Ele arranca uma depois da outra. Os canhões contendo sangue gotejam sobre a pele. As penas negras já cobrem metade do chão da cela, mas o torturador não pára, mesmo sabendo que o metamorfo preso na sua frente não se pronunciará sobre o crime. Isso de fato não o incomoda, já que segue a profissão com gosto, principalmente com o bolso cheio. Ou metade dele. O restante só na última pena. Ainda faltam tantas. Decide por uma das costas, próxima à espinha da aberração. Tenta imaginá-lo de bico, pois é uma boca que apresenta no momento. Há algo muito próximo a uma membrana colado debaixo dos braços. Um vestígio da transformação. Ser atordoado com tranqüilizantes bagunça o processo. Pelo visto, os deixa ainda mais asquerosos. Tiraria fora a membrana se já estivesse na tesoura. Mas gosta da boca, gosta de um homem-pássaro que tenha lábios. Pensa em beijá-lo, mas teme uma mordida. Os metamorfos são imprevisíveis. Amarrados, pendurados pelos pulsos no teto, sangrando como um boi no abate, mesmo assim são perigosos. Podia se lembrar do último que matou por encomenda. Havia se metido com a garota errada. Humanos e metamorfos juntos, quem poderia imaginar. A família imaginou, foi além. Não aceitariam um berço cheio de pêlos. A menina merecia coisa melhor.

O novo caso era mais interessante. Nada de famílias recalcadas manchando seu currículo. Fazia por justiça. Ou vingança, dependendo do referencial. Metamorfos são poderosos de modo geral, mas basta um único dardo para que desabem como crianças. Malditos monstros. O que o imbecil realmente pensava? Que poderia matar um mago atrás do outro sem que ninguém percebesse? É preciso entender que alguns nascem para cientistas, outros para cobaias. Voar pela janela aproveitando-se dos ossos ocos não adiantou. Pneumáticos. Reumáticos. Traumáticos. Quebrariam do mesmo jeito quando passasse ao martelo. Tombaria outra vez sem forças, como acontecera no instante do disparo. O corpo caindo no meio do caminho, longe de um lugar em que pudesse se agarrar, direto na armadilha de contenção. Estúpido. Um estúpido assassino de magos que lhe garantiria um salário gordo. Magos pagam bem, não deixam barato, sem trocadilhos.

Ele não era o melhor. Deixava rastros, não caminhava invisível, tinha mais registros na polícia que batedores de carteira. Mas carregava a fama de uma morte lenta que servia como um cartão de visitas diferenciado. Nunca contaria que o processo nada tinha a ver com crueldade, era pura indecisão. Por exemplo, os alicates. Escolhê-los sobre a bancada era como uma relação de amor, quase carnal. Tinha que sentir a lâmina, romper levemente a pele da ponta dos dedos até que seu próprio sangue derramasse deixando uma leve sensação de ardência, um desejo de mais que se saciaria no corpo de outro. E eles eram tantos. Como decidir entre os diferentes bicos e cortes de maneira que não fosse experimentando em si e nos que cruzavam seu caminho?

Quando os meses passavam mais lentos e sem encomendas, deliciava-se sozinho, mas o gozo só é completo a dois. Ao contrário da família da vítima anterior, não tinha preconceitos. Gostava de qualquer espécie. Humano ou inumado, todos lhe serviam bem. Trazia em si a arte, independentemente do parceiro. Gostava lento, profundo e violento. Alicate, punhal, martelo. Poucas vezes chegava no serrote. Ah, o serrote.

Há algo paradoxal em um pássaro que não canta, só geme. Se ao menos dissesse quem o havia contratado para matar os magos. Um único nome e estaria livre para morrer depressa. Pegaria o cadáver nos braços, faria o último carinho com o corpo ainda quente. O beijo da morte. Mas ele nada falava. Nem xingar ele xingava. Talvez não soubesse.
E ainda havia tantas penas.

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Conto enviado para o projeto Cryacontos da Rita Maria Felix, que me convidou pra participar do evento Depois das Cinzas (hoje é quarta-feira de cinzas).