Ainda de olhos fechados com a brisa da janela refrescando a noite, me imagino enterrado em uma cova profunda feita sob medida para os meus destroços. Das histórias que invento por inventar só para combater a lerdeza das horas, escolho ser derrubado por inaptidão no meio do campo de batalha. O breu não permite que eu veja de onde veio o tiro, se fogo amigo ou inimigo. Ponho a mão no peito até que ela se avermelhe e tombo na areia de um parque, com crianças de fralda ao meu redor. Perco o Oscar de melhor ator no último instante, mas ganho o de melhor fotografia. Como bom indigente sentimental, dispenso o aroma amadeirado do caixão e o terno de defunto. Graças a uma cláusula do contrato, posso mergulhar diretamente na terra úmida, deixando que ela me invada os ouvidos e a boca e me prive de qualquer comunicação com o mundo exterior. Também não estão lá as homenagens, os discursos. Ninguém para dizer se fui um herói, um covarde ou só mais um tolo entre tantos. Meu enterro é uma ode a mais pura solidão, mas cansei de sofrer sozinho.
Pelo apartamento, nem rastro de Patrícia. Se não fossem os arranhões nas minhas coxas, consideraria tudo um delírio de vingança. Manutenção de rotina. Ainda lutando contra a inércia, procuro o celular nos móveis, pelas frestas, entre as almofadas. Coleciono nele pequenos tesouros que me são proibidos, telefones de clientes particulares e pessoas que conheço nos vaivéns das colunas sociais. O objetivo é um ator em começo de carreira que faz uns bicos como dealer no intervalo das novelas. Sou contra destruir o corpo, prejudicar a ferramenta de trabalho, mas uma semana de férias não fará mal ao bolso de ninguém.
Chego já pela noite em sua casa, atravesso a pseudofesta que rola na sala e vou direto ao quarto que me foi reservado. Pago na moeda que prometi, de língua quente e olhos profundos. Repito a dose para expandir meu networking e também porque eu posso. Recebo em troca o primeiro comprimido mágico que arrancará das narinas o cheiro de terebentina. Mais tarde, o segundo que removerá da pele as texturas que aprenderei a odiar como uma forma de esquecimento. Ouço batidas na porta e um fantasma se materializa na minha frente. É ela, minha sombra no sol, minha atriz querida que se findou numa overdose. Troca algumas palavras com o dealer, pede para ficar.
O dealer sai com cara de preocupado. Ela me acalma dizendo que é apenas um empresário de mau humor, figura dessas que não se contraria nem em acesso de raiva psicodélico. Com algum esforço, imagino seu chilique querendo saber onde foi parar o anfitrião da festa, que sumiu no quarto com um sujeitinho que nem serviria de figurante. Enquanto trocamos piadas sobre o assunto, ela me acaricia na barriga, pede que eu feche os olhos. Traz na ponta da língua o comprimido que eu só deveria engolir horas depois. Sinto ecstasiado a descida a seco pela garganta, sua língua umedecendo meus lábios entorpecidos. Me bate uma louca vontade de sair para dançar uma música que só eu escute, mixando a melodia que se espalha pela casa.
Chego a tocar a maçaneta, puxá-la pelo braço, mas ela não cede. Não é em mim que está interessada, mas no conteúdo das gavetas. Enquanto colore as narinas, espio o desenrolar da festa como um jornalista enrustido. O dealer bajula seu futuro empresário, oferece material de primeira, tenta recuperar o sorriso e a carreira. Nem acredita quando saio do quarto, dançando sem parar. Giro seguindo os riscos que se desprendem das lâmpadas, cintilantes como minhas pupilas. Acompanho cores que jamais aprendi a catalogar.
É num grito de euforia, num pulo mais alto para pegar silfos encantados, que me viro para a varanda. Sinto o ar ir embora sem se despedir. Nem um até amanhã, volte sempre. E não é que a história de que o desgosto nos deixa instantaneamente caretas é verdadeira? Por instinto, volto para a minha cova até a grama roçar meu nariz. Tiro forças farmacoquímicas sabe-se lá de onde para ir enfrentar o mundo. Talvez não seja tão ruim assim pular sabendo o que me espera. Apoiado nas grandes da varanda, reencontro as cores de Gabriel. Sorridente, meu pintor apresenta sua nova companhia. É uma pena que eu não saiba voar.

Mais um lindo capítulo – mesmo que triste – dessa linda história. Adoro a forma como você consegue traduzir em palavras o sofrimento quase visceral da personagem. Mesmo assim, espero que os próximos capítulos reservem momentos mais felizes aos dois. Parabéns por mais um excelente texto! =*
Ficou muito bom e dentro da perfeição que só você consegue. Forte,com aquele toque urbano e moderno.Adoro textos assim que dizem sem dizer.Perfeito meu querido escritor.Beijos mordidos.
Compania e solidão, querer e não querer, vida e morte, mais uma vez solidão… Tem horas que eu só queria saber voar, ainda bem que não moro em prédio, senão com certeza a janela seria meu canto…
Parabéns pelo belo texto moço… =)
Beijo
“Acompanho cores que jamais aprendi a catalogar.” Ah, o delírio! Voei…