De vez em quando me vem em mente uma noite de Natal com a família na mesa, uma garrafa de vinho vazia e a outra pela metade, todo mundo papeando naquele clima de final de festa em que os assuntos mudam numa piscada. Eu não me lembro do contexto da conversa em que meu tio comentou que “os CDs hoje em dia só tem duas músicas boas e o resto não presta”. Isso no final da década de noventa. Nossos gostos musicais eram bem diferentes e, consequentemente, a qualidade do que ouvíamos, mas não pude deixar de dar certa razão. Alguns artistas pareciam preparar duas ou três músicas para tocar na rádio e encher o CD com o que sobrou do tempo de aluguel do estúdio. Se você olhar para a sua coleção na estante certamente vai achar um par de exemplos assim. Isso se ainda não tiver transformado as boas em mp3 e vendido os CDs no sebo.

Hoje com o mercado de músicas digitais, a situação tinha tudo para caminhar nessa direção que não sei se é a melhor escolha, então fico feliz de perceber que, pelo contrário, o pessoal tem se esforçado para entregar um cd redondo aos fãs, com várias músicas com potencial para tocar na rádio, mas sem cair na pasteurização.

Esse é o caso de A Kind of Bossa, do Rodrigo del Arc, mais um nome da nova geração da música brasileira que conheci através da minha irmã. O Rodrigo flerta com a sonoridade brasileira da bossa e do samba, acrescentando seu flavor pessoal às composições. Pensei em usar aqui o clichê do “olhar para o passado tendo um pé no futuro”, mas parando para pensar, ninguém diz que o rock está velho, que o rap está velho, que o pop está velho, então não quero prender a bossa nessa amarra temporal, ainda mais resenhando um CD que aposta na contemporaneidade.

Slip to precision é um sambinha de percussão bem trabalhada que poderia estar em um cd da Roberta Sá. Gosto porque foi feita para seguir num crescente até o clímax e é uma boa apresentação do CD. Estou curioso para ouvi-la ao vivo. Sometimes me lembra muito dos áureos tempos do George Michael, uma das minhas prediletas. Se em Slip to precision Rodrigo del Arc usa o fraseado sílaba a sílaba para destacar o ritmo, em Sometimes as palavras são pronunciadas mais lentamente, permitindo que ele explore ao máximo a sua voz, casando direitinho com a melancolia da letra. Essa melancolia também vale uma escutada em Under the sea, a mais atmosférica do cd. A letra traz uma alegoria de despedidas e solidão muito bem sacada, com direito a um “whatever” no final no maior clima de “apesar disso tudo, dane-se”. Ironia poética. “Some time ago we used to say, and you said it will last forever, But forever had an end” The question song ganhou videoclipe, toca na rádio e você consegue em download gratuito no myspace do cantor. É letra de fim de relacionamento, cheia de perguntas jogadas ao ar. “Why did you fake, why did you take that from me and then brake all the rules?” Apesar de ser a canção de trabalho, gosto só do final estilo Jorge Ben. Prefiro a levada de Trip, que me remete a surf music, um clima de praia, de viajar por aí caindo na estrada que me deixa saudosista. “Posh Motels, fancy cars / A blue bird stroke in my guitar / While everyone keeps knocking on my door.” Pena que acabe tão rápido. Para fechar, uma que não poderia faltar nessa lista resumida é A place to remind, um dos grandes acertos do CD. Tem um quê de ritmos nordestinos (não, o resenhista não está louco. Escuta lá com atenção) e um instrumental que vale ouvir uma segunda, terceira, quarta vez.

Intimista sem ser reducionista.