Category: a sombra no sol


15. Jogo de dois

Marcos apontava a arma e fazia declarações de amor com a mesma intensidade, os dois resultados sem volta. Morreu no colo de Alice vomitando uma overdose de calmantes e um ecstasy que misturou na caixinha de comprimidos. Alice chorou por três dias enquanto trepava com o policial que jurou sumir com o corpo. Nunca mais se ouviu falar de Marcos, que aliás não era seu nome verdadeiro. Alice mudou de cidade e teve que se prostituir em outros nichos, explorar os becos que desprezava quando apanhava dos figurões. Sentia saudade da mancha roxa, do tapa na cara e do dinheiro sujo. Sujo como ela gostava de ser, feliz da vida com Marcos e metade do morro entre as pernas. É tudo o que me lembro da mesa do bar, da introdução entediante que Alice fez de si mesma antes de sumir com um cliente e nunca mais voltar. E é o que agora relembro enquanto espio um casal que se engole no banco do parque, espio como um cão que esguicha seu desejo em árvores e postes com a mesma naturalidade que finjo ter ao planejar o bote.

Ando devagar esperando que me vejam, sintam vergonha ou me convidem, mas sou invisível entre as árvores, meu ruído não os incomoda. 
Opto então pelo improvável. Sentado no banco em frente poluo o ar com meu melhor cigarro vagabundo.  A mulher finalmente me descobre, os olhos mirando-me sem interromper o beijo. Acho que percebo um sorriso – se é mesmo possível sorrir durante um beijo – e retribuo de olhos fixos até que as línguas parem no ar. É aí que ela cochicha algo e quando ele se vira me preparo para a luta. Minhas armas carrego com um trago profundo, com as pernas abertas o suficiente para esquentar a tarde de outono do casal em chamas. 
A aproximação é pacífica. O bolso vazio me torna um exímio caçador de recompensas. Apago o cigarro na sola e levanto para um cumprimento. Ela me pergunta e eu respondo nomes e datas. Explico que não vendo nada além de mim mesmo, estou só. Ele mostra o dinheiro, é pouco, mostra mais, é o que tem.

Decepcionado, deixo um cartão de visitas impresso em seus lábios e me viro para ir embora. Ele grita que além daquilo só a roupa do corpo. Respondo que meu armário está cheio e as roupas da namoradinha não são do meu número. Quer então saber se tenho um quarto, só por uma tarde um quarto para alugar. Pela primeira vez percebo a inveja que sinto da minha cama, digo não, nos vemos outro dia.

Na volta para casa a polícia me espera. Querem que eu reconheça o corpo. Falam de uma Elisa que imagino ser Alice, encontrada com um corte no pescoço e um papelote de cocaína. Contam uma história parecida com a do bar, tão semelhante quanto podem ser as histórias de Elisas e Alices quando os nomes não importam mais. O fato é que os rostos não coincidem, mas ainda assim confirmo, e sem a menor vergonha reconto a história de Alice e como Marcos morreu dizendo ‘me salva’ na beirada do sofá. Invento outras falas, outros nomes e cenários, lamento que tenham morrido tão jovens.

O policial agradece a colaboração e estende um papel. Assino um rabisco e em um passe de mágica Elisa se transforma em Alice para que eles possam fazer delas o que quiserem.  Uma já morta, a outra jamais saberei.
Evitando o frio agora intenso, peço uma carona. A viatura passa pelo parque, mas não há mais ninguém que me interesse, nenhum bom jogo para acompanhar. 
Deito enfim na cama e, abraçado com ela que é só minha, começo a chorar.

14. Garotos alados

Toca a campainha pela primeira vez. Abro ainda de cabelos molhados, toalha velha na cintura presa com um nó impreciso. Peço que entre, que se sinta em casa. Equilibro algumas frases na ponta da língua decidindo não proferir nenhuma delas. Encaro firme o silêncio na escuridão de seus olhos. Demoro a entender se me analisa ou olha através dos meus tecidos. No abismo de palavras, sorrio e sumo por uns minutos. Quando volto, ele olha pela janela. Seu rosto liso reflete o azul de um letreiro. Tenho a impressão de que decifra os ruídos da rua, mas talvez só queira absorvê-los. Pergunto o que quer beber, se posso servi-lo de algum modo. Angelus Gautama sai do transe e estica uma garrafa de uísque, lembrando só agora do que traz nas mãos. Pego-a vagarosamente, sem entender. Por um momento acho que é minha, não a reconheço. É um presente, ele fala, me permitindo apreciar sua voz outra vez. Aprendi a não fazer imagens mentais quando falo com alguém pelo telefone. Aprendi a desconfiar de nomes e sobrenomes e a respeitar as invenções como a melhor representação da realidade. Relembro todas as minhas teorias no rápido encontro de nossos dedos. Aspereza e maciez se complementam. Um presente. Mastigo entre dentes a idéia enquanto abro a garrafa e nos sirvo. Como ainda se mantém de pé, sento para ajudá-lo a se ambientar, para que volte a ter a cor da noite. Não demora muito e ele pára ao meu lado, perna ligeiramente dobrada no sofá. É hora de escolher uma trivialidade e começar a conversa, conforme combinamos. Pergunto se não quer tirar os sapatos. Ele desabotoa o primeiro botão da camisa, afrouxa a gola em torno do pescoço. Diz que não. Pergunto se gosta de anjos. Ele pergunta se gosto de mitologia. Sou um ser mitológico, respondo, virando o uísque de uma só vez. Por que não gostaria? Ele se aproxima um pouco mais, suas mãos desenham asas ao longo de minhas costas como se ali estivessem escondidas esperando para se revelar. Tento explicar que repudio as comparações com o iludido das asas de cera. Quero perguntar se ele é um anjo celestial ou caído. É nesse momento que a cabeça gira. Aquela luz não vem dos céus. A negritude não vem de mim. Num dos giros noto que ele não bebeu nenhuma gota do uísque. Sinto-me envenenado, perdido. O próximo passo é o sangue, o roubo. A morte. O fim.

Acordo não sei quanto tempo depois, apoiado em seu colo. Uma toalha molhada me cobre a testa, a pela está gelada. Ele pergunta se quero a camisa esticada no encosto da cadeira ou um pouco de água. Explica que a tirou para ouvir os batimentos do coração. Me sinto um verdadeiro estúpido e é bom saber que ainda há algo de verdadeiro em mim. Tento levantar, consigo. Passo a toalha no rosto, na nuca. Sorte não cair. Quero saber quanto tempo fiquei desacordado. O suficiente para um CD, diz ele apontando o som desligado. Tateio os lençóis até achar o controle. Zonzo, finjo escolher uma faixa e começo a dançar desafiando nosso equilíbrio. Junto ao meu corpo, Angelus escolhe a sua melodia. Sinto seus dedos empurrarem o dinheiro até o fundo do meu bolso. Ainda temos tempo para conversar, falo, sem graça, espiando o relógio. Angelus faz que não com a cabeça. O seu silêncio foi a melhor conversa que tive essa semana, replica.
Os sons que vêm de fora continuam a nos embalar até o último minuto da sessão.

* O personagem Angelus Gautama foi carinhosamente cedido para esse conto.

13. Pegadas na areia

Desço o elevador com o suficiente para um café da manhã. A roupa é a de um leve inverno, apesar do calendário me explicar que estamos no verão. O cabelo despenteado não é natural. É produto de um esforço pensado, de dedos acostumados a uma agilidade puramente sexual que dividem e desfiam como lâminas, que abotoam e desabotoam serpentando e alimentando as batidas do meu coração. Não convenço ninguém do meu perigo usando sandálias franciscanas, mas os pés agradecem o conforto. Faço a curva mais longa para aproveitar o frio seco da avenida. Na umidade que evapora sinto que contribuo de alguma forma com o círculo virtuoso de poluentes e consternação. O sujeito no balcão oferece creme, biscoito e adoçante. Aceito tudo. Viro a xícara de café como quem tem um orgasmo inteiro pela frente. Agradeço com número de telefone, guardanapo marcado da boca e moedas na mesa. Um raio de sol desgarrado aquece o couro da jaqueta me levando a esticar os braços e estalar os ossos como faria um gato eriçado. Balanço a cabeça seguindo o ritmo da rua, o ruído dos passantes, o sangue da cidade. Em minhas veias correm carros, no coração se afunilam, nos pulmões se engarrafam por uma nova baforada de civilização. Quando penso em atravessar a rua e fugir do parque, um homem bem arrumado, calça e terno de linho, me entrega um papel e cospe algo que não entendo bem. Lá está o sol novamente, desta vez vermelho sobre o deserto do panfleto. Resistindo ao impulso de arremessá-lo no lixo mais próximo, dobro-o no bolso e sopro um beijo. Nas grades do portão, tiro as sandálias e arrisco os pés descalços no reduto verdejante. Veja só que coincidência, digo ao homem vestindo meu melhor sorriso, também sei deixar pegadas na areia.

É preciso atenção para ver além da paisagem. Para uns árvores e arbustos, para outros motéis cintilantes. Em um dos recantos um garoto de gorro me olha intrigado, sem saber se sou cliente ou concorrência. Uma mulher embriagada, vestido dourado, devolve à terra os restos de uma noite mal bebida. Grita que são todos uns porcos, que não valem nada. Eu concordo. Sempre concordo. Ofereço ajuda, limpo o batom borrado com a manga da camisa. Uma beldade como você não pode andar assim, eu digo, secando o álcool de seu sangue com o olhar. Ajudo-a a calçar os saltos, ajeito a franja como se ali residisse toda a sua dignidade. O garoto finalmente entende quem eu sou. Vem correndo, dizendo que tenho que sair dali. Que a noite já acabou. Digo que não sou um vampiro, me movimento bem sob a luz do sol. Mas que não se preocupe. Só desci para um café.

Enquanto ouço a ladainha, vejo que o homem de terno de linho nos observa. Ele se aproxima cauteloso. Um quarteto e tanto, penso eu, antes de virar as costas.

Na saída do parque, calço novamente as sandálias. É difícil resistir à curiosidade, mas me esforço. Não preciso saber quem o pastor escolheu. Ficar só com minha imaginação deixa tudo muito mais interessante.

12. Novos vícios

Eros não entende meu desprezo pela lua. Fica apoiado na janela, em posição que me é tão familiar, espiando o círculo prateado entre as nuvens. Digo que não há graça em um amontoado de poeira. Que de castelos de areia desisti ainda moço, no primeiro chute que levei. Que as nuvens, essas sim me encantam. Tudo isso da boca para fora. Ele contesta minha frieza. Parece existir para isso, funcionar como um ego descontrolado em uma transa constante com o Id, que pode ou não ser o meu. Vendo-o descabelado no parapeito, descubro que já me cansei de sua presença, imagino-o despencando da janela e virando pó em pleno vôo, como se nunca tivesse existido. Mas Eros é pegajoso, firme, não se decompõe com facilidade. Insiste em ficar no quarto, mesmo sabendo que a próxima cliente está para chegar. Será que toda raposa se arrepende pelo menos de uma das presas que leva para a toca?

Enquanto ajeita na cintura a calça jeans velha que achou no meu armário, Eros começa a perguntar sobre a mulher que caminha na calçada. Tento ser educado e explicar que a história dos que sustentam meus vícios só interessa a mim. Digo isso de um jeito delicado e depois com toda fúria que me convém. Eros debocha passando a língua nos dentes amarelados de nicotina, me empurra na cama provocando sensações vetadas pela censura. O risinho de escárnio se desmancha aos poucos culminando em frustração. A ereção, eu digo, é para ela. Ele ameaça sumir e não voltar jamais. Quem me dera, eu digo, vendo-o partir. Tenho ainda alguns minutos para arrumar a bagunça, me livrar dos copos de cerveja, dos tocos de cigarro, dos pelos entranhados no lençol. Distraído, quase erro o perfume predileto de Cris, o de cheiro de couro legítimo. Com os dedos na maçaneta, sinto ferver cada centímetro da medula. No olho mágico, confiro o que os ouvidos custam a acreditar. Infelizmente, a risada é inconfundível. Enlaçado no ombro executivo de Cris, Eros cochicha algo que a faz sorrir, mostrando que os pelos ásperos de sua barba já conquistaram a intimidade de sua nuca. Ao abrir a porta, a única coisa que me escapa da boca é um olá. Eros desliza a mão em minhas costas enquanto Cris diz calmamente: adorei a novidade. No momento em que sirvo seu uísque predileto, percebo que a quantidade de notas azuis sobre a mesa aumentou.

11. Eros

A vida é uma mentira contada aos poucos. Às vezes contamos para os outros, às vezes para nós mesmos. É o que faço quando digo que não quero mais, quando tento explicar puxando a roupa que por hoje basta, deixe seu dinheiro e saia, por favor, sabendo que da minha lamúria sobrará um trapo de camisa e a pele esfolada dos corpos em atrito. Faz parte da dança saber calejar os pés e do meu prazer entender demônios que se soltam da garrafa. Não preciso de vinho para nos embriagar. Só preciso do seu sim. Ao ouvir o barulho do zíper sei que escapam fantasias, e não me incomodo se vierem disfarçadas de timidez absoluta. O importante é que fiquemos à vontade. Os medos em comum facilitam as pontes, treinei os olhos para refletirem o que você quiser ver. A mim, basta o nu que o elástico insiste em esconder ao descer macio. Não tenha vergonha de contar meus pêlos, de seguir a trilha com seus dedos. Que graça teria o labirinto se não fossem as mil possibilidades de se achar e se perder. De certo modo, me sinto um professor. Digo como perder os limites mantendo o bom gosto. Ensino que Eros adora a ponta da língua e se encanta com o que vê por fora, almejando o que há por dentro. Parece que dessa vez acertei seus desejos. Ao pedir tempo para um banho quente encurtei o descanso e aqui estamos novamente com as pernas misturadas de um jeito áspero que não sei dizer qual corpo é meu ou seu. Você me encanta por dispensar amarras e algemas, por achar que óleos esconderiam o verdadeiro sabor da minha pele. A sensação de contentar sem artifícios ajuda a transbordar dos poros um suor diferente, anunciando novos fluidos e gemidos. Com o chuveiro desligado, me jogo molhado na cama e deixo o colchão absorver as lembranças que me escorrem. Quando vejo você deixar o dinheiro e calçar o segundo sapato, ofereço um novo round e peço que fique um pouco mais. A roupa, eu aviso, é acessório opcional.

10. Colcha de retalhos

Hoje, descanso. Fico sentado debaixo do chuveiro de pernas esticadas, deixando que a água leve tudo que não me pertence. Também tenho preguiça, sou humano, sinto muito. Se pudesse fumar debaixo da água ficaria aqui o dia inteiro, esfregando nicotina no cinzeiro e gastando minha chama.

Acende. Apaga. Reacende.
Foi por muito pouco que não esqueci como é bom estar sozinho. Pensar bobagens é prazeroso, você devia tentar com mais afinco, cavar nos rabiscos da agenda uma hora vaga para tal. Sentir a água quente descendo no azulejo gelado também ajuda. Pode colar as costas. O preço é um arrepio igual ao da língua que desliza no umbigo ou simplesmente desliza, sem rumo nem direção.
Minhas mãos não passam de um meio termo desse contraste de temperaturas, mas têm a vantagem de irem aonde eu quiser sem perguntar o porquê. Me toco com precisão cirúrgica, sou bom no que faço e em me convencer disso.

Pausa na fala e na respiração.

A missão digital de reconhecimento revela uma dor aguda que, ciumenta, chama para si todas as atenções. Me atrevo a olhar, tolo que sou me fingindo de forte. Está lá o vermelho para quem quiser ver. O impacto da ducha separa dois cortes largos nos tornozelos, planejados com uma simetria desagradável. As abas da pele bambeiam expondo o mais próximo que cheguei de minha beleza interior. Descem hemácias misturadas ao vinho contínuo da noite passada. Tento buscar na memória uma explicação plausível, que insiste em se esconder nos exageros das doses de uísque sem gelo e guaraná. Penso se os rasgos foram feitos pelo lirismo do réptil que encontrei no bar e arrastei até aqui. É provável. Mesmo sem o teste de DNA consigo identificar a assinatura feita com a ponta afiada do bisturi. Espero que pelo menos tenha pago por isso.

Eu devia me aposentar. Me expor menos às sandices alheias. Eu também tenho fantasias,  todas empoeiradas guardadas na caixa cinza no fundo do armário. Posso arrumar outra coisa para viver, mas não saberia viver de outra coisa. Contraditório e repleto de sentido, assim traço os meus dias rumo a um futuro que pouco importa.

Por um instante a água desce mais quente e eu afasto corpo e pensamentos, por instinto.

Volto a olhar a pintura de tons violáceos. Para aperfeiçoá-la inverto a posição e ponho as costas no chão e pernas para o alto, deixo a água quente atingir meu abdômen, esperando que o sangue escorra. Desobediente, se recusa a descer pelas coxas, desenhar panturrilhas, tingir o ventre liso. Escorrego então os pés até as torneiras e desligo a água quente. Aproveito o frio para reorganizar pensamentos, diminuir a ressaca.

Não quero voltar assim para o bar. Tenho que parecer outro e ao mesmo tempo ser mais eu do que nunca. Sou bom no que faço, repito acertando a fivela do cinto. Balanço os gelos do uísque quando o telefone toca. O gerente avisa que posso ficar por ali, ampliar meu território. Só pedirá 10% das minhas noites, alugadas para eventos a combinar. Agradeço. Desligo. O barman coloca mais um dose para comemorar e pergunta se não quero curativos, apontando para o sangue que mancha as meias de vermelho.

09. Síndrome de Pirandello

Acordei com o corpo teso, respingo de um sonho que me tive assim que Morpheu me invadiu, isso muito antes de cair no sono e dormir. Eu estava largado no sofá, água gelada na mão, sem álcool, brincando com os habitantes de uma imaginação violenta que me tira às vezes os pés do chão e transforma as pessoas reais em uma massa disforme enfiada na gaveta de cuecas. E isso sem respirar, como nas frases longas de um livro. Não há cliente que me toque como os meus sentidos. Ninguém chega aonde chegam meus delírios, ninguém lambe os pés da minha imaginação e isso me deprime. Meu único vício compensador é inutilizado nesse momento e só me resta sair de casa e encarar os outros como iguais. Não, não quero mais nada por hoje. As ruas também não me querem mais, mas mesmo assim enfrento a descida e vou ao bar beber uma jarra de sangria. Me diverte pescar as frutas antes de virar o líquido tinto.

O bar aqui é outro, exige calça jeans e camiseta. Acostumado a ser comprado nu, me visto para desaparecer sem perder o encanto. Por sorte, não preciso fingir que me sinto em casa, já que todos me conhecem pelo nome e alguns pela caligrafia. Tiro um cigarro do bolso para que ninguém se confunda. Sim, sou eu que estou de alcovitagem. Observo as mesas e baforo a placa de proibido fumar. O barman me evita, conhece esse brilho em meus olhos e sabe como a noite termina, foge do vácuo da minha depressão. Mas hoje vou surpreender a teoria da evolução. Não adianta me filtrar como um vírus só porque te causo febre. Conheço trilhas mais eficientes que as suas narinas. Penso em veias e no uísque, penso em dançar de olhos fechados e é isso que faço.

De relance, encontro uma criatura que também entende as trevas.
Só o conheço pelas tatuagens. Alguém fugido de suas próprias ficções. Santiago deixa escapar os pensamentos pelo zíper surrado, pela gola que meus dedos aprenderão a percorrer. Pergunto se está procurando alguém, sem preço, sem nada. Não sei se ele é uma das formas de Morpheu, de antes ou depois da sangria. Talvez eu seja uma entrelinha de histórias suicidas, digo ao me apresentar. Da janela fechada, aponto outra janela, essa aberta, com um cinzeiro de metal. É ali que me alimento, explico, puxando sua mão fria para um novo capítulo.

08. Répteis e felinos

Fico feliz ao descobrir que depois de tanto tempo ainda sinto frio na barriga na primeira noite de um cliente. Mesmo após a análise criteriosa do material diante do marido, me pergunto o que Nazarethe achará e perderá de mim entre seus longos cabelos negros. Expectativas pelas expectativas, preparo um copo de black label que viro inteiro ao puxar a manta do sofá. Resolvo borrifar a bebida ao redor de velas, para que o aroma indique o ritmo de nossa dança. Após o banho frio milimetricamente tomado, visto o roupão com o dragão nas costas, presente de outros prazeres. Me confiro no reflexo, do avesso e no reverso. Ainda sou bom nisso, repito tentando convencer as paredes quando ouço a campainha.

Deixo o nó mais frouxo, e assim que abro a porta, minhas pernas tremem. Ela também entende a arte dos personagens. O casulo que vi antes abriu-se para mostrar uma vampira de olhar profundo. Elegante e bem vestida, chegou envolta em um xale de seda negra que lembrava as asas de um pássaro misterioso. O vestido era de veludo e acompanhava as formas esguias que logo degustaria em minha cama. Sorriu suavemente e entrou sem ruídos. Nada falou. Simplesmente andou pela casa e quando avaliou o quarto voltou-se para mim, que havia fechado a porta e esperava por seus movimentos, ordens, o que viesse. Ela soltou o xale dos ombros estreitos, delicados, e ficou na minha frente. Olhou-me como uma pantera observa a presa e por fim aspirou meu perfume sem me tocar. Rodeou-me e por fim tocou meus ombros, a está altura já arranhava as minhas costas. Gostava de sentir a seda. Sabia muito bem como acariciá-la.

O nó do roupão se desfez sobre os dedos de alguém muito decidido, o dragão foi ao chão em doces ondas. Quando minha nudez surgiu, ela continuava as minhas costas, um jogo delicioso do qual sabia tirar os melhores prazeres. Gostou de ver-me nu, chegou mesmo a observar meu sexo crescer a cada toque seu. Quando mordeu minha cintura tremi novamente com a perspectiva do que viria. Pensei em conduzi-la delicadamente até a cama, mas o jogo era matreiro. Os espinhos da tatuagem em seu ventre derramaram meu sangue nos lençóis e me inseminaram com essência de rosas, misturando nossos fluidos. Ela partiu do mesmo modo que chegou e não soube ao certo se a satisfiz plenamente. O prazer, intuí, se prolongaria no próximo banho, nas ardências que havia deixado em mim.
Acredito que dançamos com maestria, e cada um deu o melhor de si.

Sombra no Sol especial. Escrito a quatro mãos com a escritora vampiresca Nazarethe Fonseca.


07. Festa em família

Ele vem descontraído descendo a rua com um carrinho de bebê apoiado no ombro. Está de camisa verde, calça jeans surrada na altura canela. A pele mais escura e o cabelo mais claro denunciam o fim de semana em família, o tórrido dia de praia. Apesar dos óculos escuros, sei que presta atenção na janela, na fumaça que pincela o vidro por dentro e por fora, por isso aceno. Como combinado, deixo a porta encostada e um quarteirão depois ouço o rangido do sapato, dos músculos, da dobradiça.

São 5 horas da tarde. Ando cambaleando como quem não está nem aí, troco as pernas devagar, cato o meu cinzeiro e sigo até o fim da guimba. Demoro a encará-lo de frente por puro prazer tático. Nada nesse templo é espontâneo, nem mesmo o sacrifício, mas é assim que deve parecer. Ele se encanta com a sombra em meu rosto, a barba do fim do dia, sua única exigência.

O carrinho é largado em um canto, desmontado. Não resisto a inspecionar o pano quadriculado, o emaranhado de linhas me distrai. Não caberia ninguém ali, nada vivo pelo menos. Vejo que um parafuso escapou para debaixo do sofá e penso se não seria melhor ficar ali escondido, observando o que está por vir quietinho no escuro.

A mão calejada me traz de volta à realidade, cria espaço em meu cabelo e me puxa com força para baixo. Desmonto inteiro, desabando de joelhos, como um boneco na vitrine de uma galeria. Já aprendi a encher a conta do banco; retocar a maquiagem e os curativos são meras etapas do processo. A sucção quase rasga as artérias do pescoço. Minhas roupas não têm o benefício do quase e são destroçadas quando tento me apoiar na janela. Sou carregado no colo, um príncipe enroscado em seu corpo e derrubado na cama com um único arremesso. Acho que torci o pulso, comento entorpecido, dando idéia para que me torça o outro. Mas ele tem vícios de gentileza, me revira na almofada, faz massagem. Prefere deitar ao meu lado, posições sem contorcionismo, prefere soprar elogios em minha orelha até que eu ceda aos pedidos de desculpa.

Passada a hora, sinto em meu corpo o cheiro de maresia. Por um momento estou também na praia, sunga escura, pele pálida, também sou parte da areia e da família. Uma vida como outra qualquer, como qualquer das vidas que não desejo para mim, exceto talvez pela água de coco. Devaneios à parte, ele me avisa que esqueceu a carteira em casa. Não é do tipo que dá golpes, portanto liga para a esposa e peça que lhe traga algum dinheiro. Antes que a ampulheta se inverta novamente ela entra em minha casa, me inspeciona nu nos lençóis, apalpa coxas e investiga o abdômen como se não existisse nenhum ponto turístico entre as duas áreas. Ela sopra algo em seu ouvido e ele retribuí com um beijo demorado. Ainda de lábios úmidos, diz que sou mesmo uma gracinha. Pergunta para quando podemos marcar uma hora. Digo o dia, ela diz Nazarethe. Na saída, ele se desculpa pelo carrinho. Avisa que o filho mudou de horário na escola. Digo que tudo bem, aceno, pulso dolorido.

06. Porão de carcaças

Ela se aproxima como quem não quer nada, enquanto coço minha carcaça estirada no tapete. Preciso varrê-lo, peciso vendê-lo, preciso de um pouco menos de pelos nessa solidão. Ela me leva a lugares que não quero ir, de onde lutei para fugir rifando todos os líquidos do meu corpo. Reparo na sujeira do teto e penso em chamar um pintor. Um que é irmão do porteiro do prédio ao lado e que faz um ótimo serviço para o preço que cobra. Mas aqui não cobra nada, só meu suor e ajuda. Talvez também pinte minhas manchas, meu lado cinza, branco, negro. A vida poderia ser mais simples se tivéssemos todos um suave tom de vinho, Vitis rupestris, cor da pele de Dionísio.

E por falar em bebida, viro mais um gole de tinto para fingir que afundo mesmo que levite pelo ar. Ela, a lembrança, me segura pelos pulsos ainda doídos e me obriga a permanecer no chão, vencido pelo torpor. Nesse vira e mexe dos desesperados encontro a lente de contato que perdi no encontro com o oftamologista. Guardo o acúmulo de poeira em um estojo com soro e conservantes. Vejo se não há mais nada de mim que possa esconder lá.

A verdade é que tenho saudades de minha atriz particular, da aura decadente que iluminava os dias nesse quarto cor de gelo seco. Busco no conforto do gargalo motivos para relembrar as conversas fúteis sobre drogas nos bastidores da televisão. Como era gostoso ouvir os podres de antigos amantes, sentir arranhões só pra seduzir, como um gelo deslizando nas costas durante as raras transas nos lençóis. Raras porque geralmente dormia esgotada das gravações.

Sinto que as câmeras roubavam a vida que tentava renovar em nossos encontros. A invasão de lentes, o brilho das lâmpadas denunciando a palidez da pele e as pupilas fixas mirando o vazio do inconsciente.
Eu nunca soube quando testemunharia seus exageros.

Uma vez sacudiu a bolsa no meio da sala para que eu visse tudo o que trazia. Caíram sacos brancos, comprimidos homeopáticos, uma gilete ainda na caixa e o caderninho de telefones. O barulho das páginas a fez congelar. Lançou-se ao chão protegendo os números e os nomes, me acusando num devaneio. Chantagista. Me chamou de hipócrita. Duvido que soubesse o que significava. Disse que eu tirava fotos dela com o celular, escondido, para enviar aos jornais, revistas de fofoca, e era assim que sustentava meu nível de vida.
Oscilei entre a raiva e o riso, mandei que jogasse uma água no rosto. Lembrei a ela que só fazia o que gostava e era muito bem pago por isso. Disse isso apertando-a na parede e buscando sua língua com a ponta da minha.

Fechei um contrato hoje, falou mais calma, vou aparecer num comercial de calça jeans. Você acha um dinheiro digno?
Quando me abaixei para juntar suas tralhas ela soube a resposta.
Me pagou o que devia e saiu sem dizer nada.

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