* entrevista publicada anteriormente no Aguarrás.
01. Você comentou no último pocket show que trabalhava de manhã, estava ocupado a tarde e só de noite conseguia parar para compor. Como foi o processo? Você criou um cantinho à parte de tudo para trabalhar suas músicas ou a adrenalina do dia ajudava de alguma forma?
Em 2007, quando estava compondo o disco que viria a ser o “A KIND OF BOSSA”, a minha vida estava virada de ponta-cabeça. Tinha perdido meu pai inesperadamente e tive que arrumar um trabalho fixo rápido para poder ajudar em casa. Não foi nada fácil, e realmente trabalhei demais naquele ano, incluindo folgas e feriados em que eu arrumava uns comerciais de TV para fazer. Lembro que no ano não trabalhei apenas 7 dias, sendo que em um destes dias eu fiquei bastante doente. Foi uma situação nada agradável para mim, pois, além de tudo, eu queria dedicar todo o meu tempo para a música e não podia. O tempo livre que sobrava para a música era quase sempre no período da noite.
Eu, na verdade, acho difícil separar um cantinho à parte do dia para compor, porque na maioria das vezes as ideias vem quando paro um minuto para descansar. Então foram incontáveis madrugadas em que eu ficava acordado junto com os meus parceiros, Edu e Nick, para compor, arranjar e produzir as músicas. Quando a inspiração não vinha, a gente dava uma volta no centrão de São Paulo. A gente falava de arte, conversava, tomava um café (e quantos cafés a gente tomou!), muitas idéias surgiam assim, no meio de uma conversa, daí a gente pegava o violão e corria para o computador para gravar tudo!
02. E como foi encontrar brasilidade nessa mistura de sonoridades que é o A Kind of Bossa? Você sentou já sabendo o que queria fazer ou foi definindo o som aos poucos?
A sonoridade do disco foi se definindo aos poucos, não estava preocupado em ficar preso a um único estilo, ou a “estilo” algum. Acho que a brasilidade vem das minhas influências e dos ritmos brasileiros que me fascinam. O Brasil tá no swing e na “malandragem”, no bom sentido da palavra, é claro. No começo até estranhava algumas misturas, depois fui acostumando e acreditando cada vez mais no que estava fazendo. Isso foi se definindo pela emoção, o termômetro era o simples fato de eu estar curtindo ou não. Acho que música pode ser feita assim; a sua emoção é o que determina o que vai ficar e o que não vai ficar numa música.
03. Ouvi da minha irmã no Rio a máxima que “Ao vivo o Del Arc faz todo o sentido”. Aqui em São Paulo tive uma impressão parecida, de que o som do cd, os vídeos no youtube, as tuitadas com os fãs, tudo isso se soma num crescente ao vivo, numa energia diferente. Como você vê essa relação do som do artista apresentado no cd e do som feito ao vivo?
Eu realmente me emociono muito cantando. Quando estou no palco, quando eu canto, eu estou tentando dizer alguma coisa, quero passar uma mensagem e sentir cada palavra da letra. Quero estar integrado na música, junto com ela, vivendo ela.
No CD “A Kind of Bossa”, procurei deixar tudo do melhor jeito possível para que todos os elementos na gravação conversassem entre si, que fizessem um sentido. Junto com os meus produtores Nick Gutierrez e Edu Maranhão, sem pressa, cuidamos dos mínimos detalhes, até por isso trabalhamos por quase 2 anos até finalizar o disco. Esse tempo é muito especial e precioso, um privilégio. Agora, por mais que o CD seja feito com muito carinho e cuidado com os detalhes, nada se compara com a emoção de viver as musicas ao vivo. No show, eu consigo olhar para a plateia e sentir a reação das pessoas. As energias se somam com as de quem está assistindo, a interação é maior. O mais legal de um show é que um nunca será igual ao outro.
04. Tem conseguido abertura que esperava? Ou o fato de cantar em inglês exige uma etapa extra de convencimento das pessoas?
Acredito que estou tendo uma abertura até maior do que esperava, principalmente no Brasil. Às vezes o inglês exige sim uma etapa extra. As pessoas precisam sentir mais do que nunca as palavras. Eu vejo isso como um incentivo para me entregar cada vez mais.
05. Fale um pouquinho do contrato no Japão. Quais são as expectativas em torno?
Fui muito bem recebido no Japão, e estou sendo bem divulgado pelo mesmo selo que trabalha com Milton Nascimento, Seu Jorge, entre outros grandes nomes da MPB. Graças a essa boa exposição, chamei a atenção de outro selo forte na Coréia do Sul. Vou lançar o disco por lá também entre abril e maio com 3 faixas extras: uma releitura do clássico “The Look Of Love”, do grande compositor Burt Bacharach (letra de Hal David), e duas versões da faixa 5 – “Trip”, remixadas pelo YUBABA que é uma dupla mineira de DJs que está crescendo cada vez mais no cenário eletrônico internacional. Estamos na expectativa de ficar mais conhecido por lá, e futuramente levar o nosso show para a Ásia toda, representar o Brasil e a nossa música. Acho que muitas coisas boas devem acontecer este ano por lá.
06. Como você usa ferramentas como Mypsace e mídias sociais para divulgar o seu trabalho? Elas realmente fazem a diferença?
As mídias sociais, como o MySpace, já são ferramentas básicas para o artista de hoje. Eu quero ficar perto dos meus ouvintes, e as pessoas também querem ficar cada vez mais próximas dos artistas. Ninguém quer mais aquele artista enlatado que só se via na televisão. As pessoas querem mais interatividade, querem participar da carreira, querem fazer parte. E de fato, fazem parte. A conexão que existe entre o público e artista hoje é muito mais próxima do que era há 15 anos. Graças à internet esse contato ficou direto, e eu quero ficar por dentro de tudo isso.
07. Para fechar, que música você sugere como primeiro passo para quem quer conhecer o seu trabalho? Por quê?
Pergunta difícil para mim… Acho que os sambas “Slip Into Precision” e “The Question Song”. A primeira porque ela abre o disco com uma mensagem: “As coisas boas e as coisas ruins da vida são passageiras; viva seus sonhos hoje e acredite no amanhã”. A segunda porque ela aponta o dedo pra você e te diz: “Se você fugir dos seus sonhos hoje, amanhã eles voltam para te pegar”. Não adianta ter medo e fugir, seus sonhos são o que você é.
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