É um retorno difícil o que faz, um de tantos que ainda guarda na memória e de muitos que virão. Chegou a acreditar que ali não teria problemas, mas a crença se desfez logo que cruzou a fronteira e o vento trouxe o já familiar cheiro da morte. Vinha presenciando a destruição como fato corriqueiro desde o primeiro dia no bairro, mas sabia que agora era diferente. Sempre era.
A cada passo que dava, velhos aromas invadiam as narinas trazendo restos de informações. Os resquícios de fumaça avisavam que nada era por acaso. O fogo tinha dono, tinha alvo. O calor dessa vez não viria de saques ou invasões. Estaria mais próximo, baforando em seu rosto uma repugnante intimidade, indo contra tudo o que havia aprendido durante a dormência no topo do edifício. No ar, imiscuído no carbono, ele percebia sua antiga casca e os parentes mortos, odiando cada vez mais a precisão de seus sentidos.
Não era a noite que o camuflava, mas o caos natural da parte esquecida da cidade. Antiga zona industrial, nem a polícia se arriscava a rodar por aquelas ruas. A maioria dos homens vagava a esmo, distante das leis do tempo, tentando retomar a crença de que algo maior os salvaria. Um dia, era o que esperavam. Um dia qualquer em que. E daquele dia em diante então. Já ele não tinha crenças, não lhe incomodava a lei ou a falta dela. Acreditava no que via durante o repouso e na dor provocada pela luz quando novamente seus olhos a encontravam. Do restante, desconfiava.

