Category: Literatura e HQ


Comentei recentemente que estou trabalhando no livro Necrópolis, de Douglas MCT, mais um título da Editora Draco. A  capa, divulgada semana passada, foi feita por Victor Negreiro, a.k.a estivador, e vem sendo bastante elogiada. O livro tem uma pegada jovem bem forte e trabalha temas sérios como a morte de pessoas que amamos, a descrença diante do mundo e a retomada da capacidade de confiança. Cheguei a um terço do livro e estou curtindo bastante a ambientação. Gosto do jeito como o Douglas cria personagens empáticos, seja para atrair o leitor ou para irritá-lo. Assim como o José Roberto Vieira, de O Baronato de Shoah, o Douglas faz parte de uma geração influenciada por milhões de referências multimídia, fruto de HQs, jogos, literatura pop, cinema hollywoodiano, etc.  Como tive o okay do autor e da editora para fazer um trabalho completo, estou ajudando o Douglas a reestruturar o texto, deixando-o mais ágil e direto ao ponto. Uma das poucas vezes que fiquei curioso pelo final de um livro em que trabalho. Esse copidesque faz parte de um esforço meu para agilizar o mercado de fantasia nacional. Tenho dado atenção especial a autores do gênero, ajudando-os a se prepararem para o mercado.

Um trecho do release:

“No que você acredita? Verne Vipero em nada fora do normal. Um rapaz cético que confronta sua descrença ao descobrir que pode salvar a alma do irmão morto da inexistência, que segue em direção ao Abismo em outro mundo. Abalado pela perda e descobrindo uma possibilidade, ele parte para o Reino dos Mortos com um objetivo, quase uma obsessão: trazer Victor, o caçula, de volta a vida. Aliado a um Monge renegado, um ladrão velocista, uma Mercenária deslumbrante e um assassino que veio dos céus, Verne Vipero parte em uma jornada tenebrosa, do deserto mórbido, uma cidade de pedra, até os confins do mundo, em busca da alma do irmão. Custe o que custar. Em Necrópolis nada nem ninguém é o que parece ser e a Fronteira das Almas é o fim da travessia”.

O Douglas é roteirista de games e quadrinhos, e em breve lança Hansel e Gretel, mangá criado e roteirizado por ele. Confio muito no potencial do cara, fiquem de olho.

 

O livro conta com trilha sonora de Isis Fernandes, que pode ser ouvida aqui:

Daniel Galera na Aplauso

“Eu li há algum tempo o livro Sharp Teeth (do escritor americano Toby Barlow, ainda não traduzido para o português), uma história de lobisomens no deserto da Califórnia escrita em forma de poema épico. É absolutamente sensacional”. – Entrevista de Daniel Galera na revista Aplauso. Estou bem curioso para ler Cachalote, HQ que ele acaba de lançar com o Rafael Coutinho, e ver o que os dois inventaram. A dica da entrevista foi do Douglas MCT, autor de Necrópolis, em minhas mãos para copidesque.

Resenha de Saint-Clair Stockler aqui para o site.  Obrigado, Saint!

 

Para evitar expectativas desnecessárias, começo dizendo logo: eu amei O livro do cemitério, mais recente livro de Neil Gaiman publicado no Brasil. Me apaixonei como há muito tempo não me apaixono por uma obra. Gostei tanto, mas tanto, que ele ultrapassou os demais livros de Gaiman publicados no Brasil e tomou o primeiro lugar no meu coração.

A obra foi publicada pelo selo Rocco Jovens Leitores, o que de alguma forma assinalaria o fato de que é primordialmente para crianças e adolescentes. Ledo engano. Os editores brasileiros, sejam de grandes ou minúsculas editoras, precisam aprender de uma vez por todas que nem toda obra que tem uma criança como personagem principal é “infanto-juvenil” (até hoje, confesso, não entendo bem essa classificação), que o digam os romances O senhor das moscas (William Golding) e Reparação (Ian McEwan). Mas vai ver é tudo uma jogada de “marquetingue”: livros “infanto-juvenis” devem vender mais do que “para adultos”, sei lá.

Para os leitores de obras como Coraline, Deuses americanos, Sandman, etc., O livro do cemitério vai parecer, de alguma maneira, familiar. A história é a seguinte: logo nas primeiras páginas, uma família é assassinada por um estranho vestido de preto chamado “Jack”. Por incrível que pareça, só um bebezinho consegue escapar. Ele acaba chegando a um cemitério abandonado próximo de sua casa, no alto de uma colina, onde é imediatamente “adotado” pelos fantasmas do lugar. Um casal de fantasmas vitorianos acaba se tornando “pai” e “mãe” do garoto, que recebe o sobrenome de seus pais adotivos, e o nome de “Ninguém” (porque os fantasmas não sabem seu nome). Ninguém Owens – Nin para os íntimos. O cemitério onde Nin passa a morar é, desculpem o trocadilho, cheio de vida: as dezenas e dezenas de fantasmas, a maioria vitorianos, se bem que há até mesmo o fantasma de um militar do Império Romano e o de uma bruxa, se encarregam do bem-estar e da educação de Nin. Conseguem até mesmo dar-lhe um “tutor”, na figura do misterioso Silas, que embora não esteja exatamente morto, mora num dos mausoléus arruinados do lugar.

Nin irá viver por quase 15 anos, de bebê até a adolescência, dentro dos muros do cemitério. Todos os fantasmas têm receios de que ele saia e acabe dando de cara com o misterioso assassino Jack, que ainda está solto. Durantes seus anos no cemitério, Nin vai aprender coisas que, em geral, os humanos desconhecem: como Desaparecer, Passear pelos sonhos, Atravessar paredes, e, por fim mas não menos importante, Assombrar. Nin recebe a “Liberdade do cemitério”, concedida pelos fantasmas que nele habitam, só assim é capaz de viver e aprender com eles. É lindo, e profundamente emocionante, ver como os fantasmas do cemitério abandonado acabam tendo grande preocupação e grande amor para com o garoto vivo que o Acaso botou em suas etéreas mãos.
Como disse, Nin vive quase uma década e meia dentro do cemitério, sem sair. Mas acontece que ele está se tornando um adolescente (e brevemente será adulto), e as coisas, claro, começam a degringolar. Nin resolve que precisa sair para o “mundo de fora”, ver a Vida (coisa que, vamos reconhecer, é meio difícil de achar num cemitério), se aproximar de seres humanos como ele próprio. A contragosto, Silas – o misterioso tutor – acaba tendo de concordar. Mas os resultados não são os esperados e tudo dá errado. E ainda por cima, não nos esqueçamos, Jack está à procura de Nin para terminar o “serviço” iniciado quase uma década e meia atrás…

Não quero me alongar demais no enredo, porque vale muito a leitura do livro. Mas gostaria de falar da tessitura da obra. Dessa vez, Gaiman utiliza um estratagema que, salvo desconhecimento meu, é inédito em seus livros: O livro do cemitério é um romance, sim, mas também é um livro de contos. Cada capítulo é um conto, com uma história fechada em si mesma (tanto isso é verdade que Gaiman diz, nos Agradecimentos, que começou a escrevê-lo pelo capítulo 4). Podemos ler o livro como um romance, mas se assim o desejarmos, podemos também ler o mesmo livro como uma coleção de contos que tem Ninguém Owens e o cemitério abandonado como elementos de ligação. Tanto os “capítulos” como o “romance todo” têm completude e força por si sós. Neil Gaiman está de parabéns.

Como já disse, não estou bem certo de que o livro seja para crianças/adolescentes. O final é triste demais, embora belíssimo, para ser tomado por um livro “só” para jovens. Há cenas antológicas, das melhores que já saíram da pena enfeitiçada de Neil Gaiman. Temos até mesmo uma “participação especial” da Morte em dois momentos da narrativa. Mas, leitores de Sandman, a Morte de O livro de cemitério não é a mesma dos quadrinhos de Sandman. Outra dica: fiquem atentos à única cena em que vivos e mortos da cidadezinha onde transcorre a ação se reúnem. É uma coisa tão bonita e tão bem-escrita que consegui ver o desenrolar da ação, como se estivesse assistindo a um filme (aliás, boa sugestão: Hollywood, alô?).

Se você pretende dar um presente a alguém especial e não sabe o quê, sugiro fortemente esse livro – que ainda por cima tem belíssimas ilustrações de Dave McKean, parceiro de Gaiman em diversos trabalhos –, pois ele é daqueles que nos emocionam e nos fazem sonhar. Coisa rara hoje dia no reino da literatura, convenhamos.

Melhores do Ano e RPGCon

Duas notícias rápidas! Primeiro quero compartilhar a felicidade de ter ganhado o prêmio Melhores do Ano 2010 organizado pela Ana Cristina Rodrigues. O prêmio é voltado para a área de literatura especulativa e eu ganhei como melhor colunista/resenhista, graças aos textos publicados no Aguarrás, e como melhor site informativo, pelo falecido Fantastik, empatando na primeira posição com o Homem Nerd.

Como não pedi nenhum voto para amigos e parentes, fico muito feliz com o resultado. Você pode conhecer os demais vencedores no blog Cidade Phantástica, do Romeu Martins.

Foi lá também que descobri que minha participação no RPGCon foi confirmada! Estarei ao lado de Richard Diegues, Gian Celli, Cris Lasaitis, Douglas MCT e José Roberto Vieira falando de literatura fantástica, com destaque para o gênero SteamPunk.

O convite ocorreu graças à minha participação na coletânea Vaporpunk da editora Draco, organizada pelo mestre da história alternativa Gerson Lodi-Ribeiro, com autores do Brasil e de Portugal. Pelo que tive oportunidade de ver, é um um livro muito bom que vai deixar os fãs do gênero babando. Meu conto mistura metamorfos e steam, numa história passada na época de D. Pedro II. Deu um trabalho do cão fazer a pesquisa, então espero que os steamers curtam bastante.

Depois de muita torcida no orkut e muita cobrança no twitter, tenho o prazer de revelar os primeiros trechos de Alma e Sangue III  – O Pacto dos Vampiros. O livro está indo para revisão essa semana. Passou pelas minhas mãos para uma leitura de amigo mesmo, sem vínculo profissional. É o livro mais movimentado e com a trama mais complexa até agora. A Naza está de parabéns, o livro vai superar a expectativa dos fãs fácil fácil. Para comemorar o fim de mais uma etapa, Naza e eu decidimos então divulgar três pequenas partes. Espero que curtam esses aperitivos. Eles dão dicas certeiras sobre as novidades da série. Fiz questão de apresentar alguns dos novos personagens para vocês. ;-)

“– Sente-se Iago. Não fique tão surpreso, nada tenho contra sua espécie. Sou um vampiro civilizado, gosto de manter os bons modos. Diante de mim só caem de joelhos os que mato com minha espada. Você é filho de um amigo e o recebo com deferência – disse o rei, e todos se sentaram. – O Pacto foi firmado quando eu ainda era mortal na casa de Radamés. Ele me ensinou que todos nós somos iguais na imortalidade. Queremos a mesma coisa, nos mantermos ocultos e vivos. Conheço Darden o suficiente para saber que ele deseja o mesmo que eu. Ele trouxe ordem ao mundo dos Homens-Lobos quando só havia desordem e matança. A paz entre nossas espécies já se provou benéfica e lucrativa. Muitos de nós temos negócios em comum, como a mineração do ouro e da prata. Pelo menos os mais tolerantes”.

 

“Marie entrou pela clarabóia. Guiada por seu cristal, seguiu os sinais deixados por Samael. Estava no corredor procurando rastros quando um vampiro saltou sobre ela. Ela o empurrou com tudo. Precisava afastá-lo para usar seus poderes. Tentou alcançar sua faca e foi nesse momento que o vampiro viu a marca em seu pulso e recuou com medo. Ele a libertou e se afastou, dando espaço para o ataque. Foi seu primeiro e único erro.

– Ignis!
Incendiá-lo perto de si seria suicídio, mas a distância deu resultado. O vampiro tocou o corpo e se viu coberto de chamas. Dentro delas, ainda teve tempo de sentir o aço da espada de Kara o traspassar e, por fim, separar sua cabeça do corpo”.

 

“Martan se moveu veloz e a grudou na parede. Kara se debatia, mas ele continuava imóvel, como se fosse feito de pedra. Ela gritou de dor, sentiu uma faca ser cravada em sua mão.  O golpe foi muito rápido para que ela pudesse entender o que era se defender de verdade. O vampiro se afastou e a observou segurar a mão ferida, o olhar de incredulidade. Sangrava sujando o chão. Por fim, Kara arrumou coragem para puxar a faca da carne. A mão cicatrizou rapidamente e a dor passou. Estava assustada como ele imaginou que ela ficaria.
– Jan Kmam lhe deu um presente único, a imortalidade. Temos poderes similares aos dos deuses, e mesmo assim você age como se odiasse ser uma vampira. Ser vampiro foi à única escolha e salvação para muitos de nós. Você é livre para partir ainda hoje se quiser. Não vou ensinar você a ser algo que odeia. Não tenho tempo para perder com alguém assim. Apesar de não acreditar Kara, você é livre”.

 

É isso! Acho que vocês entenderam o que vem pela frente, muitos acontecimentos que levam ao despertar de um novo inimigo. Quem acompanha a série deve ter uma pergunta na ponta da língua para fazer: cadê Jan Kmam? Foi de propósito que não escolhemos nenhum pedaço com ele, mas ele está lá, faz parte das surpresas que a Naza preparou. Fãs de Kmam, não se preocupem. Os vampiros continuam com tudo, tentando passar rasteira uns nos outros.

Só para lembrar, O Pacto dos Vampiros só sai mais para o final do ano. Antes dele (final do mês), chega às lojas Kara e Kmam – Segredos de Alma e Sangue, um livro independente, que completa os livros anteriores e faz a ponte com o Pacto.

O escritor é um ladrão de histórias, um sujeito de olhos e ouvidos atentos que tira pedaços dos outros na fila do banco, no banco do restaurante, na entrada da livraria, sem dó nem piedade. Enquanto o mentiroso conta casos que se passaram com um primo, um vizinho, um amigo da tia, o escritor põe as histórias roubadas no papel e legitima o processo através de seus personagens. Todos fazem parte dele sem que ele precise fazer parte deles de todo.

Tanto na literatura fantástica quanto na do cotidiano, é larga a interseção do real com o imaginário, criando um espaço para que autores como Ivana Arruda Leite se esbaldem no jogo de percepções permitido.

Ao Homem que não me quis começa com flash fictions, histórias rapidinhas com certa dose de humor que preparam o caminho para três narrativas longas, entre elas a que dá nome ao livro e escancara de vez o jogo das verdades proposto pela autora.

“São Paulo amanheceu parada. A greve de ônibus entope as tripas da cidade. As pessoas se espremem nas lotações clandestinas pra não perder o dia de serviço. Confesso que estou mais preocupada com meu próprio congestionamento. Minha hérnia pode estrangular a qualquer momento e, se isso acontecer, a morte será imediata. Pelo menos é o que diz minha mãe”.

A narrativa de Da difícil vida das rêmoras é a mais fragmentada. Os parágrafos demoram a se encaixar e deixam o leitor em um estado de suspensão de entendimento, na dúvida de quais seriam os pontos de coesão do texto, até que ele se aproxima do fim de modo mais amarrado, terminando o experimentalismo da quebra. É uma transição interessante das flash fictions para as narrativas mais tradicionais, pois evolui a forma e mantém o foco nas relações humanas que funcionam sem serem perfeitas. O trecho abaixo mostra o clima desses relacionamentos:

“A rêmora gruda no corpo do tubarão e vai se alimentando do que ele não utiliza, dos seus restos. Para o tubarão, a presença da rêmora não cheira nem fede. Ele não abre mão de nada do que lhe é essencial”.

A Mulher do Povo conta a história de uma mulher internada pela primeira vez em um hospital público e que divide o quarto com várias pacientes. Há uma brincadeira do contar histórias, de como a protagonista fala de si e fala das demais, com sutilezas sobre verdades e mentiras que se fazem presentes através da história de um traficante internado no quarto ao lado (será mesmo?) e dos falsos banhos que ela toma para enganar a enfermeira. É um conto bem-humorado para um tema que não é dos mais leves. Fico particularmente entristecido quanto leio narrativas em hospitais.

Em Ao Homem que não me quis a protagonista dá em cima de um homem casado que não cede aos seus encantos. O relacionamento só rola na sua cabeça e ela escreve contos sobre eles, presenteando o sujeito com as histórias. Apesar de dizer não às investidas, ele parece curtir os presentes e fica chateado quando ela para de escrever sobre eles. Sem querer investir no real, a ficção os alimenta. Nesse meio tempo, a protagonista sai de férias com um homem que realmente gosta dela, mas a história mostra que o gostar nem sempre é suficiente para que um relacionamento dê certo, já que os dois vivem se desentendendo. Nesse vai e vem de possibilidades, a autora trabalha camadas sutis de metalinguagem indo dela para a história e da protagonista para a imaginação da mesma.

Leitura rápida que cumpre bem seu objetivo. Fiquei curioso para ler Hotel Novo Mundo.

Fronteiras da fantasia 5

Um dos grandes riscos de quem lida com o fantástico é deixar que o universo de possibilidades engula a própria literatura. Em uma das melhores mesas que já vi no Fantasticon, Nelson de Oliveira, Ronaldo Bressane, Santiago Nazarian e Kizzy Ysatis discutiam suas práticas de escrita quando o Santiago jogou no ar a seguinte provocação (nas minhas palavras, não lembro mais as dele): que autores de gênero teriam um compromisso maior com o gênero do que com o texto, enquanto autores de literatura do cotidiano teriam um compromisso maior com a palavra e o refinamento das frases. Desde então, quando estou entre autores de literatura fantástica, levanto essa bola. A última vez, no podcast Papo na Estante, acabamos concordando que ainda há muito espaço para se melhorar. Generalizar nunca é o caso, mas pensando em todos os contemporâneos de literatura fantástica que li, o Santiago não deixa de ter razão. Alguns escritores de fantasia passam mais tempo pensando em seus universos do que no próprio texto. Parece ser mais importante definir o comércio entre “orcs” e “elfos” e colorir de canetinha o mapa das terras inabitáveis de Asgard  do que aprimorar as ferramentas de escrita e entregar ao leitor um texto forte por si só. Utilizando o audiovisual como exemplo, quero dizer que uma boa equipe de efeitos especiais não deve ser mais importante do que o diretor e o roteirista na composição do que se apresenta. Antes de pensar na equipe de 3D, converse com o seu diretor de fotografia, o cara que saca das sutilezas.

Assim, sempre aconselho autores de fantasia a lerem mais literatura realista, a.k.a. mainstream. Na hora de resolver uma cena, de apresentar o clímax, autores realistas não podem sacar bolas de fogo do chapéu nem dentes pontudos da cartola. Seus recursos são a diegese firmada desde a primeira página, o processo de mudança dos personagens e a literatura por si só (o que não significa que todos eles escrevam bem). Efeitos especiais não são permitidos, Sr. Spielberg. Se um autor de fantasia conseguir dominar esses recursos, será capaz de oferecer um livro sólido e de alcance mais amplo.

Venho tentando entender e, quando possível, ajudar a nova geração de autores de fantasia a criar suas obras, porque acredito que o fantástico tem de fato um papel dentro do universo maior da literatura. Pedi então para o novíssimo autor Jim Anotsu, que lançou esse ano Annabel e Sarah, participar da série Fronteiras da Fantasia, representando não só autor, como também o jovem em questão.

“Muita gente desenvolve seu gosto pela leitura através de livros de fantasia, ficção-científica, chick-lits. Então temos aí um dos fatores que tanto permitem a aproximação entre livros e leitores. Não acho que uma pessoa seja introduzida no mundo da literatura por Philip Roth ou Joyce”.

Perguntei também como ele lida com os dilemas da fantasia e se ele tinha alguma estratégia para fugir das armadilhas de um texto fantástico:

“O fantástico é muito importante  numa história, mas aquilo que conecta uma pessoa ao texto é o elemento com o qual ela pode se identificar. Se pegarmos os grandes clássicos da literatura fantástica, eles não foram imortalizados porque o monstro-polvo-rosa-choque é maior do que alguma criatura que veio antes”.
Seguindo a linha de raciocínio de que o fantástico é um recurso extra, que vem para somar, não para confundir, ele acrescenta: “Não se pode separar o elemento humano do fantástico, você pega todas essas coisas, idéias, o Caos Cremoso que Andre Gide comenta em ‘Diários dos Moedeiros Falsos’, e bate até que surja uma massa homogênea”.

Como o Jim tem uma percepção diferente da criação de mundos, pedi para ele falar como é o uso da fantasia no seu universo adolescente.

“A fantasia em “Annabel & Sarah” é o tíquete de metrô que permite você ler a história e acreditar nela. Então em primeiro lugar, ela aceita as duas garotas em posições e lugares que de outras formas elas não conheceriam. É a fantasia que cria o pacto de confiança entre as três entidades: leitor, narrador e personagem.  Em ‘Annabel e Sarah’, o uso da fantasia está em cada página, nos animais falantes que Annabel conhece ou na cidade de Allegria com sua ditadura da felicidade. E o leitor prossegue na história porque algum sentimento, alguma coisa ali é real o suficiente para criar uma identificação. Eu sabia desde o início que eu deveria tentar escrever a fantasia mais delirante possível, mas de uma forma que fizesse com que o leitor ainda se identificasse com eles. Porque se você retirar, por exemplo, Dean Chinaski, uma raposa delinqüente, do seu contexto, terá um jovem perdido como muitos outros por aí”

Para fechar, Jim Anotsu fala do momento atual da fantasia: “Estamos vivendo um ótimo momento, muitos autores estão ganhando a chance de mostrar seus trabalhos e as pessoas começam a finalmente respeitar um gênero que durante muito tempo sempre foi a irmã mais feia da ficção científica, mesmo que grandes clássicos como “A Divina Comédia” de Dante ou “A Tempestade” de Shakespeare sejam histórias de fantasia. Eu tenho esperanças de que muitas coisas super bacanas estão vindo por aí”.

Meu amor é o sucesso

Okay, okay. Ainda não conquistei o mundo. Estou pensando em começar pela Colômbia, Nova Zelândia talvez. Mas nesse post estou falando dos pequenos sucessos, dos que nos fazem seguir em frente e matar um leão por dia com um sorriso no rosto, sabendo que uma grande jornada é feita de pequenos passos.

Queria agradecer a todos que apareceram no lançamento de Meu Amor é um Vampiro e aos que torceram de longe também.  O lançamento foi um sucesso, um clima muito gostoso de mission accomplished, cheio de amigos e presenças vampirescas ilustres. Fica um abraço também aos fãs crepusculares que deram um gostinho diferente à noite. Não sei o nome de todo mundo, mas espero esbarrar com vocês por aí em outros eventos.

No meio literário (e em qualquer outro) tem muita gente que fala mal e torce contra, não interessa o objeto em questão. O importante é torcer pelo fracasso alheio numa tentativa de compensar as próprias frustrações. Mas essas pessoas têm uma vida tão ruim, são tão losers, tão miseráveis, que fico com a certeza de que cada um colhe o que planta e, que me desculpem essas pessoas, continuarei sorrindo e fazendo o meu melhor.

Minha certeza de sucesso é saber que além de cuidar do que é meu, estou ajudando outras pessoas a chegarem lá. A Naza está aí que não me deixa mentir. Depois de muito sufoco, best-seller absoluto, ano que vem  lança o quinto livro e já se prepara para uma nova série. Nesse fim de semana, foi muito gostoso ver as autoras que estão sendo publicadas pela primeira vez em papel, nervosas só de estarem ao lado de veteranas, podendo falar com o público, de mãos tremendo  e olhos brilhando. Não tem recompensa maior do que saber que fiz parte disso. De bônus, ainda ganho novos amigos no percurso. Obrigado Draco por apostar na idéia.

Abrir portas individuais pode ser mais prático, é muito mais fácil, se bobear dá até mais status, mas prefiro seguir nesse caminho que me tira o sono e me tira do sério, porque são portas que não se fecham mais e acabam abrindo janelas, portões, passagens secretas. Lá na frente, meus amigos, a gente vê os resultados e faz um brinde de sangue rubro aos miseráveis que ficaram para trás.

Para fotos do lançamento:  Picasa da Draco Editora e Site Adorável Noite.

 

ps. que frio é esse, minha gente?

 

Dia dos namorados

Pessoal, só para lembrar que hoje, dia dos namorados, é o lançamento de Meu Amor é um Vampiro, primeiro volume da coleção Amores Proibidos, lançamento da editora Draco voltado para o público jovem e adulto. Reunimos 9 autoras para falar de romances vampirescos, cada uma ao seu estilo. Os casais estão (quase) sempre presentes, mas os contos trazem várias surpresas, uns são mais engraçados, outros mais sanguinolentos, tem para todos os gostos.

Espero vocês na Saraiva do Shopping Paulista, 16 horas.

 

Algumas autoras vieram para Sampa só para encontrar com os leitores. Não percam a oportunidade.

FantaZine

Acabo de descobrir, ligeiramentre atrasado, um novo e-zine de literatura fantástica organizado pelo Alex Bastos e pelo Lucas Rocha, duas figurinhas carimbadas da minha timeline. Apesar do nome, a FantaZine não tem o patrocínio da Coca-Cola. Essa revista traz na capa uma imagem já clássica de True Blood, entrevista com a Giulia Moon, material do crítico Antônio Luiz Costa, das autoras Ana Lúcia Merege e Rita Maria Félix, entre outros. Foi através de um post da Rita que fiquei sabendo da revista. Estávamos mesmo precisando de novos zines na área e acho que estão nascendo do lugar certo dessa vez. Fazer sempre ajuda a entender o trabalho por trás de cada iniciativa.

 

Mr. Alex comenta o que motivou a criação da revista virtual: “A FantaZine surgiu de certa maneira de um remorso meu, fiquei um tempo afastado da internet e quando voltei descobri a quantidade e a qualidade de material bom produzido pelo pessoa da Literatura Especulativa daqui”.

“Notei que não havia nada como uma revista de divulgação deste ramo, guardei a ideia por um tempo e depois a dividi com o Lucas Rocha que topou me ajudar a recolher o melhor do material. Como ainda estávamos na onda dos vampiros decidimos fazer uma edição especial sobre o tema. Com a mão mágica da Rita Maria Felix conseguimos finalizá-la”.

“A intenção é simplesmente divulgar o material de qualidade, seja ele de pessoas conhecidas ou não. Outros países já tiveram êxito, vide Portugal com a Bang! – que teve 16 mil downloads na terceira edição -, esperamos conseguir esse reconhecimento também”.

 

Se você curte Fantasia, Terror e Ficção-científica, não deixe de clicar.

 

 

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