07. A teoria do banco especial do metrô III

A entrevista com o capeta aconteceu dentro do metrô. Ele sugeriu que ficássemos vagando entre as linhas, uma questão filosófica que não entendi muito bem. Logo de cara me surpreendeu a idade. O sujeito era novo, trinta e poucos, e em nada lembrava a figura pitoresca que eu imaginava. Roupas simples, diferente do cara cascudo e peludo dos filmes de terror.
- Como prefere que eu te chame? Capeta? Demo? Satã?
- Satã era meu pai.
- Pai? Não sabia que você tinha um pai.
- Todo mundo tem. Ou você acreditou que Maria era virgem? – aqui ele me deu um tapa no ombro e começou a rir. Um riso tímido que logo desapareceu em um engasgo – É o cigarro – justificou – Fumo demais.
- E Satã trabalhava muito?
- Meio preguiçoso. Se aposentou no último ano de governo do FHC. Estafado.
- Fez bem, essas leis mudam toda hora. Mas você não respondeu como te chamo.
- Pode me chamar de Príncipe dos Infernos. Pí, para os amigos.
- Muito prazer, Pí. Lucas Moginie, ou P.
- Conheço você. Desde pequeno, aliás, mas isso não vem ao caso. Gosto muito dos seus livros.
- Agora estou surpreso.
- Leio muito quando estou viajando. Os transportes são caóticos nos reinos inferiores. Igual aqui. Fui eu que inventei a roleta do ônibus, sabia?
- Vivendo e aprendendo. Viaja muito, Pí?
- O tempo todo. Sou muito requisitado para conselhos.
- O que veio fazer no Rio de Janeiro?
- Curtir o dia do sací. Sou muito patriótico.
- Patriótico?
- Sim, sou brasileiro.
- Que furo de reportagem!
- Se Deus é brasileiro…
- Parentesco?
- E não falam que sou neto do sujeito? Pode ser até mentira, mas todo natal chega uns presentinhos legais lá na minha gruta flamejante. Todo mundo vem com aquele papo de que foi o bom velhinho que colocou na árvore, mas já tenho uma certa idade sabe… não caio nessas histórias.
- Deve ficar muito tempo?
- Pouco. Antes do ano novo eu vou embora.
- Achei que gostasse de festa.
- Detesto multidões. Carnaval então… viajo pra serra. Gosto do clima frio.
- Pí, eu vou falar uma palavra e você fala a primeira coisa que vier em mente, pode ser?
- Claro, sem problemas.
- Cor
- Verde
- Verde? Não dá pra ter mais impacto?
- Está certo, vamos de novo.
- Cor
- Verde cadáver pútrido!
- Perfeito, você pegou o espírito.
- É o que mais faço, pegar espíritos. – e um novo tapa no ombro – Escuta, vamos parar com isso, vim aqui falar com você.
- Pois diga.
- Quero que escreva a minha biografia.
- Tão novo?
- 506 anos, meu chapa.
- Fico lisonjeado, mas não posso aceitar.
- Então vou te cobrar Direitos autorais.
- De quê?
- Dos textos do teu blogue! Capeta pra cá, capeta pra lá… pensa que não vi?
- Até você quer me explorar?
- Você explora a minha imagem e agora se faz de vítima?
- Ah, quer saber? Vai andar de metrô sozinho, filho dos infernos.
- Muito melhor que aquele teu apartamento apertado, cheio de goteira.
- Sem educação!
- Aproveitador! Eu te processo! Fui eu que inventei o advogado também!
Desci do metrô na Uruguaiana. Uma confusão de gente e barraquinhas vendendo tudo o que é tipo de contrabando e produto roubado. Vi o dono de uma loja colocando um ladrão para fora:
- não respeita mais quem trabalha?
- e você que não respeita um desempregado tentando tirar um troco.

Sentei na calçada, deprimido. O cheiro de espiga de milho entrando pelo nariz, o pé dentro de uma poça suja. O vento soprou panfletos de um novo “espaço de laser” ali por perto. Uma batida funk dominou o remix sertanejo brega que estava tocando. Resolvi descer a escada e voltar para o metrô. Se tivesse sorte, Pí ainda estaria lá.

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3 Responses to 07. A teoria do banco especial do metrô III

  1. ZJ says:

    E as pessoas ainda acham que não existe coisa pior que ser explorado pelo “PI” rs…

    Adorei, pra varia um pouco.

    Beijos Lucas Paes Moginie…
    Sou sua sombra..rs

    Beijos Eric…^^

  2. E ainda dizem que “O Inferno Somos Nós”…
    beijo

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