoras. Só duas mesmo. Nada de envios transloucados pelo correio. Uma nunca me respondeu (vim conhecer o editor 3 anos atrás, curiosamente). A outra mandou aquela famosa cartinha cheia de elogios, mas que diz não no final. Foi uma puta sorte. Agradeço muito às teias invisíveis do universo por essas duas negativas. O Neon voltou para a gaveta e lá ficou até eu me mudar para São Paulo. Fiz mais uma revisão no texto para não ficar parado e percebi que ele ainda não era o que eu queria. Mas, feliz, notei que estava chegando lá.

Mais tempo se passou e apareceu a editora Draco, meio de surpresa, interessada em um grupo de contos que eu havia ajudado a organizar em cima de uma idéia minha nascida num chat. Esses contos viraram os volumes 1 e 2 da Coleção Imaginários, hoje bem conhecida dos leitores de fantasia, terror e ficção-científica. Graças a eles, passei a ter contato com o editor Erick Santos e, depois de muito papo, apresentei o Neon Azul a ele. Quase numa compulsão, pedi um tempo para rever o livro inteiro antes de mandar.

E assim eu fiz. Tudo revisto, enviei para o editor, que me devolveu com algumas observações. Nova revisão e cheguei à versão final. Nesses quase cinco anos de mexidas, reescrevi 3 capítulos inteiros (inclusive o final), mudei vários detalhes dos demais, e  finalmente encontrei o livro que queria mostrar ao público. Caray! O Neon Azul estava pronto. Acho que é por isso que me espanto quando um autor coloca o ponto final num texto e envia no dia seguinte para a editora. Ou quando envia sem revisar textos escritos anos atrás.

O engraçado é que o Neon Azul nasceu bem antes de eu descobrir que existia algo chamado Fantasia Urbana fazendo sucesso no mercado estrangeiro. Então, posso dizer que a urban fantasy sempre esteve no meu DNA, mesmo quando eu não sabia disso. Sou um ser urbano, e isso se reflete nos meus escritos, sejam os personagens prostitutas  ou demônios engarrafados.

Mas estou fugindo do assunto. Queria mesmo era dizer que lá atrás, quando terminei o Neon, entrei numa nóia de que era um autor de 4 histórias. Tinha escrito as quatro e não sabia mais por onde seguir. E agora cá estou eu preparando mais dois livros de fantasia urbana e rascunhando a nova versão do Dante, que já tem nome, engrenagens e tudo.

Enquanto eu escrevo e reescrevo esses livros inifinitamente (desculpem pela ansiedade com o livro de magos), espero que vocês curtam, leiam, comentem bastante o Neon Azul. Como sabem agora, ele é fruto de anos de trabalho e do respeito que eu sinto por essa figura tão esquecida  nos debates literários chamada leitor. É o que eu tenho de melhor… pelo menos até o próximo.

Guild Wars

Ainda morava no Rio quando conheci o Guild Wars, bem antes de ser vendido aqui no Brasil em tudo quanto é canto. O visual sem graça do WoW nunca me atraiu, cara de desenho de criança, e eu não curto desenho animado, call me heartless. Já o do Guild Wars me chamava bastante atenção. Apesar de hoje eu não ter tempo nem para dormir e o viciado ser o David, quem começou a busca por um MMORPG fui eu. Queria um jogo que permitisse evolução de personagem e interação com gente de ‘verdade’ ao mesmo tempo. O David hoje segue nas asas do AION, enquanto eu espero o lançamento de Guild Wars 2, prometido para sabe-se zeus quando. Uma mistura de ansiedade com surtos de bom senso que me dizem que não terei tempo para jogá-lo.

Lá nos primórdios, fiz uma pesquisa na Internet, testei alguns e acabei esbarrando no título. Atração fatal. Para começar, ele apresentava as minhas duas classes preferidas: Necromancer e Ranger com pets. Modéstia à parte, eu era muito bom. Acho que você descobre que é nerd de verdade quando sente saudade de um personagem virtual. Mexendo no meu flickr, encontrei fotos do Storm, meu lobo de estimação, e me bateu uma puta nostalgia. Lembro que na época cheguei a escrever para os criadores perguntando se não queriam lançar romances baseados no jogo aqui no Brasil. Só fanfic, responderam, aí não aconteceu.

Fronteiras da fantasia 6

A indústria de videogames tem mantido um relacionamento tão proveito$o com Hollywood que a gente tende a esquecer que nem sempre foi assim. Lá nos primórdios, adaptar um videogame para as telas era considerado tiro n’água total. Da mesma forma que o estigma do fracasso acompanhou os filmes de piratas até Piratas do Caribe enfiar o pé na porta, os games também precisaram de filmes-jogos importantes para levantar sua bandeira. Parece contraditório que uma imensa máquina de fazer e perder dinheiro tenha espaço para superstições, mas basta pensarmos que elas vêm da cabeça dos donos do dinheiro para tudo fazer sentido. O sucesso pontual de Mortal Kombat (US$120 milhões) não apagou a imagem de fracasso de Street Fighter, que fez US$99 milhões no total, mas só conseguiu US$35 milhões nos EUA, seu mercado interno, a metade do que arrecadou o seu rival dos arcades. Aliás, é curioso ver como alguns filmes considerados fiascos por serem muito ruins são na verdade um grande sucesso financeiro – Transformers (US$800 milhões) e Godzilla (US$380 milhões) estão aí que não me deixam mentir.

Um grande marco dessa pulada de cerca entre mídias, e que mudou definitivamente a percepção de Hollywood quanto ao mercado de games, foi Tomb Raider e sua diva virtual Lara Croft. Nas bilheterias, Tomb Raider nem chega aos pés do famigerado Transformers. Arrecadou $275 milhões, e precisou de $115 milhões para ser feito. Mas o buzz foi tanto que o filme ganhou uma continuação… que arrecadou Us$100 milhões a menos.  Se os números não são impressionantes para a realidade hollywoodiana, o que faz de Tomb Raider um marco? Três motivos bem simples: 1. Essa versão feminina de Indiana Jones foi encarnada por uma vencedora do Oscar: Angelina Jolie. 2. Ele quebrou o paradigma de que era preciso um protagonista masculino em um filme de ação para o filme fazer sucesso. O mesmo preconceito existia com os games. 3. O roteiro de Tomb Raider mofou muito tempo nas gavetas dos estúdios, até que o fabricante, se não me engano o Crystal Dymanics, resolveu usar as armas de marketing de Hollywood para vender o game. Lara Croft passou a frequentar o tapete vermelho, virou capa de revista e musa de muito marmanjo. Estava feita a transição. Mais uma vez, além do resultado concreto, estava em jogo o valor do simbolismo.

Antes de absorver os videogames e nadar de braçada nas HQs, Hollywood bebia mesmo era da literatura, sua fonte incontestável. Nada mais natural nessa sopa transmídia que a literatura e os games também acabassem se tocando. Quem é fã  conhece as narrativas complexas que movimentam hoje em dia a indústria de jogos. Imerso em Guild Wars e AION, consigo listar uma centena de personagens e viradas de trama que acompanhei nos últimos anos. Outro dia, me chamou muita atenção como fã de cinema o trailer de Deus Ex: Revolution.

Quem lê em inglês encontra fácil várias sagas literárias baseadas em jogos. Warcraft e Warhammer são os primeiros nomes que me vêm em mente, mas a lista é bem maior. Além de vender para o imenso público viciado nos  jogos online (que o fabricante conhece com precisão numérica) os livros também funcionam como um chamariz  para os novatos. A possibilidade de encarnar um personagem que você curtiu no livro, usar a mesma armadura e combater o mesmo inimigo forma imediatamente um ponte entre os dois universos. A interatividade é hoje uma das palavras-chave para a sobrevivência da indústria de entretenimento.

Uma estratégia parecida foi adotada pelos criadores do RPG Tormenta aqui no país. Eles chamaram Leonel Caldela para desenvolver romances passados em seu cenário que, segundo a editora Jambô, é o mais jogado do Brasil. Considerando o tamanho dos livros (os três têm mais de 500 páginas), diria que foi um projeto arriscado, em total sintonia com o mercado lá de fora, e que trouxe resultados positivos tanto para a editora quanto para o autor. Essa parceria do Trio Tormenta com Caldela atraiu um novo público para o RPG e apresentou o autor àqueles que já conheciam o jogo.  Quem estava acostumado a só ver os livretos de Vampire da Devir, de repente viu a mágica acontecer também no âmbito nacional, de forma muito mais robusta.

Ninguém melhor do que o próprio Leonel Caldela para falar um pouco dos desafios de criar uma história inédita dentro de um cenário pré-existente.

“O fato de escrever dentro do cenário foi um facilitador no começo. Não era necessário criar todo um universo a partir do zero, eu podia contar com o material que já havia sido criado antes. Como recebi muita liberdade dos autores originais (com pouquíssimas interferências depois que a trama básica tinha sido aprovada), peguei basicamente só o lado bom desse cenário pré-construído. Por outro lado, é preciso pensar no jogador de RPG (além do leitor) ao escrever em um cenário de RPG. Existem tramas que não são abordadas (ao menos não a fundo) nos romances, porque não desejamos resolvê-las com personagens não-jogadores. São tramas que pertencem aos jogadores, que serão resolvidas na mesa de cada um. O engraçado é que alguns jogadores de RPG viram os romances como verdadeiros manuais de jogo… Queriam descrições de locais e resoluções que só têm serventia mesmo na mesa de jogo, não para um leitor ‘comum’”.

Para quem acha que narrativas de RPG e literatura são a mesma coisa, ele dá a dica: “Fora esses aspectos, não foi muito diferente de desenvolver algo fora do RPG. É preciso ter os mesmos cuidados. Confiar apenas em agradar quem já é fã do cenário poderia levar a uma escrita preguiçosa (que, na verdade, provavelmente não agradaria aos fãs!). É preciso tratar o leitor que já conhece o RPG com a mesma importância de um leitor novo, apenas interessado em literatura de fantasia”.

Depois do sucesso do que foi batizado de Trilogia Tormenta (O Inimigo do Mundo, O Crânio e o Corvo e O Terceiro Deus), o autor se arriscou em uma nova empreitada, dessa vez em um universo criado inteiramente por ele, que começa com O Caçador de Apóstolos. Reparem que ele comenta algo similar ao tema de Fronteiras da Fantasia 5: que a história é mais importante do que  os efeitos especiais  e que as literaturas especulativa e realista podem aprender uma com a outra.

“O primeiro desafio foi construir o cenário em si. Como a história era, para mim, mais importante que o mundo em que ela se passa, não me concentrei no “worldbuilding” grandioso. O cenário de O caçador de apóstolos é o palco das novas histórias, mas não algo extremamente detalhado ou extenso. Também foi preciso ter um grande controle de qualidade, já que o livro novo não vem com o público “embutido” de Tormenta. A quantidade de opções também chega quase a assustar – agora, sem estar atrelado a uma marca e uma linha de produtos, qual público queremos atingir? O mesmo? Leitores mais velhos, mais novos, com mais bagagem cultural, sem conhecimento de fantasia…? Minha tentativa foi ampliar o interesse do romance para um leitor leigo, inserir elementos da literatura ‘mainstream’ que me agradam, sem alienar o público dos outros romances”.

“É possível fazer qualquer coisa. Decidir pode ser difícil. Se esse fosse meu primeiro romance, poderia haver uma tentativa de incluir elementos demais, numa grande “salada”, fruto da indecisão. Com um pouco mais de experiência, foi possível escolher os assuntos a serem abordados e as tramas a desenvolver com mais precisão”.


RPGCON, como foi

Sábado passado participei de uma palestra sobre o mercado de ficção especulativa no RPGCon e fiquei devendo algumas palavras. Antes de mais nada, deixo um obrigado ao Conselho Steampunk pelo convite. É sempre bom conhecer pessoalmente quem só converso por meios virtuais.

A mesa redonda conseguiu encher o miniauditório, alguns rostos antigos, a maioria gente nova, o que é sempre motivo de comemoração. Tentei pontuar com algum humor o bate-papo que rolou na companhia de José Roberto Vieira (Baronato de Shoah), Douglas MCT (Necrópolis), Cristina Lasaitis (Fábulas do Tempo e da Eternidade), Richard Diegues (Cyber Brasiliana) e Gian Celli (organizador da coletânea Steampunk e com um romance do mesmo gênero no forno). Foi a primeira vez que falei em público do meu novo livro, Neon Azul, que sai agora em agosto no Fantasticon, mas não tive muita oportunidade (o tempo era curto, a agenda do evento é movimentada) para falar sobre fantasia urbana.

Um dos momentos mais engraçados foi a constatação da platéia de que vivemos hoje em um mundo cyberpunk, cercado de aparelhos, implantes e tecnologia, a maioria de nós vivendo em metrópoles. Pensar que Orkut não deixa de ser cyberpunk foi desesperador, mas todos superamos o trauma. Um dos participantes levantou a observação de que caminhamos para uma utopia forçada, onde tudo é politicamente correto, todos são obrigados a ser felizes, os vampiros são românticos e camaradas, e por aí vai. A comparação com Demolition Man, filme com Silvester Stallone, foi muito boa. Para quem não lembra, ele trata de uma realidade onde a violência foi eliminada, as pessoas praticam sexo usando capacetes (sem contato físico) e as rádios só tocam antigos jingles, e não mais música de verdade.

Para fechar, conseguimos falar rapidinho sobre o New Weird e suas peculiaridades. Mas aí, o pessoal da próxima palestra já estava batendo na nossa porta e tivemos que sair.

Como tenho a alimentação super controlada e a mesa redonda caiu justo na hora do almoço (e estava difícil até de conseguir água por lá), acabei voltando para casa para almoçar e não assisti o restante das palestras – que teve nomes como Eduardo Spohr, Leonel Caldela e Raphael Draccon – nem a entrega do prêmio da gincana de A Tríade, que se espelhou no esquema dos ARGs e mobilizou cerca de 100 pessoas.

Por fim, muito bom conhecer o pessoal da Moonshadows, livraria que divulga bastante a fantasia como um todo e tem apoiado os títulos da Draco e de outras editoras. Merecia mais espaço do que disponibilizam, com certeza.

O Caçador de Apóstolos, de Leonel Caldela

Dia 8 de julho aqui em SP rola o lançamento de O Caçador de Apóstolos, do Leonel Caldela. Ele é conhecido pela “Trilogia Tormenta” que angariou fãs como Douglas MCT e José Roberto Vieira, meus recém-copidescados, e explora o cenário do RPG de mesmo nome. Tive a oportunidade de comprar o Caçador no RPGCON, mas acabei ficando sem autógrafo, o que espero resolver assim que possível. O Leonel é o tema do próximo Fronteiras da Fantasia aqui no site e estou agitando uma entrevista com ele para o Aguarrás. Estou no começo do livro ainda, curtindo bastante, então fica a dica.

 

São Paulo
Data: 8 de julho de 2010, a partir das 19h30.
Local: Livraria Cultura do Bourbon Shopping Pompeia (Rua Turiassú, 2100).

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