Quando a sorte bateu na minha porta num dia de domingo eu gritei “já disse que não quero comprar enciclopédia nenhuma, cacete”, e ela nunca mais voltou. Só me dei conta do ocorrido dois dias depois quando a porta deu cupim. Sabe aqueles seres voadores que todo mundo acha uma graça e chama de bichinho de luz? Bichinho de luz seria se nascesse dentro da lâmpada ou surgisse ao riscar o fósforo. Esses nascem mesmo na madeira que, diga-se de passagem, eles comem, digerem e botam para fora. É uma espécie de arte contemporânea só que com mais significado.

Chamei um especialista e ele me disse para ficar despreocupado, que o cupim de madeira seca não passa para outras madeiras. Só come aquela até acabar e depois a colônia morre. Claro, claro. E como esse veio parar aqui então? Esse não, essa, ele me corrigiu. As fêmeas voam quando adultas procurando um novo lar. Que bonito, um novo lar. Você podia ser político, meu velho. A sorte, ele disse, é que elas são como espermatozóides, só uma acerta o caminho. Provido da imagem desagradável que associava meus lindos espermatozóides a insetos voadores e a fechadura da porta a… deixa pra lá… só não desmaiei porque outra percepção me desestabilizou.

Quando atentei à palavra sorte tremi dos pés à cabeça e entendi que naquele dia não era o gorducho de bigode que batia à minha porta. Era ela.

Muita gente atribui tudo ao Azar, mas esquece que a sorte também levanta de pé esquerdo. Quer ver a sorte se enfurecer é ela sair toda arrumadinha para o trabalho e um carro jogar água suja na sua roupa. Um segundo depois está todo mundo sofrendo o mesmo. Se ela sonhar que a Virgem de Guadalupe está cantando um Axé então, preparem seus guarda-chuvas porque os pombos vão estar incontroláveis. Nada de exagero. É que a sorte veste branco, e poça de chuva enlameada mancha. A sorte é prática, meu caro.

No dia em que a desprezei, porém, ela decidiu fazer o mesmo para o resto da minha vida.

Nem preciso relatar que naquele mês tive que andar de metrô no horário do rush, o Dan Brown lançou outro livro, descobri que o Tom Hanks ia fazer o filme com a Audrey Tautou, uma velhinha recitou metade de um livro de auto-ajuda dizendo que eu estava com a energia ruim, um ogro não parou de falar durante a exibição do cinema, sujei meu único par de tênis em sabe-se lá o que, pisei em um chiclete de tutti-fruti e comi a famosa minhoca da goiaba.

Sentei-me à mesa decidido a escrever uma carta para a sorte, desculpando-me pelos maus tratos. Começava a contar o dinheiro para as flores (a sorte gosta de margaridas), quando a campainha tocou. Tremi de novo. Fui devagarzinho até a porta, espiei pelo olho mágico e vi um senhor, por volta de 50 anos, magro, ossudo, vestindo um terno preto que chegava a brilhar.

Pensei em não abrir a porta, vai que é assalto, mas não quis cometer o mesmo erro duas vezes.

- Sorte? – perguntei desconfiado.
– Azar, posso entrar?
O Azar não me pediu nada além de um café. Bebericou, desenrolou um jornal, experimentou a dureza do meu sofá e disse sem pestanejar:
– A Sorte morreu.
– O quê?

- Veio aqui falar com você, ouviu o grito de um vizinho doido que a tinha xingado uma semana antes, achou que não tinha ninguém em casa e foi embora. Decidiu entrar numa cafeteria para beliscar alguma coisa, uma senhora tropeçou no salto, caiu de cara em uma torta de morango e morreu de diabetes. A Sorte ficou deprimida. Como alguém podia morrer por mero acaso diante dela? Foi demais, sabe. Ela andava meio esgotada dos nervos. Diziam por aí que estava uma pilha de estresse, viciada em tranqüilizantes e leite condensado. Num gesto rápido, enganando o garçom, ela pegou uma coxinha gordurosa e engoliu, de uma só vez, para ver se driblava o destino e fazia graça. Mas a coxinha era de enfeite, cera pintada, uma puta falta de sorte. Morreu entalada, caída em cima da velhinha, cada uma com sua respectiva bunda virada para um lado diferente.

- Não sei o que dizer.
– Então não diga. Não é todo dia que a Sorte tem um azar como esse.
– E o que você quer de mim?
– Vim te dar os parabéns. A Sorte nunca soube que era você, mas eu sei muito bem quem deu aquele grito.
– Mas e tudo aquilo que aconteceu comigo? O pombo? O cachorro? O cupim? O chiclete? A vizinha que ouve ópera? Os correios? Cheguei a achar uma pedra no meu arroz. E achei com os dentes postiços.
– Coincidência. Culpa. Vai saber. A vida é cheia de mistérios. Só vim te dar a notícia.   
Até outro dia.

- Mas e você? Não vai me pedir nada? Exigir algo em troca para me devolver a… – calei-me pesaroso.
– A mim basta um bom café.

Ele levantou, esticou os braços para o alto até o pescoço estalar. No caminho para o corredor passou a mão na porta e todos os cupins caíram secos, com as boquinhas abertas e retorcidas. Contágio por um fungo raríssimo que produz toxinas de ação imediata. Ouvi um grito da vizinha também. Soube depois que o aparelho de som deu um curto e ejetou o cd de ópera com tamanha velocidade que do gato só sobrou o bigode.

Fechei a porta mais calmo, mas estava incrivelmente entristecido.
Além de não ter mais a sorte para culpar, descobri que o azar é meu amigo.