Chego no carro de Patrícia, entrega a domicílio, sem atrasos nem meias conversas. No caminho, uma mudez constrangedora, a opção dela pelo meu silêncio. Vou fantasiado num tecido fino que me é estranho, as roupas não se encaixam, o sapato me aperta. Sinto saudade do jeans e das malhas, das peles que descamo todas as noites no colchão. Ela toca o interfone com um ar de desprendimento, articulações que não se dobram, como se o botão não oferecesse resistência. Diga a ele que é Patrícia, e um sorriso de quem tem todas as garantias do mundo. Sigo calado sem saber o que me aguarda, cliente surpresa, um teste para minhas reações. Me atropelam imagens de entrevistas de emprego, cadeiras de couro desconfortáveis, apertos de mão suada de nervoso. E então, senhor Ícaro, posso contar com seu comprometimento? Não. Não. Eu já sou um profissional. Não importa o que esteja do outro lado. Não há mais suor que de mim escorra sem a minha aprovação.

Imagino um casal de velhinhos, uma loira de vestido recatado. A decadência com elegância que é ainda mais degradante. O senhor me oferecerá um charuto. Rirá quando eu disser que não fumo. Preciso manter a saúde. E ele rirá ainda mais. A saúde. E se lembrará de que não escondeu a pilha de remédios no criado-mudo ao lado da cama. Comprou o lençol novo, mudou a fronha, perfumou a casa e, justo os remédios, esqueceu de tirar. Sua esposa então dirá: venha comigo. Me pegará pelo pulso como se desfrutássemos de uma intimidade de décadas, como se meu corpo herdasse as curvas de meus antecessores e ela pudesse me mapear só pelo toque. Me oferecerá uma bebida, a garrafa reservado ao seu mais novo brinquedinho. E o marido voltará com um aceno leve de cabeça, está tudo bem, já escondi as caixinhas de tarja vermelha. Deixei só a tarja preta, no caso de.

- Seja educado. – É o que diz Patrícia quando as portas do elevador se abrem. Diz isso para reaquecer as cordas vocais, se preparar para um tom de voz ensaiado durante os anos de profissão. Oi, querida, como você está? Esse é meu mais novo menino.

Dessa vez seus dedos se dobram mais humanos, sua unha risca levemente o botão, me dando arrepios. O silêncio se rompe no barulho da chave que balança acompanhando um assovio gostoso. Oi, querido, como você está? E ela entra, como se eu não estivesse ali. Permaneço estático, vulnerável, surpreso. É o riso de nervoso que me desperta. Não sei se meu ou dele. Na minha frente, um jovem de cabelos azuis e infinitos olhos verdes me convida a entrar. Patrícia socializa com as garrafas, troca figurinhas com o copo de uísque. Está em casa. Comenta a pintura na parede, coisa nova, hein?

Meu encanto pelos quadros, tinta direta na parede, não me impede de notar a proximidade do pintor. No fundo dos seus olhos, vejo que temos idades próximas. Talvez o que carregue em mim de todos os corpos que desvendei me faça ter por dentro mil anos mais. Mas é a aparência que conta, meu cartão de visitas.

- Finalmente. Ícaro? Patrícia falou muito de você. Espero que não se importe com a bagunça. Os quadros acabaram de voltar da galeria. Você curte exposições?

Exposição. Nu em um museu. Os visitantes admirando no espécime sua sagrada ignorância. Patrícia não resiste à cena que armou com tanto gosto. Me traz também um copo com gelo. O aroma amadeirado confortando minhas narinas. Abraça meu o ombro com uma delicadeza que esmigalha, mostrando sem dizer palavra o quanto tenho para aprender.

- Gabriel – diz, esticando a mão. – Muito prazer.