Alice. Tenho praticamente obrigação moral de falar do filme. Tenho uma versão minha de Alice, que nunca publiquei (nem publicarei), que inverte o quem vai para onde do original. Meus personagens sempre têm relações diferenciadas com gatos que sorriem, espelhos, cartas, flamingos… que seja uma cena qualquer, sempre faço referência. Meu conto de fantasia urbana Fogo de Artifício, presente na coletânea Paradigmas 1, traz uma versão adulta e sombria dos personagens de Carroll. Aliás, uma curiosidade sobre o título. Eu não sabia como acabar o conto e usei uma cena de sexo. Daí usar o fogo como artifício.
Mas vamos à Alice do Tim Burton. Primeiro de tudo, foi um projeto encomendado pela Disney e não um autoral, o que torna o pé na jaca ainda maior. Alguém se lembra da versão dele para Planeta dos Macacos? Mesmo esquema. Sucesso de bilheteria, fiasco de crítica. Aqui o problema é mais grave porque o Burton assumidamente não gosta de Alice. Disse em entrevistas que ficava incomodado com a falta de fio narrativo dos livros do Carroll e que inventaria um. Um tão ruim que ninguém gostou. Explicação e non sense não combinam.
Mas vale ver o filme, claro. Alice é sempre uma experiência válida. Principalmente se a companhia valer o ingresso. O problema é que Alice, o filme, só tem valor em seu histórico. Se não fossem os livros que Burton fez questão de desrespeitar, o filme não faria o menor sentido. Um ponto alto é que os atores extraíram o máximo de seus personagens. Helena Bonham Carter nunca esteve tão bem. Ela, que parece repetir até as roupas dos personagens de um papel para outro, entregou uma Rainha de Copas cabeçuda que ofusca os demais. Johnny Depp faz o que pode, coitado, mas um Chapeleiro Louco que faz dancinha não é lá o melhor dos Chapeleiros. Anne Hathaway conseguiu fazer de sua Rainha Branca uma rainha nojentinha que brinca com os próprios clichês da Disney. Anda com pose, é toda boazinha, cheia de frescuras, uma auto-ironia, mas, novamente, o roteiro não faz muito por ela. E tem a Alice, como não.
Alice é uma rebelde no nosso mundo. Não quer nada da vida de riquinha que a mãe quer para ela. Aí, numa situação em que ela pode escolher casar com um ricão como a sociedade (ai, a famosa sociedade) quer ou assumir as rédeas da própria vida, ela vê o coelho e cai no buraco, vulgo Wonderland. Só que em Wonderland Alice não assume nada. Alice é pau mandado, arrastada prum lado, arrastada para o outro. Nada do que ela faz em Wonderland é por querer, mas porque os outros (e os roteiristas fraquíssimos) queriam assim. Alice já chega lá sabendo seu destino, está num pergaminho. Você vai fazer isso e pronto. Não vou não. Vai sim. E faz. Como disse o Esmir Filho no twitter, Alice vira a She-Ra. Veste armadura e mata dragão. Respondi que o Chapeleiro tinha ficado igual ao Gorpo. Talvez seja isso. Tim Burton deve ser fã enrustido de He-Man e She-Ra.
Aí, fim da história, Alice volta. Depois de aprender a ser pau mandado, digo, a tomar suas próprias decisões, ela chega para o noivo e diz não, não, bambino, não vou casar, vou assumir os negócios que meu pai deixou. E aí sai numa viagem para a China, porque a China hoje é um grande mercado da Disney, então que a Alice, pobre Alice, vá para lá. Resumo da ópera, a Alice no mundo real sempre soube o que queria. A Alice de Wonderland vai fazendo o que mandam que é para o filme (sonho, é só um sonho) acabar de uma vez. Como os gêmeos dizem, bem no começo, quando ela chega em Wonderland: essa não é Alice, deve ser uma outra.
Acho que tinham razão.

Histórias… é um filme independente que recomendo a todos os novos autores (escritor wannabe também serve). O protagonista é um autor, por volta dos 30 anos, que não termina nunca de escrever o livro dele. Ele quer escrever sobre a própria vida, mas na vida dele não acontece nada. Pelo menos até ele suspeitar que a namorada está tendo um caso com uma aluna loira, linda. O filme é cheio de humor, com piadinhas sobre o mundo literário e um clima noir que sempre me agrada. Caio Blat nunca esteve tão bem. O Paulo também optou por não embarcar nessa onda puritana do nosso cinema atual. Amém.