Uma risada corre a sala acompanhada de trovões que aniquilam as previsões climáticas mais otimistas. O céu de estrelas prometido adquiri outra beleza, sedutora em nuvens sombrias e carregadas. Respiro fundo esse riso cuspido dos pulmões, o rugido do céu. Capturo um pouco do que vaga no ar antes que nova lufada entre pela janela. É assim que estréio a nova casa já mobiliada, paredes tão limpas que me fazem desviar o rosto em direção ao piso de madeira com medo de uma cegueira repentina. Todo seu, ele diz, mexendo na barba cerrada. Uma felicidade que corrompe minha melancolia. Dinheiro. A quem quero enganar. Dê a ele o mundo, disse Eros, e ele o mastigará. Ofereça o paraíso de seu bolso, o inferno para um sonho tranqüilo. Um preço justo, respondeu Le Saint, me analisando entre as vísceras e o tecido. Que espie. Que me venda. Preço é a única palavra que retenho nos tímpanos.

Eros se vai, arrependimento escondido nos ralos pêlos púbicos. Ficamos nós dois. Eu e minhas asas negras, Anjo Exterminador armado e flamejante. Talento inato, hábil com as espadas. Ele ri. Mostra uma enorme cama em um quarto, depois no outro. Que eu tenha um lugar para trabalhar e um lugar para dormir. Não sei a razão, mas acho graça. Um empresário de sucesso, foi o que me tornei. Concordo de braços abertos com o homem com nome de santo, aparência de Buda e olhar languido de Ganesha. Uma divindade sincrética, carnal, um pisoteio sangrento de pombas brancas que antecipa nossos gestos do fim do dia. Me permito acariciar suas presas de mármore. Seu carinho arranha suavemente meu braço. Começo a desabotoar a camisa, mas ele some pela casa. Que o espere, ele fala já de costas, acreditando em uma espécie de telepatia.

Sem pressa, os botões deixam as casas. Um trovão lá fora segue segundos após o clarão. A chuva desaba dissolvendo a paisagem impressionista. Corro para fechar as janelas, mas decido sentir os respingos. Como se caminhasse na rua, fico completamente nu, o corpo seco, molhado apenas na mente, inundado do que alguns ousariam chamar de futuro. Sem que precise pedir licença, ele volta. As mãos rastreiam meu corpo, leitores de código de barras, envolvem-me intumescido ao oferecer o champanhe. Toca. Eu desperto. Um brinde, ele pede, transbordando a bebida da taça. Peço um brinde à sombra no sol. Tento explicar, mas as lembranças são fugazes. Não precisa, ele diz. Não preciso que se explique, apenas exista. E de uma só virada o champanhe desaparece, na mesma virada em que chego à cama, cercado de algemas e peças de couro.

O trovão dessa vez bate no peito. Bombeia o sangue a todas as extremidades. Sinto o rosto enrubescer no prazer às avessas de comandar. Só mais um demônio de uma ampla coleção. Mais um contratado, ele provoca, o regojizo no zunido do chicote. Os gritos adensam minhas nuvens, promovem o reencontro com minha escuridão. Depois de tanto tempo, era aqui que se encontrava. Sinto meus olhos se iluminarem. Gostaria de mirar, mas não é o que faço. Pegam onde pegam. Um barulho agudo. Agora são meus golpes que rasgam o ar, que tingem as paredes com o cinza que cultivo. Cinza e vermelho. Enforco-lhe com o cordão. Não é um crucifixo. Mas poderia. Permito que beba de mim e aperto mais e mais. Me pergunto se Sade teria orgulho ou se vexaria diante de nossas fraquezas. Dessa falsa poesia que nada tem a ver com ratos costurados, espetáculos na casa de loucos, com os buracos de suas musas. Na distração, o jogo vira. As costas torcem. Já não sei mais se sou luz ou sombras, a qual parte do ser de múltiplos braços e pernas eu pertenço. Cale a boca. Ele avisa. Silencio. Mas o ar escapa, quente, o sorriso não se fecha. Estou exausto, afirmo. Não quero mais dissimular, estou exausto. Me permito fechar os olhos. Não sei bem o que escorre, talvez sangue, talvez temores. Não tenho certeza, mas acho que desmaio. Ah, meus desmaios.

Acordo sobre os lençóis. Le Saint me espia da cadeira. Calça, camisa, maleta. Um bocejo do mais puro tédio. Visto as peças que encontro pelo caminho para levá-lo até a porta. Décimo oitavo andar. 1818. Meu número da sorte. Ele me estica as chaves. Ele dono, eu proprietário. Caminho pelo corredor, sem ter o que agradecer. O preço pago em doze parcelas com entrada. Quando o elevador pára, nos despedimos como quem acaba de fechar negócio. Um garoto de chapéu e blusa preta, barba por fazer, passa entre nós. Tento ler as letras amareladas em sua roupa, mas ele já está longe.
Le Saint, aperta o botão da garagem e derrama suas últimas palavras:
Ça serait beau: Seulement, c’est pas possible.

Volto para o apartamento em companhia de Godard.
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* Charenton é o nome do hospício onde morreu o Marquês de Sade.
* Ça serait beau: Seulement, c’est pas possible é uma frase de Vivre sa vie / Viver a vida, filme de Godard sobre uma prostituta.