Oi, eu sou o Camelo. Esbarrei com Lucas Moginie em um bar cafona de Copacabana e agora estou aqui, contando a minha história. Mas como sou um tanto lerdo, quem vai narrar é o Lucas. Digitar com casco é um desafio, experimente escrever seu nome com o cotovelo e terá uma sensação parecida.

Camelo teve uma infância complicada por dois motivos. O primeiro era se chamar Camelo, que não era seu sobrenome, e sim o primeiro. Sua vida no colégio se resumiu a ver os amigos imitando aquele jeito linguão caído do camelo e a escutar os perversos colegas dizendo que ele daria um bom camelô. O gorducho da sala vivia perguntando como ia o primo dromedário.

O segundo motivo era ouvir em casa, pelos cantos, uma palavra que não entendia muito bem. Cresceu achando que era um transgênero e toda noite se olhava no espelho imaginando quando cresceriam os peitinhos. Tinha certa decepção consigo mesmo, não sabia se brincava de carrinho ou boneca, não sabia se ficava melhor de cabelo curto ou deixava crescer, e o pior, por não saber direito o que era um transgênero, se baseava nas revistas que achava em um buraco no colchão dos pais.

Com a adolescência e muitas discussões veio a importante conversa. Os pais, com os olhos marejados, abraçaram o filho e disseram: Camelo, você é transgênico.

“Quer dizer que não vou ter peitinhos?”, ele respondeu de imeditado, feliz da vida.   
“Talvez tetas”, os pais cuspiram em resposta. Camelo era o resultado de uma experiência secreta do governo brasileiro e misturava centenas de fragmentos de DNA de outros animais, uma verdadeira orgia de banco genético. Ninguém sabe se o experimento foi proposital, fruto de um espirro ou sarro entre pesquisadores.

Na primeira semana achou legal, sonhou que virava o homem-aranha e copulava com a Viúva Negra. Depois passou a ter pesadelos em que uma corcova nascia de suas costas, e depois outra. Num dos sonhos a corcova nasceu no lugar errado e ele não conseguiu se sentar. Ficou filosofando sobre as idéias que jogamos ao vento. Por exemplo, sua mãe dizia que gostaria de ser um pássaro, ser livre a voar. Um pássaro?

Camelo se imaginou recebendo no café da manhã aquele pedaço de besouro mastigado direto do bico da mãe. Toma, meu filho, delicioso e nutritivo. Fora o intestino incontrolável. E se tivesse coceira no pé? Definitivamente não queria que seu DNA de pássaro se ativasse. Tinha alergia às penas, seu travesseiro era de silicone. Lembrou então da mosquinha de seu pai. “Eu queria ser uma mosquinha para bisbilhotar a reunião do fulano”. Claro, claro. Bisbilhotar a reunião do fulano, voar até um montinho de cocô de cachorro e depois ficar passando as patinhas na cabeça, lamber os beiços, lamber as asas e enxergar tudo como um míope, estrábico e hipermetrope ao mesmo tempo. Isso tudo com óculos no grau errado. Moscas eram nojentas. Mas Camelo continuava a sonhar com uma vida melhor. Para quem veste camisa xadrez e bermuda caqui, ser transgênico pode ser uma solução.

Se um dia despertasse cavalo, pensou diante do espelho sem muitas esperanças, seria ator de filme pornô. Se despertasse barata, filosofou diante das migalhas, personagem de livro. Se acordasse morcego, viraria DJ. Se virasse cigarra, cantor de ópera. Ruim seria virar gente.
Camelo ainda não desenvolveu nenhuma característica além de fiapos perdidos na bochecha, apesar de fazer uns ruídos estranhos quando esfrega as pernas, e a língua vez por outra fugir da boca sem controle. Fora isso, é um adolescente normal e vai prestar vestibular para Veterinária no ano que vem. Quer fazer a sua tese sobre uma planta rara do pantanal. Seu pai sugeriu um teste vocacional, mas não quer forçar o filho a escolher uma direção.