Das grades lustradas da varanda, me atiro. Me retiro do recinto numa única tacada, numa jogada que preserve meus bons modos, impeça os gritos não gritados, sopre de volta os bem doloridos que implodem gargantas, fazem ranger os dentes, obrigam o corpo a desabar. Tento mirar as estrelas, a ponta da antena de um edifício, mas é a imagem dele que vejo contra a escuridão, o sujeito que roubou a minha arte. Estico a mão para me segurar em transmissões via satélite, uma distração qualquer que evite a queda ou que a acelere de uma vez. Ineficiente em meu rancor, a nada me apego. Continuo a desabar acompanhado da coleção de instantes que se projeta na parede, se enfileira quadro a quadro, me persegue quadra a quadra, até faltar o ar.

Não lembro ao certo como cheguei nessa esquina, se de corridas na escada ou de ansiedade na porta do elevador construí o meu caminho. De certeza tenho o vento impresso em minha cara, um vento que descamou restos e levou sujeiras invisíveis, arrancou um cílio que não se sustentava mais. Quero fingir que ele é uma dessas coisas pequenas que só nos atrapalha, que posso descartá-lo com a ponta dos dedos. Quero mandar Patrícia e seu pintor para o quinto dos infernos, um quente, católico e tradicional, que derreta as plásticas d’uma e chamusque os olhos d’outro, me içando de seu verde de alto-mar. Mas o que quero é vago diante do que sinto, e uma dor de canelas doídas e joelhos ralados me joga na cara que nada irá mudar. A lufada forte como um soco não me quebrou os dentes nem varreu as rugas, deixou somente um aperto que me embaralha as entranhas e não se desfaz.

Experimento a ardência no nariz de quem passa muito tempo sem respirar. Sinto o cheiro da queda livre, o cheiro que se sente quando tudo em que se acredita se desmancha num esguicho de aguarrás. Minha sorte é que esse vento seca por dentro e por fora, inibe as lágrimas e o sentimentalismo, me devolve ao modus operandi da sobrevivência. Quando sinto a ponta da língua raspar no asfalto, sei que é hora de abrir as asas e voltar a voar. Pouso com maestria no lugar de onde nunca saí e cumprimento meu interlocutor. Meus olhos rapineiros percorrem seu corpo, decoram suas curvas, simplesmente relembram o sabor da presa.

Pedindo um drinque como quem é de casa, me posiciono onde sou mais noir, refazendo o jogo de luz e sombras que me cai como um terno de grife. Pelas palavras que pesco no ar, começo a me inteirar da conversa e respondo as perguntas acumuladas durante o vôo.  Opto por não usar as garras, já que Gabriel agora é testemunha de uma festa onde eu não deveria estar. Mastigo frases manjadas prontas para cuspi-las como o mais doce carinho quando o dealer bate no meu braço. A impressão de que serei colocado pra fora se desfaz assim que identifico seu sorriso. Mesmo aves de rapina podem ser predadas, deliciosas iguarias.

Sem muita surpresa sou apresentado ao empresário, aperto de mão, muito prazer. Sua roupa impecável e o tom cinzento de minhas asas dizem muito a nosso respeito. No fundo no fundo, só mais um, pensamos juntos, ambos enganados. Ele fala de Patrícia com a intimidade de um velho amigo que trepa por diversão sem precisar pagar. Meu sangue de refém gela por um segundo, mas acabo rindo ao perceber que o pesadelo que levarei para casa essa noite não é mais o rosto de Gabriel. Acompanho o bom papo como se não estivesse ali por acaso, escondido, num gesto de rebeldia que poderia custar meus trocados.

Entre um gole e outro e risadas programadas, encaro o dealer nos olhos e proponho um acordo silencioso. Um álibi por uma carreira. Não é preciso pedir duas vezes.