Como prometido por Le Saint, três meses se passaram sem que ninguém me procurasse. Chame de férias, ele disse, mas eu sabia que se tratava de uma espécie de quarentena, como se a solidão de fato diferisse entre as classes sociais. Tive vontade de argumentar e então, só por um instante, encostá-lo na parede com toda minha força sem que do golpe pudesse extrair algum prazer. Mas num mundo de vaidades, adega cheia e apartamento amplo contentam muito mais, e eu tinha tudo isso à disposição. Um cheque por mês, avisou. Gaste como bem entender. Troque as roupas, os perfumes, jogue tudo fora, mesmo os bons. Não quero que sintam o cheio dos pobres que passaram pelo seu corpo. Quero que esteja perfeito quando ela vier.
Ela. Minha dona. A fonte do dinheiro que garantiria minha presença em suas festinhas, meu silêncio. Tinha sido bem recomendado. A atriz morta, drogada, meu único amor aspirado em overdose. Avaliação de matéria-prima feita por gente que só parecia gente, mas carregava DNA dourado nas mitocôndrias. Por ela resistia ao garoto que cruzava comigo no corredor, por ela olhava baixo pelas ruas. Uma aranha que foge das moscas, espezinharam. Um covarde, corrigi, nem a teia tenho mais.
Atendi a campainha descabelado, hálito de licor de cereja do dia anterior. Minha cara de esnobe nem chegava aos pés da dela, coisa de bisturi profissional. Entendi quem era assim que entrou sem trocar palavra. Depositou a bolsa em meu braço como se não passasse de um cabideiro e deu uma volta pelo apartamento como quem resgata velhas lembranças. A essa altura já me envergonhava da calça de pijama, dos olhos parcialmente abertos diante do loiro abusivo de seus cabelos.
- Patrícia.
- Ícaro, seu criado.
- Tire as calças, por favor.
Porta fechada por precaução. Talvez devesse alertá-la de que não visto nada por baixo, mas quem sabe o que deseja analisar? Faz questão de abrir ao máximo as cortinas para clarear o ambiente. Com a cara ainda amassada, desço as calças num só golpe até o chão. Sua expressão é a de quem quer saber se tenho cinzeiro em casa ou a de quem está muito impressionada, o exagero do botox atrapalha a dedução. Pede que eu deite nos lençóis bagunçados, bunda para cima, cara enfiada nos travesseiros. Agora me olhe, pede. Me segura pelo queixo abusando da elasticidade do pescoço. Pega distância. Explica que tão importante quanto o sexo é parecer bem ao acordar, naturalmente descabelado. Um boneco de luxo nunca vai embora antes do amanhecer, a diferença principal. Eles adoram a prova viva de suas brincadeiras noturnas, conversar sóbrios com quem dormiram bêbados. Se possível, levante por último. Se ofereça para fazer o café, mas já de roupa, me alerta, como se não soubesse me portar em todo tipo de refeição. Depois disso, devo ir. Nunca ficar para o bis. Quem faz sexo de manhã não vale nada no mercado.
Mercado. Não consigo me agüentar. Escondo o rosto para que não veja meu riso, mas ele escapa alto, tenho lágrimas nos olhos. Peço desculpas, não consigo parar. Ela senta ao meu lado na cama. Olhos de ave de rapina. Sei que vai me demitir,de volta ao gueto, lar doce lar. Me engano. Esboça um sorriso comportado, um apertão delicioso. Pede que eu me arrume. Primeiro consulta médica, depois academia. Tenho que estar cem por cento para as futuras apresentações.

“Avaliação de matéria-prima feita por gente que só parecia gente, mas carregava DNA dourado nas mitocôndrias.”
Ahahah, bem que eles queriam…
Frases geniais a cada parágrafo.
É notável como sua escrita de hoje difere da dos tempos do “Dante”. Mais despojada e pessoal, mais madura e profissional. Delícia!