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	<title>Eric Novello &#187; a sombra no sol</title>
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	<description>Escritor, tradutor e roteirista.</description>
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		<title>25. Em pleno vôo</title>
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		<pubDate>Tue, 12 Jan 2010 03:43:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Das grades lustradas da varanda, me atiro. Me retiro do recinto numa única tacada, numa jogada que preserve meus bons modos, impeça os gritos não gritados, sopre de volta os bem doloridos que implodem gargantas, fazem ranger os dentes, obrigam o corpo a desabar. Tento mirar as estrelas, a ponta da antena de um edifício, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Das grades lustradas da varanda, me atiro. Me retiro do recinto numa única tacada, numa jogada que preserve meus bons modos, impeça os gritos não gritados, sopre de volta os bem doloridos que implodem gargantas, fazem ranger os dentes, obrigam o corpo a desabar. Tento mirar as estrelas, a ponta da antena de um edifício, mas é a imagem dele que vejo contra a escuridão, o sujeito que roubou a minha arte. Estico a mão para me segurar em transmissões via satélite, uma distração qualquer que evite a queda ou que a acelere de uma vez. Ineficiente em meu rancor, a nada me apego. Continuo a desabar acompanhado da coleção de instantes que se projeta na parede, se enfileira quadro a quadro, me persegue quadra a quadra, até faltar o ar.</p>
<p style="text-align: justify;">Não lembro ao certo como cheguei nessa esquina, se de corridas na escada ou de ansiedade na porta do elevador construí o meu caminho. De certeza tenho o vento impresso em minha cara, um vento que descamou restos e levou sujeiras invisíveis, arrancou um cílio que não se sustentava mais. Quero fingir que ele é uma dessas coisas pequenas que só nos atrapalha, que posso descartá-lo com a ponta dos dedos. Quero mandar Patrícia e seu pintor para o quinto dos infernos, um quente, católico e tradicional, que derreta as plásticas d’uma e chamusque os olhos d’outro, me içando de seu verde de alto-mar. Mas o que quero é vago diante do que sinto, e uma dor de canelas doídas e joelhos ralados me joga na cara que nada irá mudar. A lufada forte como um soco não me quebrou os dentes nem varreu as rugas, deixou somente um aperto que me embaralha as entranhas e não se desfaz.</p>
<p style="text-align: justify;">Experimento a ardência no nariz de quem passa muito tempo sem respirar. Sinto o cheiro da queda livre, o cheiro que se sente quando tudo em que se acredita se desmancha num esguicho de aguarrás. Minha sorte é que esse vento seca por dentro e por fora, inibe as lágrimas e o sentimentalismo, me devolve ao modus operandi da sobrevivência. Quando sinto a ponta da língua raspar no asfalto, sei que é hora de abrir as asas e voltar a voar. Pouso com maestria no lugar de onde nunca saí e cumprimento meu interlocutor. Meus olhos rapineiros percorrem seu corpo, decoram suas curvas, simplesmente relembram o sabor da presa.</p>
<p style="text-align: justify;">Pedindo um drinque como quem é de casa, me posiciono onde sou mais noir, refazendo o jogo de luz e sombras que me cai como um terno de grife. Pelas palavras que pesco no ar, começo a me inteirar da conversa e respondo as perguntas acumuladas durante o vôo.  Opto por não usar as garras, já que Gabriel agora é testemunha de uma festa onde eu não deveria estar. Mastigo frases manjadas prontas para cuspi-las como o mais doce carinho quando o dealer bate no meu braço. A impressão de que serei colocado pra fora se desfaz assim que identifico seu sorriso. Mesmo aves de rapina podem ser predadas, deliciosas iguarias.</p>
<p style="text-align: justify;">Sem muita surpresa sou apresentado ao empresário, aperto de mão, muito prazer. Sua roupa impecável e o tom cinzento de minhas asas dizem muito a nosso respeito. No fundo no fundo, só mais um, pensamos juntos, ambos enganados. Ele fala de Patrícia com a intimidade de um velho amigo que trepa por diversão sem precisar pagar. Meu sangue de refém gela por um segundo, mas acabo rindo ao perceber que o pesadelo que levarei para casa essa noite não é mais o rosto de Gabriel. Acompanho o bom papo como se não estivesse ali por acaso, escondido, num gesto de rebeldia que poderia custar meus trocados.</p>
<p style="text-align: justify;">Entre um gole e outro e risadas programadas, encaro o dealer nos olhos e proponho um acordo silencioso. Um álibi por uma carreira. Não é preciso pedir duas vezes.</p>
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		<title>24. Quando os corpos se levantam</title>
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		<pubDate>Fri, 20 Nov 2009 00:01:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
				<category><![CDATA[a sombra no sol]]></category>

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		<description><![CDATA[Ainda de olhos fechados com a brisa da janela refrescando a noite, me imagino enterrado em uma cova profunda feita sob medida para os meus destroços. Das histórias que invento por inventar só para combater a lerdeza das horas, escolho ser derrubado por inaptidão no meio do campo de batalha. O breu não permite que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Ainda de olhos fechados com a brisa da janela refrescando a noite, me imagino enterrado em uma cova profunda feita sob medida para os meus destroços. Das histórias que invento por inventar só para combater a lerdeza das horas, escolho ser derrubado por inaptidão no meio do campo de batalha. O breu não permite que eu veja de onde veio o tiro, se fogo amigo ou inimigo. Ponho a mão no peito até que ela se avermelhe e tombo na areia de um parque, com crianças de fralda ao meu redor. Perco o Oscar de melhor ator no último instante, mas ganho o de melhor fotografia. Como bom indigente sentimental, dispenso o aroma amadeirado do caixão e o terno de defunto. Graças a uma cláusula do contrato, posso mergulhar diretamente na terra úmida, deixando que ela me invada os ouvidos e a boca e me prive de qualquer comunicação com o mundo exterior. Também não estão lá as homenagens, os discursos. Ninguém para dizer se fui um herói, um covarde ou só mais um tolo entre tantos. Meu enterro é uma ode a mais pura solidão, mas cansei de sofrer sozinho.</p>
<p style="text-align: justify;">Pelo apartamento, nem rastro de Patrícia. Se não fossem os arranhões nas minhas coxas, consideraria tudo um delírio de vingança. Manutenção de rotina. Ainda lutando contra a inércia, procuro o celular nos móveis, pelas frestas, entre as almofadas. Coleciono nele pequenos tesouros que me são proibidos, telefones de clientes particulares e pessoas que conheço nos vaivéns das colunas sociais. O objetivo é um ator em começo de carreira que faz uns bicos como dealer no intervalo das novelas. Sou contra destruir o corpo, prejudicar a ferramenta de trabalho, mas uma semana de férias não fará mal ao bolso de ninguém.</p>
<p style="text-align: justify;">Chego já pela noite em sua casa, atravesso a pseudofesta que rola na sala e vou direto ao quarto que me foi reservado. Pago na moeda que prometi, de língua quente e olhos profundos. Repito a dose para expandir meu networking e também porque eu posso. Recebo em troca o primeiro comprimido mágico que arrancará das narinas o cheiro de terebentina. Mais tarde, o segundo que removerá da pele as texturas que aprenderei a odiar como uma forma de esquecimento. Ouço batidas na porta e um fantasma se materializa na minha frente. É ela, minha sombra no sol, minha atriz querida que se findou numa overdose. Troca algumas palavras com o dealer, pede para ficar.</p>
<p style="text-align: justify;">O dealer sai com cara de preocupado. Ela me acalma dizendo que é apenas um empresário de mau humor, figura dessas que não se contraria nem em acesso de raiva psicodélico. Com algum esforço, imagino seu chilique querendo saber onde foi parar o anfitrião da festa, que sumiu no quarto com um sujeitinho que nem serviria de figurante. Enquanto trocamos piadas sobre o assunto, ela me acaricia na barriga, pede que eu feche os olhos. Traz na ponta da língua o comprimido que eu só deveria engolir horas depois. Sinto e<em>cs</em>tasiado a descida a seco pela garganta, sua língua umedecendo meus lábios entorpecidos. Me bate uma louca vontade de sair para dançar uma música que só eu escute, mixando a melodia que se espalha pela casa.</p>
<p style="text-align: justify;">Chego a tocar a maçaneta, puxá-la pelo braço, mas ela não cede. Não é em mim que está interessada, mas no conteúdo das gavetas. Enquanto colore as narinas, espio o desenrolar da festa como um jornalista enrustido. O dealer bajula seu futuro empresário, oferece material de primeira, tenta recuperar o sorriso e a carreira. Nem acredita quando saio do quarto, dançando sem parar. Giro seguindo os riscos que se desprendem das lâmpadas, cintilantes como minhas pupilas. Acompanho cores que jamais aprendi a catalogar.</p>
<p style="text-align: justify;">É num grito de euforia, num pulo mais alto para pegar silfos encantados, que me viro para a varanda. Sinto o ar ir embora sem se despedir. Nem um até amanhã, volte sempre. E não é que a história de que o desgosto nos deixa instantaneamente caretas é verdadeira? Por instinto, volto para a minha cova até a grama roçar meu nariz. Tiro forças farmacoquímicas sabe-se lá de onde para ir enfrentar o mundo. Talvez não seja tão ruim assim pular sabendo o que me espera. Apoiado nas grandes da varanda, reencontro as cores de Gabriel. Sorridente, meu pintor apresenta sua nova companhia. É uma pena que eu não saiba voar.</p>
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		<title>23. Prêmio de consolação</title>
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		<pubDate>Sat, 14 Nov 2009 02:07:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Três meses se passam sem nenhum contato do pintor. Sigo indo a festas, enchendo os bolsos de Patrícia ao atender aos clientes com meus frutos tipo exportação. Um gaiato decide reclamar do meu desempenho, do olhar perdido enquanto declamo as palavras combinadas na conversa prévia regada a falsidades. Sou obrigado a um segundo encontro, de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Três meses se passam sem nenhum contato do pintor. Sigo indo a festas, enchendo os bolsos de Patrícia ao atender aos clientes com meus frutos tipo exportação. Um gaiato decide reclamar do meu desempenho, do olhar perdido enquanto declamo as palavras combinadas na conversa prévia regada a falsidades. Sou obrigado a um segundo encontro, de graça, para compensá-lo, pois sua esposa anda muito deprimida e dinheiro é investimento, a situação na bolsa, você deveria saber, uma crise que só vendo. Um jeito amador de falar ponha-se no seu lugar, com um sotaque brega capitalista. Saio de lá esfolado, corpo em cacos, e deixo os dois exaustos na cama, com a bandeja de café que eu preparei, uma ajuda para curar a ressaca moral.</p>
<p style="text-align: justify;">No dia seguinte, Patrícia me liga dizendo que está tudo bem, sem máculas no meu currículo ou queda no valor de mercado. Reforça que faz parte do negócio saber fechar feridas e massagear o ego alheio e que se continuar assim blábláblá. Ponho o telefone na mesa e me sirvo de água gelada na cozinha, um calor dos infernos. Volto em tempo de me fazer presente, você tem toda a razão, como não, anos de experiência. Vou cavando espaços e ensaio um belo rodeio para perguntar de Gabriel, um ensaio mal programado que não disfarça em nada a ansiedade que ele alimenta com seu sumiço. Não é que eu queira apenas um cliente, eu digo, e que para ela não faz a menor diferença contanto que a agenda continue cheia.</p>
<p style="text-align: justify;">Engulo seco o seu silêncio, o tilintar de preocupação. Isso não está bem, é coisa que passa, não podemos acreditar em tudo que vemos, não nesse ramo. Tenho vontade de rir da palavra ramo, uma vontade legítima pelo menos. Sei que ela não argumenta para me consolar, mas para me lembrar de que o ilusionista sou eu, que posso ser o que quiser e é por isso que me querem tanto. Se fosse real eu não estaria ali, jogando conversa fora no desespero de conseguir um número de telefone. Será que eu me enganei contigo, meu rapaz? E então marcamos um acerto de contas, cara a cara, naquela noite.</p>
<p style="text-align: justify;">- Não é possível que ele não queira mais nada – digo cheio de mim, escondendo que raspo o tacho de minha auto-estima.</p>
<p style="text-align: justify;">- Mas ele quer, querido. Só que não é com você.</p>
<p style="text-align: justify;">A pronúncia cantada de <em>querido</em>, milimetricamente ritmada por sua língua sibilante, me corta das costelas ao ventre, deixando fígado, pulmão e rins espalhados pelo chão. O coração se aguenta no lugar, preso às artérias, se recusando a perder sua posição de prestígio. Por um segundoduvido, mas ele bate. Bate bombeando para o vazio dos órgãos que não existem mais.</p>
<p style="text-align: justify;">Meu silêncio é resposta digna o suficiente para manter meu emprego, mas não pretendo me arriscar. Tento ler nos olhos de Patrícia quantos já estiveram na mesma situação, quantos modelos e musas foram aprisionados nas telas de Gabriel, mas nada escapa. Melhor assim. Levanto do sofá batendo um pó invisível das calças, rebootando no cérebro o instinto predatório. Cato em minha adega o vinho mais caro que já comprei para comemorarmos uma futilidade qualquer. Resolvo contar o que fiz com o casal insatisfeito, repito movimentos, imito entonações, e ela seca os olhos no seu riso engasgado.</p>
<p style="text-align: justify;">Conforme a garrafa esvazia e o líquido tinto estreita o espaço entre nós, me debruço sobre sua superioridade ilusória, conquistando carícias, arrancando um beijo, e a arrasto para a cama.</p>
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		<title>22. Fantasmas na parede</title>
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		<pubDate>Sat, 03 Oct 2009 16:53:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
				<category><![CDATA[a sombra no sol]]></category>

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		<description><![CDATA[Dentro do quarto, me tranco em pensamentos. Se o futuro ainda se faz distante, é para o passado que me volto, e lá nos encontramos tão fugazes quanto um arrepio. Estou desprotegido, desarmado, entregue ao último combate, contando os mortos espalhados pelo chão. Sinto ao redor dos tornozelos dedos inexistentes. Provocam cócegas e espasmos, me [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Dentro do quarto, me tranco em pensamentos. Se o futuro ainda se faz distante, é para o passado que me volto, e lá nos encontramos tão fugazes quanto um arrepio. Estou desprotegido, desarmado, entregue ao último combate, contando os mortos espalhados pelo chão. Sinto ao redor dos tornozelos dedos inexistentes. Provocam cócegas e espasmos, me ajudam a descobrir que os tendões são capazes de muitas formas de contorcionismo. O corpo segue firme, mesmo quando a mente pára. Não sou um ser autotrófico, mas aprendi a sobreviver do cansaço, me alimentar da desordem que transborda sempre que tento me orientar, organizar em frascos o que não pode ser rotulado.</p>
<p style="text-align: justify;">Um espectro passeia pela cama, me atropela, me abraça. Sinto-o dedilhando suavemente as cordas de minha anatomia, um dedo de cada vez. Envolve minha cintura, revolve meus tormentos como um instrumentista em busca de melodias que ninguém além de nós consiga ouvir. Fecho os olhos para mantê-lo vivo nas entranhas, aprisioná-lo no calor das memórias, sendo eu também prisioneiro de sua ausência. Mas ele não se contenta com o espaço reservado em meus neurônios. No sopro que chega ao ouvido, sei que me pede mais. Prefere jorrar quente por veias e artérias num vermelho vivo, fluxo contínuo, bombeado cada vez mais forte, de cima para baixo, de fora para dentro, gritando aos meus hormônios que a vaga nitidez das lembranças jamais será suficiente para defini-lo. Que os contornos que enaltece são da carne, não do espírito. Que se um dia recitar poemas, caído de joelhos em frente aos meus olhos, que sejam eles épicos, heróicos, numa ode às formas, ao fio das espadas, ao gosto da pele e ao macio dos lábios, e nunca, definitivamente nunca, à pureza filosófica das idéias.</p>
<p style="text-align: justify;">Procuro sua sombra na parede, sua impressão em meu sofá. Entendo de uma vez como é gostoso o seu silêncio. Converso sozinho sobre a solidão da alma, e ele repete: jamais. Talvez eu seja mesmo louco, vítima de uma esquizofrenia onírica. Ou talvez seja essa a minha realidade, uma que não caiba em pré-definições nem em pós-sabedorias. Aos que me querem sóbrio, cada centímetro do que faço bem. Aos que me abocanham inebriado, o mais doce dos meus delírios.</p>
<p style="text-align: justify;">Nem só do gozo esparramado no colchão vive um colecionador de corpos. No momento em que penetro em suas vidas, dá-se uma troca inevitável: o orgulho por um sorriso, uma memória por um orgasmo, um vazio espiritual por meus fluidos mais mundanos. E nessa troca, talvez ainda estejam aqui, todos atrás de mim, fantasmagóricos em meu quarto, esperando o momento de me devorar vivo sem saber que me oferecem deleite e não punição. Me imagino engolido e regurgitado, agarrado a seus segredos. Peço demissão a mim mesmo. Quero outra vida, uma que de tão nova ofusque a visão e me permita errar tudo outra vez. Repetiria um por um os meus erros, caprichando melhor na pasta de dente, na arrumação do sofá. Esticaria o encontro dos lábios até o infinito, de um modo que o ar que de mim exalasse a mim retornasse com a umidade de seus pulmões.</p>
<p style="text-align: justify;">Revivendo meus delírios e infortúnios, me invade a sensação de que nem toda cicatriz é um risco na pele, uma ranhura na parede. O lobo não foge ao seu instinto. De um moleque de porta de bordel a um garoto de programa de luxo, sou quem sou. E faria Darwin enlouquecer junto comigo, se uma noite e uma dose ele me desse.</p>
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		<title>21. Cá entre nós</title>
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		<pubDate>Sat, 26 Sep 2009 02:15:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Nem o DNA é tão designativo quanto o sofrimento. Diferente do caráter coletivo da felicidade, não há duas pessoas que sofram da mesma maneira. Por mais que toda lágrima seja salgada e toda dor evoque o pranto, não é do lado de fora, mas lá dentro num recanto, que mora o que se chama sofrimento. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Nem o DNA é tão designativo quanto o sofrimento. Diferente do caráter coletivo da felicidade, não há duas pessoas que sofram da mesma maneira. Por mais que toda lágrima seja salgada e toda dor evoque o pranto, não é do lado de fora, mas lá dentro num recanto, que mora o que se chama sofrimento. Como um garoto pálido que vê no quarto sua última barricada, e ao ser vencido mistura o choro ao conforto do chuveiro, fico eu no encontro das paredes, pernas esticadas sobre o chão, fumando o último cigarro que me resta.</p>
<p style="text-align: justify;">De pé, Gabriel desfila as cores de sua paleta, extravasa a alegria explicando suas obras, recitando poemas criados de relance. Penso em declamar ali a minha inveja, me deitar de olhos cravados no teto buscando algo que não vá além da brancura, revirando nos neurônios o que restou de meus anos de improviso.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas seus movimentos me distraem, me concentram. Deixo pra lá. Alterno as pernas para fugir da câimbra, braço esticado sobre o joelho, um jeito de lembrar que estou vivo. Ele passa em frente à janela sem se preocupar com a nudez, deixa claro o quanto é livre dos outros e de si mesmo, nada mais a me provar. Recostado no parapeito como também estive um dia, fingindo aproveitar a vista para que eu possa apreciá-lo, assovia uma melodia. Naquele ângulo, é pintor e é pintura, numa moldura surrealista de Dali. Faz isso sem saber que na tentativa de reter, me dispersa. Que o sol que banha suas costas expulsa da pele os resíduos de penumbra com que eu o impregnei.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando volta às explicações, avisa que prefere começar pelo fim, pelos retoques, mais uma diferença entre nós. Me imagino brevemente acelerando finais, encurtando começos, alternando a ordem de todas as noites de um jeito que, no final, seja meu o sorriso a durar. Sua voz fica cada vez mais distante, a audição sucumbe aos demais sentidos, preciso de todas as forças para voltar. No meio dos borrões, não vejo nada que possa competir com o verde de seus olhos, mas não posso esnobar a arte. Concordo com a cabeça, brindando-o com meu silêncio. Ele fala em rimas sobre a perfeição, desenha no ar com os dedos aquilo que jamais poderá tocar. Respira lentamente de tristeza e por um único instante somos iguais. Mas novamente se alegra, as mãos levemente borradas com as tintas que experimenta. Pincela com palavras uma igualdade que não existe e aquilo me fere de um jeito que jamais imaginei acontecer. Para revidar, trago do fundo dos pulmões a fumaça que sopro. Deixo que me tome a garganta, deslize pela língua e escape dos lábios, numa tentativa de preencher o espaço que nos separa. Vejo as partículas dominarem a sala, sem rumo, nebulosas, minha forma de retocar um quadro que julgo perfeito. Repito o ataque até que meu cinza tenha força para invadir seu sol. Enfim, ele parece me notar.</p>
<p style="text-align: justify;">Gabriel se agacha ao meu lado, pede que eu levante, que eu dance. Ri das minhas roupas diante de sua nudez. Sugiro o retorno para o quarto, uma manobra estratégica que afogue os sentimentos e me torne novamente a criatura dominante, no topo da cadeia alimentar. Arranco um vislumbre de língua nos dentes, olhos perfurantes, um fluxo de prazer que me arrepia a nuca. Com um riso gostoso, ele estala os ossos e se põe novamente de pé. Vai de encontro à tela e volta a pintar, alimentado pela brevidade de nosso toque. <br />
 De olhos fechados, chego a sentir a água do chuveiro, mas a parede é áspera, não quer companhia. Antes de levantar, apago o cigarro no piso fino, deixando registrada a minha existência.</p>
<p style="text-align: justify;">Por hoje, meu único gesto obsceno.</p>
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		<title>20. Fama</title>
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		<pubDate>Thu, 17 Sep 2009 11:03:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Chego no carro de Patrícia, entrega a domicílio, sem atrasos nem meias conversas. No caminho, uma mudez constrangedora, a opção dela pelo meu silêncio. Vou fantasiado num tecido fino que me é estranho, as roupas não se encaixam, o sapato me aperta. Sinto saudade do jeans e das malhas, das peles que descamo todas as [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Chego no carro de Patrícia, entrega a domicílio, sem atrasos nem meias conversas. No caminho, uma mudez constrangedora, a opção dela pelo meu silêncio. Vou fantasiado num tecido fino que me é estranho, as roupas não se encaixam, o sapato me aperta. Sinto saudade do jeans e das malhas, das peles que descamo todas as noites no colchão. Ela toca o interfone com um ar de desprendimento, articulações que não se dobram, como se o botão não oferecesse resistência. Diga a ele que é Patrícia, e um sorriso de quem tem todas as garantias do mundo. Sigo calado sem saber o que me aguarda, cliente surpresa, um teste para minhas reações. Me atropelam imagens de entrevistas de emprego, cadeiras de couro desconfortáveis, apertos de mão suada de nervoso. E então, senhor Ícaro, posso contar com seu comprometimento? Não. Não. Eu já sou um profissional. Não importa o que esteja do outro lado. Não há mais suor que de mim escorra sem a minha aprovação. <span> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Imagino um casal de velhinhos, uma loira de vestido recatado. A decadência com elegância que é ainda mais degradante. O senhor me oferecerá um charuto. Rirá quando eu disser que não fumo. Preciso manter a saúde. E ele rirá ainda mais. A saúde. E se lembrará de que não escondeu a pilha de remédios no criado-mudo ao lado da cama. Comprou o lençol novo, mudou a fronha, perfumou a casa e, justo os remédios, esqueceu de tirar. Sua esposa então dirá: venha comigo. Me pegará pelo pulso como se desfrutássemos de uma intimidade de décadas, como se meu corpo herdasse as curvas de meus antecessores e ela pudesse me mapear só pelo toque. Me oferecerá uma bebida, a garrafa reservado ao seu mais novo brinquedinho. E o marido voltará com um aceno leve de cabeça, está tudo bem, já escondi as caixinhas de tarja vermelha. Deixei só a tarja preta, no caso de.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">- Seja educado. – É o que diz Patrícia quando as portas do elevador se abrem. Diz isso para reaquecer as cordas vocais, se preparar para um tom de voz ensaiado durante os anos de profissão. Oi, querida, como você está? Esse é meu mais novo menino.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Dessa vez seus dedos se dobram mais humanos, sua unha risca levemente o botão, me dando arrepios. O silêncio se rompe no barulho da chave que balança acompanhando um assovio gostoso. Oi, querido, como você está? E ela entra, como se eu não estivesse ali. Permaneço estático, vulnerável, surpreso. <span> </span>É o riso de nervoso que me desperta. Não sei se meu ou dele. Na minha frente, um jovem de cabelos azuis e infinitos olhos verdes me convida a entrar. <span> </span>Patrícia socializa com as garrafas, troca figurinhas com o copo de uísque. Está em casa. Comenta a pintura na parede, coisa nova, hein?</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Meu encanto pelos quadros, tinta direta na parede, não me impede de notar a proximidade do pintor. No fundo dos seus olhos, vejo que temos idades próximas. Talvez o que carregue em mim de todos os corpos que desvendei me faça ter por dentro mil anos mais. Mas é a aparência que conta, meu cartão de visitas. <span> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">- Finalmente. Ícaro? Patrícia falou muito de você. Espero que não se importe com a bagunça. Os quadros acabaram de voltar da galeria. Você curte exposições?</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Exposição. Nu em um museu. Os visitantes admirando no espécime sua sagrada ignorância. Patrícia não resiste à cena que armou com tanto gosto. Me traz também um copo com gelo. O aroma amadeirado confortando minhas narinas. Abraça meu o ombro com uma delicadeza que esmigalha, mostrando sem dizer palavra o quanto tenho para aprender. <span> </span></p>
<p><span style="font-size: 11pt; line-height: 115%; font-family: &quot;Calibri&quot;,&quot;sans-serif&quot;;">- Gabriel – diz, esticando a mão. – Muito prazer. </span></p>
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		<title>19. Fim das férias</title>
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		<pubDate>Sun, 17 May 2009 03:40:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
				<category><![CDATA[a sombra no sol]]></category>

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		<description><![CDATA[Como prometido por Le Saint, três meses se passaram sem que ninguém me procurasse. Chame de férias, ele disse, mas eu sabia que se tratava de uma espécie de quarentena, como se a solidão de fato diferisse entre as classes sociais. Tive vontade de argumentar e então, só por um instante, encostá-lo na parede com [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Como prometido por Le Saint, três meses se passaram sem que ninguém me procurasse. Chame de férias, ele disse, mas eu sabia que se tratava de uma espécie de quarentena, como se a solidão de fato diferisse entre as classes sociais. Tive vontade de argumentar e então, só por um instante, encostá-lo na parede com toda minha força sem que do golpe pudesse extrair algum prazer. Mas num mundo de vaidades, adega cheia e apartamento amplo contentam muito mais, e eu tinha tudo isso à disposição. Um cheque por mês, avisou. Gaste como bem entender. Troque as roupas, os perfumes, jogue tudo fora, mesmo os bons. Não quero que sintam o cheio dos pobres que passaram pelo seu corpo. Quero que esteja perfeito quando ela vier.</p>
<p style="text-align: justify;">
Ela. Minha dona. A fonte do dinheiro que garantiria minha presença em suas festinhas, meu silêncio. Tinha sido bem recomendado. A atriz morta, drogada, meu único amor aspirado em overdose. Avaliação de matéria-prima feita por gente que só parecia gente, mas carregava DNA dourado nas mitocôndrias. Por ela resistia ao garoto que cruzava comigo no corredor, por ela olhava baixo pelas ruas. Uma aranha que foge das moscas, espezinharam. Um covarde, corrigi, nem a teia tenho mais.</p>
<p style="text-align: justify;">Atendi a campainha descabelado, hálito de licor de cereja do dia anterior. Minha cara de esnobe nem chegava aos pés da dela, coisa de bisturi profissional. Entendi quem era assim que entrou sem trocar palavra. Depositou a bolsa em meu braço como se não passasse de um cabideiro e deu uma volta pelo apartamento como quem resgata velhas lembranças. A essa altura já me envergonhava da calça de pijama, dos olhos parcialmente abertos diante do loiro abusivo de seus cabelos.</p>
<p>- Patrícia.</p>
<p>- Ícaro, seu criado.</p>
<p>- Tire as calças, por favor.</p>
<p style="text-align: justify;">Porta fechada por precaução. Talvez devesse alertá-la de que não visto nada por baixo, mas quem sabe o que deseja analisar? Faz questão de abrir ao máximo as cortinas para clarear o ambiente. Com a cara ainda amassada, desço as calças num só golpe até o chão. Sua expressão é a de quem quer saber se tenho cinzeiro em casa ou a de quem está muito impressionada, o exagero do botox atrapalha a dedução.  Pede que eu deite nos lençóis bagunçados, bunda para cima, cara enfiada nos travesseiros. Agora me olhe, pede. Me segura pelo queixo abusando da elasticidade do pescoço. Pega distância. Explica que tão importante quanto o sexo é parecer bem ao acordar, naturalmente descabelado. Um boneco de luxo nunca vai embora antes do amanhecer, a diferença principal. Eles adoram a prova viva de suas brincadeiras noturnas, conversar sóbrios com quem dormiram bêbados. Se possível, levante por último. Se ofereça para fazer o café, mas já de roupa, me alerta, como se não soubesse me portar em todo tipo de refeição. Depois disso, devo ir. Nunca ficar para o bis. Quem faz sexo de manhã não vale nada no mercado.</p>
<p style="text-align: justify;">Mercado. Não consigo me agüentar. Escondo o rosto para que não veja meu riso, mas ele escapa alto, tenho lágrimas nos olhos. Peço desculpas, não consigo parar. Ela senta ao meu lado na cama. Olhos de ave de rapina. Sei que vai me demitir,de volta ao gueto, lar doce lar. Me engano. Esboça um sorriso comportado, um apertão delicioso. Pede que eu me arrume. Primeiro consulta médica, depois academia. Tenho que estar cem por cento para as futuras apresentações.</p>
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		<title>18. Charenton</title>
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		<pubDate>Sat, 31 Jan 2009 15:10:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
				<category><![CDATA[a sombra no sol]]></category>

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		<description><![CDATA[Uma risada corre a sala acompanhada de trovões que aniquilam as previsões climáticas mais otimistas. O céu de estrelas prometido adquiri outra beleza, sedutora em nuvens sombrias e carregadas. Respiro fundo esse riso cuspido dos pulmões, o rugido do céu. Capturo um pouco do que vaga no ar antes que nova lufada entre pela janela. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Uma risada corre a sala acompanhada de trovões que aniquilam as previsões climáticas mais otimistas. O céu de estrelas prometido adquiri outra beleza, sedutora em nuvens sombrias e carregadas. Respiro fundo esse riso cuspido dos pulmões, o rugido do céu. Capturo um pouco do que vaga no ar antes que nova lufada entre pela janela. É assim que estréio a nova casa já mobiliada, paredes tão limpas que me fazem desviar o rosto em direção ao piso de madeira com medo de uma cegueira repentina. Todo seu, ele diz, mexendo na barba cerrada. Uma felicidade que corrompe minha melancolia. Dinheiro. A quem quero enganar. Dê a ele o mundo, disse Eros, e ele o mastigará. Ofereça o paraíso de seu bolso, o inferno para um sonho tranqüilo. Um preço justo, respondeu Le Saint, me analisando entre as vísceras e o tecido. Que espie. Que me venda. Preço é a única palavra que retenho nos tímpanos.</p>
<p style="text-align: justify;">Eros se vai, arrependimento escondido nos ralos pêlos púbicos. Ficamos nós dois. Eu e minhas asas negras, Anjo Exterminador armado e flamejante. Talento inato, hábil com as espadas. Ele ri. Mostra uma enorme cama em um quarto, depois no outro. Que eu tenha um lugar para trabalhar e um lugar para dormir. Não sei a razão, mas acho graça. Um empresário de sucesso, foi o que me tornei. Concordo de braços abertos com o homem com nome de santo, aparência de Buda e olhar languido de Ganesha. Uma divindade sincrética, carnal, um pisoteio sangrento de pombas brancas que antecipa nossos gestos do fim do dia. Me permito acariciar suas presas de mármore. Seu carinho arranha suavemente meu braço. Começo a desabotoar a camisa, mas ele some pela casa. Que o espere, ele fala já de costas, acreditando em uma espécie de telepatia.</p>
<p style="text-align: justify;">Sem pressa, os botões deixam as casas. Um trovão lá fora segue segundos após o clarão. A chuva desaba dissolvendo a paisagem impressionista. Corro para fechar as janelas, mas decido sentir os respingos. Como se caminhasse na rua, fico completamente nu, o corpo seco, molhado apenas na mente, inundado do que alguns ousariam chamar de futuro. Sem que precise pedir licença, ele volta. As mãos rastreiam meu corpo, leitores de código de barras, envolvem-me intumescido ao oferecer o champanhe. Toca. Eu desperto. Um brinde, ele pede, transbordando a bebida da taça. Peço um brinde à sombra no sol. Tento explicar, mas as lembranças são fugazes. Não precisa, ele diz. Não preciso que se explique, apenas exista. E de uma só virada o champanhe desaparece, na mesma virada em que chego à cama, cercado de algemas e peças de couro.</p>
<p style="text-align: justify;">O trovão dessa vez bate no peito. Bombeia o sangue a todas as extremidades. Sinto o rosto enrubescer no prazer às avessas de comandar. Só mais um demônio de uma ampla coleção. Mais um contratado, ele provoca, o regojizo no zunido do chicote. Os gritos adensam minhas nuvens, promovem o reencontro com minha escuridão. Depois de tanto tempo, era aqui que se encontrava. Sinto meus olhos se iluminarem. Gostaria de mirar, mas não é o que faço. Pegam onde pegam. Um barulho agudo. Agora são meus golpes que rasgam o ar, que tingem as paredes com o cinza que cultivo. Cinza e vermelho. Enforco-lhe com o cordão. Não é um crucifixo. Mas poderia. Permito que beba de mim e aperto mais e mais. Me pergunto se Sade teria orgulho ou se vexaria diante de nossas fraquezas. Dessa falsa poesia que nada tem a ver com ratos costurados, espetáculos na casa de loucos, com os buracos de suas musas. Na distração, o jogo vira. As costas torcem. Já não sei mais se sou luz ou sombras, a qual parte do ser de múltiplos braços e pernas eu pertenço. Cale a boca. Ele avisa. Silencio. Mas o ar escapa, quente, o sorriso não se fecha. Estou exausto, afirmo. Não quero mais dissimular, estou exausto. Me permito fechar os olhos. Não sei bem o que escorre, talvez sangue, talvez temores. Não tenho certeza, mas acho que desmaio. Ah, meus desmaios.</p>
<p style="text-align: justify;">Acordo sobre os lençóis. Le Saint me espia da cadeira. Calça, camisa, maleta. Um bocejo do mais puro tédio. Visto as peças que encontro pelo caminho para levá-lo até a porta. Décimo oitavo andar. 1818. Meu número da sorte. Ele me estica as chaves. Ele dono, eu proprietário. Caminho pelo corredor, sem ter o que agradecer. O preço pago em doze parcelas com entrada. Quando o elevador pára, nos despedimos como quem acaba de fechar negócio. Um garoto de chapéu e blusa preta, barba por fazer, passa entre nós. Tento ler as letras amareladas em sua roupa, mas ele já está longe. <br />
 Le Saint, aperta o botão da garagem e derrama suas últimas palavras:<br />
 &#8211; <em>Ça serait beau: Seulement, c&#8217;est pas possible</em>.</p>
<p>Volto para o apartamento em companhia de Godard. <br />
 &#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;<br />
 * Charenton é o nome do hospício onde morreu o Marquês de Sade.<br />
 * <em>Ça serait beau: Seulement, c&#8217;est pas possible</em> é uma frase de Vivre sa vie / Viver a vida, filme de Godard sobre uma prostituta.</p>
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		<title>17. Fluidos e formas</title>
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		<pubDate>Thu, 29 Jan 2009 21:27:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
				<category><![CDATA[a sombra no sol]]></category>

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		<description><![CDATA[Decido manter o quarto vazio por uns tempos. Os nomes sem sobrenomes espocam no visor do celular, recados de xingamento que me acusam de abstinência sem aviso prévio, decidida em uma noite de calor em que percebi que dois corpos colados só poetizam no fresco do ar condicionado. É um repúdio ao suor, aos líquidos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Decido manter o quarto vazio por uns tempos. Os nomes sem sobrenomes espocam no visor do celular, recados de xingamento que me acusam de abstinência sem aviso prévio, decidida em uma noite de calor em que percebi que dois corpos colados só poetizam no fresco do ar condicionado. É um repúdio ao suor, aos líquidos e fluidos, meus e de outros, um repúdio democrático esse o que faço. Me pergunto se sou eu quem manda nessa história, se físico e psicológico de fato  me pertencem. Se isso é verdade, não posso permitir que o visco e os aromas esfreguem na cara de barba por fazer a humanidade que me esforço para manter distante. Não interessa o dono dessa cara, um rosto proprietário, marca registrada nos escritórios internacionais e na pele a ferro e fogo, pois me vejo em cada retina, me ouço em espasmos e gemido, me descubro nos golpes que dou e recebo da mesma maneira. Tudo não passa de um imenso espelho orgânico que procuro evitar e por isso me isolo. Busco conforto na escuridão que cultivo com zelo, um consolo temporário, um longo transbordar de camisinhas que pelo óbvio me esvaziam. Não procrio, não busco a eternidade pelo sexo. Seu orgasmo, seu grito de felicidade não me diz nada. Aquilo que te vicia nas entranhas, de dentro pra fora e de fora pra dentro, só me causa apatia. O encanto, nutro pelo reflexo do qual um dia fugi. Um veículo de fantasia e realidade.</p>
<p style="text-align: justify;">O telefone vibra novamente sobre a mesa. Uma mensagem. Ameaça de morte. De despejo em uma vala obscura em um subúrbio qualquer, tão longe da limpeza milimétrica que procuro com afinco. Começo a teclar, respondo. Quando vejo é tarde. A mensagem não deveria ter ido daquele jeito. Onde está o botão de arrependimento? Onde está a tecnologia que permite apagar o que falei? Digo que venha. Com muito dinheiro. Que venha pronto para compensar o que os meses nos tiraram. Digo isso em letras digitadas no teclado. Sem entonação, sobra à raiva e ao desespero se esconderem nas entreletras, tão raras as linhas. Sei que é ridículo o comportamento. A solidão não é um ato de aprendizado. Entre deuses e vermes, seguidores. Sem eles, igualdade.</p>
<p style="text-align: justify;">O dinheiro sobrevive nas margens dessa esquizofrenia que inventei de bebedeira. Preciso zerar a casa. Uísque, vinho barato, comida de primeira que não sei comer sozinho. Havia nos fiapos do sofá um passado que precisava ser varrido, que esfreguei com a escova, arranquei com dentes, precisei tirar do corredor. Não descobri banho ou cheiro que me devolvesse a ilusão do ser eterno. Precisei olhar forte no espelho, suado, escorrendo, fluidos e gozo pingando, para me dar conta da verdadeira origem de meus intentos. Fui eu que desenhei essas cicatrizes. Ao longo de anos, camas, visitas, homens e mulheres ideais para si mesmos, passageiros para o resto do mundo. Cavei cada traço nos braços e nas pernas, preenchi as linhas com infelicidades compartilhadas, com unhas cravadas na carne, esfolamentos do nó dos lençóis em que me amarravam fingindo poder me prender. Eu um símbolo do momento de fuga, de uma alegria ligeira e adolescente em qualquer idade.</p>
<p style="text-align: justify;">Sei que ele chegará muito em breve. Talvez estivesse por perto. Não se descarta Eros sem que venha o troco. Nem toda flechada é de amor. É outro visco, um recado vermelho que lembra o que temos em comum. Não importa quem você seja, compartilhamos um coração pronto para falhar. Torço para que me entenda, hoje não quero nada aqui dentro. Quero casa nova, mobília, lençóis, garrafas diferentes para ir até o fim. Quero arrumar as malas e encontrar outro ninho. Cansei de repetir os gargalos.</p>
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		<title>16. Entreatos</title>
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		<pubDate>Sat, 10 Jan 2009 21:34:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Gotas de tédio pingam do teto entre nós dois. Seu corpo ainda é paisagem, esparramada como quem desfruta do conforto de um quarto de motel. Me incomoda que ainda esteja aqui, que tenha atravessado a fronteira inóspita do convívio e ignorado o arame farpado que instalei nas bordas do colchão. Quero sacudi-la e gritar: é [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Gotas de tédio pingam do teto entre nós dois. Seu corpo ainda é paisagem, esparramada como quem desfruta do conforto de um quarto de motel. Me incomoda que ainda esteja aqui, que tenha atravessado a fronteira inóspita do convívio e ignorado o arame farpado que instalei nas bordas do colchão. Quero sacudi-la e gritar: é meu território! Que depois de um orgasmo bem comprado a saída é o único caminho. Se ao menos pudesse tocá-la em um transe do qual não despertasse, afugentaria a respiração ofegante que simula quando finge que me possuiu. Só divido a cama quando compartilho o gozo, deveria ter dito assim que chegou, o seu fingido de um lado, o meu exaurido de outro. </p>
<p>Calisto pagou a mais, esbanjou dinheiro. Matraqueou momentos de desabafo de um marido inventado, que não existia além de sua encenação. Os atrasos no escritório foram os motivos para que viesse até aqui, explicou. Nada de ciúmes ou dramas de mulheres mimadas que aproveitam a conta do marido rico nos bordéis e nos shoppings. Dele o que queria não estava nos bolsos, mas guardado em local reservado para secretárias e amantes de estação, todas milimetricamente rascunhadas. Se ele pode, por que eu não, me perguntava ao tirar a roupa. E depois disso uma longa conversa para que a cama fosse um ponto final cada vez mais longínquo. </p>
<p>Por uma única vez quase acreditei.  Um hematoma na altura da cintura, uma mordida macia que teve vergonha de mostrar. Com prazeres na ponta da língua a convenci a revelar o seu segredo, a despir os mistérios junto com as peças de roupa. Mas nada naquela nudez era realmente nu, nada rompia suas mentiras. Decidi sozinho que o roxo era fruto de uma pancada e perguntei por mais, questionei o que não acreditava como se disso dependesse minha vida. Implorei que me contasse os detalhes com a promessa de um passeio profundo em seus devaneios e vitoriosa ela o fez. </p>
<p>Para Calisto o sexo era apenas uma história bem contada, o marcador de livro que norteava seus capítulos. <br />
Um dia rompeu nosso romance. Chegou aflita dizendo que tinha uma namorada. Uma amante. Ela havia descoberto sobre nós e não queria que voltasse a me ver. E seu marido, perguntei, só para incomodar. Aquele nunca sabe de nada. Pensa que me tem nas mãos, só porque me tem de joelhos. E começou a chorar sem derramar uma só lágrima. Entendi que o jogo havia mudado. Ator contínuo, incorporei o novo papel e mapeei seu corpo com os dedos, pedindo que me contasse o que a amante lhe havia ensinado, que me convencesse de que era melhor do que eu no que eu tinha de melhor, e pela primeira e última vez conheci o calor de suas entranhas.</p>
<p>Assim que dormiu, fui para o banheiro tomar banho e saí. Dessa vez, nada de ficar deitado até que acordasse. Nada de esperar que preparasse o café da manhã e com os olhos de esposa comportada me desejasse um bom dia trabalho. Nada mais de nosso pacto. </p>
<p>Quando retornei, tinha ido embora. O dinheiro certo em cima do colchão, sem cartas de despedida. Só voltei a ter notícias suas quando uma morena de piercing e tatuagem tocou a campainha e gritou seu nome, dizendo que saísse agora ou estava tudo terminado. Problemas de rotina, expliquei ao novo cliente enquanto sussurrava em seu ouvido, fingindo não ouvir os chutes e berros da única verdade que Calisto me contou.</p>
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