É uma daquelas perguntas de um milhão de dólares pré-crise financeira: por que as pessoas que se esforçam tanto para ter um ar cult underground não se mudam de vez para o esgoto? Antes eu sugeriria o metrô, mas com a atual superlotação e a dificuldade que eu tenho de ir de uma porta até a outra, o esgoto está de bom tamanho. O esgoto tem sombra, água e faz eco surround sound para discursos vazios, ampliando o alcance das baboseiras.
Não sei se são os níveis extremos de poluição, se é radiação ultravioleta ou se é falta de sexo mesmo, o fato é que o mundo passa por uma proliferação descontrolada desse tipo de pseudointelectualóide, chegando a níveis jamais registrados nos anais da psicanálise freudiana. Al Gore tentou até fazer um documentário, mas morreu de tédio depois das primeiras entrevistas.
Como não sou o Al Gore e, portanto, não alimento pingüim com nota de cem reais, resolvi tirar proveito desse surto de algas humanas para montar um manual de como agir em público sem danificar a sua imagem de pós-vanguardista-ubber-prego.
Dica nº1: se um autor vendeu mais de 200 cópias ele é pop demais para o seu estilo. Dê preferência aos desconhecidos da Letônia em edição carcomida de sebo. Se você for do tipo alga-cientista, faça uma análise dos mofos desenvolvidos nas últimas páginas do livro. Underground que é underground só espirra com fungos não catalogados.
Dica nº2: se o autor da Letônia for resenhado em jornal, jogue fora imediatamente. Sua fama de underground pode sofrer danos irreparáveis. Poetas construtivistas que falam catalão no sul da África são uma boa medida de recuperação neuronal.
Dica nº3: nunca diga que trabalha em uma mesa de computador ou escrivaninha. Batize o espaço místico onde seu ID supera a inconstância da pós-contemporaneidade de bureau criativo.
Dicas nº4: não ouça artistas famosos. Eles merecem seu ódio. Solte rugidos ao ouvir Madonna ou qualquer outro artista que já tenha cometido o pecado capital de tocar na rádio. Fale mal constantemente de todos eles… em público. É falando mal que uma criatura cult underground constrói sua legião de seguidores.
Dicas nº5: não elogie os grupos que você curte. Quanto menos divulgado e relevante, melhor para seu currículo blasé. Só cite-os em contraponto a outros artistas que ninguém jamais ouviu falar. Dizer que um desconhecido é modinha dará arrepios nos seus concorrentes.
Dicas nº6: quando for falar em público, coma antes buchada com pimenta. Sua cara de nojo será entendida como intelecto e imitada. Para prolongar os efeitos, troque o papel higiênico por lixa granulação 36. Sérios riscos de indicação ao Jabuti.

Lucas S2
Huhauhauhauhauhauahuaha xD a melhor dica é a numero 3 xD muito bom!