01. Quem está chegando agora talvez não saiba que você já é autor de três livros de mais de 500 páginas, com um número considerável de fãs. Qual foi a importância da Trilogia Tormenta na sua formação como autor?
Como foi o meu início, é claro que foi um aprendizado. A Trilogia foi um espaço para experimentar várias coisas, ver o que dava certo ou não. Mas isso vale para qualquer início, eu acho.
Mais especificamente, a importância da Trilogia para mim foi dupla. Por um lado, escrever em um universo já pronto permitiu que eu me concentrasse nos personagens e tramas, usando os elementos pré-construídos do cenário como base. Uma obra de fantasia (ou qualquer uma passada em um mundo secundário) pode sobrecarregar um autor de primeira viagem, pois teoricamente não há limite para o que você pode criar. Será que vale a pena detalhar todas as espécies de margaridas do mundo? Até que ponto no passado vai a história pregressa que você vai criar? Isso pode paralisar o autor, deixá-lo preso em detalhes que, embora úteis como background, nunca aparecerão na obra. Usar o mundo de Arton (do RPG Tormenta) liberou-me disso tudo. Outro ponto positivo foi a obrigação de trabalhar com editores e com os criadores do cenário. Todo escritor precisa de um editor, mas sempre ficamos tentados a ignorar qualquer um que discorde da nossa visão da obra. Lidando com os donos do cenário, essa não era uma opção! Eu tive liberdade quase ilimitada para mexer em Arton, alterar o mundo e até mesmo explicar pontos fundamentais de seu passado, mas sempre submetendo esses elementos à aprovação dos editores. Hoje em dia, é fácil encarar com naturalidade essa relação de trabalho.
O segundo (ou terceiro?) ponto de importância da Trilogia foi algo bem mais materialista: o público já embutido. Costumo dizer que, embora o principal para qualquer autor seja escrever bem, só escrever bem não costuma ser suficiente no Brasil (infelizmente). Você pode publicar uma obra fenomenal e ser ignorado pelo público. Em geral, é preciso algo a mais — você consegue divulgação em algum grande meio de comunicação, funda sua própria editora, ganha algum edital do governo, etc., e só então consegue alguma projeção e sucesso (inclusive financeiro). Para mim, esse “algo a mais” veio com o público de Tormenta. As pessoas leram a Trilogia, num primeiro momento, motivadas pelo cenário. Foi apenas a partir do segundo e (principalmente) terceiro livros que começou a se formar um público próprio dos romances, não necessariamente fãs de RPG.
02. Quando você terminou o terceiro livro, já tinha em mente qual seria a próxima história ou precisou de um tempo para maturar a idéia? Em outras palavras, como nasceu O Caçador de Apóstolos?
Na verdade, a idéia básica de O caçador de apóstolos já tem uns cinco ou seis anos. Era uma história que eu queria contar logo depois de O inimigo do mundo (meu primeiro romance), mas achei melhor esperar, por diversas razões (essencialmente, achei que ainda não estava pronto para escrever este livro naquela época).
Então sim, O caçador já estava em mente. Mas precisei de umas “férias” depois da Trilogia. O terceiro livro foi exaustivo. Fiquei quase um ano trabalhando em outras coisas (traduções, revisões, a revista DragonSlayer) para só então mergulhar em mais um livro.
Sendo mais específico, O caçador surgiu a partir de uma idéia para uma cena, que eu tive enquanto lia uma história em quadrinhos. Comecei a pensar nas razões para aquela cena acontecer, no ambiente ao redor, nos personagens… Quando notei, a base para um romance estava lá. O curioso é que, no final, esta cena não entrou no livro! Era absolutamente supérflua.
03. Lendo O Caçador fica evidente uma pegada mais mainstream no jeito de contar os fatos, apesar de ser uma fantasia. Você acha que falta certo refinamento literário aos livros de literatura de gênero em geral?
Posso parecer antipático ou arrogante, mas a resposta é sim. Na minha opinião, muitas vezes falta refinamento técnico nas obras de gênero — mas o mesmo vale para obras mainstream, com bastante freqüência.
O que eu vejo (posso estar enganado e, se estiver, peço desculpas) é que muitas vezes os autores de gênero vêm de uma formação sem muito a ver com literatura, e nunca se preocupam com aprender as bases do ofício. É muito fácil pensar que a obra vai se sustentar apenas pelo cenário, pela imaginação dos elementos fantásticos e pelo enredo (quase sempre épico). Então, os autores acabam concentrando-se só nisso e negligenciando o aspecto técnico, o ato de escrever em si. Parece que também existe uma espécie de “rebeldia”, como se a literatura mainstream fosse maçante e árida, e a fantasia (e literatura de gênero em geral) fosse o oásis de diversão e imaginação. Assim, as técnicas consagradas e o estudo formal são rejeitados, como pertencendo ao mundo mainstream.
No entanto, o que acontece é que a própria diversão do leitor, a fruição literária, é prejudicada. O autor quer criar batalhas épicas, mas não estuda técnicas para escrever ação. Quer momentos de emoção e sacrifício, mas não aprende a desenvolver diálogos. O texto torna-se cansativo, justamente porque a técnica literária é ignorada.
Acho que os escritores de gênero deveriam começar simplesmente escrevendo, sem prender-se à sua temática favorita. Começar pelo básico: primeiro narrar uma cena entre um casal absolutamente normal dentro de um apartamento para só mais tarde escrever sobre a maldição que separa dois amantes imortais num castelo em outra dimensão.
Felizmente, existem vários autores de gênero (tanto brasileiros quanto estrangeiros) que estão contradizendo esta tendência. Parece que está surgindo uma nova geração de escritores que se preocupa muito com a técnica. Os leitores agradecem!
04. Em várias passagens você mostra como é complicado manter firme sua opinião como indivíduo diante da opinião de um grupo, das massas. Por que utilizar a religião para destacar esse confronto?
Porque, ao meu ver, pouquíssimas coisas transformam as pessoas em “massa” tanto quanto a religião. É claro, poderia ser política ou até esporte — mas ambos são elementos que não se enquadram tão bem no ambiente medieval.
Além disso, a religião provavelmente é uma das bases mais importantes de qualquer sociedade. É difícil ignorar esse aspecto, principalmente em um contexto semelhante à Idade Média.
Também porque os leitores, de uma forma ou de outra, vão ter alguma relação com a religião, vão reagir à maneira como o assunto é tratado no livro. Pessoas bastante religiosas podem ver a Igreja corrupta e manipuladora do livro como um reflexo sombrio da religião do mundo real, ou de seu passado. Quem não é religioso (ou questiona a religião formalizada) pode ver simplesmente um análogo das instituições do mundo real. De qualquer forma, é quase impossível estar à parte do assunto, hoje em dia ou em qualquer época. No livro, personagens devotos, hereges e ateus são todos questionados em suas crenças e confrontados com incongruências em sua forma de pensar. Eu gostaria que a obra tivesse o mesmo efeito sobre os leitores, sejam quais forem suas convicções.
05. Você acabou de sair de uma mini-turnê de lançamento. Qual o papel desse tipo de evento? Ele ajuda a promover as vendas ou é um momento de relaxar e curtir a presença dos fãs?
Os lançamentos sempre ajudam a promover o livro. Seja porque são anunciados na imprensa local, seja porque o próprio público começa a prestar atenção. Não sei se há um impacto muito significativo nas vendas a curto prazo, mas com certeza é um meio de fazer as pessoas notarem a existência do livro. O mesmo também vale para as próprias livrarias: se um cliente entra perguntando por “um livro medieval”, pode ser que um atendente que tenha visto o lançamento de O caçador de apóstolos lembre-se e recomende.
Mas não vou negar que boa parte (talvez a maior parte) da função do lançamento seja mesmo encontrar os leitores, agradecer pelo interesse e apoio deles.
06. Considerando todo o processo de criação da Trilogia Tormenta, acredito que você já tenha um planejamento para a nova saga iniciada pelo Caçador. Pode adiantar o que vem pela frente?
O caçador de apóstolos terá uma continuação: Deus Máquina, que encerra a história, deve ser publicado em 2011. Também tenho planos para mais uma história (em um ou dois romances) passada no mesmo mundo, mas com outros personagens e em uma época totalmente diferente. Quem já leu O caçador talvez já possa adivinhar o que significa “uma época totalmente diferente” no contexto do cenário…
Além disso, tenho planos para outros romances, fora da ficção de gênero — um romance histórico e um de ficção urbana contemporânea (ou seja, mainstream). Ainda não sei qual será a ordem, ou quando vou começar nesses dois. O romance de ficção histórica vai exigir muita pesquisa, e eu ainda não sei como organizar isso…
De qualquer forma, enquanto houver pessoas dispostas a ler, vou continuar a escrever! É um vício!