Posted by Eric Novello | Under pessoal
Tuesday Mar 9, 2010
Quando trabalhava em drogaria, a chefona da área vivia dizendo: “qualquer hora teremos advogado de porta de farmácia”, isso porque pequenos erros podem gerar grandes processos no caso de medicamentos, e o responsável por qualquer burrice dentro da farmácia é o… farmacêutico.  É um raciocÃnio simples que se aplica também à literatura: onde há animais moribundos há hienas sorridentes, onde há carniça há urubus disfarçados de homens sábios.
Até pouco tempo, uma ou duas editoras eram odiadas por publicar livros pagos. Elas estão na lista negra de qualquer pessoa antenada que saiba acessar a comunidade certa do Orkut. Nenhum segredo. Mas, a natureza humana não falha e o capitalismo também não, por isso o “uma ou duas” se proliferou. Mesmos alguns escritores que diziam ser um absurdo pagar para publicar começaram a encher os bolsos colocando a idéia em prática.
Novamente, viva o capitalismo. Se abrir loja de suco de catuaba com guaraná selvagem está dando dinheiro, logo haverá zilhões de lojas iguais. E elas só continuam abertas porque existe público para isso. O esquema pague para publicar é bem diverso e não vou aqui entrar no mérito de cada um, qual ainda pode levantar a bandeira do orgulho editorial e qual só pode levantar a bandeira do navio pirata. Há quem cobre cerca de 18.000 para publicar um romance, há os que cobram para publicação de conto, há os que não cobram nada, mas também não pagam direitos autorais. A maquiagem varia, mas o palhaço é o mesmo. Então, queria me centrar num lado da equação que vem sendo esquecido nos debates: o escritor.
O que leva um escritor em sã consciência a pagar uma fortuna para publicar? O que leva um escritor a achar que pagar para publicar um conto de 4 páginas numa coletânea de 50 autores abrirá portas na sua carreira literária?
No que diz respeito a romances, vou deixar mais para frente, onde falarei da minha experiência pessoal e do que faria de diferente hoje em dia. Agora, vou analisar o mundo das coletâneas pagas, inspirado no verdadeiro banzé que ocorreu no prêmio de literatura organizado pela Ana Cristina Rodrigues, com gente colocando perfil até de neto recém-nascido para votar e ganhar o prêmio de melhor ‘conto que ninguém leu’ do ano. Foi uma confusão inesperada e que ensinou muito à Ana e aos que estão acompanhando o processo. Eu, pelo menos, estou aprendendo bastante.
Dito isso, vamos ao mundo das ilusões.
O que me vem em mente logo de cara é a ilusão de que só é escritor quem é publicado em papel. Isso é mentira. Tem muita gente com dois, três, quatro livros publicados que eu não considero escritor. Pelo menos nunca pensei em dublês como atores nem em garçons como chefs. Quem é publicado tende a montar cercadinho em volta da casa e dizer que lá dentro a grama é mais verde. Mas você não é obrigado a acreditar nisso. Deixe o cara gastar a garganta dele botando banca e vá fazer o que interessa: escrever. Existe gente com presença na Internet e/ou chegando só agora ao papel que tem um compromisso muito maior com a literatura do que os publicados, e ser escritor para mim é isso: usar de seu trabalho criativo para firmar um compromisso com a literatura. E vale repetir: literatura. A quem publica para firmar compromisso com o próprio ego, boa sorte.
A ilusão número 2 é a do “estou pronto para o mercado”. Você passou meses escrevendo, quem sabe anos. Mandou o texto para todos os amigos do colégio, mostrou para a sua mãe, para o seu pai e até para a sua avó. Todos elogiaram, por isso você se sente pronto para publicar aquele belo conto de três páginas que revolucionará o mundo e o levará a debates filosóficos em Paris. Hum. Hora de acender o alerta vermelho. Antes de mais nada, a avaliação de um texto só é válida quando feita por alguém que entende do assunto. Um leitor voraz poderá te falar algo relevante, mas ainda assim o ideal é buscar alguém do meio literário, procurar escritores e editores. Nem todos são reclusos. Pelo menos nos meandros da Fantasia e Ficção-cientÃfica é fácil achá-los em listas de discussão e comunidades do orkut.
Supondo que alguém tenha tempo e paciência de ler o seu conto, prepare-se para o choque de realidade. Digo isso por experiência própria. Recebo muitos textos para analisar, e uma parte das pessoas comete erros graves de português sem nem se dar conta disso. Nexo narrativo? Coisa rara. No fim das contas, o importante é entender que o que te prepara para o mercado é a experiência. Escreva e leia sem parar. Não julgue seu primeiro texto uma obra de arte. Ele não é. Provavelmente ele é um lixo. No futuro, quando for tirá-lo da gaveta, você irá rir de nervoso por ter escrito algo tão ruim e de felicidade por ter melhorado tanto ao longo dos anos. Quem te elogia para arrancar seu dinheiro não merece o seu respeito.
Agora pense comigo: você quer mesmo deixar registrada em papel a sua primeira tentativa como escritor? Porque quando você estiver no seu quinto livro, sempre terá alguém para lembrar: nossa, é o autor DAQUELE conto? Justo daquele?
É algo que repetirei nas próximas partes desse debate: use a Internet a seu favor. Não corra para a primeira coletânea paga que aparece na sua frente. Avalie com a mente e não com o coração se a proposta vale a pena.
No próximo post, as ilusões número 3 e número 4.
Posted by Eric Novello | Under cultural, pessoal
Monday Mar 8, 2010
Dia desses enviaram no twitter o link do The Book Cover Archive, que me foi repassado pelo editor da Draco, Erick Santos. Com um bom acervo de capas, ele ajuda a referenciar o trabalho dos autores e capistas que se repetem no arquivo. Apesar de achar a maioria das capas muito sérias e muito sóbrias (entenda-se entendiantes), algumas valeram o garimpo., como é o caso de China Witness, de Xinran. Na área de FC&F, destaco a capa de Evolution, que você vê abaixo.
Evolution foi escrito em 2002 pelo inglês Stephen Baxter, autor a mim desconhecido com dezenas de publicações na área de Ficção-cientÃfica e com uma série passada em Roma, que entra desde já na minha lista de futuras aquisições.
Nas palavras do site do autor Evolution é “The ultimate family saga: the rise of the primitive primates who survived the fall of the dinosaurs, through ages of Darwinian shaping becoming human – and, in the furthest future, their final fall.”
Baxter escreve desde 1991 e já ganhou montes de prêmios, incluindo o Philip K Dick Award, British Science Fiction Association Award e até um tal de Seiun Award, no Japão. Como leio coisas muito pontuais de ficção-cientÃfica, capaz que ele seja conhecido de muita gente. De qualquer maneira, fica aà a dica. O site Fantastic Fiction dá uma boa idéia do tamanho da obra do cara. Você ainda pode ver por lá outra capa do Evolution, mas prefiro a que copiei no post.
Posted by Eric Novello | Under pessoal
Thursday Mar 4, 2010
- Uma mulher é expulsa de um estádio no México por levantar a camisa e mostrar os peitos durante a partida.
- Uma mãe é expulsa de um ônibus em Londres por amamentar o filho recém-nascido.
- Uma famÃlia de Nova Jersey precisa vestir a réplica em neve da Vênus de Milo a pedido da polÃcia, após denúncia de um vizinho.
- Um velho chama a polÃcia no Rio de Janeiro por ver duas meninas se beijando num bloco de carnaval.
- Um comercial de cerveja com a Paris Hilton é proibido no Brasil por ser considerado ofensivo à imagem da mulher.
Achava que o mundo estava ficando careta. Me enganei. Está ficando ridÃculo.
Posted by Eric Novello | Under cultural, pessoal
Wednesday Mar 3, 2010
Aguardado com muita ansiedade nas meias paredes do escritório (sorry, mas temos um viveiro aberto numa delas, bem no centro de São Paulo), Nada a dizer finalmente chegou à s livrarias. A crÃtica e os jornais sempre deram atenção aos livros de Elvira Vigna, mas acho que esse terá um bônus por tratar de um tema popular desde sempre – a traição – de uma forma inteligente, com todas as camadas de tinta peculiares ao seu trabalho.
Para começar a divulgação, a autora gravou um vÃdeo em que passa a sua visão sobre o tema. Todo mundo que comentou ganhou suas duas linhas logo abaixo do vÃdeo, numa lista bem engraçadinha. Numa nova etapa, quem ler o livro e enviar o seu comentário para a autora ganha um exemplar de A um passo, que é um livro vanguardista em que a história é contada não só pela autora, mas também pelo leitor durante a leitura.  Só lendo para entender o que você estava perdendo por não conhecê-lo. Aproveite essa chance 2 em 1 e comente o Nada a Dizer.
Release – Em ‘Nada a dizer’, Elvira Vigna transfigura o registro dos relatos confessionais para fazer um balanço do amor e do erotismo num mundo de relações afetivas fragmentárias e movediças. O livro apresenta a história de um adultério, narrada do ponto de vista da mulher traÃda. No entanto, mais do que o inventário de perdas e danos em que costuma consistir esse tipo de relato, o que se encontra aqui é uma investigação das motivações de cada um dos envolvidos, bem como uma discussão indireta das possibilidades de entendimento amoroso no mundo urbano contemporâneo. Paulo e a mulher-narradora, cujo nome não é revelado, formam um casal de alternativos de meia-idade, experimentados nas revoluções polÃticas e comportamentais dos anos 1960, mas que parecem não ser capazes de lidar com questões como a fragmentação de identidades ou o pensamento cÃnico de um novo e vitorioso meio social. Os laços que os unem são abalados pela entrada em cena de uma amante vinte anos mais jovem e de perfil executivo, que tanto um quanto o outro não hesitariam, na juventude, em chamar de ‘burguês’. A instabilidade marca a trajetória dos personagens. No inÃcio da narrativa, o casal de protagonistas acaba de se mudar para São Paulo. As caixas e malas espalhadas aleatoriamente pela casa são o signo de uma desordem interior muito mais profunda. Não por acaso, grande parte dos acontecimentos narrados ocorre em trânsito – na rua, em aeroportos, cafés, hotéis de alta rotatividade – e as conversas cruciais se dão no espaço fluido dos e-mails, chats on-line e mensagens de celular.
Trecho do primeiro capÃtulo:
“No dia 16 de novembro, Paulo abriu os olhos e voltou-se para a nesga de luz que passava pelas duas cortinas – a mais pesada, de um plástico cinza, e a mais leve, de um tecido branco transparente que ficava por cima da outra. Permaneceu assim por alguns momentos, antes de iniciar o preparo para que o resto todo de seu corpo pudesse acompanhar os olhos e sair do quarto escuro, pequeno e já cheio de ruÃdos: alguém que ligava a televisão no quarto ao lado; o carrinho da arrumadeira, ameaçador, no hall; o tlim do elevador. Primeiro, fez uma inspeção mental básica no estômago e boca. Não, nenhum vestÃgio do mal-estar da noite anterior, em que depois de comer um X-tudo no bar da esquina, vomitou e cagou a alma. E ao falar para si mesmo essa frase, poderia ter achado engraçado: a alma. Seria oportuno, rá, rá, se livrar da alma na véspera. Mas Paulo não era uma pessoa de muitas reflexões. Isso normalmente. Naquela hora, então, é que não havia de fato lugar para elas. Depois do estômago foi a vez do joelho e, nesse, a inspeção não poderia ser apenas mental. Então Paulo esticou a perna, dobrou e tornou a esticar. Nada de muito ruim. A dor nas costas, com a hérnia de disco, estava como sempre ao acordar: existente. Mas, no decorrer do dia, com os movimentos, tendia a se estabilizar. E, depois disso, como se já se sentisse cansado – e o motivo do cansaço seria, então, o fato de ter joelhos, estômago e costas -, ainda ficou, os olhos agora mirando a escuridão, a ouvir o tique-taque do relógio grande, feio, da mesinha de cabeceira.
Ficou ouvindo o tique e o taque e o tique e o taque, em sua previsibilidade, enquanto dava um tempo para que a arritmia se manifestasse. Era o único sintoma de sua cardiopatia, para a qual tomava quilos de remédios cotidianamente.
O dia começava.
Depois, já andando na praia em direção ao Posto Seis, seu corpo e seus mais de sessenta anos ficaram esquecidos. Andar sozinho por cidades desconhecidas era sempre um imenso prazer. Andar de ônibus ou de carro por estradas que o levassem a lugares desconhecidos, mais ainda. O Rio de Janeiro não era desconhecido até bem pouco tempo. Tinha ficado. SaÃra de lá, com toda a famÃlia, não fazia um mês. Mas se a cidade continuava a mesma, ele já era outro. E entre seus pés e as calçadas, agora surgia uma distância alegre de quem não tem mais nada a ver com aquilo.”
Como hoje em dia tem zé ruela para tudo, até para dizer que eu invento notÃcia, fica aqui o link para a versão internética do texto no Estadão, e a reportagem que saiu em papel. 
Posted by Eric Novello | Under pessoal
Tuesday Feb 23, 2010
“Fuentes consultadas por Efe explicaron que Chávez alegó que el comercio entre ambas naciones se ha multiplicado por ocho desde su llegada al poder, en 1999, pero Uribe lo interrumpió y este le pidió que le dejase acabar su intervención. La discusión pasó a los griros y Chávez espetó al presidente colombiano un “vete al carajo”, a lo que Uribe respondió con un “sea varón y quédese a discutir de frente”, explica el diario mexicano El Universal“. – No El PaÃs.
Tão animado que parece até encontro literário.
Posted by Eric Novello | Under pessoal
Monday Feb 22, 2010

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Lições da semana: se passar do prazo, problema. Trabalhar até meia-noite não vale a pena. Já que não aprendo a lição de não pegar trabalho até um ponto que não prejudique meu tempo livre, pelo menos o sono eu preservo. Como nem tudo na vida é trabalho, e isso vale até para a minha, o fim de semana foi de aproveitar o lançamento de alguns amigos e rever outros tantos.Â
Dei uma passada na Quanta para prestigiar Estevão Ribeiro e a publicação do primeiro livro de Os Passarinhos, cheio da hora que cheguei até a hora que fui embora. Uma das grandes surpresas ficou por conta de Hector e Afonso em pessoa, ou em penas, que apareceram lá na mesa para acompanhar o Estevão. De quebra, ainda levei uma camisa com a dupla steampunk. Muito bom acompanhar a evolução das tirinhas e o espaço que elas estão ganhando.
Depois, foi hora de passar no Bardo Batata para conferir os novos lançamentos da editora Draco. O acabamento dos livros está sensacional, as capas muito bonitas. Não teve quem não comentasse a capa e a diagramação de Annabel e Sarah, livro de Jim Anotsu. Tenho acompanhado a evolução da Draco desde o lançamento do Imaginários e é inegável o carinho que o editor, meu xará, tem com os livros. Fico na ansiedade de ver a capa do Néon Azul já impressa. Enquanto ele não chega, ficam meus os parabéns.
Posted by Eric Novello | Under cultural, pessoal
Saturday Feb 20, 2010
Hoje tem lançamento do primeiro livro de Hector e Afonso, os passarinhos. Participação especial de Piu Gaiman e Paulo, o Coelho.
I’ll be there.
Posted by Eric Novello | Under cultural, pessoal
Thursday Feb 18, 2010
Dia 20 de fevereiro no Bardo Batata tem o lançamento de O desejo de Lilith, primeiro romance de Ademir Pascale. O autor mistura narrativa policial e elementos de terror, com direito a detetive decadente e seres sobrenaturais. Fiz a orelha e o copidesque. O livro sai pela Editora Draco.
“Ao investigar um macabro suicÃdio, Rafael Monte jamais poderia imaginar no que estava se metendo. Tudo o que tinha era o corpo de um escritor caÃdo sobre a mesa com um punhal cravado no coração. Mas algo dizia que aquela não era somente mais uma cena de crime. Algo naquela morte diabólica chamava a sua atenção de uma maneira hipnótica e envolvente. Seu instinto avisava que estava lidando com um crime especial, diferente de todos que já havia investigado em sua longa carreira. Ao assumir o caso, mal podia imaginar que sua vida mudaria para sempre e um mundo novo e sombrio se abriria diante dos seus olhos.
O desejo de Lilith fala de uma conspiração contra toda a humanidade, um segredo tão antigo quanto o próprio homem, revelado graças a um erro na tradução da BÃblia e ao trabalho incansável de um detetive. O que pessoas tão diferentes como Platão e Jim Morrison, Vlad Tepes e Mary Shelley, Aleister Crowley e Kurt Cobain teriam em comum? O que haveria por trás de suas obras, vidas e mortes? Rafael Monte enfrentará o ódio e a maldade de uma criatura milenar para chegar até o fundo dessa história, contando com a ajuda de seres que vão além da imaginação.
Ademir Pascale apresenta em seu primeiro livro um romance sobrenatural ambientado em São Paulo onde nada é o que parece. A cada virar de páginas, tudo pode acontecer. Mergulhe você também nesse mundo de intrigas e suspense, desconfie de sua própria sombra. Venha descobrir qual é O desejo de Lilith. Amanhã pode ser tarde demais”.Â
Posted by Eric Novello | Under cultural, pessoal
Wednesday Feb 17, 2010

Ah, o Carnaval. Essa mistura de cores. Direto do twitter do astronauta Jose Hernandez.
Parabéns a Unidos da Tijuca pela vitória.
Eu trabalhei de sexta a quarta, non stop, até onze da noite. Escrava Isaura remixe no cavaquinho.
Posted by Eric Novello | Under cultural, pessoal
Wednesday Feb 10, 2010
É hoje o lançamento de Estudos sobre a leveza, do Fernando Torres, que tive o prazer de orelhar. Será no Bar Exquisito, na Rua Bela Cintra 532, por volta de 19h30. Devido à minha nova rotina de monge de horários certinhos, não ficarei por lá muito tempo, mas espero encontrar vocês! Falando niso, é hora de ir almoçar.
“Eu e Fernando Torres estávamos no bar trocando idéias sobre utopias, quando de sobrancelha erguida ele me perguntou: Eric, eu escrevo literatura realista? Claro que sim, respondi na hora, sem titubear. Fronteira de gêneros é comigo mesmo. Mas no meu livro tem um hipopótamo que fala, disse ele, derrubando minha certeza. Pensei em argumentar que o hipopótamo de Elogio à Fábula era tÃmido demais, talvez surtisse efeito, mas antes que eu pudesse organizar os pensamentos, Fernando me perguntou da formiga, que mais tarde fui lembrar, desfrutando de nova intimidade com o texto, se chamava Tainá. Dentro do formigueiro, tinha uma função a cumprir, ela debaixo da terra com sua folha nas costas, nós acima dela carregando pastas, correndo para não perder o ônibus, ajeitando o nó da gravata. Talvez o psiquiatra dobrasse meus remédios se me ouvisse falar isso, mas senti ali, naquela mesa de bar, que eu e Tainá tÃnhamos muito em comum, mais ainda do que eu dividia com o hipopótamo. Que cá entre nós, não fala nada. Bati na lona com prazer, ciente de que um bom texto não aceita rótulos, e passamos para o próximo tópico da conversa.
Os 22 contos de Estudos sobre a Leveza são feitos da matéria abstrata que se encontra no campo das idéias, daquela que escapa pelos dedos se apertarmos demais. São moldados pelas intempéries do cotidiano, juntando forma e conteúdo de modo que o leitor possa deslizar pelas entrelinhas, encontrando diferentes reflexos de si no que está retratado. Pode ser o som de um saxofone, uma lambida no sorvete, cineastas sem dinheiro como eu, a incerteza de um sonho, detalhes que facilmente encontram eco no leitor, e que aqui adquirem amplitude, sempre com as portas abertas para um novo significado.
Fernando Torres sabe que a boa literatura não impõe, ela agrega, vai se compondo de cada olhar que a destrinchar no decorrer de sua existência, fatia por fatia. Então não estranhe se a leitura passar num piscar de olhos e fluir com pura leveza. É esse o objetivo! No final de tudo, rótulos diluÃdos, é a qualidade do traço que faz a diferença, seja no contorno de um hipopótamo ou na trilha de uma formiguinha”.
Com ilustrações de Fernanda Fiamoncini.