Assim que terminei o Histórias da Noite Carioca, comecei a rascunhar um livro que usava elementos de fantasia na cidade. Como estava muito fácil escrever o texto, considerei que deveria haver algo de errado e engavetei o projeto. Tenho para mim que sem um desafio um livro não faz sentido, por isso suspeitei.
Na primeira cena, um cara com reflexos felinos seguia um espírito pelas ruas, rumo ao cemitério. No meio do caminho, havia uma perseguição policial. A Nova Polícia tinha equipamentos high-tech, motos que quase levitavam, e estourava o carro dos assaltantes no bairro de Botafogo no Rio de Janeiro. Meu protagonista desviava daqui e dali, trocava uma ideia com os policiais e saltava o muro do cemitério, onde era acompanhado por uma legião de espíritos até um mago que controlava os ditos. Daí se seguia uma longa investigação, com magos sendo assassinados e meu detetive felino colhendo pistas, aproveitando sua capacidade de ver o mundo dos mortos para falar com testemunhas que ninguém mais enxergava. Essa história que sobreviveu 25 páginas foi batizada de Quimera, com um subtítulo brega que não conto nem sob tortura.
Criei a Quimera por um motivo simples: eu adorava os elementos de fantasia, mas não curtia cenários fantásticos como os criados por Tolkien e inspirados nele. Queria que a ação acontecesse aqui, com dilemas de uma grande metrópole. Eu andava de ônibus de casa para o colégio e via o exército nas ruas, na boca das favelas, vi um tanque estacionado em uma pracinha do metrô, a violência avisando pela primeira vez que sairia do controle no Rio de Janeiro. Viver aquilo day by day me deu a certeza de que eu tinha na cidade o cenário perfeito para uma aventura de literatura especulativa. Ao menos válido para o fã de literatura policial que sempre fui.
Eu só tinha um problema: não sabia o que fazer com aquilo, então lá fui eu encarar outros projetos, incluindo uma versão de Alice no País das Maravilhas, lida por poucos, e o Neon Azul, que será lançado agora no fim de agosto, a pedra fundamental.
Anos se passaram, me mudei para São Paulo, vizinho de uma Livraria Cultura repleta de livros estrangeiros em seus idiomas originais. Resolvi tomar vergonha na cara e me atualizar com o que estava rolando lá fora. Numa primeira olhada encontrei o White Knight do Jim Butcher e Dead Until Dark da Charlaine Harris. Jim Butcher foi um vício imediato. Charlaine Harris só fui ler quando descobri que o seriado já estava sendo filmado. Nas primeiras cem páginas, detestei. Tinha certeza de que estava perdendo meu tempo, mas, como nunca fui de largar livro pela metade, insisti. Resultado? Li os 8 livros já lançados seguidos em um mês. Vício total. Logo em seguida, True Blood virou um fenômeno televisivo, fugindo do bom-mocismo e encarando sexo, preconceitos e violência com maestria. Se o roteiro de vez em quando engole as tramas do livro e as digere de forma simplista, direção, fotografia e atuações dão sempre um show.
O fato é que Butcher e Harris me apresentaram um gênero que eu não conhecia, ou achava não conhecer: a fantasia urbana, guarda-chuva que hoje abriga dezenas de autores de estilos diversos. Descrobrir essa galera usando a cidade como palco de tramas fantásticas me fez lembrar do quanto eu gostava da Quimera. Fui lá e recuperei o arquivo. Relendo, tive certeza de que o texto era fraco. Eu precisava de mais, o leitor merecia mais, então parti para um novo esboço, uma nova criação mais densa, mais complexa, que englobasse essas páginas, englobasse minha versão de Alice e um monte de ideias novas que fervilhavam em minha mente.
Retomei o projeto de unir ambientes realistas com tramas fantásticas e tenho 30 páginas de um livro e 70 de outro, ambos em andamento. O papel de True Blood nisso tudo, e de muitos autores que conheci desde que encontrei o mago branco, foi me mostrar que era possível trabalhar temas adultos com maestria em um ambiente especulativo, sem que para isso eu precisasse perder a conexão com o público mais jovem. Sem essa sopa de referências que venho lendo e relendo, não teria achado o tom certo para os livros da série Magos Urbanos, que começa ano que vem, com os dois projetos engatilhados.
Enquanto eles não chegam, Neon Azul serve como uma porta para esse universo onde o fantástico convive lado a lado com a realidade. Ele é a pedra fundamental, meu primeiro ponto de união desses dois ambientes a alcançar o efeito desejado.
A partir de agora, vou falar mais um pouco sobre o meu universo chamado Quimera por aqui, e consequentemente sobre Fantasia Urbana. Todos os posts terão a tag “quimera”, para facilitar a vida de quem quiser acompanhar. No próximo, você fica sabendo o que o Neon Azul tem a ver com essa história afinal.