Dentro do quarto, me tranco em pensamentos. Se o futuro ainda se faz distante, é para o passado que me volto, e lá nos encontramos tão fugazes quanto um arrepio. Estou desprotegido, desarmado, entregue ao último combate, contando os mortos espalhados pelo chão. Sinto ao redor dos tornozelos dedos inexistentes. Provocam cócegas e espasmos, me ajudam a descobrir que os tendões são capazes de muitas formas de contorcionismo. O corpo segue firme, mesmo quando a mente pára. Não sou um ser autotrófico, mas aprendi a sobreviver do cansaço, me alimentar da desordem que transborda sempre que tento me orientar, organizar em frascos o que não pode ser rotulado.
Um espectro passeia pela cama, me atropela, me abraça. Sinto-o dedilhando suavemente as cordas de minha anatomia, um dedo de cada vez. Envolve minha cintura, revolve meus tormentos como um instrumentista em busca de melodias que ninguém além de nós consiga ouvir. Fecho os olhos para mantê-lo vivo nas entranhas, aprisioná-lo no calor das memórias, sendo eu também prisioneiro de sua ausência. Mas ele não se contenta com o espaço reservado em meus neurônios. No sopro que chega ao ouvido, sei que me pede mais. Prefere jorrar quente por veias e artérias num vermelho vivo, fluxo contínuo, bombeado cada vez mais forte, de cima para baixo, de fora para dentro, gritando aos meus hormônios que a vaga nitidez das lembranças jamais será suficiente para defini-lo. Que os contornos que enaltece são da carne, não do espírito. Que se um dia recitar poemas, caído de joelhos em frente aos meus olhos, que sejam eles épicos, heróicos, numa ode às formas, ao fio das espadas, ao gosto da pele e ao macio dos lábios, e nunca, definitivamente nunca, à pureza filosófica das idéias.
Procuro sua sombra na parede, sua impressão em meu sofá. Entendo de uma vez como é gostoso o seu silêncio. Converso sozinho sobre a solidão da alma, e ele repete: jamais. Talvez eu seja mesmo louco, vítima de uma esquizofrenia onírica. Ou talvez seja essa a minha realidade, uma que não caiba em pré-definições nem em pós-sabedorias. Aos que me querem sóbrio, cada centímetro do que faço bem. Aos que me abocanham inebriado, o mais doce dos meus delírios.
Nem só do gozo esparramado no colchão vive um colecionador de corpos. No momento em que penetro em suas vidas, dá-se uma troca inevitável: o orgulho por um sorriso, uma memória por um orgasmo, um vazio espiritual por meus fluidos mais mundanos. E nessa troca, talvez ainda estejam aqui, todos atrás de mim, fantasmagóricos em meu quarto, esperando o momento de me devorar vivo sem saber que me oferecem deleite e não punição. Me imagino engolido e regurgitado, agarrado a seus segredos. Peço demissão a mim mesmo. Quero outra vida, uma que de tão nova ofusque a visão e me permita errar tudo outra vez. Repetiria um por um os meus erros, caprichando melhor na pasta de dente, na arrumação do sofá. Esticaria o encontro dos lábios até o infinito, de um modo que o ar que de mim exalasse a mim retornasse com a umidade de seus pulmões.
Revivendo meus delírios e infortúnios, me invade a sensação de que nem toda cicatriz é um risco na pele, uma ranhura na parede. O lobo não foge ao seu instinto. De um moleque de porta de bordel a um garoto de programa de luxo, sou quem sou. E faria Darwin enlouquecer junto comigo, se uma noite e uma dose ele me desse.

Acho que um dos trechos mais bonitos da história so far. Adorei as escolha das palavras, a descrição dos pensamentos e a analogia das sensações. Simplesmente lindo. Vc é um grande escritor, querido. Mais ainda uma grande pessoa. Beijo grande.
O curioso é que comecei esse texto pensando em uma frase que por fim não usei. Ficou para a próxima. Obrigado pela visita, queridão. Beijo.
Sem palavras…
Realmente medo do q pensar, sem invasões… Qro sentar com o Icaro e viajar um pouco, mas algo particular..rs
Beijos
=x
É, ZJ. Só faltam 28 agora para tentar publicar rss Bjss!
“Fecho os olhos para mantê-lo vivo nas entranhas, aprisioná-lo no calor das memórias, sendo eu também prisioneiro de sua ausência. Eu amei isso!E deixo resistrada minha devoção a esse mago das palavras tão intimas.
beijos mordidos na carne desnuda.