Category: Pessoal


A Fotografia no Cinema

Dois ótimos textos, dica do diretor Cláudio Brandão. Ambos falam do uso de cores no cinema. Um da paleta insuportável que vem dominando os filmes (e muitos videoclipes), outro expandindo o assunto e falando sobre Séraphine e sua correspondência entre cores e momento dramático. Para quem curte cinema e quer ser aprofundar mais no assunto, fica a recomendação.

“The Cohen brothers ushered in the new era of digital color grading with their excellent 2000 film, “Oh Brother, Where Art Thou.” This was the first feature film to be entirely scanned into a computer, a process known as “Digital Intermediary”, or DI.  Once inside the computer, the colorist now had unheard of control over every element of the image.  Imagine tweaking an entire movie with the tools and precision that one has with their still images using Photoshop, and you get some idea of what power was unleashed”. Na íntegra no Into The Abyss, que reuniu screenshots e videos no youtube para comprovar sua tese. De quebra, visitem o Slashfilms, mostrando que a paleta maldita também chegou aos pôsteres.

“Cinematographers often express a great amount of respect for the art of painting, and many consider painters a vital source of inspiration for their work. And rightfully so, painters have spent centuries studying all that is essential to our profession, namely composition and how light interacts with and defines a scene. This makes for an interesting meet when cinematographers are given the task of depicting painters on film”. No site de John-Erling Holmenes Fredriksen.


Fronteiras da fantasia 4

Apesar do mundinho literário ser cheio de divas, o seu habitat natural é a terra da música, onde contam com um arsenal de personas tiradas do armário de acordo com a ocasião, bastando ajustar o ângulo do nariz e o tamanho do salto. Lembro quando Marilyn Manson lançou sua coletânea Lest We Forget e deu uma entrevista falando que se retiraria do cenário musical, pois não fazia sentido prosseguir em um mundo que idolatrava Britney Spears. Naquela época, os dois pareciam de fato extremos opostos de um mesmo jogo. Ele, esquisitão, fazendo seu som pesado e industrial, rasgando bíblias e se divertindo com clipes sombrios. Ela, bonitinha e virginal, fazendo um pop romântico milimetricamente ajustado no auto-tune, com videoclipes carregados de cor de rosa e toques de tom pastel.
Mal sabia Mr. Manson o que o futuro reservava aos dois. Descumprindo sua promessa, Manson voltou com novos cds, visivelmente sem saber como equilibrar seu visual de espantalho do Tim Burton com o peso da idade. Parecia flertar com uma paródia de si mesmo, mais colorida e radiofônica. Já dona Britney endoidou de vez. Virou uma Christiane F. de baixo orçamento, raspou a cabeça, deu vexame na MTV, avançou careca em cima de paparazzi e mais uma lista de bizarrices dignas do circo dark-comercial de Marilyn Manson. Superada a loucura (que é coisa que nunca se supera), Britney reencontrou o sucesso e soube tirar proveito da nova imagem.

Hoje em dia, com a literatura fantástica se fazendo mais presente, os novos autores têm passado por dúvidas parecidas. Quem eu quero ser para o público: Monster Manson ou Crazy Spears? A grande cerca no jardim das traças ainda é a que separa o grupo realista do fantástico. De um modo cínico, é como escolher entre ser lido ou respeitado. Com uma linha você ganha público, com a outra você ganha teses. Por muito tempo, os autores de FCF (ficção-científica e fantasia) se perguntaram why oh why os autores de literatura realista têm tanto espaço na mídia e nas prateleiras e nós somos esnobados pelas editoras, catalogados na pilha de reciclagem junto com a auto-ajuda? A resposta rápida é que um grupo tinha os amigos certos, mas deixando isso de lado, o ponto é que o cenário mudou. Aos pouquinhos, a literatura fantástica vai se firmando como um movimento, com autores que vendem muito bem obrigado, como André Vianco (vampiros com superpoderes), Nazarethe Fonseca (vampiros românticos), Raphael Draccon (fantasia com referências pop). Depois de cada lado espiar o gramado alheio, já tem quem diga que as editoras não dão o devido espaço para literatura realista, uma inversão curiosa de ponto de vista, mesmo que não seja verdadeira.

O que se percebeu nesse espia-espia é que a cerca que dividia o jardim em dois na verdade era baixinha e fácil de pular. Ao invés de escolher um dos lados e começar a guerrilha, os autores ficaram mais confortáveis de falar uns dos outros e até, pasmem, falar uns com os outros. Nomes de peso como Nelson de Oliveira apostaram em coletâneas híbridas, misturando ambos os grupos, como foi o caso de Todas as Guerras, que colocava no mesmo balaio autores como Fábio Fernandes e Veronica Stigger, cada um no seu estilo mas com um tema em comum. Dele também veio a Futuro Presente, essa um OGM – organismo geneticamente modificado – em que autores realistas e fantásticos tinham que escrever FC. Se o primeiro recebeu thumbs up de todo mundo, a segunda já colheu resultados diversos, pois escrever FC não é tão fácil quanto parece (e que fique claro, autores fantásticos escrevendo literatura do cotidiano também cairiam em um punhado de armadilhas). Independente disso, vale o simbolismo dos projetos, a intenção da mistura e, acima de tudo, o lembrete de que boa literatura é boa literatura, e que livro ruim é livro ruim não importa a etiqueta.

 

Uma vez, comentei dessa dúvida cruel com Saint-Clair Stockler. Para que lado seguir? Fantástico ou Realista? A resposta, muito bem colocada, foi: para que ter um só? Agora que o Saint está para lançar o seu primeiro livro, voltei a ele com uma pergunta parecida. Espia só o que ele respondeu:

“Por diversos fatores, sempre me considerei um escritor marginal, no sentido mais lato do termo: o de estar à margem. Meus interesses literários, tanto quanto autor como quanto leitor, se dividem entre “literatura mainstream” de um lado e “literatura de gênero” de outro. Sempre se dividiu, pelo que me lembro. Mas eu vivia uma espécie de “Síndrome de Dr. Jeckyll e Mr. Hyde”: me torturando ao achar que esses dois elementos, tão díspares entre si, jamais poderiam conviver juntos. Mas depois de muito, muitíssimo tempo, entendi que essa é uma falsa dicotomia e que eu poderia, se assim o desejasse, escrever tanto textos mainstream quanto de gênero. De fato, meu livro é uma mistura de ambas as correntes. Afinal, porque circular no âmbito de apenas um dos mundos quando posso me entregar às delícias dos dois? O risco, pois sempre há um risco, é você não conseguir produzir bons textos nem de um nem de outro tipo. Mas o bom de se viver num país em que a literatura (ainda) não é levada a sério é que, se você fizer besteira, quem vai se importar?”

Saint-Clair Stockler aproveita e fala mais sobre o trajeto do Dias Estranhos até chegar à editora Draco, e mostra que também vê divas por aí: “Não sou um escritor vindo, ou originado, da Internet. Já no começo da década de 90 – portanto, antes da criação da Web – eu já escrevia. Contos, sempre, porque não sei se tenho fôlego, disposição, paciência ou saco para um texto longo como um romance. Gosto do golpe mortal que é o conto, sem muita encheção de linguiça. Meu primeiro livro, Dias estranhos, que será lançado até o final do ano, é uma reunião de contos. O primeiro desses contos foi escrito em 1993. Levei 13 anos para escrever o livro todo. Pois é, sou lento mesmo”.

“No início, quando escrevi os primeiros contos, tinha aquela ambição de querer ganhar o Jabuti, de aparecer em todas as revistas literárias, dar entrevista pro Prosa & Verso (caderno de literatura do jornal carioca O Globo). Com o passar dos anos, e conhecendo pessoalmente diversos escritores, fui caindo na real. Se existe uma raça de pavões em formato de gente, ela é a dos escritores. Antes, eu guardava uma imagem um tanto quanto idealizada de pessoas que escreviam ficção, mas depois, com o convívio, percebi o quanto de vaidade, inveja, mentiras, despeito e golpes-sujos é feito o “ecossistema” literário. Isso não me fez amar menos a literatura, mas certamente me fez olhar com olhos mais realistas essa estranha criatura chamada “escritor”. Ainda mais em um país como o Brasil, em que temos ex-presidentes da Academia Brasileira de Letras com dezenas de livros publicados mas que, de fato, nunca escreveram um livro sequer (viva o ghost writer!) ou em que alguns dos escritores mais importantes e premiados pagam, por baixo dos panos, os seus próprios prêmios. É tudo Maia, ilusão, jogo de espelhos e fumaça. Então, mais próximo da conclusão do Dias estranhos,  simplesmente deixei de me importar com essa talvez possível e certamente volátil fama. Poderia até nunca publicar o livro se algo dentro de mim não dissesse: é um livro bom, que tem algo a dizer e que ressoa na mente dos seus leitores. E esse “ressoar”, para mim, faz toda a diferença”

Em suma, se você nasceu para ser Britney, não tente ser Manson. Invista no que você tem de melhor. Mas se você se sente confortável com os dois lados, não tenha medo de arriscar. Estamos em tempos de Lady Gaga. Alguém duvida que os dias ficarão cada vez mais estranhos?

Os cigarros

Vez em quando a saúde sai para comprar cigarros e pede um pouco mais de vodca na caipirinha, cada corpo sabe bem o combustível que lhe alimenta. E pode até ser que demore, mas ela volta, porque de vez ainda não chegou a hora não. O problema é que meus cigarros são comprados aos poucos, seguindo a variação da umidade e a força da tragada. Tragada de piteira tem mais charme, com lápis de olho mais breguice. E tudo muda com o ângulo do nariz, o pigarro na garganta, a direção da baforada. Vez ou outra o alcatrão encontra a volúpia, e, lá no fundo dos alvéolos, tentam te arrancar o ar numa transa proibida inclusive pelo ministro da saúde. E que saúde, ele diz, apalpando-lhe as carnes magras e as crostas de nicotina. É uma saúde que finge que vem, finge que vai, finge que vem e que foi, e quando eu vejo acabaram os cigarros outra vez num ritual tabagista de escandalizar os mais pedófilos dos padres católicos. É um estado que não se diverte nem com a mais contagiante notícia de desgraça alheia.

Vez em quando bate uma febre louca e, num delírio, a mente decide que o trabalho acabou mesmo antes de começar, e não tem nada para fazer o dia inteiro, podendo assim, só por querer, deitar duas horas de uma tarde e puxar um Rascunho para ler, enrolado nos edredons. É um delírio que afasta idéias e esquece prazos, lembrando que a gente também tem prazo de validade, estampado nas rugas, nos fios brancos dos cabelos, nas manchas no dorso da mão.

Foi a primeira coisa que li desde Milton Hatoum. Alguns Rascunhos acho muito longos, mas esse passou rápido demais. Talvez por falar lá da Young e daquela outra que se trancou num aquário para ressaltar a ausência de literatura de seus textos. As críticas que divertem ajudam o tempo a passar. Depois daquele texto inócuo da Flora, que pelo menos serviu para gerar respostas de bom tom, o Rascunho devia fazer uma Autocrítica. Uma coluna dedicada a criticar a própria crítica, cada um com a sua, e mostrar que ter humor não tira o argumento de ninguém.

Assim que a nuvem cinzenta passar eu volto.

Fronteiras da fantasia 3

Será que escritor de fantasia é igual baixista de grupo de rock? Todo mundo sabe que ele existe, mas ninguém vê, e mesmo no show tem gente que acha que ele não é real? Algo que nunca decidi se é bom ou ruim é a falta de uma categoria fantasia nos sites de vendas de livros. Você encontra terror, ficção-científica, policial, mas a fantasia está sempre misturada aos romances ou à literatura infanto-juvenil. Eu sou contra a segregação e o nicho autodestrutivo, mas defendo a existência dos rótulos dos gêneros como ferramenta de orientação de mercado. Nunca falaria para um autor limitar a sua criatividade para não fugir de um gênero ou não afastar os leitores (e, quem sabe, os editores). É preciso ser fiel às próprias idéias e decidir até onde você está disposto a ir por elas.

Só para citar um exemplo: Stephen King já comentou em entrevistas que o editor sempre torcia o nariz quando ele levava para análise um livro que não tinha elementos sobrenaturais. Curiosamente, os livros que mais gosto do autor são histórias de terror psicológico sem fantasmas e afins. Quem já leu Jogo Perigoso (Gerald’s Game) sabe do que eu estou falando. Então, mesmo esse carinha que vende milhões, sabia que teria que convencer o editor a apostar na sua idéia e convencer o leitor de que ele (ainda) é bom no que faz. É esse o jogo, e encontrar um ponto de maleabilidade me parece saudável. Escrever é seguir em busca da própria voz, é descobrir o que dá ao seu texto um sabor que nenhum outro tem. Mas nada impede o autor de esticar um olho para o mercado e entender como a engrenagem funciona.

Aproveitando o King para retomar o tema dos rótulos: A minha geração ao pensar em Stephen King sempre evocará  títulos como Cemitério maldito, O Iluminado e Carrie. A galera mais nova, que começou a acompanhar o King mais recentemente, provavelmente citará a série A Torre Negra como referência. Na bagagem antiga, uma etiqueta de terror. Na nova, a de fantasia dark. Nada impede que um autor se renove, mas será que o King teria hoje a fama que tem se não tivesse, no começo da carreira, apostado em um perfil de terror?

Levanto sempre a bandeira da fantasia urbana, uma fantasia ambientada nas cidades. Lá fora, é um gênero conhecido e bem explorado. Muitas autoras de romance paranormal, gênero que não conta com prestígio da crítica apesar de vender igual água no deserto, começaram séries paralelas de fantasia urbana, buscando carona no barco. São as mesmas autoras, escrevendo do mesmo jeito, mas com um grupo de personagens diferentes que permita ao seu editor colocar um novo selo no produto final. Se você perguntar se alguém gosta de ficção-científica provavelmente a pessoa pensará em aliens e naves espaciais, raramente dará como exemplo uma história alternativa. O mesmo acontece com a fantasia. No imaginário, Tolkien é onipresente, mas há muito além dele por aí. Agora, com a produção nacional crescendo e mais autores entrando no mercado, essa pluralidade ficará mais evidente.

Começo a trabalhar em breve no Necrópolis, do Douglas MCT (não confundir com o MST), um livro assumidamente de dark fantasy, ou fantasia dark. Conversando com o autor, ele me passou um mix bem diverso de referências, mas ficou claro que a sua maior inspiração é o universo de Hellboy. Fãzaço de Mike Mignola, o Douglas acompanha Hellboy desde moleque. Mesmo quem não conhece a HQ já deve ter visto as adaptações para o cinema.

 

Na mitologia do livro, Necrópolis é o nome de um mundo fantástico. A história começa numa cidade interiorana, depois a ação é movida para lá. Pedi para o Douglas explicar melhor a idéia dele:

“NECRÓPOLIS é o Mundo dos Mortos. O Outro Mundo. Um lugar habitado por criaturas fantásticas e sobrenaturais. Onde há planos e subplanos que levam a mundos Etéreos, de Pesadelos e Magia. Dentre os 8 Círculos do Universo, no sétimo – o Círculo de Moabite – existem 3 mundos, um deles é Necrópolis.

Neste lugar há duas forças opostas da natureza local – nem boa nem má: o Niyanvoyo, onde as almas (niyans) caminham seu trajeto final antes de caírem no Abismo e assim inexistirem. O propósito aqui é o fim para dar espaço ao novo; também chamado de A Travessia da Fronteira das Almas. Em contrapartida, há a força contrária: Ouroboros. O ciclo. Tudo que termina tem um novo começo, uma ressurreição. Recomeço, vida renovada.

Em Necrópolis há humanos também, em castas distintas: ladrões, Bárbaros (Sulistas), Monges, Mercenários, Militares (da Esquadra de Lítio), na Realeza e nas pequenas cidades por eles levantados. Há dragões, fadas, duendes, gnolls, lycans, vampiros (talvez só um), corujeiros, virleonos, anões, gigantes, oaiprocses, reptilianos, entre outros. Há Magos (sujos e nada honrados). Há um Deus-Serpente. A vida não existe, todos por lá tem o que chamo de sobrevida.

A força que move essa realidade – e todas as outras, paralelas – é o Ectoplasma. Magia é para poucos e menos relevante no plot. Há armas místicas, poderes obscuros, criaturas perigosas e seres de personalidade muito ambígua. Todos eles.

E há um rapaz qualquer, humano da Terra, bem comum, que vai para lá. Ele perdeu e quer de volta. Vida e Morte colidem. E nada é o que parece. A esperança é uma utopia”.

 

O DG sabe como ninguém o que é enfrentar a geladeira amiga. Foi de freezer em freezer até encontrar uma editora disposta a apostar no projeto. Aproveitou esse tempo para passar o livro para leitores-beta e fazer modificações, mas sem descaracterizar a idéia original. Estou bastante curioso com o que vou encontrar pela frente.

Para quem quiser conhecer o diário de bordo do Douglas MCT, o autor montou um blog com os bastidores do Necrópolis. Se você não faz a menor idéia de quem seja o Hellboy, a wikipedia pode ser um bom lugar para começar.

SpaceBlooks

Hoje rola o segundo SpaceBlooks naquela livraria simpática do Artplex Botafogo (RJ) que, por um acaso, se chama Blooks. Toda conceitual, com livros de arte e filmes cults, a Blooks é um point dos fãs de literatura de fantasia e ficção-científica, apoiando editoras como a Aleph e a Draco com muito gosto.

O tema dessa vez é Ficção científica na Internet. Participam os escritores Fábio Fernandes (Os dias da Peste), Ana Cristina Rodrigues (AnaCrônicas) e Saint-Clair Stockler (Dias Estranhos), expondo seus sucessos e perrengues no mundo internético. Esse evento tem um gostinho especial não só por reunir três amigos meus, mas também pelo clima impagável de Mortal Kombat, já que Le Saint e Anevil tem um histórico de amor e ódio virtual que me arranca boas risadas. Me ofereci para passar o chapéu e recolher o dinheiro das apostas, mas o curador não deixou. Aguardo comentários em breve desse encontro, certamente, inesquecível para todos. Que vença quem tiver o melhor Fatality!

Ai ai, se eu soubesse desenhar numa hora dessas…

Fronteiras da fantasia 2

Digo assim na lata que a fantasia é tão escapista quanto qualquer outro gênero literário. Não quero entrar nos méritos dos limites entre cinema ficcional e documentário (ops, mídia errada), mas é sempre bom lembrar que a ficção também é um registro do pensamento vigente em determinada época, e que o documentário jamais será 100% desprovido de interferência devido à intermediação do olhar, adicionando ao produto final uma dose de ficção. O cinema é uma arte liberada por parte de pai e mãe de qualquer obrigação que não seja a de contar uma boa história. Um filme não precisa de lição de moral para ser relevante. Muito pelo contrário, ensinamentos disfarçados de plots denunciam fraquezas condenáveis de roteiro.

Na literatura, vale a mesma regra. O que devemos perseguir como autores é o aprimoramento do contar, devemos ter como objetivo narrar uma boa história que não deixe o leitor escapar ileso ao virar de páginas. E a fantasia se apresenta como um terreno amplo para as mais diversas manobras, seja em livros de puro escapismo ou livros que falem da ditadura, da guerra, do preconceito contra minorias, do mundo cão, etc.

O que vejo cada vez mais é que a fantasia tem se fortalecido como um gênero capaz de fazer a ponte entre literatura e mercado, capaz de se conectar com o leitor e prender sua atenção na disputa acirrada com outras mídias.  A fantasia de qualidade consegue dialogar com o público jovem, ajudando na formação do leitor, e com o público adulto que sabe o que procurar no mar de informações.

“Nossa, Eric, que bonito isso. Foi por esse motivo nobre que você escolheu a fantasia para escrever? Fiquei até emocionado”. Para um livro dar certo é preciso que o autor tenha afinidade com o que está escrevendo. Até onde meus olhos alcançam eu jamais conseguiria escrever um bom livro de ficção-científica. Simplesmente não faz parte do meu DNA literário. Eu gosto de escrever na fronteira entre a fantasia e a literatura do cotidiano, é ai que me encontro, só isso. Mas também tenho o contato com o público como uma das minhas grandes recompensas como autor, por isso tenho pesado o pé mais para o lado da fantasia. Por isso também aceitei trabalhar com alguns novos autores na construção de seus trabalhos. Pode ser que daqui a 10 anos eu descubra que investi mesmo foi num imenso desperdício de tempo, mas o que acredito hoje é que uma nova leva de autores encontrou, assim como eu, a fantasia como ferramenta de comunicação e formação de público, então tento fazer parte disso desde sua estrutura primordial, dedicando tempo não só aos meus projetos pessoais, mas também ao desses autores que estão chegando agora (ou que já estavam escondidos por aí).

Terminei esses dias o copidesque de O Baronato de Shoah, de Roberto Vieira. O Zero (para os íntimos) anunciou a criação do livro passo a passo no twitter, chamando a atenção do público e da editora. Desde então, a história vem passando por um processo de reconstrução e amadurecimento, e eu entrei na etapa final. O Baronato une a estética steampunk, mais comumente relacionada à FC, com a ambientação da dark fantasy (a fantasia que não é fofinha cheia de fadas e elfos cintilantes). O Zero é de uma geração que viu os games evoluírem e levarem narrativas complexas ao mercado, apresentando clímaxes que competem de igual para igual com as produções Hollywoodianas. Como não poderia deixar de ser, sofre influência direta disso, mas de um jeito positivo. O próprio autor fala sobre o assunto ao explicar o universo do Baronato:

“Nordara é o principal continente do Baronato de Shoah, uma terra grandiosa, onde reinos e impérios humanos dividem espaço com territórios desconhecidos e perigosos. Sua estranha tecnologia a vapor é cria de uma era há muito passada, a Era dos Titãs, quando criaturas de imenso poder a tudo governavam. Máquinas de formas bizarras são vistas ao lado de construções antigas, que não foram derrubadas, mistérios arcanos são esquecidos enquanto o conhecimento científico avança cada vez mais, sem moral nem ética.

Utilizando a estética Steampunk o Baronato de Shoah é altamente influenciado pela literatura épica, o vitoriano, jogos de videogame, como a série Final Fantasy e histórias em quadrinhos, principalmente das revistas Heavy Metal e A Casta dos Metabarões. Além, é claro, de uma boa dose de ousadia.

A magia é rara em Nordara, tratada com respeito e medo, e um trunfo dos povos do norte, os Khans, que são considerados bárbaros pelos demais reinos. O oriente é um mistério a ser desvendado e um inimigo em potencial, e o passado é um monstro prestes a despertar e conquistar aquilo que acha que lhe pertence”.

O livro tem uma narrativa fragmentada que acompanha um pequeno grupo de heróis desde o colégio (uma escola que prepara guerreiros) até seus derradeiros destinos. A grande questão abordada é como um jovem se reposiciona diante da guerra, como ele redimensiona seus valores e o que ele faz quando o que quer é diferente do que a “sociedade” espera dele.

Se você se interessou pelo gênero (cada vez menos sub) Steampunk, um bom site de referência é o Cidade Phantástica, de Romeu Martins, com links para diversas fontes de informações. Quem tiver curiosidade sobre o Baronato de Shoah pode visitar o blog do autor Roberto Vieira. O lançamento está previsto para o segundo semestre de 2010.


Fronteiras da fantasia 1

O Fantasticon é um evento anual de literatura fantástica (ou literatura especulativa, para os mais intelectualizados) que rola em São Paulo e já virou referência para os profissionais da área. Em 2010 ele aumenta sua duração e acontece nos dias 27,28 e 29 de agosto na Biblioteca Viriato Correa. Mais do que reunir escritores, amigos e leitores pingados, o Fantasticon é um evento que lança tendências. Geralmente é nele que aparecem as perguntas e temas que percorrerão twitter, blogs e comunidades do orkut durante o ano. Quando não, é lá que os temas recebem seu carimbo de “assunto do momento”. Foi ele que firmou a mesa de editores replicada em todo santo evento, foi lá que a lit. especulativa decidiu que a grama do mainstream era mais verde, e onde ela encorpo(ro)u seu caráter marginal no melhor estilo Ferréz de ser. Foi lá também que o Brasil mostrou-se alinhado ao renascimento do movimento Steampunk mundial e que o new weird foi revelado ao público menos antenado com a literatura mundial. Bem provável que tenha sido no Fantasticon a primeira vez que ouvi que é a aula de literatua do colégio a grande responsável pelo desinteresse literário do brasileiro. E toma pedra no Machado de Assis. Pedra essa que estão tacando até hoje sem nem variar o alvo.

Por isso tudo e mais um pouco, o Fantasticon é um espelho da situação da literatura fantástica no país. Praticamente uma FLIP sem o cheiro de coco de cavalo nas ruas e garrafinha de água por 5 reais. Um verdadeiro resumão que enxerga até onde o orçamento permite. Afinal, é preciso dinheiro para trazer gente dos 4 cantos do país, o que pode privilegiar o cenário Rio-Sampa mais os autores que consigam viajar sem patrocínio. Coisas do capitalismo, é o jeito.

Não por acaso, os gêneros mais comentados no fantasticon são a ficção-científica e o terror, deixando a fantasia como irmã pobre da literatura fantástica. Mesmo numa época em que as fronteiras entre gêneros estão cada mais tênues, vale a pena se perguntar por que a fantasia brasileira contemporânea é represetada por autores pontuais e não como um movimento ou qualquer outra unidade de coesão que o valha. O terror tem hoje a força da comunidade vampiresca, imbatível em termos de vendas, e livros que orbitam ao redor dos dentuços. A FC, mesmo marginal em sua nerdice que hoje virou nerd power, sabe organizar seus debates, encontros e esticar um olho para autores atuais.

E a fantasia, por onde anda?  Será que em 2010 ela ganha força o suficiente para marcar presença nas prateleiras?  Tudo indica que sim. Aproveitarei meu atual envolvimento com o gênero para levantar algumas interrogações por aqui no mês de maio. Fiquem de olho.

Parar? Jamais.

“Ever tried. Ever failed. No matter.

Try again. Fail again. Fail better”.

- Samuel Beckett

Achei que a essa altura do ano (1/3 dele se foi), estaria com tempo novamente.  Mas cada vez assumo mais compromissos e torço pelos frutos que, estou confiante, virão no futuro. Parte deles dará frutos não para mim, mas para terceiros, para a literatura de fantasia como um todo. Outra parte pode mudar as regras do jogo em várias áreas da minha vida.

Acabei de entregar o copidesque de um novo livro da Nazarethe Fonseca, estou mexendo em dois de dark fantasy que trabalham com elementos bem interessantes, sigo fazendo o roteiro de um filme de 1h30 com prazo apertadíssimo e, para relaxar, estou tocando 2 livros meus…  ao mesmo tempo. O de magos, que foi para a geladeira amiga do editor, e mais um na linha de fantasia policial do Neon Azul, que me surgiu inteiro esse fim de semana.

Podem me acusar do que for, mas nunca de não trabalhar para conquistar o que quero. Não é com blog baixo nível, fofoquinha de msn, overdose de links no twitter nem estresse por e-mail que se consegue as coisas. É colocando a mão na massa. Parar? Jamais.

Com vocês… The Zombie Presidents.

La Dama Russa começou sua carreira importando vodka para zumbis. Quando conheceu Quizumba, se converteu à política e ao uso de rímel. Foi militante e combateu o exército na primeira tentativa de extermínio de zumbis do país. Como o cachê da Milla Jovovich era muito caro na época, contrataram mercenários para comandá-lo. La Dama Russa sofre ataques constantes do Zumbi da Motosserra, louco para cortar sua língua fora. Felizmente, seus olhos balançantes a ajudam a desviar dos ataques. Bem, de quase todos.

Missão: Nem ela sabe, mas seguirá até o fim.

Ponto fraco: Não há nada a Temer, além do presidente da câmara de gás.

Como capturá-la: Ataques aéreos. Na falta de tucanos, mande os corvos e urubus.


Quizumba é um ídolo entre os zumbis. Amigos e inimigos, todos sabem que Quizumba gosta mesmo é de um cafuné no cangote e uma massagem no ego. Com suas habilidades de felino, ele dança quadrilha e se equilibra em cima do muro como ninguém. Os demais zumbis tentam derrubá-lo, mas Quizumba parece invulnerável. Doutor Sinistro já tentou atraí-lo colocando cachaça no pires, mas nem assim ele desceu.

Missão: Levar La Dama Russa ao poder e zumbificar o Irã.

Ponto fraco: Desconhecido.

Como capturá-lo: Ofereça um cargo na zONU.


Especula-se que o Zumbi da Motosserra não seja desse mundo. Cientistas dizem que ele veio para a Terra em um meteoro do Partido Surreal da Democracia Baderneira que caiu nos desertos zumbificados de Brasília. Especialistas políticos acham que ele caiu foi de paraquedas mesmo. Com seu olhar sedutor, Motosserra seduz suas vítimas antes da mordida fatal. Os mais sortudos também ganham um beijo no porquinho.

Missão: Acabar com todos os fumantes do país, para que possa consumir sozinho toda a produção de tabaco e assim nutrir o pequeno alien incubado em sua cabeça-oca.

Ponto fraco: Diz a lenda indígena que ao ouvir por mais de uma hora um discursos do FHC, o Zumbi da Motosserra perde seus superpoderes.

Como capturá-lo: Recomenda-se iscas de pão de queijo.


Dead-Marine é uma zumbi intelectual, com os olhos adaptados para a vida nas profundezas das águas. Filiada ao PV, só come cérebros de políticos e preserva o dos bichinhos, o que lhe causa sérios problemas de digestão. Como a cabeça original não deu certo nas últimas eleições, Dead-Marine encontrou uma que combinasse melhor com a atual situação. Seu personal Stylist, porém, esqueceu que pontos em cruz não combinam com estampa florida.

Missão: provar que o Acre existe.

Ponto fraco: Acredita que todos os zumbis foram criados pelo Deus-zumbi, e que essa história de vírus é intriga da oposição.

Como capturá-la: jogue uma bandeira do movimento gay em cima. Dead-Marine ficará sem ação e você terá tempo de contra-atacar.

 

Senhor Sinistro: Ninguém sabe ao certo se é um zumbi ou um cientista maluco.  Pode ter trocado seu cérebro por partes mecânicas automatizadas., com entrada para pendrive no nariz. Seus poderes são testados em laboratório com selo do InMetro, mas o Senhor Sinistro nunca foi ao campo de batalha ver se realmente funcionam. Quando acuado, joga bombas para todos os lados e usa seu gás paralisante de intenção de votos.

Missão: transformar cérebros em pastinha de caviar e exportá-las para a Europa numa empresa familiar.

Ponto fraco: Fica hipnotizado quando vê a novela das oito.

Como capturá-lo: a exposição prolongada ao sol, à sombra ou a qualquer outra variação climática o deixam de cabeça quente. Todo mundo sabe que CPU que esquenta, reinicia. Aproveite o tempo do boot.


Imagens editadas no site Gross Out!

 

Presidenciáveis vs Zumbis

Preparando para o domingo um post especial sobre eleições. Mas não se preocupe. É um bem mais interessante do que essa guerra dos jornais, cada um puxando a sardinha para um lado descaradamente. Vou mostrar um mashup que ninguém conhece… ainda. Presidente with zombies.

 

Adivinha de quem a Vesga gosta mais?

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