06. A teoria do banco especial do metrô II

Como eu imaginava o capeta não apareceu para responder. Banquinho especial está lá desde que o mundo é mundo, certamente o capeta – que também está aqui desde que Brasília é Brasília – faria um comentário proveitoso. Uma pena, não podermos mais confiar em ninguém. Então, lá vou eu:

Sabe aquela pessoa que estica um real para o morador de rua, finge para si mesmo que resolveu o problema da humanidade inteira e se sente tranqüilo para torrar o dinheiro no shopping depois? É uma solução barata, mas que não deixa de custar um real. Um real, meu amigo! Os tempos estão difíceis. Aposto que você se abaixa na rua para apanhar um real. Pois o banquinho especial sai de graça, é uma revolução. Afinal, você já estava lá mesmo, indo para algum lugar no fim da linha.

Com o banquinho especial você finge estar fazendo caridade e exerce todo o seu poder de julgamento, sente-se poderoso, volta aos tempos da guilhotina, das lutas de gladiadores. Quem acredita mesmo no banquinho especial não senta nem no liberado. Fica em pé apertado com os demais. Igualdade, Liberdade, Pisada no dedão e Fraternidade.

Mas sentando você pode escolher para quem vai dar o lugar, veja que interessante. Você, é você mesmo, dono da verdade absoluta e da permissão universal, decide qual dos pobres infelizes na sua frente teria a graça concedida de sentar no lugar que anteriormente foi seu. É de uma nobreza que me espanta. Posso até imaginar você sentado, um magrinho na sua frente de pernas trêmulas. Você estica a mão com polegar em riste. Os olhinhos do candidato se enchem de água e você, vromm, dá aquela virada repentina de polegar para baixo (favor imaginar uma risada malévola neste momento). Quanta decepção! Serão anos de terapia para o infeliz. Você então levanta sorridente, acerta a barra da camisa e senta de novo (outra risada).

Assim como os vírus e as bactérias, nós evoluímos rapidamente e em nosso esquema de falso poder passamos a escolher alguém para sentar em nosso lugar mesmo quando vamos descer do metrô. Não basta simplesmente sair, tirar a bunda do banco. Você antes cutuca alguém a quem queira favorecer, puxa para perto do banco e levanta. Não sei por qual razão, mas Brasília voltou aos meus pensamentos.

Outra idéia brilhante é parecer caridoso com o banco dos outros. Você já está de pé mesmo, se ferrou, acordou tarde, por isso não pode traficar banquinhos. Logo, escolhe alguém e diz: não está vendo que tem uma senhora ali de pé, levanta rapaz. Senhora, vem que o garoto vai levantar. Vamos, vamos.

Chega então clímax: senta senhora! Não te perguntei se estava cansada! Tirei o moleque do lugar e agora vou te fazer sentar o rabo aí querendo ou não!

Outro dia um cara passou mal. Desmaiou. Acordou tarde, correu, baixou pressão. Ficaram todos olhando para a minha cara, esperando que eu quebrasse o lacre e berrasse: emergência! Eu fiquei olhando para o cara desmaiado, que apoiado na parede do vagão já se levantava. Quase me bateram. Quebrei o lacre, parei a vida de todo mundo e pedi ajuda. Na estação seguinte o cara já estava bem, queria seguir viagem. Colocaram o sujeito para fora quase na porrada. Eu quis te ajudar e você não quer ser ajudado? Quer sim! Adios, seu traste.

Bookmark the permalink.

2 Responses to 06. A teoria do banco especial do metrô II

  1. Isso tudo me parece muito esquisito.

  2. kkkkkkkkkkkkkkkkkk
    A revolta contra o banquinho cinza continua!
    Já tive essa discussão muitas vezes na minha vida…
    beijo

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

*

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>