Eric Novello |

The piano keys are black and white, but they sound like a million colours in your mind – Katie Melua
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Entrevista com Fábio Fernandes

Tuesday Feb 16, 2010

1. Qual a premissa de Os Dias da Peste?

“Os Dias da Peste” é a minha resposta a uma pergunta sobre uma questão simples: qual o nosso verdadeiro grau de dependência das máquinas? O “gatilho” que deflagrou a história foi o filme Matrix, que gerou o conto original, Um Diário dos Dias da Peste, escrito em 1999 e publicado em 2000 na coletânea de contos Interface com o Vampiro. Apesar de ter adorado o filme, sempre me incomodou muito esse clichê de as-máquinas-vão-dominar-o-homem. Por dois motivos: primeiro, as máquinas já dominam o homem. Numa cidade como São Paulo, por exemplo, todo mundo depende de carro ou de metrô (as pessoas também pensam que “máquinas” são apenas computadores, aliás), onde as pessoas não dependem de máquinas? Quando a Internet sai do ar, as pessoas não ficam malucas? Quando você está numa fila de banco e o caixa diz: “caiu o sistema”, qual é a sua reação? Há algum tempo, num papo com o Fausto Fawcett, ele me disse o seguinte: “Antigamente o pessoal queria derrubar o sistema. Hoje neguinho fica puto quando cai o sistema.” É por aí. Os Dias da Peste contam a história de um período no futuro bem próximo em que o sistema cai e isso provoca um “caos informático”, mas não só. As conseqüências desse caos acabam sendo maiores do que se esperava, e não necessariamente negativas para a humanidade.

2. Você construiu uma relação acadêmica com o tema em seu livro “A construção do imaginário Cyber”. De que maneira isso é diferente ou complementa a sua relação de autor com o universo ciberpunk de “Os Dias da Peste?”

Quando comecei a escrever, não pensava que iria algum dia estar na academia. Mas ao entrar para o Mestrado de Comunicação e Semiótica na PUC-SP, onde pensava inicialmente em fazer uma pesquisa sobre hipermídia, descobri com minha orientadora, a net-artist Giselle Beiguelman, que a ficção científica estava em alta na academia por suas vinculações com a cibercultura – mas que, pelo menos no Brasil, ninguém havia pensado até então em explorar essas relações muito a fundo. (Na verdade, como eu viria a saber logo em seguida, havia uma pessoa fazendo essa pesquisa junto comigo, e no doutorado: Adriana Amaral, que publicou sua tese sobre a relação entre Philip K. Dick e os cyberpunks como um excelente livro, Visões Perigosas.)
Então desloquei o foco do mestrado para a ficção científica como formadora, moldadora da cibercultura como a conhecemos hoje (na mesma linha que o Henry Jenkins defende também) e acabei escrevendo uma dissertação sobre a obra de William Gibson, que se transformou no livro A Construção do Imaginário Cyber. Isso acabou reforçando meu lugar na ficção científica brasileira não só como escritor de histórias relacionadas ao cyberpunk como também um pesquisador e professor que contribui para a informação e formação de novos autores e leitores. Isso tem me agradado imensamente, porque tem surgido uma novíssima geração de leitores que está muito interessada no cyber e no pós-cyber – e já começa a escrever suas primeiras histórias.

3. Tem uma frase do prefácio da Adriana Amaral que acho excelente. Reproduzo mais ou menos aqui: “Mas é na descrição acurada, e não na extrapolação, como diz Ursula Le Guin, que a FC, ou sci-fi (…) mata a cobra e mostra o pau!” Como essa idéia se relaciona com o seu romance?

Eu sou um apaixonado pela palavra. Desde sempre. Uma coisa que talvez poucos saibam a meu respeito é que eu comecei escrevendo poesia e teatro. Meu primeiro prêmio literário foi um prêmio nacional de dramaturgia que ganhei aos 19 anos, por um conjunto de esquetes, um dos quais foi adaptado em 1998 e foi levado aos palcos cariocas sob a direção de Luiz Armando Queiroz (Vestidos Brancos, a última direção do Luiz, aliás, um trabalho belíssimo dele que muito me honrou). Continuo escrevendo poemas que jamais publicarei e microcontos cujo foco é mais a forma que o conteúdo, embora eu não abra mão do sentido. Rosa, Leminski e Osman Lins estão entre meus autores mais queridos, de cabeceira. Catatau é leitura constante, oracular (volta e meia pego e abro ao acaso, leio e mergulho na narrativa caudalosa de Leminski). Talvez por isso, embora a extrapolação me fascine, a descrição mexa mais comigo. Gosto imensamente de descrever coisas, cenas, lugares, pessoas. Nem sempre sou rigoroso como quero, mas, como diz um poema de Margareth Castanheiro, que li quando jovem e nunca mais esqueci, “O acerto pode ser incerto/mas o erro tem que ser exato”.

4. A ficção-científica abre espaços para discussões que não seriam possíveis na literatura do cotidiano (o tal mainstream)?

Abre. A literatura de ficção científica faz parte do conjunto-universo que se convencionou chamar de literatura de invenção (muito embora praticamente toda literatura seja de invenção, mesmo as biografias), e isso nos dá uma excelente desculpa para tratarmos de todos os temas que a dita Literatura com L maiúsculo teme falar. Vou citar um exemplo que não pertence à esfera da FC mas pode dar uma idéia interessante: os romances históricos/conspiratórios/de ação na linha O Código Da Vinci. Recentemente eu estava conversando com um editor de uma grande casa editorial carioca (não posso citar nomes) e ele me disse que seu maior sonho era publicar um similar nacional do Best-seller de Dan Brown, e que ele próprio volta-e-meia convida autores brasileiros de porte, conhecidos, ganhadores do Jabuti e de outros prêmios, e a resposta é sempre a mesma: a maioria até gostaria de escrever um livro assim (vários inclusive afirmaram secretamente gostar desse tipo de literatura), mas jamais o faria por medo de ficar mal com a crítica e os colegas. Daí o horror, o horror, citando Conrad. Mas a FC é a literatura-Oscar-Wilde, ou seja, a que não tem medo de dizer seu nome: ela fala com absoluta tranqüilidade de seres alienígenas, universos paralelos, outros planetas, futuros distantes, muito embora (e grande parte da crítica brasileira parece ainda não ter entendido isso) continue falando da nossa realidade, do nosso presente, apenas com outra capa. É um outro modo, bastante elegante, de tratar de angústias e ansiedades. A capa de um realismo mais duro e cruel já foi muito bem tratada por Hemingway, Bukowski, Fante. A FC pode até explorar territórios semelhantes, mas com outros mapas.

5. Qual foi sua rotina de escrita do livro? Escrever um romance exigiu mais disciplina do que você precisava ter como contista?

Muito mais. Contos têm dinâmicas muito particulares, dependendo do tamanho ou da estrutura. Posso levar um dia ou dois meses para escrever um conto, e eles podem variar entre uma e vinte páginas (às vezes escrevo textos de trinta ou quarenta, mas atualmente têm sido mais raros). Para o romance, entretanto, me impus uma disciplina rígida: trabalhar todas as manhãs pelo menos uma hora. Isso me deu, ao fim e ao cabo, uma média de quatro laudas por dia (cerca de mil palavras). No caso de Os Dias da Peste, como eu já tinha dois textos-guia (além de Um Diário dos Dias da Peste, usei também sua continuação, Interface com o Vampiro, escrito em 2000 e publicado também na coletânea homônima). Eram mais ou menos trinta laudas – que acabaram virando 265 em pouco menos de um ano. Preciso dizer que nesse tempo escrevi o livro inteiro e fiz um sem-número de revisões – pelo menos umas nove. Ou seja, 265 laudas foram o produto final, mas devo ter escrito pelo menos o dobro disso.

6. Em uma palestra ouvi você dizer que os autores nacionais não ficam devendo em nada aos autores lá de fora. Disse isso quanto à qualidade dos textos. E na ousadia dos temas trabalhados? Já conseguimos manter paridade?

Não, na ousadia ainda não. Temos boas exceções, claro. Jacques Barcia, por exemplo, é uma delas. Ele sempre consegue me surpreender com histórias belas e terríveis, e domina o inglês (língua em que escreve a maior parte de suas histórias) como poucos. Mas percebo que acabo de incorrer num paradoxo: nosso melhor autor dos últimos dois anos talvez o seja justamente porque escreve em total sintonia com o que se escreve lá fora, e não aqui. Eu mesmo sofro de uma terrível esquizofrenia literária: neste ano já publiquei uns oito contos em inglês, que têm sido elogiados lá fora, com temas steampunk e new weird, mas que escrevo com uma grande preocupação em não reinventar a roda, ou seja, não fazer o que já fizeram antes. Os Dias da Peste é um livro cujo tema já foi muito explorado no mercado anglo-americano, e sou altamente devedor a nomes como William Gibson, John Shirley e Pat Cadigan, apenas para citar alguns. Mas não sei se (como alguns colegas americanos meus já me perguntaram) este livro será algum dia traduzido ou reescrito para o inglês. Acho que o cyberpunk é um subgênero que subitamente encontrou uma grande revitalização no Brasil, mas nos EUA e na Inglaterra tomou outro rumo, não tem mais a mesma pegada.

7. O quanto o autor Fábio Fernandes é ciberpunk? Qual a sua relação com os gadgets atuais?

Quem me olha deve achar que eu sou um sujeito completamente sem noção. Na verdade, apesar de ter tido uma formação como técnico em eletrônica no segundo grau e um conhecimento básico de programação, essa linguagem não é o meu forte (embora tenha me aventurado bem de leve nos últimos tempos, por conta dos cursos de tecnologia onde leciono). Mas sou fanático por dispositivos de última geração e procuro estar sempre por dentro das últimas tendências. Não tenho grana para ter os top de linha nem gosto de ser beta-tester (estou mais para delta ou gama-tester, mais pro fim da fila), mas tenho meu iPhonezinho, meu netbook e estou sempre conectado onde quer que eu vá. Ou onde quer que as redes wi-fi e 3G permitam, claro.


Jay Vaquer – Alive in Brazil

Thursday Nov 19, 2009

Me lembro até hoje de ver o clipe de A Miragem na MTV quando lá ainda passavam videoclipes e não programas de humor de baixo orçamento e me perguntar quem era esse cara. Eu ainda moleque, devia ter por volta de 20 anos, pensava cá comigo se ainda veria mais algum trabalho dele pela frente. É engraçado olhar para trás e perceber que não era tão simples ter as informações na mão, com uma clicada no Google (ou era fácil e o problema era meu?), e por esse vácuo informativo, Jay Vaquer foi por muito tempo o cara que cantava A Miragem e Aponta de um iceberg e só, imortalizado em mp3s que consegui nos primórdios da era dos downloads, depois de muito procurar.

Queria ter datas mais precisas na cabeça, mas raciocino de modo atemporal e meus marcadores são outros, pequenas lembranças e contextos. Foi numa dessas que o nome Jay Vaquer voltou aos meus ouvidos. Uma pessoa muito querida virou para mim, jornal na mão, e falou “olha, não é aquele cantor que você curte?” E eu pensando, claro que não, depois de tantos anos, só pode ser outra pessoa. Mas era ele. Dei uma volta rápida pelo shopping para comprar o Vendo a Mim Mesmo, seu segundo cd, com porcos de headfone e o Jay cheio de fios vermelhos na capa. Achei de quebra o Nem Tão São e aquele cara do clipe e da mp3 passou a ser um artista contextualizado na minha estante de CDs. Meu micro system estava quebrado, eu sem grana para pensar no conserto, então colocava para tocar num discman ligado às caixas de som. E foi assim que curti o recomeço, o clipe louco de Pode Agradecer rolando na MTV para lembrar que ele ainda estava na área, anunciado pelo alterego Applewhite. Talvez seja o cd dele que mais tenha escutado. Sou péssimo para decorar letras, mas sou bom de improviso, e era no improviso que cantarolava Assim de repente, Abismo e Aquela música, essa última na minha lista de clássicos particulares.

Foi nessa época também que minha irmã passou a ouvir Jay Vaquer para valer. Sempre tive a música como um intercâmbio. Não digo só da energia que se sente em shows, mas do prazer de apresentar a alguém o que se gosta e se permitir gostar de novidades que cheguem até você. Quando isso se dá com alguém próximo o prazer é dobrado. Pela diferença de idade entre nós dois, tínhamos gostos distintos e, ao mesmo tempo, cheios de pontos em comum. Eu apresentando The Smiths, The Cure, The Police, Depeche Mode, um vínculo com o passado ainda presente, e ela me mantendo em contato com o boom da música pop adolescente, com sons de pegada mais rock como o Garbage, e hoje com toda uma nova geração da música brasileira.

Como o Jay se tornou um dos pontos de convergência, era agora ela quem me mantinha informado. E foi por ela que soube que ele tinha assinado contrato com a EMI e que iria lançar o terceiro CD: Você não me conhece. Cotidiano de um casal feliz gerou um clipe, tocou nas rádios. Mais uma música de letra bem sacada e outra recordação. Depois veio A falta que a falta faz, que a galerinha costuma acompanhar do início ao fim nos shows. Como o mundo gira rápido, nessa época eu já tinha uma vida bem diferente daquela lá de trás, tinha lançado dois livros, me formado na escola de cinema e me distanciava de vez da vida de farmacêutico bioquímico. O Aguarrás estava começando e, além de escrever sobre cinema e literatura, resolvi me arriscar nos textos de música, só precisava escolher as cobaias. Escolhi meus cantores italianos preferidos, uns pingados do momento e o Você não me conhece. O texto ficou ruim, mas tão ruim que foi vetado. Repensei o modelo e escrevi um texto curto, dez linhas de Word com um trecho de letra e só, e foi assim que falei de música por um tempo. Me lembro também dele comentar as resenhas que saíam com um “só falam das letras, mas e as melodias?” E era verdade. Eu fui um desses. Talvez por ser escritor, me divertia com elas sem pudor, mesmo que na música o todo sempre fale mais alto que as partes.

Mais um pouco e finalmente vi o cara ao vivo, com a Cássia (minha irmã) e o David (a pessoa querida mencionada lá em cima), fechando um ciclo e começando outro. Foi um show no Teatro Odisséia, uma casa na Lapa, no Rio de Janeiro, num palco apertado que contrariava as leis da física e me deixava angustiado pelos grupos que ali se apresentavam. Mas valeu a pena. Minha irmã voltou no seguinte e eu no seguinte com ela. É interessante comparar a identidade de um artista ao vivo com o som produzido no CD. Tem gente que ganha, tem gente que perde. Tem gente que esbanja, tem gente que minimaliza. Foi naquele show bem intimista que me toquei de como esse cara cantava para valer.

Um ano depois, veio o Formidável Mundo Cão. Minha irmã havia assumido o posto de fã oficial e eu ficava ali orbitando, aproveitando a música dos CDS e as histórias que ela me contava. Infelizmente, dessa vez não teve videoclipe. O mundo que gira rápido gira assim para todo mundo. Mas teve ótimas canções como Longe Aqui, Estrela de um Céu Nublado e Preciso Poder, com as letras bem sacadas, às vezes irônicas, que então já eram marca registrada. Foi esse cd que originou o primeiro DVD ao vivo, Alive in Brazil, contribuindo com um terço do set list.

E aquele cara do show do Odisséia agora voa em correntes, canta em plataformas móveis (não os saltos, por favor) e usa projeções no telão, sendo a última delas impagável, dialogando com a letra e brincando com os músicos que acompanham o cantor. Não é que os elementos cênicos falem mais alto do que a música, eles se complementam de forma harmoniosa, como deve ser. No mercado internacional, mau gosto à parte, todo mundo sabe disso, aqui dentro uma meia dúzia. Olhando de fora, dimensionando por meus próprios sufocos, só posso imaginar o trabalho ($) que é erguer um show assim. Mas não vou cair no debate financeiro. O que quero observar aqui é a existência de um artista que sabe que concepção é mais do que escolher o set list e pôde, enfim, mostrar isso para valer na prática, com direito ao registro em DVD. Eu que não vi a gravação fiquei surpreso com a edição, com os novos arranjos e com esse visual bem pensado.

Se você já curte Jay Vaquer, o DVD é diversão garantida. Se não conhece, esse é um bom lugar para começar. Pela alegria dos rostos na platéia, acho que a maioria concorda comigo.


Entrevista com Sérgio Pereira Couto

Thursday Nov 5, 2009

01. Com 150.000 exemplares vendidos, quase 30 livros publicados, você joga pelo ralo a noção geral de que autores nacionais não vendem bem. Qual a sua opinião sobre o nosso mercado editorial? Ter um currículo desses facilita na hora de negociar a próxima publicação?

Bem, vamos por partes. Os autores nacionais não vendem bem porque insistem em explorar áreas que não são de interesse do público em geral. Meus livros de pesquisa histórica, por exemplo, são todos calcados em assuntos que são atraentes ao público, que não possuem similares em português que sirvam de introdução ao assunto e, ao mesmo tempo, mostrem um lado simpático da História. Por exemplo, quem nunca quis ler um pouco sobre Piratas, Lendas Chinesas ou entender de maneira não acadêmica a história da civilização romana? História é muito mais do que uma enorme lista de nomes e datas, é também uma fonte inesgotável de tramas que, mais tarde, podem ser aproveitadas num romance de cunho histórico. Pessoas do mercado editorial já me falaram que cerca de sete em cada dez romances publicados tem um pé em algum fato ou lenda retirados da história da civilização humana. Então por que não fazer com que o público tenha acesso a esses assuntos de uma forma divertida? O nosso mercado editorial, infelizmente, ainda é regido por uma regra, que é a da “onda da vez”, ou seja, quando um assunto faz sucesso, exploram até que não venda mais. O que você, como autor, pode fazer é tentar sempre dar um ângulo novo para o assunto e aguardar que o editor caia na real e veja que aquilo não dá mais. OU arriscar, com uma boa lábia de vendedor, convencer sua editora a investir X mil reais num assunto que pode vender muito ou pouco, mas quando não corresponde às vendas, a culpa pela insistência na publicação cai invariavelmente no autor. E por fim afirmo: ter um currículo desses facilita sua aproximação com as editoras, mas não garante que você seja um best seller a ponto de vender qualquer coisa para o editor. Você passa pela avaliação normal que os demais passa. A vantagem é que veem sua proposta com mais atenção do que a dos demais, mas o processo de seleção é o mesmo, seja para livros de pesquisa ou para romances.

02. Está havendo um movimento discreto das nossas editoras para encontrar autores com capacidade de escrever Best-sellers, literatura de entretenimento de qualidade. Por que agora e por que só agora?

Há vários motivos para isso e a maioria deles envolve certos parâmetros de vendagem que apenas aqueles que mais estão centrados no mercado compreendem. O que posso afirmar, baseado no que observo nas listagens de mais vendidos, é que há muito da “onda da vez” envolvido nisso. Por exemplo, até o advento das obras de André Vianco, não havia muito interesse em vampiros, que era um assunto restrito apenas aos adoradores do gênero. Depois do Vianco e com o advento da série Crepúsculo, o assunto deixou as esferas dos adoradores e se tornou assunto até mesmo de yuppies. O que nos leva a crer que a “onda da vez” não é um fenômeno só de livros, pois envolve adaptações para outras mídias, principalmente quando se tornam filmes. Antigamente o livro dava origem ao filmes e era, depois disso, até ignorado e esquecido. Hoje é o filme que dá origem a novos leitores, que procuram o livro para ver como é a história original. Por isso as editoras, ao sentirem o potencial da tal série, investem em continuações e trilogias. E isso fascina o leitor, que gosta sempre de voltar aos cenários e personagens conhecidos, e até mesmo a esperar desfechos de tramas à lá novela das oito, como aconteceu com o final da série Harry Potter. Há fãs que simplesmente odiaram e outros que adoraram, mas ninguém deixou de fazer fila para comprar o último livro, o que deverá acontecer de novo quando chegar o filme. Ligados nessa tendência, as editoras nacionais querem encontrar um André Vianco que esteja fora da “sociedade vampírica”, por assim dizer, e ver outros segmentos, como policial, aventura e suspense, entre outros, encontrarem suas contrapartes. Quem sabe, quando sair o primeiro filme baseado numa obra do Vianco, vejamos esse movimento se intensificar ainda mais.

 

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Entrevista com Steve Berman

Wednesday Nov 4, 2009

01. For starters, I’d like you to help me define gay speculative fiction. Is it speculative fiction with gay characters or are they gay stories with a touch of fantasy literature?

SB: Arguably, both. The easier question is what makes a good gay spec fic story. The fantastical elements should compliment the gay themes and characters. It’s much like creating cuisine – you don’t want any single ingredient to overpower the others. Being gay is akin to being the “outsider” – a role that befalls many protagonists in fantastic literature.

02. In Brazil, gay characters and Love stories exist, but there is not enough volume to mark the appearance of a subgenre, like it seems to be the case for other markets. What is the market for this ‘genre’ of literature in your country?

SB: In the United States, gay-oriented titles are still rather uncommon. More American women than men read books, so you are seeing a growing number of titles that can appeal beyond the usual gay readership. That said, I think a great book creates “ripples of readership” within the marketplace; the inner circles are an author’s intended readers, but the outer rings are ones he never expected. Vintage originally written for gay teenage readers, but I know many gay adult or straight females who have enjoyed the book.

03. I see in gay films a problem of repetition of dilemmas. There is always somebody who fights with their best friend when discovering their own sexuality, suffers from prejudice in the family, falls for the straight guy in collage, has a friend who is HIV positive. Sometimes all the problems in the same package, in 1 hour and a half. In literature, do you think gay life is handled more broadly?

SB: I think there is a growing movement in books to portray being gay is not always as simple or stereotyped as mass media presents. In Wilde Stories 2009, which I edited, there are guys who are coming out at age 40 and feel lost in typical gay culture, homicide detectives who deal with homophobia, and even Muslim characters in an Arabian Nights milieu.

04. In Vintage, your main character is a gay youngster who attempted suicide. Was it hard to work on the psychological aspect of the character? Does the horror element help you?

SB: The saddest part of working on Vintage involved the death of one of my draft readers—he was only 14 years old and hung himself in his closet due to depression and experiencing homophobia at school. 14 years old… it was a tragedy that affected me greatly. Some of the book’s narrator is based on this boy.
I think we all have periods of dark thoughts, of self-destructive impulses, and I tried to incorporate these and show that giving in to depression is not the answer.

05. Talk a little about Icarus your new magazine.

SB: Well, I do love reading good gay speculative fiction. It just seemed like the next evolution for my press (Lethe Press / lethepressbooks.com) to start publishing a quarterly magazine devoted to such tales. The goal is to have something special, colorful, and fun for gay men—and introduce them to stories that feature a bit of weirdness and whimsy. The newest issue, special for Halloween, just released. Where else will you find cartoons, vampire erotica, gossip, and a tale about San Francisco in the future.

I would love to see some Brazilian authors submit their work—right now it’s about American-centric, but I’d love to read a fantastic tale set during Carnivale.

06. For those who want to learn more about what is currently produced in Urban Gay Fantasy or even Urban Fantasy, which names would you recommend to get started?

SB: Some of my favorite authors are Holly Black, Cassandra Clare, Ellen Kushner, and Lee Thomas. They all have gay content, of differing amounts, and their stories are captivating and vivid.

(versão em português abaixo)


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Entrevista com Tiago Iorc

Tuesday Oct 6, 2009

01. Para quem ainda não conhece Tiago Iorc, por qual música(s) você sugeriria começar? Que música(s) do Let Yourself In passa(m) melhor o recado?

‘No One There’ e ‘When All Hope is Gone’ são minhas favoritas do disco. Ambas representam bem o que eu queria expressar com a minha música.

02. O pontapé inicial do seu trabalho veio com uma mp3. Qual é a sua relação com novas mídias tais como myspace, youtube e twitter? Dá para fazer uma boa divulgação só com elas?

A internet ajuda bastante e procuro aproveitar as facilidades que ela possibilita, sempre de forma coerente com o restante do trabalho. A utilização dessas novas mídias é essencial, sem dúvida, e contribui bastante com todo o trabalho que acontece paralelamente, fora do mundo virtual.

03. É comum no mundo da música ouvir a frase “para esse álbum tivemos tempo de…” como algo que influencia na qualidade do resultado final. Você gostaria de ter tido mais tempo para gravar o Let Yourself In ou a pressão de ter um prazo acabou ajudando no resultado?

Quando recebi o convite para assinar o contrato com a gravadora tive que fazer uma escolha. Aproveitar a oportunidade de gravar o disco era aceitar trabalhar com um prazo curto. Optei em abraçar a oportunidade, extrair o máximo possível daquela experiência e me esforçar para gravar um bom disco. Acho que trabalhar sob a pressão do prazo de entrega foi bom para aquele momento. Aprendi bastante. Algumas coisas boas, inesperadas, podem surgir quando trabalho sob pressão, mas prefiro trabalhar com calma. Ter tempo para compor, para absorver, para testar, para mudar. Gosto de ter esse cuidado com a minha música.

04. Como é regravar um clássico dos Beatles e arriscar uma roupagem 100% nova? Não dá um frio na barriga fazer algo assim?

Na época da gravação não senti essa pressão. Eu estava tão envolvido com tudo o que estava acontecendo que fiquei “anestesiado”, apenas mantendo o foco em terminar o trabalho. Mas, sem dúvida, é uma responsabilidade enorme regravar uma música dos Beatles. Me deu frio na barriga agora, só de pensar.

05. Geralmente pergunto o papel do circuito underground de shows na divulgação de novas bandas. Com contrato em gravadora, música em trilha de novela e filme, qual a importância dos shows como seu cartão de visitas? Você parece ter uma relação bem próxima com os fãs.

Eu gosto muito de tocar ao vivo, de trocar energia com o público. Para mim, é a melhor recompensa por todo o trabalho que vem sendo feito. O show é um momento muito especial. Acredito que todas as pessoas, assim como eu, continuam sendo muito carentes de experiências que possam saciar seus sentidos. Ouvir, ver, tocar, cheirar… O show é o momento onde tudo isso acontece, onde as pessoas podem interagir fisicamente entre si e com a música, e ter uma noção concreta de quem é o artista.

06. Talvez seja cedo para perguntar, mas, já faz idéias de que caminhos musicais pretende explorar mais adiante? Manter-se firme no soft rock, explorar uma pegada mais pesada, trabalhar os flertes com jazz…

O primeiro CD foi uma grande bagunça na minha cabeça. A composição ainda era uma coisa muito nova pra mim e acabei passeando por todas essas influências por falta de experiência mesmo. O que não acho ruim. O disco tem uma inocência, uma honestidade daquele momento, que valorizo bastante. Me preocupo em estar constantemente aprendendo e evoluindo como músico e como artista, e ‘Let Yourself In’ foi um importante primeiro passo. Hoje já me sinto mais seguro. Minhas letras e minha musicalidade já estão começando a ter uma coerência maior com o que busco na música. O próximo disco será menos soft.


O Prédio, o Tédio e o Menino Cego, de Santiago Nazarian

Monday Oct 5, 2009

O Prédio, o Tédio e o Menino CegoUm romance existencialista bizarro. Definição perfeita. Esta lá no meio do texto, nem fui eu quem disse, foi ele, ou ela, assim, prontinho para ser usado na resenha, numa dessas de preguiçoso que mata o livro numa tacada só e fica livre para não falar nada com nada no restante do texto. Mas aí eu lembro que hoje em dia um autor não é só seu livro. Nada disso. A voz do autor está também no blog, esse famigerado veículo de opiniões. E lá no Jardim Bizarro, que um dia foi vermelho de Amor e Hemácias, o Santiago Nazarian disse que ninguém mete o dedo na sua orelha. É uma coisa que não me esqueço, não sei a razão, e já devo ter citado em outras resenhas daqui. E a orelha de O Prédio, o Tédio e o Menino Cego é didática, pragmática como cabe ser a uma orelha. Lá no final diz que é o tipo de literatura que desperta zumbis, e eu ri. Eu ri porque achei que era uma brincadeira com o atual debate de limite de gêneros, mas o Tédio, o Menino Cego e o Prédio dão seu jeito de se desprender da realidade com maestria, espalhando zumbis metafóricos e metalingüísticos, mas nem por isso menos ávidos por neurônios, nem por isso menos animadinhos do que o Otto. Sim, tem zumbis. Mas nisso eu fugi da definição, do existencialismo bizarro, que era de onde queria partir e onde queria chegar.

Sabendo da história da orelha, olhei para aquela frase prontinha, embrulhada para presente, e pensei, hum, aí tem. Você pode argumentar sobre a minha total paranóia, que um autor não lança iscas no seu próprio oceano para pegar o crítico pela boca, de beiço espetado. Em minha defesa digo que O Menino Cego, o Tédio e o Prédio é um redemoinho de paranóia, feito para te arrastar para dentro, para o fundo, para que você tente nadar até a superfície e chegue a qualquer outro lugar. É um livro que desorienta. E num dos momentos mais explícitos de metalinguagem há um escritor, uma máquina de lavar roupa, os críticos e O Crítico, oras. E a piada é mais ou menos assim. Não, deixa a piada de lado, o que importa é O Crítico que fala mal dos críticos, que joga na cara o quanto eles falam besteira ao destrinchar teorias igual estou fazendo aqui. E eu nem li Almoço Nu, o Burroughs que me desculpe. Melhor me prevenir.

Mas há um modo didático que nem orelha intocada para se falar do livro, deixar explicadinho o que não quer ser explicado, quer é despistar, embaralhar as cartas do jogo para que não seja bem literatura do cotidiano nem literatura fantástica, que seja, de fato, existencialista, que tenha doses e overdoses de alucinógenos e humor negro, um gordo histérico e uma professora psicopata, num clima de pastiche policial. Isso servido em camadas, nos andares de O Cego, o Prédio e o Menino Tédio. Meninos, aliás, que são a nossa porta de entrada.

Os meninos.
São sete os meninos que acompanhamos na primeira unidade do livro. Há o Cego do título, o Gordo, o Atleta, o Negro, o Narciso, o Andrógino e o Junkie. Eles moram em um prédio inclinado, na beira da praia. São arquétipos propositais, reconhecíveis nos meandros da adolescência, na época de virada para a vida adulta quando a relação consigo mesmo é tão delicada quanto a relação com os colegas. Ser quem você é depende de sua própria opinião ou de como você se situa na hierarquia social do prédio, da rua, da escola? Há uma escala de poder, uma jornada de auto-aceitação descrita com doses de estranhamento. O Nazarian dedica parte do texto à face interna desses meninos, isola-os do todo, raramente estão juntos os sete, ele os trabalha em duplas, trios, vendo no grupo de amigos os subgrupos que se formam momentaneamente, por conveniência. É um dos pontos mais interessante dos meninos, dos sete e também dos personagens periféricos, a incerteza sobre suas amizades, a certeza de uma solidão que não se rompe nos pequenos diálogos ou na busca por afinidades. Dessa parte, entretanto, gosto bastante de um capítulo em que os sete estão reunidos, sobem uma ladeira indo rumo a um objetivo que não existe. No caminho eles pensam em seus porquês, pensam que poderiam estar lá ou em qualquer outro lugar, pensam no momento certo de sair de cena antes que não possam controlar o que se pensa deles. Mas, acima de tudo, é um capítulo simbólico do livro, é um capítulo que não se importa com o ponto de partida nem com o ponto de chegada, e diz que o que vale é o percurso, o processo, e vejo O Prédio, o Tédio e o Menino Cego como um livro que curte seu processo, que declara com a metalinguagem que a escrita é o melhor da história. O próprio autor compete de igual para igual com os personagens, avisa nas entrelinhas que ele também se metamorfoseia, se não da adolescência para a vida adulta, em outros casulos e crisálidas, em uma narradora capaz de migrar pelas páginas do livro de modo voyeurístico até a participação derradeira.

Não sei se essa parte fez bem ao meu niilismo. Talvez tenha feito bem demais, por isso a torcida para a chegada da Professora, a outra personagem-chave, a que mata menininhos. Se ficar pensando muito sobre o assunto, a resenha só termina ano que vem. Então vamos a ela:

A professora.
Um dos motivos do Tédio é uma greve de professores. As aulas são representadas pela sua ausência. Sem as aulas, não há tempo livre, pois o dia inteiro se torna uniforme, homogêneo em sua falta de função. Os professores entram no livro como um componente fantástico, um sopro de terror. Chegam para uma assembléia que supostamente decidirá o futuro da greve, mas chegam em vários ônibus de turismo, uma revoada, migratórios, loucos para aproveitar a praia que há em frente ao Prédio inclinado. São uma massa, um coletivo que planta a semente para a futura chegada de Regina, a professora que nos interessa.

E Regina chega pelo oceano, quando o mar congela, surgindo de um lugar que ninguém sabe bem. Ela deixa os meninos curiosos com a novidade, tudo que é diferente, que é mudança, é uma arma contra o Tédio. Mas Regina é mais do que isso, ela traz em si muitos papéis para sacudir a história e os hormônios. Regina marca a entrada em outro universo, em que os meninos deixam de ser meninos e passam a tentar impressionar a nova moradora. Não é que Regina seja do tipo agradável, pelo contrário, parece medir as palavras para ser incômoda, e faz isso com uma naturalidade paradoxal própria dos seres irritantes. Mas Regina é inacessível, é a grama mais verde. Num primeiro instante todos querem estar com ela, ser como ela. Adiante, as opiniões vão divergindo, os meninos conquistam uma individualidade além dos rótulos. Uma das grandes sacadas de Regina (e do autor) é exatamente sumir com os rótulos. Quando o Gordo deixa de ser o Gordo, o Andrógino deixa de ser o Andrógino, …, e o autor apresenta seus nomes não só para o leitor mas para os próprios personagens, eles precisam encontrar novos papéis na hierarquia, na história, o que desestrutura a relação e os joga para outras faces de seus arquétipos, onde o Junkie é ainda mais junkie e menos iluminado, o Gordo que apanha vira o gordo que bate, o Narciso não é mais o centro das atenções e encara suas inseguranças.

Regina é também a professora e eleva à enésima potência a máxima de que sobreviver ao colégio é para poucos. Não porque seja exigente dentro da sala de aula, mas porque é uma louca psicopata que mata criancinhas. Uma mistura de Bruxa Má e Branca de Neve no meio dos seus sete anões. Os momentos em que o Nazarian enfia o pé na jaca com gosto e explora as sandices da personagem dão um fôlego extra para o final da história, pelo menos para os que curtem humor negro. É uma delícia. Passei o livro inteiro esperando por ela, e confesso que foi com ela que me diverti, mesmo tendo pena dos meninos, já que também não sou assim sem coração só porque escrevo resenhas.

Fazendo um apanhado de clássicos do policial e do terror, Regina desfila um cabedal de técnicas de assassinato, sumindo com cada um dos meninos de um jeito diefrente. Há o machado que destrói a porta repentinamente, auto-referências reptilianas e um chá envenenado que é meu assassinato predileto. Com uma professora assim, diretora carrancuda parece brincadeira de criança.

Os zumbis.
Para fechar, vale falar do estranhamento. Tenho ficado de olho no modo como os autores se aproximam ou se descolam da realidade, e o Prédio, o Tédio e o Menino Cego é cheio de artifícios. O mais direto deles é o prédio inclinado, sempre a um passo de desabar. Está lá para deixar tudo fora do lugar, para tirar do eixo. O elevador não funciona, as pessoas se desequilibram, o Negro é ejetado, o Gordo rola pelo chão. Nazarian brinca também com as mudanças climáticas. Há um sol de rachar que lota as praias, o mar congela na chegada do inverno, vira uma imensa pista de gelo. É por ele que vem Regina. Quando o calor volta, um imenso deserto, o mar desaparece, insetos tomam conta.

Alguns são elementos de ambientação, outros interferem diretamente nos ânimos e na trama. E aí chegam os zumbis.
O Prédio, o Tédio e o Menino Cego é Coraline with lasers. Ou Coraline ouvindo Suede de franjinha. Não por acaso o único sobrevivente desse massacre chamado adolescência é…

O Prédio, o Tédio e o Menino Cego
Santiago Nazarian
Ed. Record
343 páginas
Com ilustrações muito bem sacadas de Alexandre Matos. Gostei especialmente do pingüim.


Portal Stalker

Sunday Oct 4, 2009

Portal StalkerNão é de hoje que vejo ecos de Alice nos quatro cantos das artes, foi assim desde sempre. Muito se fala de Alice pelos delírios lisérgicos, pela garota que diminui e aumenta de tamanho, que pede conselhos a uma Lagarta amarradona no narguilé, que fala com um gato que pisca. É um jogo de percepções, é a explicitação narrativa da inconstância da realidade, é um monte de palavras bonitinhas que nos fazem esquecer o principal sobre Alice no País das Maravilhas – ele foi um marco na literatura infantil por dispensar a moral. Nada de órfão que perdeu a avó católica, nada de meninos que congelam os pés na neve por não terem o que calçar, nada de garotas que se perdem na floresta e são comidas por um lobisomem que curte coroas. Lewis Carroll queria, acima de tudo, contar uma boa história, e há certa ironia que seja um livro nonsense a nos lembrar disso, do valor da boa história.

Sem entrar no mérito dos livros que sobrevivem da pregação de valores, eu me concentro aqui na ficção-científica brasileira, na parcela que acompanho hoje. Se não há ninguém que, amém, pregue valores cristãos em cada confronto alienígena, há outra moral sorrateira e rastejante que se impõe como quem não quer nada. A moral do “veja só como escrevo bem”, “meu livro encalhou menos do que o seu”, “quem, cof cof, você pensa que é”. É a moral do cara que não agüenta ser sapinho no brejão e decide ser o sapão do brejinho, sábias palavras de Glauco Mattoso que cito sempre. Talvez pela ficção-científica ainda estar vencendo as barreiras do nicho, e não duvido de seu grande potencial de vendas – cegas são as editoras, às vezes me pergunto se os autores não conversam entre si ao invés de se comunicarem diretamente com o público.

Insisto nisso porque a ficção-científica é só uma roupa. É um jeans com camiseta como outro qualquer. Um autor pode vestir seu drama como bem entender. Alguns preferem vesti-lo com magia, outros com andróides perturbados. A literatura dita mainstream, que chamo de literatura do cotidiano para ver se um dia o termo cola, pode até fingir que é um corpo nu, mas também tem lá suas vestimentas e maquiagens. Ficam na porta ao lado, é verdade, mas com um armário cheio do mesmo jeito. Sai a nave espacial e entra o pó de barro, o sofrimento do imigrante. Sai a arma de prótons e entra a família de classe média cheia de podres. Sai o dragão tirânico e entra a favela, a periferia, o marginalizado, o cara que trabalha consertando os canos dos esgotos. E nisso, sinto muito, não há nenhuma nudez. Não existe literatura nua. Não importa a fantasia que se escolha, o que conta no final, veja só, é ter por baixo uma boa história.

Mas o que isso tem a ver com a Portal Stalker? Muita coisa. E com essa resenha também. Vamos num passo de cada vez.

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Farei Meu Destino, de Miguel Carqueja

Wednesday Sep 30, 2009

Tenho voltado meus olhos para a literatura dita infantil e infanto-juvenil para entender melhor o mercado, estudar as diferenças de linguagem, indo de Goosebumps e Lygia Bojunga ao onipresente Harry Potter. Quem lê as resenhas aqui do Aguarrás deve conhecer a minha posição quanto aos ensinamentos e à moral dentro de uma história infanto-juvenil. Enalteço Alice por ser um texto que vira para o lado oposto e minimiza as pregações do que é bom ou ruim ao utilizar o nonsense. Me vem em mente a cena do julgamento de Alice, em que o Rei muda de opinião a cada linha e nunca sabe bem o que quer dizer. Não se trata de anular o herói. Não há dúvidas de que Alice seja uma heroína, ela resgata bebês, mesmo que esses virem porquinhos na cena seguinte. Mas é preciso brincar com as coisas, relaxar o arcabouço dos arquétipos. A Fantástica Fábrica de Chocolate dá o tom do que quero dizer. Antes do início da história, Roald Dahl apresenta os personagens da seguinte forma:

“Nesse livro aparecem cinco crianças: Augusto Glupe, o menino guloso; Veroca Sal, a menina mimada; Violeta Chataclete, a menina que masca chiclete o tempo todo; Miguel Tevel, o menino que só vê televisão; e Charlie Bucket, o herói”.

Charlie não precisa de coração puro ou alma caridosa. Ao ser anunciado como o herói, a descrição de seus adversários passa a ser vista como brincadeira. Não me interessa mais nada em Violeta, ela masca chiclete o tempo inteiro e você conhece bem esse tipo de pessoa, hum?

Fiz essa repescagem de idéias para deixar clara a minha leitura de Farei Meu Destino, de Miguel Carqueija. O que guiou minha opinião.

Farei meu destinoPrimeiro o que gostei:
Já na dedicatória, Carqueija comenta quem serviu de inspiração: Walt Disney, Naoko Takeushi e Charles Sheffield. Assumir referências e o diálogo com o entorno é coisa que falta a muitos autores de literatura fantástica, todos fazendo clássicos definitivos e reinventando a roda. Então, ponto positivo. De Walt Disney, por exemplo, vem uma entidade que aparece no espelho (que não é espelho meu). Elementos rearranjados dentro da mitologia dinâmica que o autor criou. Saber as referências até torna a leitura mais interessante, num jogo para decifrá-las.

A fluência do texto também é boa, e o autor demonstra conhecer a idade de seu público. Quanto à estrutura narrativa, Farei meu destino é livro de se ler rapidinho, com cenas de ação e pitadas de humor bem distribuídas. Fala o suficiente para apresentar a cena ao leitor e não sobrecarrega de informações ou descrições visuais, deixando espaço para a imaginação, o que é típico de um livro infanto-juvenil.

A heroína começa bem, corajosa. Queima quem tem que queimar, mata quem tem que matar, vira a mesa quando precisa. Faz isso contra vilões declarados, é claro, um bando de tarados, uma freira demoníaca e um suposto estuprador, mas não anula o fato de não ter medo das soluções que envolvem violência (não gratuita). Seu melhor momento é a piadinha sobre óleo de rícino no final.

“Quando recordo aqueles dias, reflito muito nas circunstâncias que convergiram aquelas meninas para junto de mim, uma a uma, até formar aquele grupo sólido e de total lealdade mútua”.

“Embora elas não o pegassem à força, rodeavam-no de tal maneira que ele se sentia prisioneiro. Sandy tinha quinze anos, não poderia lutar contra seis garotas adolescentes. Também nunca se vira rodeada por tantas, e tão charmosas (…)”.

O que não gostei:
Esse é quase um detalhe, mas vale o comentário. Diana, a protagonista, tem um amor durante a história. Mas é um amor muito rápido, um amor que já estava lá e um amor que estará lá, ele não é um amor de tempo presente, então o leitor não consegue torcer por ele, apesar da simpatia dos personagens envolvidos.

Agora o ponto-chave: a religião.
Não é de hoje que religião e literatura fantástica se misturam. Lilith Saintcrow faz isso na série de Jill Kismet, uma caçadora de demônios. Lilith tira a mitologia do preto no branco com sutilezas. A igreja não apoiar os caçadores e dizer que eles irão todos para o inferno junto com os demônios é um dos artifícios. Thomas E. Sniegoski vai bem mais fundo na brincadeira e usa e abusa da mitologia católica. O detetive é um anjo com um cachorro labrador que trabalha de freelancer. Num conto, ele é contratado por anjos caídos para desvendar o assassinato de Noé, numa plataforma de petróleo.

Carqueija também faz sua mistura. Há um toque mágico de pedras da luz, um papel importante da Lua, tobogã voador, bastões mágicos, mundo dos sonhos, dirigível capaz de sair da atmosfera terrestre, coisas que curti consideravelmente, mas tudo isso sucumbe diante da religião. A mitologia funciona direito, é divertida, mas quando a religião entra em cena ela se destaca demais. Não sei a religião do autor, mas me pareceu uma escolha consciente. O livro abre, inclusive, citando um salmo: “Não abandoneis ao abutre a vida de vossa pomba”. E com isso vem toda uma distribuição de peças: a do bem associado a estar ao lado de deus e a do mal dos ricos, o mal demoníaco que anula a força do mal humano. Insisto que me parece uma cartada narrativa consciente, que não passou da medida por acidente. Foi planejada para ser assim. O problema é que nisso se perde um público, pois a história passa a ser direcionada a quem curte princípios cristãos como eixo moral, que não é o meu caso.

“A Rainha da Serenidade preferiu zelar por todas, do Céu; mas vocês ainda devem permanecer no universo material, protegê-lo contra o Mal”.

“Neste sistema, a revelação de Jesus Cristo forneceu à humanidade as armas espirituais para barrar o caminho do inimigo íntimo, secreto, que vence pela tentação, pela perversão dos espíritos”.

Fui pego de surpresa, pois o livro começa com um tobogã voador, um castelo que abriga antigos segredos e poderes, e de repente a religião vai tomando conta. Faltou à capa, orelha ou contracapa dar uma dica do conteúdo do livro. Elas citam uma aventura fantástica e falam de mangás e animes como referências de trabalho recente do autor, sem dar pista do tom religioso que, ao meu ver, faz a diferença.

Não anula o fato de ser um livro bem escrito, mas isso poderia ficar mais claro.


Território V, coletânea

Tuesday Sep 29, 2009

Existe vida inteligente na Transilvânia após Crepúsculo? É só saber procurar.

A coletânea Território V (Editora Terracota) foi organizada pelo escritor Kizzy Ysatis, autor de Diário de Sibila Rubra e Clube dos Imortais, que ganhou o prêmio Rachel de Queiróz. Um autor de literatura fantástica premiado pela UBE – União Brasileira dos Escritores – pode espantar os que ainda julgam a relevância do texto pelo tema e não pelo talento do escritor. Como diz Javier Marías, é mais fácil ser respeitado pelo drama do que pelo humor. O fato é que as fronteiras entre gêneros estão sumindo, e aquela tendência natural da literatura brasileira de se alimentar do realismo, do pó de barro do nordeste e da miséria das cidades, está encontrando um ponto de equilíbrio com magos, zumbis e vampiros de sotaque brasileiro.

Território VDe acordo com a orelha, a proposta de Território V era justificar a solidão dos vampiros, brincar com a idéia de que um vampiro não se dá bem nem com ele mesmo (“alcatéia é para os lobos”), o que foi usado de maneira bem diversa pelos participantes. Geralmente em coletâneas você sempre se pergunta se alguns contos foram realmente lidos, de tão ruins. Não é o caso aqui. Os textos estão bem nivelados, sem nenhum ponto gritante fora da curva. Claro que há altos e baixos, isso acontece em coletâneas de um só autor o que dirá de vários. Mas mesmo quando a história não conseguiu me envolver ou descambou para o óbvio, o texto se mostrou bem estruturado, com um trabalho real de edição.

Ao todo são vinte contos, mais o prefácio de Giulia Moon. Resolvi falar de dez deles, os que mais me chamaram atenção e os que quase chegaram lá.

 

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E-book: o início, o fim e o meio

Friday Sep 25, 2009

A Internet qualquer dia vira peça de museu e tem gente que ainda não sabe usar. A situação se complica quando gente é substituído por empresas da área cultural e de entretenimento. É possível sobreviver sem evoluir? A teoria de Darwin também vale para o mercado? A resposta é tão óbvia que me assusto por o país que mais passa tempo conectado não explorar as mídias da Web de maneira decente (procure os portais de seus canais de televisão prediletos e pense sobre o assunto).

A primeira grande mudança, hoje em dia, já é assunto de aula de história. Quando a mp3 derrubou o CD e as gravadoras, havia a desculpa de ser pego desprevenido pela novidade que não veio de cima da pirâmide, mas da base de consumo. A resistência das gravadoras foi de uma estupidez sem tamanho e os resultados não foram dos melhores. Correr atrás do prejuízo ao invés de correr na frente das tendências ainda parece o modelo vigente. No Brasil, não existem bons sites de venda de mp3. A maioria vende wma que vem em qualidade mediana (160kbps, quando deveria vir em 320kbps) e com proteção irritante que acaba com a mobilidade. Nosso país de ares ciberpunks tem como maior canal de vendas o celular.

Aí veio a segunda onda com os vídeos. Diferente dos primos da área de áudio, os distribuidores de vídeo parecem estar se mexendo. Há a proposta de pagar uma mensalidade equivalente à TV por assinatura e baixar o conteúdo on demand, episódios liberados primeiro na Internet e depois na TV, um esforço tímido para munir de novos artifícios os portais dos canais que deve ganhar força nos próximos anos. Também temos locadoras que permitem streaming, evoluções do Youtube e outras ferramentas mais que ajudam na renovação. Sem falar no Blu-ray e no cinema 3D, do lado físico, mas que valem outro texto.

Um movimento natural é que o mesmo processo de virtualização ocorra com os livros, e o papel ceda lugar ao e-book. Sempre achei que o mercado literário tenderia a agir com flexibilidade, aprendendo com os erros dos antecessores, mas alguns pensamentos congelados no tempo e no espaço mostram que editoras podem tomar uma rasteira muito parecida com a que vitimou as gravadoras, munindo-se de mitos ao invés de dados práticos.
Antes de qualquer coisa, é preciso definir o e-book, mesmo que usando um conceito que já nasceu ultrapassado. O e-book, ou livro eletrônico, é uma versão em arquivo do texto lido em papel. Um dos arquivos mais usados é o pdf. Você baixa para o seu computador ou aparelho e lê o texto. Tem quem use até mesmo o celular, sem muitos traumas.
O mercado de e-books ainda é inexpressivo no mundo inteiro, o que não está impedindo as editoras internacionais de pensarem no assunto e começarem seus testes, diferentemente das editoras nacionais, que preferem ignorá-lo.

Por que fazem isso? Também gostaria de saber. Dois argumentos que tenho escutado:

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