Areia nos dentes, de Antônio Xerxenesky
Posted by Eric Novello | Under literatura Quarta Out 22, 2008Faroeste com zumbis. Digo assim, logo de cara, para conquistar o espanto na primeira linha da resenha. Se falhei miseravelmente, me arrisco mais uma vez: faroeste com zumbis que usa metalinguagem. Foi? Então vou direto ao ponto. Areia nos dentes, o primeiro romance de Antônio Xerxenesky, é um pastiche assumido, inspirado nos filmes de Sergio Leone e Clint Eastwood, filmes vindos de uma época em que subverter gêneros sem irar os fãs seria impensável. Prestar uma homenagem enfiando zumbis no meio dos bons e velhos saloons como arrisca Xerxenesky seria forca na certa. E é daí que vem a graça.
“A única coisa que impede a Mavrak verdadeira de ser uma cidade fantasma é o fato de que é habitada”.
Uma das condições do pastiche é ser um trabalho de recorte e colagem e é fácil perceber isso em Areia nos dentes, sobrando até para Romeu e Julieta. Tudo começa com alguns integrantes da família Ramirez tentando descobrir o que os irmãos Marlowe estão tramando no porão. As duas famílias são rivais há tempos, apesar de ninguém lembrar direito por quê. O importante é que, seja lá o que os Marlowe estiveram aprontando, com certeza não é coisa boa para os Ramírez. Como dar uma de xereta na casa do rival nunca acaba bem, Martín Ramirez tem que correr muito para não morrer. Quer dizer, ele tenta. Apaga as pegadas nas areias do deserto, conta com a ajudinha da chuva, chega tranqüilo em casa… e toma um belo tiro.
“O vento convidava a areia para dançar uma valsa. Ela bailou pelo ar com elegância, e grãos assentaram-se nas frestas dos dentes de Juan. Areia nos dentes. A pior sensação que conhecia. Era sentir o tempo no corpo, senti-lo tão perto e tão irrefutável. Tomar consciência de que um dia, talvez muito em breve, ele, Juan, estaria abaixo da areia. (…) Esquecido”.
Vingança, clama Miguel Ramírez, pai de Martín e chefe do clã. Mas os Marlowe não assumem o crime. Para ajudar a resolver a questão, chega um xerife com a missão de por ordem na casa. Um xerife que recebeu uma carta anônima. Mas quem em uma cidade que resolve tudo no tiro quer a presença de um xerife? Só pode ter sido Miguel, acusam os irmãos Marlowe, mas é a vez do patriarca negar a autoria. Pelo sim, pelo não, os Marlowe ficam de olho e Miguel começa a arquitetar com Juan, o filho que sobrou, um modo de honrar a morte de Martín antes que os Marlowe matem mais alguém. Só tem mais um probleminha, Juan é muito ruim de mira.
Nesse ponto, já deu para notar que o humor é um ingrediente importante do livro. Não que ele vá arrancar risadas histéricas, mas cumpre a missão de deixar o clima de inacreditável pairando no ar, alimentando o absurdo até o ponto máximo,a chegada dos zumbis.
“Uma pessoa cochichou para outra que o nome da cidade havia sido mesmo Maverick, uns duzentos anos antes, mas a placa com o nome teve algumas letras comidas com o passar do tempo, e um bom cidadão, por questão de sonoridade, adicionou a letra ‘a’ no meio”.
Mas Areia nos dentes tem outras graças, e talvez seja melhor substituir metalinguagem por muitas linguagens. Xerxenesky não brinca apenas com as histórias, ele brinca com a forma de contá-las, desmanchando parágrafos em opções de múltipla escolha, mudando fontes, embaralhando letras, mudando a narrativa para a formatação de roteiro, dividindo página ao meio, usando o aspecto visual para passar as sensações. Há vários elementos que tiram o leitor da ilusão e o deixam perceber o jogo.
Para melhorar, lá pelas tantas ainda descobrimos que o livro está sendo escrito no México por Ramírez, que decidiu contar a história dos seus antepassados e que, por uma coincidência dessas, soube de um escritor que está escrevendo um faroeste com zumbis lá em Porto Alegre.
Um experimentalismo bem-vindo em tempos de mesmice.
Areia nos Dentes
Antônio Xerxenesky
Não-editora
136 páginas.
[...] Resenha no Aguarrás. Autores Fantastik.com.br - design de Carolina Vigna-Maru [...]