01. Nuts do it better

Estive sumido, eu confesso, mas tenho uma boa justificativa. Estava envolvido em um novo relacionamento e acabei preso por acidente no hospício. Os médicos não se convenciam de jeito nenhum que eu só estava ali para visitar uma paciente. E pior que ela nem ficou maluca por minha causa, quando conheci já estava assim. A criatura era tão esquizofrênica que sozinha já dava um ménage. Eu só sabia com quem estava falando quando ela ligava para o celular, porque os números eram diferentes.

No nosso primeiro encontro Samanta jogou dois comprimidos no champanhe, mexeu com o dedão e entornou garganta abaixo. A minha primeira reação foi de inveja por ter esquecido os meus calmantes em casa, a segunda foi de intensa paixão. Por qual das personalidades eu não sei. Até hoje acho que duas delas se chamavam Samanta, o que me confundia muito. A terceira não falava comigo, então nunca soube seu nome. O máximo que consegui foi uma parede desenhada com símbolos pornográficos, um coração e um go to hell. Esse foi o nosso primeiro desentendimento, eu tinha acabado de pintar o apartamento.

Bem, após aquela mexidinha no drinque pedimos a comida e ela começou a imitar um orgasmo, o que fez metade das velhinhas do restaurante pedir o mesmo prato que ela. Depois disso, minha cara vermelha, me encarou séria e pediu que eu adivinhasse o filme. Eu não sei qual o filme que ela estava imitando, mas eu me senti no meio de Os Sonhadores de Bertolucci. Não demorou muito e um homem de terno veio falar conosco. Achei que seríamos expulsos, mas o sujeito era o dono do restaurante e nos ofereceu mais uma garrafa de champanhe por conta da casa. Perguntou se não poderíamos fingir aquele orgasmo uma vez por semana, de preferência com pratos diferentes. Eu disse que não sabia se era uma boa idéia, uma pessoa famosa, podia não pegar bem. Duas garrafas de vinho depois e eu já estava fazendo tudo de graça.

Claro que depois disso, paramos no motel. No meio do caminho tomei um tapa na cara e quase bati num poste. Samanta virou para mim e perguntou o que eu estava fazendo com outra mulher dentro do carro. Argumentei que a outra mulher era ela, mas pelo visto não importou porque apanhei de novo. Decidi ligar para o celular e provar que ela era ela mesma, mas o telefone não tocou. Comecei a imaginar se não teria trocado de Samanta na saída do restaurante. Ando tão distraído, pode acontecer com qualquer um.

Foi só um susto. Ela se acalmou, pediu desculpas e me contou que tinha múltipla personalidade. Eu disse que tudo bem, que tinha amnésia então um distúrbio compensaria o outro. Perguntei se ela ainda tinha uns comprimidos na bolsa para me emprestar. Na verdade, a bolsa era uma pequena drogaria com toda a sorte de tarja preta. Se não me engano, um deles saiu de circulação quando minha avó ganhou o primeiro dente. Precisava perguntar o nome do fornecedor.

Obviamente a note foi um fiasco. Era um beijo, um grito, um tapa, uma transa, uma confissão, uma bagunça, uma cadeira elétrica, socorro, me tira daqui. Uma das personalidades perguntou tanto da minha vida que me deixou a impressão de ter dormido com Lady Dominatrix e acordado com Freud.

Bastou uma semana para terminarmos. A culpa nem foi das personalidades, até me agradava cada hora estar com uma pessoa diferente. O problema é que Samanta, a original, parecia um pinóquio de sex shop, em tudo queria meter o nariz. Se já não gosto de uma pessoa me controlando, o que dirá dezesseis. Dezesseis até a minha última contagem.

O resto você já sabe, muito papo para convencer os médicos e os enfermeiros, duas semanas tomando sopa e usando avental azul. O bom disso tudo foi poder pegar sol no jardim, estou até mais corado. O lado ruim foi ter arrumado um novo vício. Vira e mexe me pego enfiando o dedo na tomada.

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4 Responses to 01. Nuts do it better

  1. Vinicius Machado says:

    Muito bom! Nossa, dei tanta gargalhada! xD
    Muito engraçado mesmo! o melhor foi o final!
    O resto você já sabe, muito papo para convencer os médicos e os enfermeiros, duas semanas tomando sopa e usando avental azul. O bom disso tudo foi poder pegar sol no jardim, estou até mais corado. O lado ruim foi ter arrumado um novo vício. Vira e mexe me pego enfiando o dedo na tomada.

  2. Adorei, não imaginava que tinha algo assim no seu blog. Ainda não terminei o Histórias da Noite Carioca, mas já curto muito o Lucas, hehehe, parece muito um amigo meu que também se chama Lucas, mas é estatístico ao invés de escritor, acho que é doido pra compensar a chatice da profissão.

  3. Pingback: Falando de Lucas Moginie | Eric Novello

  4. RObson says:

    legal, ja tinha vasculhado o seu blog todo e só vim ver o diário de lucas agora, muito engraçado. estou me controlando para não comprar seus livros, não agora ehehhe época de prova na faculdade e não consigo largar um livro quando começo nem pra estudar acho que é um VICIO. mas daqui a pouco eu compro auhauha

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