Três meses se passam sem nenhum contato do pintor. Sigo indo a festas, enchendo os bolsos de Patrícia ao atender aos clientes com meus frutos tipo exportação. Um gaiato decide reclamar do meu desempenho, do olhar perdido enquanto declamo as palavras combinadas na conversa prévia regada a falsidades. Sou obrigado a um segundo encontro, de graça, para compensá-lo, pois sua esposa anda muito deprimida e dinheiro é investimento, a situação na bolsa, você deveria saber, uma crise que só vendo. Um jeito amador de falar ponha-se no seu lugar, com um sotaque brega capitalista. Saio de lá esfolado, corpo em cacos, e deixo os dois exaustos na cama, com a bandeja de café que eu preparei, uma ajuda para curar a ressaca moral.

No dia seguinte, Patrícia me liga dizendo que está tudo bem, sem máculas no meu currículo ou queda no valor de mercado. Reforça que faz parte do negócio saber fechar feridas e massagear o ego alheio e que se continuar assim blábláblá. Ponho o telefone na mesa e me sirvo de água gelada na cozinha, um calor dos infernos. Volto em tempo de me fazer presente, você tem toda a razão, como não, anos de experiência. Vou cavando espaços e ensaio um belo rodeio para perguntar de Gabriel, um ensaio mal programado que não disfarça em nada a ansiedade que ele alimenta com seu sumiço. Não é que eu queira apenas um cliente, eu digo, e que para ela não faz a menor diferença contanto que a agenda continue cheia.

Engulo seco o seu silêncio, o tilintar de preocupação. Isso não está bem, é coisa que passa, não podemos acreditar em tudo que vemos, não nesse ramo. Tenho vontade de rir da palavra ramo, uma vontade legítima pelo menos. Sei que ela não argumenta para me consolar, mas para me lembrar de que o ilusionista sou eu, que posso ser o que quiser e é por isso que me querem tanto. Se fosse real eu não estaria ali, jogando conversa fora no desespero de conseguir um número de telefone. Será que eu me enganei contigo, meu rapaz? E então marcamos um acerto de contas, cara a cara, naquela noite.

- Não é possível que ele não queira mais nada – digo cheio de mim, escondendo que raspo o tacho de minha auto-estima.

- Mas ele quer, querido. Só que não é com você.

A pronúncia cantada de querido, milimetricamente ritmada por sua língua sibilante, me corta das costelas ao ventre, deixando fígado, pulmão e rins espalhados pelo chão. O coração se aguenta no lugar, preso às artérias, se recusando a perder sua posição de prestígio. Por um segundoduvido, mas ele bate. Bate bombeando para o vazio dos órgãos que não existem mais.

Meu silêncio é resposta digna o suficiente para manter meu emprego, mas não pretendo me arriscar. Tento ler nos olhos de Patrícia quantos já estiveram na mesma situação, quantos modelos e musas foram aprisionados nas telas de Gabriel, mas nada escapa. Melhor assim. Levanto do sofá batendo um pó invisível das calças, rebootando no cérebro o instinto predatório. Cato em minha adega o vinho mais caro que já comprei para comemorarmos uma futilidade qualquer. Resolvo contar o que fiz com o casal insatisfeito, repito movimentos, imito entonações, e ela seca os olhos no seu riso engasgado.

Conforme a garrafa esvazia e o líquido tinto estreita o espaço entre nós, me debruço sobre sua superioridade ilusória, conquistando carícias, arrancando um beijo, e a arrasto para a cama.