Butterfly Caught (publicado no letra e vídeo)

É um retorno difícil o que faz, um de tantos que ainda guarda na memória e de muitos que virão. Chegou a acreditar que ali não teria problemas, mas a crença se desfez logo que cruzou a fronteira e o vento trouxe o já familiar cheiro da morte. Vinha presenciando a destruição como fato corriqueiro desde o primeiro dia no bairro, mas sabia que agora era diferente. Sempre era.

A cada passo que dava, velhos aromas invadiam as narinas trazendo restos de informações. Os resquícios de fumaça avisavam que nada era por acaso. O fogo tinha dono, tinha alvo. O calor dessa vez não viria de saques ou invasões. Estaria mais próximo, baforando em seu rosto uma repugnante intimidade, indo contra tudo o que havia aprendido durante a dormência no topo do edifício.  No ar, imiscuído no carbono, ele percebia sua antiga casca e os parentes mortos, odiando cada vez mais a precisão de seus sentidos.

Não era a noite que o camuflava, mas o caos natural da parte esquecida da cidade. Antiga zona industrial, nem a polícia se arriscava a rodar por aquelas ruas. A maioria dos homens vagava a esmo, distante das leis do tempo, tentando retomar a crença de que algo maior os salvaria. Um dia, era o que esperavam. Um dia qualquer em que. E daquele dia em diante então. Já ele não tinha crenças, não lhe incomodava a lei ou a falta dela. Acreditava no que via durante o repouso e na dor provocada pela luz quando novamente seus olhos a encontravam. Do restante, desconfiava.

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Labaredas

Segue como fogo pela mata, nem cabeça nem pé, nem nada. Serpenteia entre a terra e o espaço, abocanhando o caboclo que se ache em seu caminho, em um dia de marasmo, uma noite largado, sozinho, bebendo água na beira de um riacho. Tão pobre, sem força, sem liberdade, corre como nunca correu antes, corre mais do que do sinhozinho. Nem por capanga de espingarda e chicote de verdade tinha descido o rio com tanta velocidade. Enquanto salta mato, galho e tronco derrubado, ouve de pertinho, quase ao seu lado, um ra-ta-tá de coisa queimada que lhe treme as pernas e assombra o espírito. Seu corpo gela, se benze em um salto, mas logo que pula, bem lá no alto, o boitatá aparece e lhe divide em pedaços. Mastiga de tudo, pé, mão, cotovelo. Não joga fora nem o cabelo. Tronco partido. Um abraço.

* microconto publicado no TerrorZine nº6