Nem o DNA é tão designativo quanto o sofrimento. Diferente do caráter coletivo da felicidade, não há duas pessoas que sofram da mesma maneira. Por mais que toda lágrima seja salgada e toda dor evoque o pranto, não é do lado de fora, mas lá dentro num recanto, que mora o que se chama sofrimento. Como um garoto pálido que vê no quarto sua última barricada, e ao ser vencido mistura o choro ao conforto do chuveiro, fico eu no encontro das paredes, pernas esticadas sobre o chão, fumando o último cigarro que me resta.
De pé, Gabriel desfila as cores de sua paleta, extravasa a alegria explicando suas obras, recitando poemas criados de relance. Penso em declamar ali a minha inveja, me deitar de olhos cravados no teto buscando algo que não vá além da brancura, revirando nos neurônios o que restou de meus anos de improviso.
Mas seus movimentos me distraem, me concentram. Deixo pra lá. Alterno as pernas para fugir da câimbra, braço esticado sobre o joelho, um jeito de lembrar que estou vivo. Ele passa em frente à janela sem se preocupar com a nudez, deixa claro o quanto é livre dos outros e de si mesmo, nada mais a me provar. Recostado no parapeito como também estive um dia, fingindo aproveitar a vista para que eu possa apreciá-lo, assovia uma melodia. Naquele ângulo, é pintor e é pintura, numa moldura surrealista de Dali. Faz isso sem saber que na tentativa de reter, me dispersa. Que o sol que banha suas costas expulsa da pele os resíduos de penumbra com que eu o impregnei.
Quando volta às explicações, avisa que prefere começar pelo fim, pelos retoques, mais uma diferença entre nós. Me imagino brevemente acelerando finais, encurtando começos, alternando a ordem de todas as noites de um jeito que, no final, seja meu o sorriso a durar. Sua voz fica cada vez mais distante, a audição sucumbe aos demais sentidos, preciso de todas as forças para voltar. No meio dos borrões, não vejo nada que possa competir com o verde de seus olhos, mas não posso esnobar a arte. Concordo com a cabeça, brindando-o com meu silêncio. Ele fala em rimas sobre a perfeição, desenha no ar com os dedos aquilo que jamais poderá tocar. Respira lentamente de tristeza e por um único instante somos iguais. Mas novamente se alegra, as mãos levemente borradas com as tintas que experimenta. Pincela com palavras uma igualdade que não existe e aquilo me fere de um jeito que jamais imaginei acontecer. Para revidar, trago do fundo dos pulmões a fumaça que sopro. Deixo que me tome a garganta, deslize pela língua e escape dos lábios, numa tentativa de preencher o espaço que nos separa. Vejo as partículas dominarem a sala, sem rumo, nebulosas, minha forma de retocar um quadro que julgo perfeito. Repito o ataque até que meu cinza tenha força para invadir seu sol. Enfim, ele parece me notar.
Gabriel se agacha ao meu lado, pede que eu levante, que eu dance. Ri das minhas roupas diante de sua nudez. Sugiro o retorno para o quarto, uma manobra estratégica que afogue os sentimentos e me torne novamente a criatura dominante, no topo da cadeia alimentar. Arranco um vislumbre de língua nos dentes, olhos perfurantes, um fluxo de prazer que me arrepia a nuca. Com um riso gostoso, ele estala os ossos e se põe novamente de pé. Vai de encontro à tela e volta a pintar, alimentado pela brevidade de nosso toque.
De olhos fechados, chego a sentir a água do chuveiro, mas a parede é áspera, não quer companhia. Antes de levantar, apago o cigarro no piso fino, deixando registrada a minha existência.
Por hoje, meu único gesto obsceno.

Simplesmente perfeita essa parte da história, mesmo com uma alta dose de tristeza. Quero te parabenizar pelo excelente texto q vc está criando. Realmente espero ansioso pela continuação. Tudo de bom, querido. Beijo grande.
Nó na garganta…
Gostei desse Icaro, apesar de td… Acho q ver momentos de tristeza e felicidade na msm cena me faz lembrar mtas coisas.
O primeiro comentário a gente nunca esquece.
volte sempre, queridão!
Fico tão feliz quando alguém entende o que quis dizer. hehehe. Beijoks!
Excelente. To adorando a escolha das palavras. “Que o sol que banha suas costas expulsa da pele os resíduos de penumbra com que eu o impregnei.” Vou roubar isso tá?
Beijos