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Neon Azul, Resenhas I

Saíram as primeiras resenhas do Neon Azul.

“Mergulhamos nas páginas e nos deixamos levar pela prosa atraente do autor, costurando os acontecimentos que nem sempre oferecem uma resposta lógica, como os que envolvem Jéssica, deixando-nos em dúvida do que é realidade e do que é sonho. Interligando o destino de suas personagens, Eric Novello não tem misericórdia quando alguns encontram a morte inesperada na lâmina de uma faca de caça, ou nas balas de um revolver. Temos a certeza de que as consequências sempre são caóticas aos que se deixaram envolver pela luz azulada do neon da entrada” – Leia na íntegra na Toca do Jota.

“Tem Dita, Gabriela, Ricardo e mais muitos personagens. Você não fica sabendo a historinha completa de nenhum deles. É uma fatia de um bolo. É horizontal, não vertical. Sincrônico, em vez de diacrônico. É um pedaço de vidas que giram em torno da tal da boate. Incluindo o cachorro de rua. E o lixo. Tem mais no livro: tem um cara que atravessa o espelho até ver o assassino que ele mantém preso do outro lado. E tem bonequinho de infância, um sobrevivente de todas as maldades de que todas as infâncias estão cheias, cuja boca de linha parece capaz de engolir uma pessoa inteira. E mais lacanagens acessíveis a qualquer descrição realista de jornalista idem” – Leia na íntegra no Aguarrás.

Fantasticon 2010

Obrigado a todos que apareceram para a mesa-redonda de Fantasia no Fantasticon. Tinha prometido “diversão garantida ou seu dinheiro de volta” e, por enquanto, ninguém me pediu devolução. O fato de a palestra ser de graça pode ter contribuído para isso, mas, de qualquer forma, fica o gostinho de que ainda é possível se divertir e falar de literatura ao mesmo tempo. A ideia da mesa era mostrar que fantasia brasileira não tem selo do InMetro nem avaliação da Anvisa. Ela é o que nós, autores de literatura fantástica, produzirmos, tenha mitos brasileiros ou não. Somos produto do meio e é daí que vem a brasilidade. Me parece que com quatro autores bem diferentes reunidos e mais um tanto deles no auditório ficou bem claro que nossa literatura é mais do que plural, independente do gênero em debate.

Eu e Marafo deixamos um duplo obrigado para quem comprou o Neon Azul lá no evento ou na pré-venda. Algumas pessoas já estão comentando comigo, o retorno tem sido bem bacana. Acho que livro existe é para isso, para ser lido, mastigado e regurgitado de formas diferentes. Não sou do tipo que despreza o público, não curto masturbação intelectual nem escrevo para agradar meus heróis literários mortos há mil anos. Quero saber a opinião de vocês, não importa se boa ou ruim, não deixem de me escrever.

Os corajosos que escreverem de 10 linhas a uma página de word, lauda padrão, e me mandarem a resenha por e-mail ganham um Histórias da Noite Carioca de graça pelo correio.

O Histórias é um livro de humor, então, se você gostou da mesa-redonda, já sabe o que encontrará por lá.

Se você perdeu o lançamento no Fantasticon e quiser seu livro autografado, dia 4 rola evento steampunk no Shopping Bourbon. Participo da mesa para falar do meu conto O dia da besta, presente na coletânea VaporPunk também da editora Draco,  junto com o autor José Roberto Vieira e com Cândido e Karl, dois membros do Conselho Steampunk de São Paulo. Tenho certeza de que aprenderei muito durante o evento. Se você curte o gênero Steampunk ou está curioso para saber o que é, passe por lá.


A Tríade, um livro feito a oito mãos

O Fantasticon desse ano terá lançamentos para todos os gostos. Tive o prazer de ler antecipadamente um deles a pedido da editora Terracota. A Tríade, uma mistura de projeto ambicioso com brincadeira entre amigos,  reuniu quatro autores em torno de uma mesma história, marcando o retorno do vampiresco Kizzy Ysatis ao mundo da literatura. “O romance se passa em várias épocas. Um personagem misterioso narra, na Roma do século XVII, para o mestre pintor Nicolas Poussin, a saga da Tríade, que começa na grande guerra no Céu, entre Miguel e Lúcifer, dando origem à peça-chave do que logo se tornará um dos maiores quebra-cabeças que a humanidade  já conheceu. A narrativa segue no século XIV, quando os templários estão sendo caçados como hereges pelo rei Felipe, o Belo. E, em meio a essa caótica aventura, um vampiro despertará na Itália disposto a atacar membros da poderosa Igreja Católica. Quando A Tríade se reunir, o eixo será liberado, e o destino do mundo poderá estar nas mãos do anjo, do templário, do vampiro… ou daquele que o encontrar primeiro”.

Pedi a Claudio Brites um dos editores e autores, que falasse um pouco sobre o desafio de escrever com um grupo certamente de ideias fortes.

“São seis anos de trabalho e muita coisa já aconteceu, como todo casamento, em alguns momentos o amor não era suficiente por conta das contas para pagar. Mas com o tempo as coisas foram se ajustando e no final percebemos que A Tríade só foi possível, assim, como está, com a conexão dessas 4 mentes. É como quando os Guerreiros Japoneses se juntam para o ataque sentai que acabará com os monstros, como os Changemans, lembra? Se um não aparece, o ataque não tem a mesma força. A Tríade pederia muito se tivesse ido por outro caminho. No começo eramos 3 e foi quando o 4° integrante entrou que entedemos que era isso que faltava. Ao contrário de um projeto solo onde você, quando não aguenta mais escrever, deposita ele na gaveta, nós brincávamos de batata quente e quando alguém não conseguia ir mais no seu texto, passava para o outro, consultava o outro. E por isso ela nunca esfriava, nunca perdia o brilho. Claro, se transformava mais do que o normal, exigia do grupo um grande exercício de humildade, tolerância e amizade. E acho que por isso demorou todo esse tempo, não era só o livro que tinha que ficar pronto para sair e sim nós, autores, tínhamos que chegar num certo patamar de evolução para que o livro pudesse ter sua vida. Maturidade, acredit. Hoje, depois do projeto concluído, sei que três elementos ganharam força em mim e não poderia ter ganho se eu tentasse escrever esse livro só, esses sãos os elementos que qualquer (pretenso) artista da palavra precisa dominar para sair do assoalho do medíocre e começar a erguer algo consistente: tem que saber escrever (bem óbvio), imaginar (insiro aqui delirar, enlouquecer) e amar. Amor pelo projeto, pelos personagens. Um certo delírio apaixonado que ninguém consegue explicar. Um certo amor cafajeste, que está disposto a compartilhar o ser amado com outras pessoas. E mesmo depois de todo esse tempo sei que nunca terei uma escrita que se ache pronta, ao contrário, sempre será a escrita que ainda sabe que está no meio do caminho, antes do meio. Nem uma imaginação que se baste, nem que se ache infalível, não, será sempre aquele tipo de imaginação que se entrega ao delírio das coisas não ditas, mas ciente de que são só delírios e para se transformarem em alguma coisa (um conto, por exemplo) precisa-se de muito trabalho. E, principalmente, não adianta sentir um amor que só se entrega às coisas perfeitas, ao contrário, precisamos de um amor que sempre está ciente das qualidades e defeitos do ser/coisa amados. Eu ganhei muito com isso, com essa troca, mas o livro mais ainda, ele tem um pouco do nosso melhor e dos nossos vícios”.

Brites fala também sobre o duelo imaginário entre literatura de entretenimento e alta literatura e como isso se aplica ao livro:

“Bem, eu não sou muito bom para falar de literaturas, me perco um pouco nas infinidades de prateleiras. Eu entendo, ou ao menos tento, de Literatura. É atrás dela que eu corro. Para mim um livro é ou não literário. Às vezes, acontece de não ser literário, mas contar uma boa história e para mim, claro, tem seu valor. É como um filme pipoca, que vamos por conta dos efeitos especiais. Eu gosto desse tipo de filme, de livro, e invejo MUITO quem consegue escrever esse tipo de narrativa. No caso de A Tríade tentamos casar uma boa história com o efeito literário que envolve a preocupação com a palavra, com o texto e seus múltiplos significados. Nossos personagens tinham que ter humanidade, irem além de seus arquétipos iniciais. Só os leitores e a crítica poderão dizer se conseguimos. Sobre a união desses gêneros (anjos, templários, vampiros), na verdade, acredito, já vem na literatura do Kizzy há algum tempo, os vampiros dele descendem dos anjos e as Sibilas Rubras sempre se envolveram com figuras e questões políticas durante a história, o que inclui os templários. Escolhemos esses personagens porque gostamos deles, é o tipo de literatura que nos toca e acredito piamente que um escritor tem que escrever um livro que gostaria de ler. Carlos sempre estudou Teologia, foi pastor durante muito tempo. Kizzy e os vampiros, acho que nem preciso dizer. Cariello é um estudioso de história da arte e Poussin é uma de suas paixões e eu sempre cavoquei, por conta do RPG e tudo mais, coisas sobre templários e Idade Média. Um enriqueceu a visão do outro sobre seus assuntos favoritos, deu sua própria visão e então partimos para o trabalho, para maturidade, já que só curtir o que está escrevendo não basta. Queríamos agradar, respeitrar, os fãs desses gêneros, sim, mas também qualquer leitor em busca de um bom livro, de uma boa história e de boa Literatura”.

A Tríade reúne o doutor em língua portuguesa Carlos Andrade; o organizador, editor e escritor Claudio Brites; o ficcionista e ilustrador Octávio Cariello, e o autor de literatura fantástica Kizzy Ysatis.

Fantasia Urbana: Ser ou não ser? Opção A.

Decidi aproveitar o lançamento do Neon Azul e o fato de o termo “Fantasia Urbana” já estar soando mais redondo na boca da galera para recuperar esse post antigo, escrito na época em que comecei a rascunhar o livro Magos Urbanos (um ano mais ou menos) e mandei o arquivo-teste para meus beta-readers. A fantasia urbana abriga hoje muita gente, mais do que minhas prateleiras seriam capazes de comportar, mas já tenho uma bagagem legal para conversar sobre alguns pontos em comum.

Então, centrando nas opções: quando você escreve um livro de fantasia urbana, a primeira grande decisão é: o cidadão comum saberá da existência da magia ou ela será revelada apenas aos iniciados? Em outras palavras: a população sabe da existência de magos, vampiros, bruxas, metamorfos, demônios, ponha sua criatura fantástica aqui? As duas opções têm vantagens práticas, o importante é ver o que cabe melhor na sua história.

Se as pessoas comuns não sabem que a magia existe, você ganha logo de cara um componente de mistério e humor. Aqueles acontecimentos mais absurdos rolando e os envolvidos tendo que inventar mil desculpas para ninguém perceber nada. Se o seu protagonista é uma criatura sobrenatural, ele terá que camuflar suas ações de alguma forma, para não despertar a suspeita da polícia ou governo, ou de vizinhos e amigos, dependendo da dimensão que você quiser dar à história.

É uma paranóia quase OVNI que um bom escritor conseguirá aproveitar. Em um livro do Jim Butcher, um mago e uma espécie de paladino entram em um hospital para matar um fantasma que estava se alimentando de bebês. Para os enfermeiros, os bebês só pareciam adormecidos, num dia mais calmo. Mas os dois ‘heróis’ conseguiam ver o fantasma puxando a energia vital de suas vítimas. Agora, imagine um cara de sobretudo de couro e cajado e outro com uma capa branca e espada entrando em um hospital comum. Só nesse choque você já ganha uma piada. A outra vantagem direta é mesmo a polícia. Você não deixa dois palhaços fantasiados entrarem num hospital sem fazer nada. Quando a polícia chegar não verá fantasma. E aí, como fica? Os dois na cadeia tentando se safar, com aquele velho dilema de ‘ajudo os outros e ainda me ferro’. Ter que fazer seus truques sem que os outros percebam é o grande charme.

Interessante? Sim, mas não foi a opção que eu escolhi! rs No próximo post comento a opção B.

Vale sempre lembrar que Fantasia Urbana é um rótulo de mercado, um gênero com carimbo para orientar os leitores. Em algum momento, os editores começaram a juntar vários autores embaixo desse amplo guarda-chuva que abriga pessoas muito diferentes. É importante conhecer quem está fazendo o quê lá fora sem se deixar limitar por definições de gênero. Tenha um norte, mas deixe a imaginação definir seu caminho.

True Blood e a Quimera

Assim que terminei o Histórias da Noite Carioca, comecei a rascunhar um livro que usava elementos de fantasia na cidade. Como estava muito fácil escrever o texto, considerei que deveria haver algo de errado e engavetei o projeto. Tenho para mim que sem um desafio um livro não faz sentido, por isso suspeitei.

Na primeira cena, um cara com reflexos felinos seguia um espírito pelas ruas, rumo ao cemitério. No meio do caminho, havia uma perseguição policial. A Nova Polícia tinha equipamentos high-tech, motos que quase levitavam, e estourava o carro dos assaltantes no bairro de Botafogo no Rio de Janeiro. Meu protagonista desviava daqui e dali, trocava uma ideia com os policiais e saltava o muro do cemitério, onde era acompanhado por uma legião de espíritos até um mago que controlava os ditos. Daí se seguia uma longa investigação, com magos sendo assassinados e meu detetive felino colhendo pistas, aproveitando sua capacidade de ver o mundo dos mortos para falar com testemunhas que ninguém mais enxergava. Essa história que sobreviveu 25 páginas foi batizada de Quimera, com um subtítulo brega que não conto nem sob tortura.

Criei a Quimera por um motivo simples: eu adorava os elementos de fantasia, mas não curtia cenários fantásticos como os criados por Tolkien e inspirados nele. Queria que a ação acontecesse aqui, com dilemas de uma grande metrópole. Eu andava de ônibus de casa para o colégio e via o exército nas ruas, na boca das favelas, vi um tanque estacionado em uma pracinha do metrô, a violência avisando pela primeira vez que sairia do controle no Rio de Janeiro. Viver aquilo day by day me deu a certeza de que eu tinha na cidade o cenário perfeito para uma aventura de literatura especulativa. Ao menos válido para o fã de literatura policial que sempre fui.

Eu só tinha um problema: não sabia o que fazer com aquilo, então lá fui eu encarar outros projetos, incluindo uma versão de Alice no País das Maravilhas, lida por poucos, e o Neon Azul, que será lançado agora no fim de agosto, a pedra fundamental.

Anos se passaram, me mudei para São Paulo, vizinho de uma Livraria Cultura repleta de livros estrangeiros em seus idiomas originais. Resolvi tomar vergonha na cara e me atualizar com o que estava rolando lá fora. Numa primeira olhada encontrei o White Knight do Jim Butcher e Dead Until Dark da Charlaine Harris. Jim Butcher foi um vício imediato. Charlaine Harris só fui ler quando descobri que o seriado já estava sendo filmado. Nas primeiras cem páginas, detestei. Tinha certeza de que estava perdendo meu tempo, mas, como nunca fui de largar livro pela metade, insisti. Resultado? Li os 8 livros já lançados seguidos em um mês. Vício total. Logo em seguida, True Blood virou um fenômeno televisivo, fugindo do bom-mocismo e encarando sexo, preconceitos e violência com maestria. Se o roteiro de vez em quando engole as tramas do livro e as digere de forma simplista, direção, fotografia e atuações dão sempre um show.

O fato é que Butcher e Harris me apresentaram um gênero que eu não conhecia, ou achava não conhecer: a fantasia urbana, guarda-chuva que hoje abriga dezenas de autores de estilos diversos. Descrobrir essa galera usando a cidade como palco de tramas fantásticas me fez lembrar do quanto eu gostava da Quimera. Fui lá e recuperei o arquivo. Relendo, tive certeza de que o texto era fraco. Eu precisava de mais, o leitor merecia mais, então parti para um novo esboço, uma nova criação mais densa, mais complexa, que englobasse essas páginas, englobasse minha versão de Alice e um monte de ideias novas que fervilhavam em minha mente.

Retomei o projeto de unir ambientes realistas com tramas fantásticas e tenho 30 páginas de um livro e 70 de outro, ambos em andamento. O papel de True Blood nisso tudo, e de muitos autores que conheci desde que encontrei o mago branco, foi me mostrar que era possível trabalhar temas adultos com maestria em um ambiente especulativo, sem que para isso eu precisasse perder a conexão com o público mais jovem. Sem essa sopa de referências que venho lendo e relendo, não teria achado o tom certo para os livros da série Magos Urbanos, que começa ano que vem, com os dois projetos engatilhados.

Enquanto eles não chegam, Neon Azul serve como uma porta para esse universo onde o fantástico convive lado a lado com a realidade. Ele é a pedra fundamental, meu primeiro ponto de união desses dois ambientes a alcançar o efeito desejado.

A partir de agora, vou falar mais um pouco sobre o meu universo chamado Quimera por aqui, e consequentemente sobre Fantasia Urbana.  Todos os posts terão a tag “quimera”, para facilitar a vida de quem quiser acompanhar. No próximo, você fica sabendo o que o Neon Azul tem a ver com essa história afinal.

Bienal, impressões

Segue a correria em terras glacias. Passei pela Bienal no sábado para acompanhar a Nazarethe. Muito bom ver o estande da Giz Editora lotado, com as vampiras conversando com uma legião de fãs. A parte ruim foi constatar que a grande sensação do dia foi o lançamento do Padre Marcelo Rossi. Sinceramente não entendo quem se dá ao trabalho de se enfiar no meio de uma multidão para conseguir uma foto do cara. Nem dele, nem de ninguém. Pior que isso só ver desfile de político, como se incentivassem muito a cultura no país. Sabe aquela foto que sai com um monte de cabeça e sem foco. Pois é. Não faz sentido. Ainda mais na bienal. Será que ele deixa tirar fotos nas missas-show? Lá seria um bom lugar para essa galera procurá-lo. Ou celebridade é celebridade e isso que importa?

Outro ponto alto foi o lançamento do Raphael Draccon no estande da Leya. Lotado. O cara estava de olhos brilhando, visivelmente feliz colhendo o resultado do trabalho dele. A equipe da Leya no estande também pareceu bem contente, se bobear surpresos com a quantidade de gente que apareceu por lá. Aproveitei para comprar os três livros da série Dragões de Éter. Só não peguei autógrafo porque a fila era longa, então roubei um abraço e me mandei. Espero fazer em breve um post sobre ele para meu site em inglês.

Foi bacana ver também a atuação dos blogs literários, as verdadeiras estrelas dessa Bienal. Quem ainda acha que mídia social é modinha, devia acordar de vez. Para quem não sabe, tem uma galera jovem se reunindo e montando blos dedicados à literatura. Verdade que tem gente que monta blog literário só para ganhar livro de graça e inventar resenha (isso queima o filme bonito, hein pessoal? Vamos pensar direitinho antes de fazer), mas também tem gente séria se destacando com um trabalho de qualidade, como é o caso do Sobre Livros. Esbarrei com o pessoal no lançamento do Raphael, por isso cito eles aqui, mas existe mais gente bacana ajudando em divulgação, escrevendo resenhas (bora desenvolver mais esse texto, hum?), fazendo entrevistas… e lendo, que é o principal. É algo a se comemorar.

Entrevista com Leonel Caldela

01. Quem está chegando agora talvez não saiba que você já é autor de três livros de mais de 500 páginas, com um número considerável de fãs. Qual foi a importância da Trilogia Tormenta na sua formação como autor?

Como foi o meu início, é claro que foi um aprendizado. A Trilogia foi um espaço para experimentar várias coisas, ver o que dava certo ou não. Mas isso vale para qualquer início, eu acho.

Mais especificamente, a importância da Trilogia para mim foi dupla. Por um lado, escrever em um universo já pronto permitiu que eu me concentrasse nos personagens e tramas, usando os elementos pré-construídos do cenário como base. Uma obra de fantasia (ou qualquer uma passada em um mundo secundário) pode sobrecarregar um autor de primeira viagem, pois teoricamente não há limite para o que você pode criar. Será que vale a pena detalhar todas as espécies de margaridas do mundo? Até que ponto no passado vai a história pregressa que você vai criar? Isso pode paralisar o autor, deixá-lo preso em detalhes que, embora úteis como background, nunca aparecerão na obra. Usar o mundo de Arton (do RPG Tormenta) liberou-me disso tudo. Outro ponto positivo foi a obrigação de trabalhar com editores e com os criadores do cenário. Todo escritor precisa de um editor, mas sempre ficamos tentados a ignorar qualquer um que discorde da nossa visão da obra. Lidando com os donos do cenário, essa não era uma opção! Eu tive liberdade quase ilimitada para mexer em Arton, alterar o mundo e até mesmo explicar pontos fundamentais de seu passado, mas sempre submetendo esses elementos à aprovação dos editores. Hoje em dia, é fácil encarar com naturalidade essa relação de trabalho.

O segundo (ou terceiro?) ponto de importância da Trilogia foi algo bem mais materialista: o público já embutido. Costumo dizer que, embora o principal para qualquer autor seja escrever bem, só escrever bem não costuma ser suficiente no Brasil (infelizmente). Você pode publicar uma obra fenomenal e ser ignorado pelo público. Em geral, é preciso algo a mais — você consegue divulgação em algum grande meio de comunicação, funda sua própria editora, ganha algum edital do governo, etc., e só então consegue alguma projeção e sucesso (inclusive financeiro). Para mim, esse “algo a mais” veio com o público de Tormenta. As pessoas leram a Trilogia, num primeiro momento, motivadas pelo cenário. Foi apenas a partir do segundo e (principalmente) terceiro livros que começou a se formar um público próprio dos romances, não necessariamente fãs de RPG.

02. Quando você terminou o terceiro livro, já tinha em mente qual seria a próxima história ou precisou de um tempo para maturar a idéia? Em outras palavras, como nasceu O Caçador de Apóstolos?

Na verdade, a idéia básica de O caçador de apóstolos já tem uns cinco ou seis anos. Era uma história que eu queria contar logo depois de O inimigo do mundo (meu primeiro romance), mas achei melhor esperar, por diversas razões (essencialmente, achei que ainda não estava pronto para escrever este livro naquela época).
Então sim, O caçador já estava em mente. Mas precisei de umas “férias” depois da Trilogia. O terceiro livro foi exaustivo. Fiquei quase um ano trabalhando em outras coisas (traduções, revisões, a revista DragonSlayer) para só então mergulhar em mais um livro.

Sendo mais específico, O caçador surgiu a partir de uma idéia para uma cena, que eu tive enquanto lia uma história em quadrinhos. Comecei a pensar nas razões para aquela cena acontecer, no ambiente ao redor, nos personagens… Quando notei, a base para um romance estava lá. O curioso é que, no final, esta cena não entrou no livro! Era absolutamente supérflua.

03. Lendo O Caçador fica evidente uma pegada mais mainstream no jeito de contar os fatos, apesar de ser uma fantasia. Você acha que falta certo refinamento literário aos livros de literatura de gênero em geral?

Posso parecer antipático ou arrogante, mas a resposta é sim. Na minha opinião, muitas vezes falta refinamento técnico nas obras de gênero — mas o mesmo vale para obras mainstream, com bastante freqüência.

O que eu vejo (posso estar enganado e, se estiver, peço desculpas) é que muitas vezes os autores de gênero vêm de uma formação sem muito a ver com literatura, e nunca se preocupam com aprender as bases do ofício. É muito fácil pensar que a obra vai se sustentar apenas pelo cenário, pela imaginação dos elementos fantásticos e pelo enredo (quase sempre épico). Então, os autores acabam concentrando-se só nisso e negligenciando o aspecto técnico, o ato de escrever em si. Parece que também existe uma espécie de “rebeldia”, como se a literatura mainstream fosse maçante e árida, e a fantasia (e literatura de gênero em geral) fosse o oásis de diversão e imaginação. Assim, as técnicas consagradas e o estudo formal são rejeitados, como pertencendo ao mundo mainstream.

No entanto, o que acontece é que a própria diversão do leitor, a fruição literária, é prejudicada. O autor quer criar batalhas épicas, mas não estuda técnicas para escrever ação. Quer momentos de emoção e sacrifício, mas não aprende a desenvolver diálogos. O texto torna-se cansativo, justamente porque a técnica literária é ignorada.

Acho que os escritores de gênero deveriam começar simplesmente escrevendo, sem prender-se à sua temática favorita. Começar pelo básico: primeiro narrar uma cena entre um casal absolutamente normal dentro de um apartamento para só mais tarde escrever sobre a maldição que separa dois amantes imortais num castelo em outra dimensão.

Felizmente, existem vários autores de gênero (tanto brasileiros quanto estrangeiros) que estão contradizendo esta tendência. Parece que está surgindo uma nova geração de escritores que se preocupa muito com a técnica. Os leitores agradecem!

04. Em várias passagens você mostra como é complicado manter firme sua opinião como indivíduo diante da opinião de um grupo, das massas. Por que utilizar a religião para destacar esse confronto?

Porque, ao meu ver, pouquíssimas coisas transformam as pessoas em “massa” tanto quanto a religião. É claro, poderia ser política ou até esporte — mas ambos são elementos que não se enquadram tão bem no ambiente medieval.

Além disso, a religião provavelmente é uma das bases mais importantes de qualquer sociedade. É difícil ignorar esse aspecto, principalmente em um contexto semelhante à Idade Média.

Também porque os leitores, de uma forma ou de outra, vão ter alguma relação com a religião, vão reagir à maneira como o assunto é tratado no livro. Pessoas bastante religiosas podem ver a Igreja corrupta e manipuladora do livro como um reflexo sombrio da religião do mundo real, ou de seu passado. Quem não é religioso (ou questiona a religião formalizada) pode ver simplesmente um análogo das instituições do mundo real. De qualquer forma, é quase impossível estar à parte do assunto, hoje em dia ou em qualquer época. No livro, personagens devotos, hereges e ateus são todos questionados em suas crenças e confrontados com incongruências em sua forma de pensar. Eu gostaria que a obra tivesse o mesmo efeito sobre os leitores, sejam quais forem suas convicções.

05. Você acabou de sair de uma mini-turnê de lançamento. Qual o papel desse tipo de evento? Ele ajuda a promover as vendas ou é um momento de relaxar e curtir a presença dos fãs?

Os lançamentos sempre ajudam a promover o livro. Seja porque são anunciados na imprensa local, seja porque o próprio público começa a prestar atenção. Não sei se há um impacto muito significativo nas vendas a curto prazo, mas com certeza é um meio de fazer as pessoas notarem a existência do livro. O mesmo também vale para as próprias livrarias: se um cliente entra perguntando por “um livro medieval”, pode ser que um atendente que tenha visto o lançamento de O caçador de apóstolos lembre-se e recomende.
Mas não vou negar que boa parte (talvez a maior parte) da função do lançamento seja mesmo encontrar os leitores, agradecer pelo interesse e apoio deles.

06. Considerando todo o processo de criação da Trilogia Tormenta, acredito que você já tenha um planejamento para a nova saga iniciada pelo Caçador. Pode adiantar o que vem pela frente?

O caçador de apóstolos terá uma continuação: Deus Máquina, que encerra a história, deve ser publicado em 2011. Também tenho planos para mais uma história (em um ou dois romances) passada no mesmo mundo, mas com outros personagens e em uma época totalmente diferente. Quem já leu O caçador talvez já possa adivinhar o que significa “uma época totalmente diferente” no contexto do cenário…

Além disso, tenho planos para outros romances, fora da ficção de gênero — um romance histórico e um de ficção urbana contemporânea (ou seja, mainstream). Ainda não sei qual será a ordem, ou quando vou começar nesses dois. O romance de ficção histórica vai exigir muita pesquisa, e eu ainda não sei como organizar isso…
De qualquer forma, enquanto houver pessoas dispostas a ler, vou continuar a escrever! É um vício!

Nazarethe Fonseca em terras glaciais

Nazarethe Fonseca já está aqui em casa passando frio junto comigo. Se a previsão se confirmar, pegará seu primeiro inverno de 7 graus. Para aquecer essa vampira congelada, muitas atividades literárias. Ela passa amanhã pela Bienal de São Paulo no estande da Giz Editorial junto com Giulia Moon e Martha Argel e participa do Fantasticon no final do mês.

Enquanto a Naza pipoca para lá e para cá, sigo eu trabalhando na divulgação do Neon Azul.  Se além de replicar o release e a capa em seu blog literário, você quiser também um trecho do Neon Azul, é só me pedir um inédito ou pegar os já publicados na página do livro. Estou preparando também um sorteio relacionado ao Neon, ainda não sei como vai ser, mas o brinde é bem peculiar… quem acompanhou os papos no twitter já sabe o que é. Quem não acompanhou, fica no suspense.

Anno Dracula, de Kim Newman

Anno Dracula foi publicado em 1992 e chegou ao Brasil em 2009 pelas mãos da Aleph, talvez motivada pela atual onda de vampiros crepusculares que agitou o mercado. Ironicamente, o livro tem uma pegada mais adulta e sombria, e tenderá a agradar mais a fãs de autores como Neil Gaiman ou Joe Hill do que fãs de Stephenie Meyer. Peguei o livro buscando uma literatura de entretenimento mais simples e me surpreendi com a densidade do texto. Demorei a entrar no clima e organizar as informações, mas vencidas as primeiras páginas, me diverti com o universo louco de Kim Newman, que consegue com sucesso criar uma versão decadente da era vitoriana, tomada por essa praga chamada vampirismo.

Fã assumido de obras vampirescas, Kim Newman desenvolve uma linha alternativa da história contada por Bram Stoker. Drácula não só venceu Van Helsing como desposou a Rainha Vitória e se tornou o Príncipe Consorte, com grande influência no jogo político inglês. Drácula mantém a conhecida crueldade, empalando inimigos e perseguindo qualquer um que atrapalhe suas ambições de se manter no poder. Newman manteve a complexidade das teias de influência do mundo real e desenvolveu diversos grupos ligados à Rainha, ao Príncipe e ao submundo, cada qual com seu interesse, que vão se alternando durante o livro para mostrar a fragilidade do sistema imposto por Drácula.

A história deixa de lado qualquer resquício de glamour vampiresco. Há amores, ciúmes e conspirações, mas de um jeito peculiar que reforça o aspecto de condenação e não o de dádiva daqueles que se transformam. Com o vampirismo assumido e disseminado, há vampiros mendigando, se prostituindo, e a imortalidade não vale mais do que um par de centavos, literalmente. Mães não prostituem mais o sexo das filhas, mas seus pescoços. O sangue impuro de Drácula se espalhou sem controle e gerou crias doentes que não conseguem se transformar em animais e acabam com os corpos disformes em um meio termo à espera da morte. Transformar-se em vampiro é mais uma via de ascensão burocrática do que um flerte com a eternidade.

O fio condutor da trama é um falso mistério. Um assassino conhecido como Faca de Prata está matando prostitutas vampiras. Pela sopa de referências proposta no livro, fica claro que o sujeito é Jack, o Estripador. Assumindo que as consequências das mortes são muito mais importantes para a trama do que a identidade do assassino, Kim Newman faz a revelação logo na primeira linha. A graça é ver todo mundo girar ao redor do respeitável psicopata sem saber quem ele é. De fato, mais do que parar as mortes, os homens no poder querem que a prisão de Jack tenha um propósito, o que alimenta a rede de segundas e terceiras intenções que permeia os capítulos. Kim Newman parece querer dizer que é impossível saber tudo sobre alguém, mesmo um alguém que viva todo dia ao seu lado, tenha ele séculos de existência ou trinta anos de idade.

Embora Anno Dracula seja uma história fechada, de início, meio e fim dentro de sua proposta, ele possui duas continuações ainda não publicadas no Brasil: The Bloody Red Baron (passado na Primeira Guerra Mundial) e Dracula Cha Cha Cha.

Em Anno Dracula você encontrará os personagens do clássico de Bram Stoker, Lorde Ruthven, Jack, Dr. Moreau, Dr. Jeckyll, Rainha Vitória, Oscar Wilde, Florence Stoker (esposa de Bram Stoker), entre dezenas de outras referências e participações especiais.

Como chegar no Fantasticon

Para quem perguntou, com razão, onde acontece o Fantasticon, copio aqui o endereço. Se você é fã de literatura, não deixe de ir pelo menos em um dos dias para conhecer o pessoal que faz acontecer no mundo da literatura de fantasia, ficção-científica e de terror.

ENDEREÇO DO FANTASTICON 2010

BIBLIOTECA PÚBLICA VIRIATO CORRÊA

Rua Sena Madureira, 298 – Vila Mariana – 04021-050 São Paulo – SP

Tel.: 11 5573-4017      e 11 5574-0389 ENTRADA FRANCA

1) Não é necessário se inscrever antecipadamente. As senhas, para todas as atividades, serão distribuídas com 1h de antecedência,
obedecendo à capacidade de lotação: 101 lugares na Sala Luiz Sérgio Person e 40 lugares no Espaço Temático de Literatura Fantástica.

2) As Oficinas serão ministradas no Espaço Temático.

As vagas são limitadas.

3) A exposição estará no andar térreo da Biblioteca durante todo o evento.

COMO CHEGAR DE METRÔ NA BIBLIOTECA VIRIATO CORREA:

é só tomar o Metrô (Linha Azul) no sentido Jabaquara, e descer na estação Vila Mariana, na saída ao lado do colégio Madre Cabrini. Seguindo-se a rua Madre Cabrini por dois quarteirões, chega-se à Av. Sena Madureira, bem no quarteirão da Biblioteca.

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