Gotas de tédio pingam do teto entre nós dois. Seu corpo ainda é paisagem, esparramada como quem desfruta do conforto de um quarto de motel. Me incomoda que ainda esteja aqui, que tenha atravessado a fronteira inóspita do convívio e ignorado o arame farpado que instalei nas bordas do colchão. Quero sacudi-la e gritar: é meu território! Que depois de um orgasmo bem comprado a saída é o único caminho. Se ao menos pudesse tocá-la em um transe do qual não despertasse, afugentaria a respiração ofegante que simula quando finge que me possuiu. Só divido a cama quando compartilho o gozo, deveria ter dito assim que chegou, o seu fingido de um lado, o meu exaurido de outro.
Calisto pagou a mais, esbanjou dinheiro. Matraqueou momentos de desabafo de um marido inventado, que não existia além de sua encenação. Os atrasos no escritório foram os motivos para que viesse até aqui, explicou. Nada de ciúmes ou dramas de mulheres mimadas que aproveitam a conta do marido rico nos bordéis e nos shoppings. Dele o que queria não estava nos bolsos, mas guardado em local reservado para secretárias e amantes de estação, todas milimetricamente rascunhadas. Se ele pode, por que eu não, me perguntava ao tirar a roupa. E depois disso uma longa conversa para que a cama fosse um ponto final cada vez mais longínquo.
Por uma única vez quase acreditei. Um hematoma na altura da cintura, uma mordida macia que teve vergonha de mostrar. Com prazeres na ponta da língua a convenci a revelar o seu segredo, a despir os mistérios junto com as peças de roupa. Mas nada naquela nudez era realmente nu, nada rompia suas mentiras. Decidi sozinho que o roxo era fruto de uma pancada e perguntei por mais, questionei o que não acreditava como se disso dependesse minha vida. Implorei que me contasse os detalhes com a promessa de um passeio profundo em seus devaneios e vitoriosa ela o fez.
Para Calisto o sexo era apenas uma história bem contada, o marcador de livro que norteava seus capítulos.
Um dia rompeu nosso romance. Chegou aflita dizendo que tinha uma namorada. Uma amante. Ela havia descoberto sobre nós e não queria que voltasse a me ver. E seu marido, perguntei, só para incomodar. Aquele nunca sabe de nada. Pensa que me tem nas mãos, só porque me tem de joelhos. E começou a chorar sem derramar uma só lágrima. Entendi que o jogo havia mudado. Ator contínuo, incorporei o novo papel e mapeei seu corpo com os dedos, pedindo que me contasse o que a amante lhe havia ensinado, que me convencesse de que era melhor do que eu no que eu tinha de melhor, e pela primeira e última vez conheci o calor de suas entranhas.
Assim que dormiu, fui para o banheiro tomar banho e saí. Dessa vez, nada de ficar deitado até que acordasse. Nada de esperar que preparasse o café da manhã e com os olhos de esposa comportada me desejasse um bom dia trabalho. Nada mais de nosso pacto.
Quando retornei, tinha ido embora. O dinheiro certo em cima do colchão, sem cartas de despedida. Só voltei a ter notícias suas quando uma morena de piercing e tatuagem tocou a campainha e gritou seu nome, dizendo que saísse agora ou estava tudo terminado. Problemas de rotina, expliquei ao novo cliente enquanto sussurrava em seu ouvido, fingindo não ouvir os chutes e berros da única verdade que Calisto me contou.
