Decido manter o quarto vazio por uns tempos. Os nomes sem sobrenomes espocam no visor do celular, recados de xingamento que me acusam de abstinência sem aviso prévio, decidida em uma noite de calor em que percebi que dois corpos colados só poetizam no fresco do ar condicionado. É um repúdio ao suor, aos líquidos e fluidos, meus e de outros, um repúdio democrático esse o que faço. Me pergunto se sou eu quem manda nessa história, se físico e psicológico de fato me pertencem. Se isso é verdade, não posso permitir que o visco e os aromas esfreguem na cara de barba por fazer a humanidade que me esforço para manter distante. Não interessa o dono dessa cara, um rosto proprietário, marca registrada nos escritórios internacionais e na pele a ferro e fogo, pois me vejo em cada retina, me ouço em espasmos e gemido, me descubro nos golpes que dou e recebo da mesma maneira. Tudo não passa de um imenso espelho orgânico que procuro evitar e por isso me isolo. Busco conforto na escuridão que cultivo com zelo, um consolo temporário, um longo transbordar de camisinhas que pelo óbvio me esvaziam. Não procrio, não busco a eternidade pelo sexo. Seu orgasmo, seu grito de felicidade não me diz nada. Aquilo que te vicia nas entranhas, de dentro pra fora e de fora pra dentro, só me causa apatia. O encanto, nutro pelo reflexo do qual um dia fugi. Um veículo de fantasia e realidade.
O telefone vibra novamente sobre a mesa. Uma mensagem. Ameaça de morte. De despejo em uma vala obscura em um subúrbio qualquer, tão longe da limpeza milimétrica que procuro com afinco. Começo a teclar, respondo. Quando vejo é tarde. A mensagem não deveria ter ido daquele jeito. Onde está o botão de arrependimento? Onde está a tecnologia que permite apagar o que falei? Digo que venha. Com muito dinheiro. Que venha pronto para compensar o que os meses nos tiraram. Digo isso em letras digitadas no teclado. Sem entonação, sobra à raiva e ao desespero se esconderem nas entreletras, tão raras as linhas. Sei que é ridículo o comportamento. A solidão não é um ato de aprendizado. Entre deuses e vermes, seguidores. Sem eles, igualdade.
O dinheiro sobrevive nas margens dessa esquizofrenia que inventei de bebedeira. Preciso zerar a casa. Uísque, vinho barato, comida de primeira que não sei comer sozinho. Havia nos fiapos do sofá um passado que precisava ser varrido, que esfreguei com a escova, arranquei com dentes, precisei tirar do corredor. Não descobri banho ou cheiro que me devolvesse a ilusão do ser eterno. Precisei olhar forte no espelho, suado, escorrendo, fluidos e gozo pingando, para me dar conta da verdadeira origem de meus intentos. Fui eu que desenhei essas cicatrizes. Ao longo de anos, camas, visitas, homens e mulheres ideais para si mesmos, passageiros para o resto do mundo. Cavei cada traço nos braços e nas pernas, preenchi as linhas com infelicidades compartilhadas, com unhas cravadas na carne, esfolamentos do nó dos lençóis em que me amarravam fingindo poder me prender. Eu um símbolo do momento de fuga, de uma alegria ligeira e adolescente em qualquer idade.
Sei que ele chegará muito em breve. Talvez estivesse por perto. Não se descarta Eros sem que venha o troco. Nem toda flechada é de amor. É outro visco, um recado vermelho que lembra o que temos em comum. Não importa quem você seja, compartilhamos um coração pronto para falhar. Torço para que me entenda, hoje não quero nada aqui dentro. Quero casa nova, mobília, lençóis, garrafas diferentes para ir até o fim. Quero arrumar as malas e encontrar outro ninho. Cansei de repetir os gargalos.

“Onde está o botão de arrependimento?”
Jeez. Quantas vezes me pergunto isso diariamente, rs.
Belas sacadas. Flechadas!
Profundo,único, uma reflexão para poucos e muitos.O tato primeiro de se mirar e entender a grande pergunta que nos assombra, por quê?
Gostei demais,absorvi e senti,o que me deixou atenta:. !Tudo não passa de um imenso espelho orgânico que procuro evitar e por isso me isolo”> Isso sempre me acontece.
Beijos mordidos,todos.