A vida é uma mentira contada aos poucos. Às vezes contamos para os outros, às vezes para nós mesmos. É o que faço quando digo que não quero mais, quando tento explicar puxando a roupa que por hoje basta, deixe seu dinheiro e saia, por favor, sabendo que da minha lamúria sobrará um trapo de camisa e a pele esfolada dos corpos em atrito. Faz parte da dança saber calejar os pés e do meu prazer entender demônios que se soltam da garrafa. Não preciso de vinho para nos embriagar. Só preciso do seu sim. Ao ouvir o barulho do zíper sei que escapam fantasias, e não me incomodo se vierem disfarçadas de timidez absoluta. O importante é que fiquemos à vontade. Os medos em comum facilitam as pontes, treinei os olhos para refletirem o que você quiser ver. A mim, basta o nu que o elástico insiste em esconder ao descer macio. Não tenha vergonha de contar meus pêlos, de seguir a trilha com seus dedos. Que graça teria o labirinto se não fossem as mil possibilidades de se achar e se perder. De certo modo, me sinto um professor. Digo como perder os limites mantendo o bom gosto. Ensino que Eros adora a ponta da língua e se encanta com o que vê por fora, almejando o que há por dentro. Parece que dessa vez acertei seus desejos. Ao pedir tempo para um banho quente encurtei o descanso e aqui estamos novamente com as pernas misturadas de um jeito áspero que não sei dizer qual corpo é meu ou seu. Você me encanta por dispensar amarras e algemas, por achar que óleos esconderiam o verdadeiro sabor da minha pele. A sensação de contentar sem artifícios ajuda a transbordar dos poros um suor diferente, anunciando novos fluidos e gemidos. Com o chuveiro desligado, me jogo molhado na cama e deixo o colchão absorver as lembranças que me escorrem. Quando vejo você deixar o dinheiro e calçar o segundo sapato, ofereço um novo round e peço que fique um pouco mais. A roupa, eu aviso, é acessório opcional.