Apesar do mundinho literário ser cheio de divas, o seu habitat natural é a terra da música, onde contam com um arsenal de personas tiradas do armário de acordo com a ocasião, bastando ajustar o ângulo do nariz e o tamanho do salto. Lembro quando Marilyn Manson lançou sua coletânea Lest We Forget e deu uma entrevista falando que se retiraria do cenário musical, pois não fazia sentido prosseguir em um mundo que idolatrava Britney Spears. Naquela época, os dois pareciam de fato extremos opostos de um mesmo jogo. Ele, esquisitão, fazendo seu som pesado e industrial, rasgando bíblias e se divertindo com clipes sombrios. Ela, bonitinha e virginal, fazendo um pop romântico milimetricamente ajustado no auto-tune, com videoclipes carregados de cor de rosa e toques de tom pastel.
Mal sabia Mr. Manson o que o futuro reservava aos dois. Descumprindo sua promessa, Manson voltou com novos cds, visivelmente sem saber como equilibrar seu visual de espantalho do Tim Burton com o peso da idade. Parecia flertar com uma paródia de si mesmo, mais colorida e radiofônica. Já dona Britney endoidou de vez. Virou uma Christiane F. de baixo orçamento, raspou a cabeça, deu vexame na MTV, avançou careca em cima de paparazzi e mais uma lista de bizarrices dignas do circo dark-comercial de Marilyn Manson. Superada a loucura (que é coisa que nunca se supera), Britney reencontrou o sucesso e soube tirar proveito da nova imagem.
Hoje em dia, com a literatura fantástica se fazendo mais presente, os novos autores têm passado por dúvidas parecidas. Quem eu quero ser para o público: Monster Manson ou Crazy Spears? A grande cerca no jardim das traças ainda é a que separa o grupo realista do fantástico. De um modo cínico, é como escolher entre ser lido ou respeitado. Com uma linha você ganha público, com a outra você ganha teses. Por muito tempo, os autores de FCF (ficção-científica e fantasia) se perguntaram why oh why os autores de literatura realista têm tanto espaço na mídia e nas prateleiras e nós somos esnobados pelas editoras, catalogados na pilha de reciclagem junto com a auto-ajuda? A resposta rápida é que um grupo tinha os amigos certos, mas deixando isso de lado, o ponto é que o cenário mudou. Aos pouquinhos, a literatura fantástica vai se firmando como um movimento, com autores que vendem muito bem obrigado, como André Vianco (vampiros com superpoderes), Nazarethe Fonseca (vampiros românticos), Raphael Draccon (fantasia com referências pop). Depois de cada lado espiar o gramado alheio, já tem quem diga que as editoras não dão o devido espaço para literatura realista, uma inversão curiosa de ponto de vista, mesmo que não seja verdadeira.
O que se percebeu nesse espia-espia é que a cerca que dividia o jardim em dois na verdade era baixinha e fácil de pular. Ao invés de escolher um dos lados e começar a guerrilha, os autores ficaram mais confortáveis de falar uns dos outros e até, pasmem, falar uns com os outros. Nomes de peso como Nelson de Oliveira apostaram em coletâneas híbridas, misturando ambos os grupos, como foi o caso de Todas as Guerras, que colocava no mesmo balaio autores como Fábio Fernandes e Veronica Stigger, cada um no seu estilo mas com um tema em comum. Dele também veio a Futuro Presente, essa um OGM – organismo geneticamente modificado – em que autores realistas e fantásticos tinham que escrever FC. Se o primeiro recebeu thumbs up de todo mundo, a segunda já colheu resultados diversos, pois escrever FC não é tão fácil quanto parece (e que fique claro, autores fantásticos escrevendo literatura do cotidiano também cairiam em um punhado de armadilhas). Independente disso, vale o simbolismo dos projetos, a intenção da mistura e, acima de tudo, o lembrete de que boa literatura é boa literatura, e que livro ruim é livro ruim não importa a etiqueta.
Uma vez, comentei dessa dúvida cruel com Saint-Clair Stockler. Para que lado seguir? Fantástico ou Realista? A resposta, muito bem colocada, foi: para que ter um só? Agora que o Saint está para lançar o seu primeiro livro, voltei a ele com uma pergunta parecida. Espia só o que ele respondeu:
“Por diversos fatores, sempre me considerei um escritor marginal, no sentido mais lato do termo: o de estar à margem. Meus interesses literários, tanto quanto autor como quanto leitor, se dividem entre “literatura mainstream” de um lado e “literatura de gênero” de outro. Sempre se dividiu, pelo que me lembro. Mas eu vivia uma espécie de “Síndrome de Dr. Jeckyll e Mr. Hyde”: me torturando ao achar que esses dois elementos, tão díspares entre si, jamais poderiam conviver juntos. Mas depois de muito, muitíssimo tempo, entendi que essa é uma falsa dicotomia e que eu poderia, se assim o desejasse, escrever tanto textos mainstream quanto de gênero. De fato, meu livro é uma mistura de ambas as correntes. Afinal, porque circular no âmbito de apenas um dos mundos quando posso me entregar às delícias dos dois? O risco, pois sempre há um risco, é você não conseguir produzir bons textos nem de um nem de outro tipo. Mas o bom de se viver num país em que a literatura (ainda) não é levada a sério é que, se você fizer besteira, quem vai se importar?”
Saint-Clair Stockler aproveita e fala mais sobre o trajeto do Dias Estranhos até chegar à editora Draco, e mostra que também vê divas por aí: “Não sou um escritor vindo, ou originado, da Internet. Já no começo da década de 90 – portanto, antes da criação da Web – eu já escrevia. Contos, sempre, porque não sei se tenho fôlego, disposição, paciência ou saco para um texto longo como um romance. Gosto do golpe mortal que é o conto, sem muita encheção de linguiça. Meu primeiro livro, Dias estranhos, que será lançado até o final do ano, é uma reunião de contos. O primeiro desses contos foi escrito em 1993. Levei 13 anos para escrever o livro todo. Pois é, sou lento mesmo”.
“No início, quando escrevi os primeiros contos, tinha aquela ambição de querer ganhar o Jabuti, de aparecer em todas as revistas literárias, dar entrevista pro Prosa & Verso (caderno de literatura do jornal carioca O Globo). Com o passar dos anos, e conhecendo pessoalmente diversos escritores, fui caindo na real. Se existe uma raça de pavões em formato de gente, ela é a dos escritores. Antes, eu guardava uma imagem um tanto quanto idealizada de pessoas que escreviam ficção, mas depois, com o convívio, percebi o quanto de vaidade, inveja, mentiras, despeito e golpes-sujos é feito o “ecossistema” literário. Isso não me fez amar menos a literatura, mas certamente me fez olhar com olhos mais realistas essa estranha criatura chamada “escritor”. Ainda mais em um país como o Brasil, em que temos ex-presidentes da Academia Brasileira de Letras com dezenas de livros publicados mas que, de fato, nunca escreveram um livro sequer (viva o ghost writer!) ou em que alguns dos escritores mais importantes e premiados pagam, por baixo dos panos, os seus próprios prêmios. É tudo Maia, ilusão, jogo de espelhos e fumaça. Então, mais próximo da conclusão do Dias estranhos, simplesmente deixei de me importar com essa talvez possível e certamente volátil fama. Poderia até nunca publicar o livro se algo dentro de mim não dissesse: é um livro bom, que tem algo a dizer e que ressoa na mente dos seus leitores. E esse “ressoar”, para mim, faz toda a diferença”
Em suma, se você nasceu para ser Britney, não tente ser Manson. Invista no que você tem de melhor. Mas se você se sente confortável com os dois lados, não tenha medo de arriscar. Estamos em tempos de Lady Gaga. Alguém duvida que os dias ficarão cada vez mais estranhos?