Resenha de Saint-Clair Stockler aqui para o site. Obrigado, Saint!
Para evitar expectativas desnecessárias, começo dizendo logo: eu amei O livro do cemitério, mais recente livro de Neil Gaiman publicado no Brasil. Me apaixonei como há muito tempo não me apaixono por uma obra. Gostei tanto, mas tanto, que ele ultrapassou os demais livros de Gaiman publicados no Brasil e tomou o primeiro lugar no meu coração.
A obra foi publicada pelo selo Rocco Jovens Leitores, o que de alguma forma assinalaria o fato de que é primordialmente para crianças e adolescentes. Ledo engano. Os editores brasileiros, sejam de grandes ou minúsculas editoras, precisam aprender de uma vez por todas que nem toda obra que tem uma criança como personagem principal é “infanto-juvenil” (até hoje, confesso, não entendo bem essa classificação), que o digam os romances O senhor das moscas (William Golding) e Reparação (Ian McEwan). Mas vai ver é tudo uma jogada de “marquetingue”: livros “infanto-juvenis” devem vender mais do que “para adultos”, sei lá.
Para os leitores de obras como Coraline, Deuses americanos, Sandman, etc., O livro do cemitério vai parecer, de alguma maneira, familiar. A história é a seguinte: logo nas primeiras páginas, uma família é assassinada por um estranho vestido de preto chamado “Jack”. Por incrível que pareça, só um bebezinho consegue escapar. Ele acaba chegando a um cemitério abandonado próximo de sua casa, no alto de uma colina, onde é imediatamente “adotado” pelos fantasmas do lugar. Um casal de fantasmas vitorianos acaba se tornando “pai” e “mãe” do garoto, que recebe o sobrenome de seus pais adotivos, e o nome de “Ninguém” (porque os fantasmas não sabem seu nome). Ninguém Owens – Nin para os íntimos. O cemitério onde Nin passa a morar é, desculpem o trocadilho, cheio de vida: as dezenas e dezenas de fantasmas, a maioria vitorianos, se bem que há até mesmo o fantasma de um militar do Império Romano e o de uma bruxa, se encarregam do bem-estar e da educação de Nin. Conseguem até mesmo dar-lhe um “tutor”, na figura do misterioso Silas, que embora não esteja exatamente morto, mora num dos mausoléus arruinados do lugar.
Nin irá viver por quase 15 anos, de bebê até a adolescência, dentro dos muros do cemitério. Todos os fantasmas têm receios de que ele saia e acabe dando de cara com o misterioso assassino Jack, que ainda está solto. Durantes seus anos no cemitério, Nin vai aprender coisas que, em geral, os humanos desconhecem: como Desaparecer, Passear pelos sonhos, Atravessar paredes, e, por fim mas não menos importante, Assombrar. Nin recebe a “Liberdade do cemitério”, concedida pelos fantasmas que nele habitam, só assim é capaz de viver e aprender com eles. É lindo, e profundamente emocionante, ver como os fantasmas do cemitério abandonado acabam tendo grande preocupação e grande amor para com o garoto vivo que o Acaso botou em suas etéreas mãos.
Como disse, Nin vive quase uma década e meia dentro do cemitério, sem sair. Mas acontece que ele está se tornando um adolescente (e brevemente será adulto), e as coisas, claro, começam a degringolar. Nin resolve que precisa sair para o “mundo de fora”, ver a Vida (coisa que, vamos reconhecer, é meio difícil de achar num cemitério), se aproximar de seres humanos como ele próprio. A contragosto, Silas – o misterioso tutor – acaba tendo de concordar. Mas os resultados não são os esperados e tudo dá errado. E ainda por cima, não nos esqueçamos, Jack está à procura de Nin para terminar o “serviço” iniciado quase uma década e meia atrás…
Não quero me alongar demais no enredo, porque vale muito a leitura do livro. Mas gostaria de falar da tessitura da obra. Dessa vez, Gaiman utiliza um estratagema que, salvo desconhecimento meu, é inédito em seus livros: O livro do cemitério é um romance, sim, mas também é um livro de contos. Cada capítulo é um conto, com uma história fechada em si mesma (tanto isso é verdade que Gaiman diz, nos Agradecimentos, que começou a escrevê-lo pelo capítulo 4). Podemos ler o livro como um romance, mas se assim o desejarmos, podemos também ler o mesmo livro como uma coleção de contos que tem Ninguém Owens e o cemitério abandonado como elementos de ligação. Tanto os “capítulos” como o “romance todo” têm completude e força por si sós. Neil Gaiman está de parabéns.
Como já disse, não estou bem certo de que o livro seja para crianças/adolescentes. O final é triste demais, embora belíssimo, para ser tomado por um livro “só” para jovens. Há cenas antológicas, das melhores que já saíram da pena enfeitiçada de Neil Gaiman. Temos até mesmo uma “participação especial” da Morte em dois momentos da narrativa. Mas, leitores de Sandman, a Morte de O livro de cemitério não é a mesma dos quadrinhos de Sandman. Outra dica: fiquem atentos à única cena em que vivos e mortos da cidadezinha onde transcorre a ação se reúnem. É uma coisa tão bonita e tão bem-escrita que consegui ver o desenrolar da ação, como se estivesse assistindo a um filme (aliás, boa sugestão: Hollywood, alô?).
Se você pretende dar um presente a alguém especial e não sabe o quê, sugiro fortemente esse livro – que ainda por cima tem belíssimas ilustrações de Dave McKean, parceiro de Gaiman em diversos trabalhos –, pois ele é daqueles que nos emocionam e nos fazem sonhar. Coisa rara hoje dia no reino da literatura, convenhamos.