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	<title>Eric Novello &#187; contos</title>
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	<description>Escritor, tradutor e exorcista.</description>
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		<title>Repescagem: Abutres</title>
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		<pubDate>Mon, 14 Feb 2011 11:00:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
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		<category><![CDATA[fantasia]]></category>
		<category><![CDATA[fantasia Urbana]]></category>

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		<description><![CDATA[Para entrar no clima de Fantasia Urbana e de Carnaval, um conto escrito em 2009 para o projeto Cryacontos, com o tema Depois da Quarta-feira de Cinzas. Ele arranca uma depois da outra. Os canhões contendo sangue gotejam sobre a &#8230; <a href="http://ericnovello.com.br/abutres/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Para entrar no clima de Fantasia Urbana e de Carnaval, um conto escrito em 2009 para o projeto Cryacontos, com o tema Depois da Quarta-feira de Cinzas.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele arranca uma depois da outra. Os canhões contendo sangue gotejam sobre a pele. As penas negras cobrem metade do chão da cela, mas o torturador não para, mesmo sabendo que o metamorfo preso na sua frente não se pronunciará sobre o crime. Isso de fato não o incomoda, já que segue a profissão com gosto, principalmente com o bolso cheio. Ou metade dele. O restante só na última pena. Ainda faltam tantas. Decide por uma das costas, próxima à espinha da aberração. Tenta imaginá-lo de bico, pois é uma boca que apresenta no momento. Há algo muito próximo a uma membrana colado debaixo dos braços. Um vestígio da transformação. Ser atordoado com tranquilizantes bagunça todo o processo. Pelo visto, deixa-os ainda mais asquerosos. Tiraria fora a membrana se já estivesse na tesoura. Mas gosta da boca, gosta de um homem-pássaro que tenha lábios. Pensa em beijá-lo, mas teme uma mordida. Os metamorfos são imprevisíveis. Amarrados, pendurados pelos pulsos no teto, sangrando como um boi no abate, mesmo assim são perigosos. Podia se lembrar do último que matou por encomenda. Havia se metido com a garota errada. Humanos e metamorfos juntos, quem poderia imaginar. A família imaginou, foi além. Não aceitariam um berço cheio de pelos. A menina merecia coisa melhor.</p>
<p style="text-align: justify;">O novo caso era mais interessante. Nada de famílias recalcadas manchando seu currículo. Fazia por justiça. Ou vingança, dependendo do referencial. Metamorfos são poderosos de modo geral, mas basta um único dardo para que desabem como crianças. Malditos monstros. O que o imbecil realmente pensava? Que poderia matar um mago atrás do outro sem que ninguém percebesse? É preciso entender que alguns nascem para cientistas, outros para cobaias. Voar pela janela aproveitando-se dos ossos ocos não adiantou. Pneumáticos. Reumáticos. Traumáticos. Quebrariam do mesmo jeito quando passasse ao martelo. Tombaria outra vez sem forças, como acontecera no instante do disparo. O corpo caindo no meio do caminho, longe de um lugar em que pudesse se agarrar, direto na armadilha de contenção. Estúpido. Um estúpido assassino de magos que lhe garantiria um salário gordo. Magos pagam bem, não deixam barato, sem trocadilhos.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele não era o melhor. Deixava rastros, não caminhava invisível, tinha mais registros na polícia que batedores de carteira de porta de hotel de luxo. Mas carregava a fama de uma morte lenta que servia como um cartão de visitas diferenciado. Nunca contaria que o processo nada tinha a ver com crueldade, era pura indecisão. Por exemplo: os alicates. Escolhê-los sobre a bancada era como uma relação de amor, quase carnal. Tinha que sentir a lâmina, romper levemente a pele da ponta dos dedos até que seu próprio sangue derramasse deixando uma leve sensação de ardência, um desejo de mais que se saciaria no corpo de outro. E eles eram tantos. Como decidir entre os diferentes bicos e cortes de maneira que não fosse experimentando em si e nos que cruzavam seu caminho?</p>
<p style="text-align: justify;">Quando os meses passavam mais lentos e sem encomendas, deliciava-se sozinho, mas o gozo só é completo a dois. Ao contrário da família da vítima anterior, não tinha preconceitos. Gostava de qualquer espécie. Humano ou inumano, todos lhe serviam bem. Trazia em si a arte, independentemente do parceiro. Gostava lento, profundo e violento. Alicate, punhal, martelo. Poucas vezes chegava no serrote. Ah, o serrote.</p>
<p style="text-align: justify;">Há algo paradoxal em um pássaro que não canta, só geme. Se ao menos dissesse quem o havia contratado para matar os magos. Um único nome e estaria livre para morrer depressa. Pegaria o cadáver nos braços, faria o último carinho com o corpo ainda quente. O beijo da morte.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas ele nada falava. Nem xingar ele xingava. Talvez não soubesse.<br />
E ainda havia tantas penas.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">
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		<title>CyberRoma</title>
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		<pubDate>Fri, 19 Nov 2010 12:24:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
				<category><![CDATA[contos]]></category>

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		<description><![CDATA[Como prometido, o conto no qual trabalho a ideia para a nova versão de Dante, batizada de CyberRoma: Quando a noite dominou o horizonte, o povo ainda tomava as ruas da cidade, curioso para ver o desfile de espólios da &#8230; <a href="http://ericnovello.com.br/cyberroma/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Como prometido, o conto no qual trabalho a ideia para a nova versão de Dante, batizada de CyberRoma:</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">Quando a noite dominou o horizonte, o povo ainda tomava as ruas da cidade, curioso para ver o desfile de espólios da mais recente batalha do exército romano contra o flagelo de Zeus. O vento soprava seco como se o sol ainda estivesse a pino, espalhando a fuligem que escapava dos lança-chamas e pintando com seu negrume a pele daqueles que se amontoavam nos limites do isolamento imposto pela guarda palaciana.</p>
<p style="text-align: justify;">Licínio tentava se movimentar em meio à multidão, com um olho em seu chefe Ítalo Tarnapo e o outro em um carro que aguardava com ansiedade, para ele deveras especial. Percebeu que Ítalo se aproximava pelos urros ensurdecedores que tomaram a avenida. Gritavam como se fossem eles os soldados que arriscavam a vida no campo de batalha, eles os feridos pelos escudos eletrificados dos espartanos. De nada adiantou argumentar com o guarda e pedir passagem. Se fosse ele em seu lugar, também não acreditaria que um garoto magrelo tinha sido escolhido pelo general das tropas romanas para servi-lo em treinamento.</p>
<p style="text-align: justify;">Como era de se esperar, Ítalo havia dispensado a toga do traje cerimonial e vinha em sua armadura. Não fazia o tipo que seguia os ritos e vivia uma relação conturbada com os deuses, como se tivesse a necessidade de dizer em atos que o mérito pelas conquistas era dele e não das divindades. A cada nova explosão de fogo, era possível ver as marcas nas escamas metálicas presas sobre a sua roupa de couro negro, e quando as chamas cessavam, brilhava a águia romana em seu peito, num intenso tom de dourado. As botas reforçadas estavam surradas, porém inteiras, encaixando perfeitamente na peça sobre as canelas. Ítalo havia desmontado a parte dos membros superiores para expor o corte adquirido do lado esquerdo. Lembrava ao povo com aquele gesto que era um guerreiro de carne e osso, sem nenhum implante, nenhuma peça metálica entranhada em seu corpo.</p>
<p style="text-align: justify;">Ítalo esperou que o desfile fizesse a última parada e retirou o elmo dourado que simulava o bico curvo de um falcão. Os cabelos castanhos estavam úmidos de suor, e os olhos ardidos pela mistura deste com a fuligem. Uma nova onda de urros e brados se seguiu, mas seu ânimo começava a ceder ao cansaço. Tinha em mente os homens mortos na batalha, as mulheres a quem daria a notícia de morte, e não a coroa de louros que César pousaria em sua cabeça. Achou que havia enlouquecido ao ver Licínio passar por entre as pernas dos guardas e correr no meio do desfile para o carro logo atrás do seu.</p>
<p style="text-align: justify;">O jovem parou em frente às grades, sem conter o entusiasmo de ver pela primeira vez de perto uma quimera alada. Parecia sedada, com o corpo caído sobre uma das asas coriáceas, agora murchas e sem brilho. Licínio arriscou tocar a cabeça de leão, mas se assustou quando a cauda de serpente moveu-se em sua direção. Um guarda tentou alcançá-lo, mas Ítalo sinalizou que o deixassem em paz e assim foi feito. Licínio sacou sua pequena adaga, cortou um tufo da juba e guardou-o no estojo em sua cintura. Logo que os carros voltaram a se mover, acompanhou a quimera por mais uns instantes, depois se misturou novamente à multidão, guardando a lembrança como a um tesouro.</p>
<p style="text-align: justify;">O campo próximo ao templo de Marte estava ocupado pelos soldados que Ítalo comandara na missão. A maioria deles ostentava modificações metálicas, braços reforçados pelo ferro e aço, pernas capazes de guardar uma pequena arma em seu interior. Ítalo não os culpava, era difícil resistir aos caprichos da ciência trazida pelos deuses e tida como um símbolo de superioridade diante dos adversários. Ele estava entre os poucos que ousavam resistir aos inventos inspirados por Vulcano. Roma se vangloriava de ser a cidade escolhida pelos deuses para levar a luz até os povos primitivos. Havia sido construída com a força dos homens e das máquinas sobre um terreno consagrado em rituais tão antigos quanto o próprio conceito de civilização. Era cantada aos quatro ventos como a maior e mais poderosa cidade de ferro já erguida sobre a terra, cuja glória irradiava sobre o território cada vez mais vasto controlado pelo ditador.</p>
<p style="text-align: justify;">O festejo precisava ser digno de Roma e assim Júlio César o fez, ordenando aos seus edis que colocassem as fornalhas no máximo e oferecessem ao povo um espetáculo flamejante. Meticuloso, fez questão de vistoriar o templo e escolher o sacerdote que conduziria os ritos, seu antigo amigo Metellus, um homem de mãos metálicas recurvadas como garras e olhos biônicos financiados pelo próprio imperador.</p>
<p style="text-align: justify;">A cerimônia no templo devia ser o momento mais importante, com Ítalo Tarmapo sendo recebido pelos togas-negras e pela guarda de elite na base da escadaria. Com alguma sorte, o próprio Marte apareceria para agraciar seu pupilo, mas César sabia que era querer demais convencer os deuses de se misturarem aos homens por motivos que não os seus caprichos. Se nem Ítalo fazia questão de esconder o tédio em seu retorno, o que dizer de um deus que só se sente vivo no calor da guerra, pisando no corpo do inimigo. A resistência de Ítalo aos implantes tornava-o um de seus preferidos, o ditador sabia disso, por isso mantinha a ínfima esperança viva no peito reconstruído sob a armadura.</p>
<p style="text-align: justify;">Os escoriados espartanos tinham muito que agradecer a Zeus. Geralmente alvo de pedradas, passavam como um mero detalhe entre o carro da quimera e dos desmortos. A última jaula do desfile trazia cinco das estranhas criaturas que vinham interferindo nas batalhas, atacando os soldados em regiões de mata densa. Pareciam homens cadavéricos, criaturas com uma força que não condizia com a aparente fragilidade. No momento do ataque, agiam de forma organizada e inteligente, movendo-se com agilidade na certeza de seus golpes. Mas depois de capturadas, não passavam de cascas vazias, como se a consciência as abandonasse de repente. Matá-los em eu estado de inércia era considerado sinal de mau augúrio pelos soldados, por isso eles o traziam para a cidade, largando-o nas mãos dos sacerdotes, para que fossem jogados nas fornalhas num ritual de neutralização.</p>
<p style="text-align: justify;">Ítalo Tarnapo desceu do carro e caminhou em direção a Júlio Cesar, alcançando o palanque metálico. O fascínio que exerciam sobre o povo era incontestável. O ditador se aproximou da borda e silenciou a multidão com um único gesto, era hora de seu discurso. Mergulhou as mãos numa fenda e sentiu os conectores cravarem em seu pulso, ligando-o à cidade. Ele era Roma, seu corpo, sua alma. Podia sentir cada parte da cidade pulsando, a energia que emanava do público extasiado. Sua voz ecoou como um trovão. De onde estava, Ítalo viu o brilho azulado dos olhos de Metellus e precisou controlar a raiva que lhe queimava o estômago. Não confiava no sacerdote, um abutre traiçoeiro que um dia teria o prazer de depenar com a ponta da espada. Por agora, seguiria com o teatro de poder que tanto valia ao império. Não estava ali por César nem por Marte, mas pelos homens e mulheres que os observavam curiosos. Era por eles que iria até o fim, por eles tentava silenciar no fundo de sua mente o chamado que fingia ignorar. Um eco numa língua que não era a sua, mas que sabia de onde vinha, sabia o que anunciava. Em algum momento de sua vida, pararia para ouvir a voz de Anúbis, mas, por enquanto, preferia se manter distante, um guerreiro, puro, sem fios e engrenagens, fiel aos seus ideais.</p>
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		<title>O muro da casa ao lado</title>
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		<pubDate>Fri, 07 Aug 2009 12:38:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Alguns nos marcam pelos grandes atos, outros pelas pequenas atitudes. A lembrança mais forte que tenho de meu primo está nos meus 6 anos de idade e em seus 9. Na festa de Natal na casa de nossa falecida avó, &#8230; <a href="http://ericnovello.com.br/o-muro-da-casa-ao-lado/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Alguns nos marcam pelos grandes atos, outros pelas pequenas atitudes. A lembrança mais forte que tenho de meu primo está nos meus 6 anos de idade e em seus 9. Na festa de Natal na casa de nossa falecida avó, adentrando a conversa falsamente animada da família (o vinho faz tudo parecer real), ele veio chamar a mãe para testemunhar seu cocô cheiroso. Foi assim que defini meu primo ao longo da vida, como alguém que não se desfez da ilusão soberana. Por mais que fedesse em uma corrida, suasse pegando sol ou rasgasse o pé nos cacos de vidro como todo homem, achava-se o loiro platinado com tons áureos de quem vale mais do que a vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Antes que nos mudássemos para a cidade, ainda perdidos no quintal das casas que ficavam lado a lado, meu primo conheceu e namorou uma morena de olhos verdes cujo nome não me recordo mais. Apesar de morena e dos olhos verdes, o que mais chamava atenção era a simpatia. Todos achavam que tínhamos um caso, eu já nos 17 anos e meu primo nos 20. Ele nunca demonstrou ciúmes da namorada, que passava mais tempo comigo do que com ele, mas sei que seus pais assim como os meus faziam comentários indiscretos quando estavam a sós. De certo que nunca beijei a morena mantínhamos um pacto doloroso, em que eu me transformava em um Farinelli com a voz doce e o sexo estéril e meu primo naquele que completava o serviço, o adônis fecundador. Não só na teoria, mas também no corpo me doía saber que acordávamos no mesmo horário, tomávamos juntos o café da manhã, ríamos das mesmas piadas, gostávamos das mesmas músicas – esse sem dúvida o maior elo -, mas que passado esse tempo de intimidade, estendido pelo caminho de barro até a praia, quando nossos pés tocavam a praia ainda fresca da manhã, um novo elo se formava. Nossa cumplicidade sem arestas fazia-se triangular, de uma forma cáustica que me corroía os órgãos. Geralmente ficávamos ainda 20 minutos ou mais sentados na areia, esperando que meu primo saísse da água com a prancha para vir nos falar. Não era dos que acordava cedo, fazia esse sacrifício pelo mar. Ele tinha certo prazer nesse teatro, não sabia o que me causava, como eu não sabia o que causaria aos dois, mas gostava de ser visto como um deus surgindo das águas para fazer revelações aos seus seguidores. Quando ela o beijava, os dois de pé, meus olhos miravam grãos mais escuros, diferenciados naquele mar de clareza. Pequenas moscas, vespas, animais sorrateiros ganhavam a minha atenção. Era sempre assim, meu primo com tempo suficiente para curtir a própria vida, pois eu cuidava da namorada, e quando decidia retornar tinha o troféu seguro, já que eu ainda estava lá, inofensivo castrato.</p>
<p style="text-align: justify;">Numa noite de fogueira, com meu avô colhendo as batatas que plantava em nosso quintal e assando-as em buracos cavados na terra, vi pela primeira vez aqueles olhos verdes brilharem para mim. Foi a chama, foi a chama, meus demônios disseram depois. Estávamos um de frente para o outro, o que é uma enorme distância se labaredas nos separam. Meu primo alisou seu braço de pêlos descoloridos e buscou sua mão, uma espécie de beijo inerte, representado pelo entrelaçar de dedos. Seus olhos buscaram o meu sorriso de desgosto. Havia uma grande afeição entre eu e meu primo, a afeição que se pode ter por alguém além de seus horizontes, que enxerga o mundo de cima das nuvens e debaixo das chamas. Ele jamais me machucaria, pois não me achava relevante para isso. E apesar dessa lógica adolescente, eu também o respeitava, e me valia saber que ela era minha quando ele não estava lá.  (tem mais aqui embaixo ó&#8230;)</p>
<p style="text-align: justify;">
<p><span id="more-10493"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Naquela noite que não foi de festa e não rendeu mais do que o costume, todos entregues ao sono, ouvi o pio de uma coruja e saí do quarto para vê-la. Meu primo estava lá, sentado no banco do quintal, próximo ao fogo apagado, vendo a coruja e seu filhote parados na cajazeira. Sentei-me ao seu lado descobrindo que a força de nosso elo estava na distância que cultivaríamos até os últimos dias. Éramos desiguais. Limpei antes a madeira do banco e fiquei olhando a coruja. Meu primo comentou do pio e que a coruja havia capturado uma barata cascuda na terra, em um vôo rasante e certeiro que até o assustou. Lembrou de um dia, quando nós dois ainda muito pequenos saímos pelo quintal procurando coisas estranhas. Ele achou primeiro, uma bola de palha com interior gelatinoso. Tínhamos certeza que ali havia o mais monstruosos dos insetos. Sem pensar duas vezes, o herói grego fugido das tragédias catou um pedaço de pau e acertou em cheio no que descobrimos ser um ninho. Quando abriu, dos três filhotes um estava morto. Nunca saberei se foi aquele golpe desferido por ele que matou o pássaro nem se chegamos a aleijar os outros dois. O que importa é que sinto até hoje como se eu os tivesse matado com meus próprios punhos, indefeso contra indefeso. Colocamos o ninho no mesmo galho. A mãe não demorou muito para achá-lo e tomou a casa com seu pio de tristeza, mudando ninho e filhotes de lugar, inclusive o que havia morrido. Na hora não entendi por que meu primo relembrava a história e meus sentimentos confessos. Foi depois de um longo silêncio que a luz do raciocínio inundou o meu rosto. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa ele se levantou e chutando a terra, disse que talvez não se importasse, mas que se isso acontecesse eu estaria morto. Dito isso, foi dormir. Eu fiquei lá, procurando a coruja que já havia ido embora, torcendo para que voltasse e apagasse aquele momento. Eu só queria ouvir o pio e nada mais.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dia meu primo viajou para uma praia próxima. Acordou cinco da manhã, do sol nem sinal, e pegou o ônibus sacolejante da cidade com os amigos. Eu e ela fomos para a lagoa de águas negras que atraía doentes da região pela fama de medicinal. Ficamos de pernas esticadas, calados, sem nada dizer. Mesmo com meu primo longe, a combinação eu, ela, água e areia evocava a sua onipresença.</p>
<p style="text-align: justify;">Fugi. Mergulhei no mar em frente à lagoa. Lá no mar a água era fria, era o que meus agudos precisavam para não revelar a gravidade. Ela se levantou depois de alguns minutos, andou pela beira me vendo sumir na espuma e reaparecer na água verde. Molhou apenas os pés e me chamou de volta. Nadamos na lagoa, ela, de água doce, parecia fervente pelo choque das temperaturas. Ambos queriam dizer, mas não sabíamos o quê.</p>
<p style="text-align: justify;">Não era um silêncio estratégico. Apenas sincero. Aquele silêncio que se sobrepõe aos fatos.<br />
Atravessamos a lagoa e sentamos em uma duna que dava para o nada. Cheguei a pegar algumas flores pequenas de plantas rasteiras, mas desisti de levar. Não voltamos nadando, demos uma volta maior do que nossas forças, chegando exaustos para o almoço, debaixo de olhares desconfortantes.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando meu primo chegou eu estava dormindo. Acordei e fui para a piscina, onde fiquei até o anoitecer. Antes disso, bem antes, vi os dois entrarem pelos portões de madeira, largarem os chinelos ainda na grama e sumirem na casa sem falar nada. Ela se limitou a me olhar, estava suja de areia e tinha a mesma flor da lagoa presa em seu cabelo. Naquele instante soube que nosso pacto havia sido quebrado. Nunca mais atravessei o muro daquela casa. Nunca mais fui cúmplice ou confidente da ilusão. Ele havia vencido. Ela era somente dele e para mim nenhuma parte.</p>
<p style="text-align: justify;">Não demorou muito para que os dois terminassem o relacionamento. Sendo donos de seus rumos não puderam continuar. Fiquei sabendo mais tarde, já morando longe daquelas casas antigas, que voltaram a namorar, mas não deu certo. Cheguei a vê-la andar na rua grávida de outro, sorridente, em um local de comércio, feliz como só. Ia casar. Eu de dentro do ônibus pensei em sair, mas não quis. Não era o medo, era só a vida que sempre vai em frente mesmo quando você aperta o freio. Assim como ela, meu primo teve muitas outras, nenhuma próxima o suficiente de mim, assim como ele também não estava mais.</p>
<p style="text-align: justify;">Morreu três anos depois de conquistar um bom emprego, em um acidente de carro causado por embriaguez. Apesar do cenário de morte que fui obrigado a testemunhar para reconhecer o corpo diante da ausência de nossos pais, só conseguia sentir um cheiro doce no ar, que logo se tornou ocre e azedo.</p>
<p>——————————-</p>
<p style="text-align: justify;">Esse é um texto antigo que curto bastante. Um dos poucos que escrevi assim de cara, olhando para a tela e ponto. Se passa em Costazul, onde tive casa de praia por muitos anos, e só deixei de ir por incompatibilidade de interesses. De certa maneira, é um parente de Histórias da noite carioca, só que as memórias não são manipuladas para o humor e o absurdo, mas para o drama, para as tragédias. Mesmo processo, resultado inverso. Taí uma boa experimentação para você que escreve. Ah! Nenhum primo foi danificado durante a escrita desse conto.</p>
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		<title>Butterfly Caught (publicado no letra e vídeo)</title>
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		<pubDate>Sun, 05 Apr 2009 02:07:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
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		<description><![CDATA[É um retorno difícil o que faz, um de tantos que ainda guarda na memória e de muitos que virão. Chegou a acreditar que ali não teria problemas, mas a crença se desfez logo que cruzou a fronteira e o &#8230; <a href="http://ericnovello.com.br/butterfly-caught/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">É um retorno difícil o que faz, um de tantos que ainda guarda na memória e de muitos que virão. Chegou a acreditar que ali não teria problemas, mas a crença se desfez logo que cruzou a fronteira e o vento trouxe o já familiar cheiro da morte. Vinha presenciando a destruição como fato corriqueiro desde o primeiro dia no bairro, mas sabia que agora era diferente. Sempre era.</p>
<p style="text-align: justify;">A cada passo que dava, velhos aromas invadiam as narinas trazendo restos de informações. Os resquícios de fumaça avisavam que nada era por acaso. O fogo tinha dono, tinha alvo. O calor dessa vez não viria de saques ou invasões. Estaria mais próximo, baforando em seu rosto uma repugnante intimidade, indo contra tudo o que havia aprendido durante a dormência no topo do edifício.  No ar, imiscuído no carbono, ele percebia sua antiga casca e os parentes mortos, odiando cada vez mais a precisão de seus sentidos.</p>
<p style="text-align: justify;">Não era a noite que o camuflava, mas o caos natural da parte esquecida da cidade. Antiga zona industrial, nem a polícia se arriscava a rodar por aquelas ruas. A maioria dos homens vagava a esmo, distante das leis do tempo, tentando retomar a crença de que algo maior os salvaria. Um dia, era o que esperavam. Um dia qualquer em que. E daquele dia em diante então. Já ele não tinha crenças, não lhe incomodava a lei ou a falta dela. Acreditava no que via durante o repouso e na dor provocada pela luz quando novamente seus olhos a encontravam. Do restante, desconfiava.</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-9894"></span> Ninguém se aproximou quando ele parou diante da casa, observando as paredes negras de fuligem e a porta jogada no chão. Sabiam que sua mulher e filho estavam lá dentro, esperando em silêncio embaixo dos destroços, e que nada de valor tinha sido deixado para trás, nada que as labaredas não tivessem consumido. O que só ele entendia é que havia um motivo maior a ser descoberto, algo que passava longe dos roubos ou acertos de contas que moviam as chacinas na região.  Das primeiras vezes em que perdeu a família, se perguntou do que adiantavam as revelações no casulo se não conseguia saber o motivo da eterna matança. Com o tempo, se limitou a enterrar os corpos, seguir seu ritual e fugir até encontrar um lugar que considerasse seguro e alguém para gerar sua cria. Era isso o que fazia. Repetidamente. Até agora.</p>
<p style="text-align: justify;">Talvez eles não soubessem de tudo. Desconhecessem que sua força aumentava a cada período de dormência e que seus sentidos se refinavam mais e mais.</p>
<p style="text-align: justify;">Movendo as vigas sem muito esforço, chegou ao corpo de sua mulher ou o que restava dele.  Limpou com a saliva o pó negro da testa até que o furo da bala e a crosta cor de vinho fossem os únicos desenhos, esses irremovíveis. O corpo do filho estava longe, queimado em um canto da cozinha com os fiapos de seda dissolvidos ao redor. Com a ponta dos dedos, raspou no pulso a corda queimada e liberou a criança morta aos três anos de idade. O ângulo em que o corpo se encontrava era improvável mesmo para um dos seus.</p>
<p style="text-align: justify;">Pegou o cadáver nos braços e voltou para a sala. Ao se aproximar da mulher, sentiu a cabeça girar e caiu sobre os joelhos. As marcas na pele começaram a se intensificar.  A sensação era forte. Mais do que os habituais cheiros enlouquecendo as sinapses, recebeu fragmentos de imagens, vozes distorcidas, o grito do filho no instante em que o fogo o consumiu.</p>
<p style="text-align: justify;">Abriu os olhos negros na escuridão. Um fiapo de luz o iluminava, uma luz que existia no passado e cortava a sala em busca de suas vítimas. O primeiro homem entrou na casa e atrás dele outros mais. Sua esposa só teve tempo de levantar e tombar, a bala atravessando o corpo silenciosamente.  Havia agitação do lado de fora, o ronco de um motor. O choro do menino entregou sua localização. Soldados de uniforme e máscara o trouxeram nas mãos, dependurado. Não houve gritos de euforia, os mascarados se comunicaram por gestos, chamando alguém lá fora. Protegido pelos atiradores, um homem sem máscara entrou na casa e pegou a criança no colo. Finalmente seu perseguidor ganhava um rosto. Tentou acertá-lo em vão, os punhos cortando o vazio. Não podia tocar nas lembranças. Vomitou quando jogaram o menino no fogo. As imagens desapareceram. Os cheiros não.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois do enterro dos corpos, respirou profundamente guardando a identidade dos inimigos em seus pulmões. Não, eles não sabiam de tudo. Poderia farejá-los em qualquer lugar da cidade, em qualquer canto do mundo. Finalmente assumiria o papel de caçador.</p>
<p>Andou pela casa bem devagar, coletando as pistas olfativas. Madeira podre, sangue, alvejante, mijo. A cada traço novo no ar ele fechava os olhos, trazendo de volta as feições do assassino.  Jamais se apagariam.</p>
<p style="text-align: justify;">Novamente no hotel, largou o key-card roubado e foi para o banho escorrer sua antiga vida. Ainda não era capaz de unir os sentidos, mas assim que conseguisse mataria cada um deles, seus pares e famílias, com rosto, gosto, nome e sobrenome. No momento, tudo o que precisava era libertar seu corpo e voltar para o casulo. Lá dentro, descobriria o que fazer.</p>
<p>_________________________<br />
Conto criado para o <a rel="nofollow" href="http://letraevideo.wordpress.com/" target="_blank">Letra e Vídeo</a>.<br />
Baseado no videoclipe <a rel="nofollow" href="http://www.youtube.com/watch?v=aXx3qb4H0po" target="_blank">Butterfly Caught</a> do Massive Attack.<br />
O clipe é o final do conto. Então, favor assistir só depois de ler.</p>
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		<title>Labaredas</title>
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		<pubDate>Sun, 08 Feb 2009 14:32:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
				<category><![CDATA[contos]]></category>

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		<description><![CDATA[Segue como fogo pela mata, nem cabeça nem pé, nem nada. Serpenteia entre a terra e o espaço, abocanhando o caboclo que se ache em seu caminho, em um dia de marasmo, uma noite largado, sozinho, bebendo água na beira &#8230; <a href="http://ericnovello.com.br/labaredas/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Segue como fogo pela mata, nem cabeça nem pé, nem nada. Serpenteia entre a terra e o espaço, abocanhando o caboclo que se ache em seu caminho, em um dia de marasmo, uma noite largado, sozinho, bebendo água na beira de um riacho. Tão pobre, sem força, sem liberdade, corre como nunca correu antes, corre mais do que do sinhozinho. Nem por capanga de espingarda e chicote de verdade tinha descido o rio com tanta velocidade. Enquanto salta mato, galho e tronco derrubado, ouve de pertinho, quase ao seu lado, um ra-ta-tá de coisa queimada que lhe treme as pernas e assombra o espírito. Seu corpo gela, se benze em um salto, mas logo que pula, bem lá no alto, o boitatá aparece e lhe divide em pedaços. Mastiga de tudo, pé, mão, cotovelo. Não joga fora nem o cabelo. Tronco partido. Um abraço.</p>
<p style="text-align: justify;">* microconto publicado no TerrorZine nº6</p>
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