Marcos apontava a arma e fazia declarações de amor com a mesma intensidade, os dois resultados sem volta. Morreu no colo de Alice vomitando uma overdose de calmantes e um ecstasy que misturou na caixinha de comprimidos. Alice chorou por três dias enquanto trepava com o policial que jurou sumir com o corpo. Nunca mais se ouviu falar de Marcos, que aliás não era seu nome verdadeiro. Alice mudou de cidade e teve que se prostituir em outros nichos, explorar os becos que desprezava quando apanhava dos figurões. Sentia saudade da mancha roxa, do tapa na cara e do dinheiro sujo. Sujo como ela gostava de ser, feliz da vida com Marcos e metade do morro entre as pernas. É tudo o que me lembro da mesa do bar, da introdução entediante que Alice fez de si mesma antes de sumir com um cliente e nunca mais voltar. E é o que agora relembro enquanto espio um casal que se engole no banco do parque, espio como um cão que esguicha seu desejo em árvores e postes com a mesma naturalidade que finjo ter ao planejar o bote.
Ando devagar esperando que me vejam, sintam vergonha ou me convidem, mas sou invisível entre as árvores, meu ruído não os incomoda.
Opto então pelo improvável. Sentado no banco em frente poluo o ar com meu melhor cigarro vagabundo. A mulher finalmente me descobre, os olhos mirando-me sem interromper o beijo. Acho que percebo um sorriso – se é mesmo possível sorrir durante um beijo – e retribuo de olhos fixos até que as línguas parem no ar. É aí que ela cochicha algo e quando ele se vira me preparo para a luta. Minhas armas carrego com um trago profundo, com as pernas abertas o suficiente para esquentar a tarde de outono do casal em chamas.
A aproximação é pacífica. O bolso vazio me torna um exímio caçador de recompensas. Apago o cigarro na sola e levanto para um cumprimento. Ela me pergunta e eu respondo nomes e datas. Explico que não vendo nada além de mim mesmo, estou só. Ele mostra o dinheiro, é pouco, mostra mais, é o que tem.
Decepcionado, deixo um cartão de visitas impresso em seus lábios e me viro para ir embora. Ele grita que além daquilo só a roupa do corpo. Respondo que meu armário está cheio e as roupas da namoradinha não são do meu número. Quer então saber se tenho um quarto, só por uma tarde um quarto para alugar. Pela primeira vez percebo a inveja que sinto da minha cama, digo não, nos vemos outro dia.
Na volta para casa a polícia me espera. Querem que eu reconheça o corpo. Falam de uma Elisa que imagino ser Alice, encontrada com um corte no pescoço e um papelote de cocaína. Contam uma história parecida com a do bar, tão semelhante quanto podem ser as histórias de Elisas e Alices quando os nomes não importam mais. O fato é que os rostos não coincidem, mas ainda assim confirmo, e sem a menor vergonha reconto a história de Alice e como Marcos morreu dizendo ‘me salva’ na beirada do sofá. Invento outras falas, outros nomes e cenários, lamento que tenham morrido tão jovens.
O policial agradece a colaboração e estende um papel. Assino um rabisco e em um passe de mágica Elisa se transforma em Alice para que eles possam fazer delas o que quiserem. Uma já morta, a outra jamais saberei.
Evitando o frio agora intenso, peço uma carona. A viatura passa pelo parque, mas não há mais ninguém que me interesse, nenhum bom jogo para acompanhar.
Deito enfim na cama e, abraçado com ela que é só minha, começo a chorar.
