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	<title>Eric Novello &#187; Textos online</title>
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	<description>Escritor, tradutor e exorcista.</description>
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		<title>Relacionamentos da modernidade III</title>
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		<pubDate>Wed, 16 Feb 2011 22:16:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
				<category><![CDATA[diálogos do mau humor]]></category>

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		<description><![CDATA[- Vem ver, amor, vem ver que coisa linda. Vai sair, vai sair!! - Ta surtado, Du? Sair o quê? - O mineiro chileno! - E isso existe? - O minerador do Chile, sua besta! Ele vai sair. Está todo &#8230; <a href="http://ericnovello.com.br/relacionamentos-da-modernidade-iii/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>- Vem ver, amor, vem ver que coisa linda. Vai sair, vai sair!!<br />
- Ta surtado, Du? Sair o quê?<br />
- O mineiro chileno!<br />
- E isso existe?<br />
- O minerador do Chile, sua besta! Ele vai sair. Está todo mundo comovido no twitter.<br />
- Era só o que faltava pra estragar a minha noite&#8230;<br />
- O homem ficou lá mais de um mês preso na mina.<br />
- Um mês sem sexo? Estamos empatados!<br />
- Você é muito egoísta, sabia?<br />
- Se você lesse jornal de verdade, saberia&#8230;<br />
- Fica quieto! Cenas assim me fazem voltar a acreditar na humanidade!<br />
- A humanidade acreditar em você que é o problema.<br />
- Espera! Ta saindo!<br />
- Isso é resgate ou parto normal?<br />
- Saiu! Saiu! Eles salvaram o mineiro chileno! Que lindo! Todo mundo chorando&#8230;<br />
- Chorando no twitter?<br />
- Na twitcam! É choro em tempo real!<br />
- Quero ver esse bando de desocupado ficar emocionado em plena madrugada até sair o último mineiro.<br />
- Como assim último mineiro?<br />
- São 33, Du! 33 mineiros que vão sair dessa bagaça.</p>
<p>- Ah, fala sério! To fora então. Vou ver se tem alguém online no Ovo.<br />
- Vem deitar!<br />
- Não, quero usar o ovo antes.<br />
- Usar o quê?<br />
- O ovo! Tem duas bolas de um lado, duas bolas de outro e um V no meio. ooVoo.<br />
- Você usa cada coisa estranha, sabia?<br />
- E você só me reprime!<br />
- Primeiro foi aquele óleo erótico de goiaba.<br />
- Ele era ótimo.<br />
- Agora esse tal de oovoo.<br />
- Se você não percebeu, os dois servem para coisas diferentes.<br />
- Olha, faz tanto tempo que não rola que to quase esquecendo.<br />
- Vai brincar um pouco na sua fazendinha que eu já to indo&#8230;<br />
- Isso foi deboche ou ciúme?<br />
- Ciúme!<br />
- Cuidado que vai dar interferência na conexão wireless.<br />
- Tenho os meus motivos, tá? Você ficava lá de manhã, de tarde e de noite, manhã, tarde e noite&#8230;<br />
- Estava cuidando das minhas plantinhas!<br />
- É sim, uma plantinha de dois metros de altura e olhos azuis&#8230;<br />
- Era o meu pé de blueberry, bobão.<br />
- E o cavanhaque cerrado era o quê? Sabugo de milho? Sou bobo não&#8230;<br />
- Vamos fazer o seguinte então&#8230; Um pacto.<br />
- Ménage com gente feia, to fora!<br />
- Não, seu besta. Um pacto só entre nós dois&#8230;<br />
- É romântico?<br />
- Muito! Passar um dia inteiro sem acessar a Internet&#8230;<br />
- Cruzes! Você bebeu?<br />
- Só eu e você, a gente tira o telefone da tomada e tudo.<br />
- E fica fazendo o quê, seu nerd? Vendo novela?<br />
- Ai, tá com tanta reprise boa!<br />
- Vamos fazer assim: fica você com o seu skype, e eu com o meu ovo&#8230; e não me enche.<br />
- Mas eu não consigo dormir sem você na cama, amorzão&#8230; me dá insônia.<br />
- Sabe o que dizem que é ótimo para curar insônia?<br />
- O quê?<br />
- Contar mineiro chileno! Lá pelo 20º você já tá roncando&#8230;<br />
- Seu traste!</p>
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		<title>Repescagem: Abutres</title>
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		<pubDate>Mon, 14 Feb 2011 11:00:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
				<category><![CDATA[contos]]></category>
		<category><![CDATA[fantasia]]></category>
		<category><![CDATA[fantasia Urbana]]></category>

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		<description><![CDATA[Para entrar no clima de Fantasia Urbana e de Carnaval, um conto escrito em 2009 para o projeto Cryacontos, com o tema Depois da Quarta-feira de Cinzas. Ele arranca uma depois da outra. Os canhões contendo sangue gotejam sobre a &#8230; <a href="http://ericnovello.com.br/abutres/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Para entrar no clima de Fantasia Urbana e de Carnaval, um conto escrito em 2009 para o projeto Cryacontos, com o tema Depois da Quarta-feira de Cinzas.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele arranca uma depois da outra. Os canhões contendo sangue gotejam sobre a pele. As penas negras cobrem metade do chão da cela, mas o torturador não para, mesmo sabendo que o metamorfo preso na sua frente não se pronunciará sobre o crime. Isso de fato não o incomoda, já que segue a profissão com gosto, principalmente com o bolso cheio. Ou metade dele. O restante só na última pena. Ainda faltam tantas. Decide por uma das costas, próxima à espinha da aberração. Tenta imaginá-lo de bico, pois é uma boca que apresenta no momento. Há algo muito próximo a uma membrana colado debaixo dos braços. Um vestígio da transformação. Ser atordoado com tranquilizantes bagunça todo o processo. Pelo visto, deixa-os ainda mais asquerosos. Tiraria fora a membrana se já estivesse na tesoura. Mas gosta da boca, gosta de um homem-pássaro que tenha lábios. Pensa em beijá-lo, mas teme uma mordida. Os metamorfos são imprevisíveis. Amarrados, pendurados pelos pulsos no teto, sangrando como um boi no abate, mesmo assim são perigosos. Podia se lembrar do último que matou por encomenda. Havia se metido com a garota errada. Humanos e metamorfos juntos, quem poderia imaginar. A família imaginou, foi além. Não aceitariam um berço cheio de pelos. A menina merecia coisa melhor.</p>
<p style="text-align: justify;">O novo caso era mais interessante. Nada de famílias recalcadas manchando seu currículo. Fazia por justiça. Ou vingança, dependendo do referencial. Metamorfos são poderosos de modo geral, mas basta um único dardo para que desabem como crianças. Malditos monstros. O que o imbecil realmente pensava? Que poderia matar um mago atrás do outro sem que ninguém percebesse? É preciso entender que alguns nascem para cientistas, outros para cobaias. Voar pela janela aproveitando-se dos ossos ocos não adiantou. Pneumáticos. Reumáticos. Traumáticos. Quebrariam do mesmo jeito quando passasse ao martelo. Tombaria outra vez sem forças, como acontecera no instante do disparo. O corpo caindo no meio do caminho, longe de um lugar em que pudesse se agarrar, direto na armadilha de contenção. Estúpido. Um estúpido assassino de magos que lhe garantiria um salário gordo. Magos pagam bem, não deixam barato, sem trocadilhos.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele não era o melhor. Deixava rastros, não caminhava invisível, tinha mais registros na polícia que batedores de carteira de porta de hotel de luxo. Mas carregava a fama de uma morte lenta que servia como um cartão de visitas diferenciado. Nunca contaria que o processo nada tinha a ver com crueldade, era pura indecisão. Por exemplo: os alicates. Escolhê-los sobre a bancada era como uma relação de amor, quase carnal. Tinha que sentir a lâmina, romper levemente a pele da ponta dos dedos até que seu próprio sangue derramasse deixando uma leve sensação de ardência, um desejo de mais que se saciaria no corpo de outro. E eles eram tantos. Como decidir entre os diferentes bicos e cortes de maneira que não fosse experimentando em si e nos que cruzavam seu caminho?</p>
<p style="text-align: justify;">Quando os meses passavam mais lentos e sem encomendas, deliciava-se sozinho, mas o gozo só é completo a dois. Ao contrário da família da vítima anterior, não tinha preconceitos. Gostava de qualquer espécie. Humano ou inumano, todos lhe serviam bem. Trazia em si a arte, independentemente do parceiro. Gostava lento, profundo e violento. Alicate, punhal, martelo. Poucas vezes chegava no serrote. Ah, o serrote.</p>
<p style="text-align: justify;">Há algo paradoxal em um pássaro que não canta, só geme. Se ao menos dissesse quem o havia contratado para matar os magos. Um único nome e estaria livre para morrer depressa. Pegaria o cadáver nos braços, faria o último carinho com o corpo ainda quente. O beijo da morte.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas ele nada falava. Nem xingar ele xingava. Talvez não soubesse.<br />
E ainda havia tantas penas.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">
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		<title>CyberRoma</title>
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		<pubDate>Fri, 19 Nov 2010 12:24:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
				<category><![CDATA[contos]]></category>

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		<description><![CDATA[Como prometido, o conto no qual trabalho a ideia para a nova versão de Dante, batizada de CyberRoma: Quando a noite dominou o horizonte, o povo ainda tomava as ruas da cidade, curioso para ver o desfile de espólios da &#8230; <a href="http://ericnovello.com.br/cyberroma/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Como prometido, o conto no qual trabalho a ideia para a nova versão de Dante, batizada de CyberRoma:</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">Quando a noite dominou o horizonte, o povo ainda tomava as ruas da cidade, curioso para ver o desfile de espólios da mais recente batalha do exército romano contra o flagelo de Zeus. O vento soprava seco como se o sol ainda estivesse a pino, espalhando a fuligem que escapava dos lança-chamas e pintando com seu negrume a pele daqueles que se amontoavam nos limites do isolamento imposto pela guarda palaciana.</p>
<p style="text-align: justify;">Licínio tentava se movimentar em meio à multidão, com um olho em seu chefe Ítalo Tarnapo e o outro em um carro que aguardava com ansiedade, para ele deveras especial. Percebeu que Ítalo se aproximava pelos urros ensurdecedores que tomaram a avenida. Gritavam como se fossem eles os soldados que arriscavam a vida no campo de batalha, eles os feridos pelos escudos eletrificados dos espartanos. De nada adiantou argumentar com o guarda e pedir passagem. Se fosse ele em seu lugar, também não acreditaria que um garoto magrelo tinha sido escolhido pelo general das tropas romanas para servi-lo em treinamento.</p>
<p style="text-align: justify;">Como era de se esperar, Ítalo havia dispensado a toga do traje cerimonial e vinha em sua armadura. Não fazia o tipo que seguia os ritos e vivia uma relação conturbada com os deuses, como se tivesse a necessidade de dizer em atos que o mérito pelas conquistas era dele e não das divindades. A cada nova explosão de fogo, era possível ver as marcas nas escamas metálicas presas sobre a sua roupa de couro negro, e quando as chamas cessavam, brilhava a águia romana em seu peito, num intenso tom de dourado. As botas reforçadas estavam surradas, porém inteiras, encaixando perfeitamente na peça sobre as canelas. Ítalo havia desmontado a parte dos membros superiores para expor o corte adquirido do lado esquerdo. Lembrava ao povo com aquele gesto que era um guerreiro de carne e osso, sem nenhum implante, nenhuma peça metálica entranhada em seu corpo.</p>
<p style="text-align: justify;">Ítalo esperou que o desfile fizesse a última parada e retirou o elmo dourado que simulava o bico curvo de um falcão. Os cabelos castanhos estavam úmidos de suor, e os olhos ardidos pela mistura deste com a fuligem. Uma nova onda de urros e brados se seguiu, mas seu ânimo começava a ceder ao cansaço. Tinha em mente os homens mortos na batalha, as mulheres a quem daria a notícia de morte, e não a coroa de louros que César pousaria em sua cabeça. Achou que havia enlouquecido ao ver Licínio passar por entre as pernas dos guardas e correr no meio do desfile para o carro logo atrás do seu.</p>
<p style="text-align: justify;">O jovem parou em frente às grades, sem conter o entusiasmo de ver pela primeira vez de perto uma quimera alada. Parecia sedada, com o corpo caído sobre uma das asas coriáceas, agora murchas e sem brilho. Licínio arriscou tocar a cabeça de leão, mas se assustou quando a cauda de serpente moveu-se em sua direção. Um guarda tentou alcançá-lo, mas Ítalo sinalizou que o deixassem em paz e assim foi feito. Licínio sacou sua pequena adaga, cortou um tufo da juba e guardou-o no estojo em sua cintura. Logo que os carros voltaram a se mover, acompanhou a quimera por mais uns instantes, depois se misturou novamente à multidão, guardando a lembrança como a um tesouro.</p>
<p style="text-align: justify;">O campo próximo ao templo de Marte estava ocupado pelos soldados que Ítalo comandara na missão. A maioria deles ostentava modificações metálicas, braços reforçados pelo ferro e aço, pernas capazes de guardar uma pequena arma em seu interior. Ítalo não os culpava, era difícil resistir aos caprichos da ciência trazida pelos deuses e tida como um símbolo de superioridade diante dos adversários. Ele estava entre os poucos que ousavam resistir aos inventos inspirados por Vulcano. Roma se vangloriava de ser a cidade escolhida pelos deuses para levar a luz até os povos primitivos. Havia sido construída com a força dos homens e das máquinas sobre um terreno consagrado em rituais tão antigos quanto o próprio conceito de civilização. Era cantada aos quatro ventos como a maior e mais poderosa cidade de ferro já erguida sobre a terra, cuja glória irradiava sobre o território cada vez mais vasto controlado pelo ditador.</p>
<p style="text-align: justify;">O festejo precisava ser digno de Roma e assim Júlio César o fez, ordenando aos seus edis que colocassem as fornalhas no máximo e oferecessem ao povo um espetáculo flamejante. Meticuloso, fez questão de vistoriar o templo e escolher o sacerdote que conduziria os ritos, seu antigo amigo Metellus, um homem de mãos metálicas recurvadas como garras e olhos biônicos financiados pelo próprio imperador.</p>
<p style="text-align: justify;">A cerimônia no templo devia ser o momento mais importante, com Ítalo Tarmapo sendo recebido pelos togas-negras e pela guarda de elite na base da escadaria. Com alguma sorte, o próprio Marte apareceria para agraciar seu pupilo, mas César sabia que era querer demais convencer os deuses de se misturarem aos homens por motivos que não os seus caprichos. Se nem Ítalo fazia questão de esconder o tédio em seu retorno, o que dizer de um deus que só se sente vivo no calor da guerra, pisando no corpo do inimigo. A resistência de Ítalo aos implantes tornava-o um de seus preferidos, o ditador sabia disso, por isso mantinha a ínfima esperança viva no peito reconstruído sob a armadura.</p>
<p style="text-align: justify;">Os escoriados espartanos tinham muito que agradecer a Zeus. Geralmente alvo de pedradas, passavam como um mero detalhe entre o carro da quimera e dos desmortos. A última jaula do desfile trazia cinco das estranhas criaturas que vinham interferindo nas batalhas, atacando os soldados em regiões de mata densa. Pareciam homens cadavéricos, criaturas com uma força que não condizia com a aparente fragilidade. No momento do ataque, agiam de forma organizada e inteligente, movendo-se com agilidade na certeza de seus golpes. Mas depois de capturadas, não passavam de cascas vazias, como se a consciência as abandonasse de repente. Matá-los em eu estado de inércia era considerado sinal de mau augúrio pelos soldados, por isso eles o traziam para a cidade, largando-o nas mãos dos sacerdotes, para que fossem jogados nas fornalhas num ritual de neutralização.</p>
<p style="text-align: justify;">Ítalo Tarnapo desceu do carro e caminhou em direção a Júlio Cesar, alcançando o palanque metálico. O fascínio que exerciam sobre o povo era incontestável. O ditador se aproximou da borda e silenciou a multidão com um único gesto, era hora de seu discurso. Mergulhou as mãos numa fenda e sentiu os conectores cravarem em seu pulso, ligando-o à cidade. Ele era Roma, seu corpo, sua alma. Podia sentir cada parte da cidade pulsando, a energia que emanava do público extasiado. Sua voz ecoou como um trovão. De onde estava, Ítalo viu o brilho azulado dos olhos de Metellus e precisou controlar a raiva que lhe queimava o estômago. Não confiava no sacerdote, um abutre traiçoeiro que um dia teria o prazer de depenar com a ponta da espada. Por agora, seguiria com o teatro de poder que tanto valia ao império. Não estava ali por César nem por Marte, mas pelos homens e mulheres que os observavam curiosos. Era por eles que iria até o fim, por eles tentava silenciar no fundo de sua mente o chamado que fingia ignorar. Um eco numa língua que não era a sua, mas que sabia de onde vinha, sabia o que anunciava. Em algum momento de sua vida, pararia para ouvir a voz de Anúbis, mas, por enquanto, preferia se manter distante, um guerreiro, puro, sem fios e engrenagens, fiel aos seus ideais.</p>
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		<title>19. O azar é meu amigo</title>
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		<pubDate>Thu, 07 Jan 2010 02:19:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
				<category><![CDATA[o diário secreto de Lucas Moginie]]></category>

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		<description><![CDATA[Quando a sorte bateu na minha porta num dia de domingo eu gritei “já disse que não quero comprar enciclopédia nenhuma, cacete”, e ela nunca mais voltou. Só me dei conta do ocorrido dois dias depois quando a porta deu &#8230; <a href="http://ericnovello.com.br/19-o-azar-e-meu-amigo/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Quando a sorte bateu na minha porta num dia de domingo eu gritei “já disse que não quero comprar enciclopédia nenhuma, cacete”, e ela nunca mais voltou. Só me dei conta do ocorrido dois dias depois quando a porta deu cupim. Sabe aqueles seres voadores que todo mundo acha uma graça e chama de bichinho de luz? Bichinho de luz seria se nascesse dentro da lâmpada ou surgisse ao riscar o fósforo. Esses nascem mesmo na madeira que, diga-se de passagem, eles comem, digerem e botam para fora. É uma espécie de arte contemporânea só que com mais significado.</p>
<p style="text-align: justify;">Chamei um especialista e ele me disse para ficar despreocupado, que o cupim de madeira seca não passa para outras madeiras. Só come aquela até acabar e depois a colônia morre. Claro, claro. E como esse veio parar aqui então? Esse não, essa, ele me corrigiu. As fêmeas voam quando adultas procurando um novo lar. Que bonito, um novo lar. Você podia ser político, meu velho. A sorte, ele disse, é que elas são como espermatozóides, só uma acerta o caminho. Provido da imagem desagradável que associava meus lindos espermatozóides a insetos voadores e a fechadura da porta a&#8230; deixa pra lá&#8230; só não desmaiei porque outra percepção me desestabilizou.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando atentei à palavra sorte tremi dos pés à cabeça e entendi que naquele dia não era o gorducho de bigode que batia à minha porta. Era ela.</p>
<p style="text-align: justify;">Muita gente atribui tudo ao Azar, mas esquece que a sorte também levanta de pé esquerdo. Quer ver a sorte se enfurecer é ela sair toda arrumadinha para o trabalho e um carro jogar água suja na sua roupa. Um segundo depois está todo mundo sofrendo o mesmo. Se ela sonhar que a Virgem de Guadalupe está cantando um Axé então, preparem seus guarda-chuvas porque os pombos vão estar incontroláveis. Nada de exagero. É que a sorte veste branco, e poça de chuva enlameada mancha. A sorte é prática, meu caro.</p>
<p style="text-align: justify;">No dia em que a desprezei, porém, ela decidiu fazer o mesmo para o resto da minha vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Nem preciso relatar que naquele mês tive que andar de metrô no horário do rush, o Dan Brown lançou outro livro, descobri que o Tom Hanks ia fazer o filme com a Audrey Tautou, uma velhinha recitou metade de um livro de auto-ajuda dizendo que eu estava com a energia ruim, um ogro não parou de falar durante a exibição do cinema, sujei meu único par de tênis em sabe-se lá o que, pisei em um chiclete de tutti-fruti e comi a famosa minhoca da goiaba.</p>
<p style="text-align: justify;">Sentei-me à mesa decidido a escrever uma carta para a sorte, desculpando-me pelos maus tratos. Começava a contar o dinheiro para as flores (a sorte gosta de margaridas), quando a campainha tocou. Tremi de novo. Fui devagarzinho até a porta, espiei pelo olho mágico e vi um senhor, por volta de 50 anos, magro, ossudo, vestindo um terno preto que chegava a brilhar.</p>
<p style="text-align: justify;">Pensei em não abrir a porta, vai que é assalto, mas não quis cometer o mesmo erro duas vezes.</p>
<p style="text-align: justify;">- Sorte? &#8211; perguntei desconfiado.<br />
- Azar, posso entrar?<br />
O Azar não me pediu nada além de um café. Bebericou, desenrolou um jornal, experimentou a dureza do meu sofá e disse sem pestanejar:<br />
- A Sorte morreu.<br />
- O quê?</p>
<p style="text-align: justify;">- Veio aqui falar com você, ouviu o grito de um vizinho doido que a tinha xingado uma semana antes, achou que não tinha ninguém em casa e foi embora. Decidiu entrar numa cafeteria para beliscar alguma coisa, uma senhora tropeçou no salto, caiu de cara em uma torta de morango e morreu de diabetes. A Sorte ficou deprimida. Como alguém podia morrer por mero acaso diante dela? Foi demais, sabe. Ela andava meio esgotada dos nervos. Diziam por aí que estava uma pilha de estresse, viciada em tranqüilizantes e leite condensado. Num gesto rápido, enganando o garçom, ela pegou uma coxinha gordurosa e engoliu, de uma só vez, para ver se driblava o destino e fazia graça. Mas a coxinha era de enfeite, cera pintada, uma puta falta de sorte. Morreu entalada, caída em cima da velhinha, cada uma com sua respectiva bunda virada para um lado diferente.</p>
<p style="text-align: justify;">- Não sei o que dizer.<br />
- Então não diga. Não é todo dia que a Sorte tem um azar como esse.<br />
- E o que você quer de mim?<br />
- Vim te dar os parabéns. A Sorte nunca soube que era você, mas eu sei muito bem quem deu aquele grito.<br />
- Mas e tudo aquilo que aconteceu comigo? O pombo? O cachorro? O cupim? O chiclete? A vizinha que ouve ópera? Os correios? Cheguei a achar uma pedra no meu arroz. E achei com os dentes postiços.<br />
- Coincidência. Culpa. Vai saber. A vida é cheia de mistérios. Só vim te dar a notícia.<br />
Até outro dia.</p>
<p style="text-align: justify;">- Mas e você? Não vai me pedir nada? Exigir algo em troca para me devolver a… &#8211; calei-me pesaroso.<br />
- A mim basta um bom café.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele levantou, esticou os braços para o alto até o pescoço estalar. No caminho para o corredor passou a mão na porta e todos os cupins caíram secos, com as boquinhas abertas e retorcidas. Contágio por um fungo raríssimo que produz toxinas de ação imediata. Ouvi um grito da vizinha também. Soube depois que o aparelho de som deu um curto e ejetou o cd de ópera com tamanha velocidade que do gato só sobrou o bigode.</p>
<p style="text-align: justify;">Fechei a porta mais calmo, mas estava incrivelmente entristecido.<br />
Além de não ter mais a sorte para culpar, descobri que o azar é meu amigo.</p>
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		<title>18. Assim foi o Natal</title>
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		<pubDate>Thu, 24 Dec 2009 12:29:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
				<category><![CDATA[o diário secreto de Lucas Moginie]]></category>

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		<description><![CDATA[Da última vez que fiz um texto de Natal, Noé tinha resolvido sair para passear no Rio de Janeiro e alagou tudo. Sabe pobre quando sai na chuva para lavar o carro? O velhinho tinha feito o mesmo com a &#8230; <a href="http://ericnovello.com.br/18-assim-foi-o-natal/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Da última vez que fiz um texto de Natal, Noé tinha resolvido sair para passear no Rio de Janeiro e alagou tudo. Sabe pobre quando sai na chuva para lavar o carro? O velhinho tinha feito o mesmo com a arca, com direito a esfregão e sabão em pó. Lavar um bando de bichos só na mangueira deve dar mesmo trabalho e o coitado não tem mais idade para isso. Quem mandou escolher um casal de cada espécie e deixar os empregados de fora? Dessa vez não estou na chuva do Rio, mas no calor de São Paulo. Parece um universo paralelo, falando assim. Aqui está um bafo de dragão. Deve ter ficado algum empalado nas antenas da Av. Paulista com a respiração ofegante. Se eu sair sem camisa é capaz de ser vendido como presunto Pata Negra quando chegar no fim da rua. Um lance meio &#8220;assou, ta novo&#8221;. Mas hoje não é dia de reclamar, tem o tal do espírito natalino. Queria ver um médium baixar esse espírito só para poder dizer umas verdades na cara dele. Aposto que ele não passa horas no mercado apra comprar saco de cerejas e Sidra Cereser.</p>
<p style="text-align: justify;">Você deve estar pensando &#8220;que pessoa normal está acordada numa véspera de natal escrevendo no blog?&#8221; Bem, surpresa!, eu não sou normal. Se você frequenta o blog há algum tempo já deve saber disso. Se não frequenta, resolveu começar justo hoje por quê? Vá visitar a sua avó e comer tremoços. Para piorar, eu também não bebo. Então, enquanto as pessoas normais estarão de ressaca, com um bafo de vinho que espanta até zumbi, a barriga cheia de rabanada e bolinho de bacalhau, eu tenho que inventar o que fazer para o tempo passar, e só me resta escrever e ouvir REM, a opção depressiva mais próxima dos meus dedos.</p>
<p style="text-align: justify;">Se eu gosto pelo menos do Papai Noel? Nem me fale nele. O velho parou aqui em casa duas da manhã, assaltou a geladeira, ainda me pediu dinheiro emprestado para pagar a última prestação do trenó. Curiosamente, não acho meu cartão de crédito desde então. O velho estava tão bêbado que saiu daqui e bateu de cara em uma chaminé. E olha que achar chaminé em São Paulo é complicado! Tiveram que chamar um guincho para dar jeito na coisa. Tem uma rena presa em um fio de alta tensão aqui perto até agora tomando choque. Você não imagina como uma rena pode berrar durante a madrugada. Isso sem falar no cheiro de churrasquinho. Acho que jogaram vinagrete em cima. O velho barbudo deu um olé nos bombeiros e sumiu sem deixar vestígios. A carteira de motorista espacial era falsa.</p>
<p style="text-align: justify;">A última vez que viram o tal do coroa foi em uma boate junto com o Maradona. Estava enrolando tanto a língua que mandou cada uma comprar o seu presente e colocar na conta. Na minha conta! É muito mau humor. E nem é por causa do tal do consumismo que o Papa Nazi reclamou. Porque se as pessoas consumissem e me dessem presente estava ótimo. Mas é que eu moro em uma espécie de réplica do inferno. E para meu desespero, além das górgonas berrando e dos centauros dando patadas  também se comemora NATAL! Pior ainda é ter que comprar presentes para eles e só receber chamuscada de labaredas e perfume de enxofre. O último panetone que teve aqui foi um tal de Marcelo Panetone que São Pedro mandou descer por ter feito hóstia com o pão que o diabo amassou.</p>
<p style="text-align: justify;">World Sucks! And Word sucks too! O meu acabou de travar, por isso vou encurtar o texto. Mas é Natal. E daí que o mundo está em guerra, que o Brasil é um hospício a céu aberto e que tudo de ruim que já existia continuará existindo, independente do sotaque. Hoje é o dia da utopia, hoje é o dia de alterar os sentidos mesmo sem beber. É dia de fingir que o mundo é perfeito, que a sua vida é uma maravilha, que a sua vizinha é gostosa e que a família é unida pra cara!ho, mesmo que amanhã você esteja na varanda falando mal de todo mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">Ho Ho Hic! Pior é pensar no Ano Novo e no Carnaval.</p>
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		<title>17. O pombo se danou</title>
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		<pubDate>Sun, 15 Nov 2009 03:03:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
				<category><![CDATA[o diário secreto de Lucas Moginie]]></category>

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		<description><![CDATA[Hoje vi um pombo ser atropelado. Fiquei na dúvida se era um bom ou mau sinal. Optei pelo bom. Já vi um pombo atropelado antes e também imaginei o atropelamento de um pombo, mas nunca tinha testemunhado o ato em &#8230; <a href="http://ericnovello.com.br/17-o-pombo-se-danou/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Hoje vi um pombo ser atropelado. Fiquei na dúvida se era um bom ou mau sinal. Optei pelo bom. Já vi um pombo atropelado antes e também imaginei o atropelamento de um pombo, mas nunca tinha testemunhado o ato em si. E eu estava do lado dele, pdv da vítima, não do motorista.</p>
<p style="text-align: justify;">A culpa foi do pombo, coitado. Atravessou com o sinal aberto. A faixa de pedestre foi feita para fazer todo mundo andar na linha. O pombo andou, acreditou, ferrou-se.<br />
Foi assim, vários pombos na calçada voaram para o meio da rua com o sinal aberto, carros passando, todos eles perceberam a mancada e interromperam o pouso, voaram um pouco mais e pararam na outra calçada. Esse pombo não; desceu e ficou na dele esperando. Talvez eu tenha sido testemunha de um suicídio de pombo. Ou talvez o pombo não enxergasse muito bem, achou que estava na praia de Copacabana e que o carro era uma chuva de pipoca.</p>
<p style="text-align: justify;">Teve então o baque, ouvi o barulho. Evitei olhar, mas olhei e ele estava vivo. Uma perna quebrada. Voou para o meio fio e parou. Fiquei morrendo de nojo de ele voar em cima de mim, um pombo atropelado, e fui para o lado da moça que também fugiu com nojo do pombo. Nós dois, adultos, correndo de um pombo atropelado. Estávamos na faixa esperando o sinal fechar e o pombo se arrastou na nossa direção.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando voltei para casa ele ainda estava lá, sem dar um pio, olhando tudo com uma cara de não tem jeito. Se for corajoso vai tentar uma manobra arriscada e morrer de vez. Se resolver poupar forças para se recuperar, o mais provável é que a noite caia e um gato o coma. Também é um final nobre. Em pé na árvore é que não vai ficar.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma vez voltando de madrugada para casa vi um pombo andando e um gato atrás, sorrateiro. Foi assustador pra mim e para o pombo, divertido para o gato. Não sei se voltarei até o local para descobrir o destino do corpo. Na verdade acho que o único controle populacional de pombos se dá por atropelamentos, já que tanta gente porca joga farelos variados para eles. Mas não tenho opinião formada. Poderia dizer que odeio pombos, que gostaria de colocar chumbinho no alpiste, mas a sensação de testemunhar o ato não foi das melhores. Se outro pombo viesse me contar na hora do café, não teria sido tão estranho.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa é a pluralidade humana. Alguém que não gosta de pombos não sabe o que sentir quando um pombo morre por andar na linha. Nem todos foram feitos para andar na linha, quem nasceu para voar acaba se acidentando.</p>
<p style="text-align: justify;">E nada me tira a sensação de que ele queria estar ali.</p>
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		<title>16. Um Carioca em São Paulo</title>
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		<pubDate>Mon, 02 Nov 2009 13:17:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
				<category><![CDATA[o diário secreto de Lucas Moginie]]></category>
		<category><![CDATA[humor]]></category>

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		<description><![CDATA[Quando eu digo ninguém acredita, mas eu adoro essa cidade. Onde mais o esquadrão antibombas interditaria uma avenida, com direito a helicóptero, só para desarmar um pote de geléia esquecido no chão? O segurança do banco que denunciou ou ganhou &#8230; <a href="http://ericnovello.com.br/16-um-carioca-em-sao-paulo/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Quando eu digo ninguém acredita, mas eu adoro essa cidade. Onde mais o esquadrão antibombas interditaria uma avenida, com direito a helicóptero, só para desarmar um pote de geléia esquecido no chão? O segurança do banco que denunciou ou ganhou o prêmio de funcionário mais atencioso do mês ou passou a vergonha do ano. Como se não bastasse, interditaram uma ponte na Marginal Tietê para desarmar um vidro de perfume. A coisa aqui é séria. Certo, o perfume tinha o formato de uma granada. Você puxa o pino e explode. Coisa fina. Channel nº5 fica no chinelo. Até eu me enganaria. Prêmio mau gosto total para quem inventou a tranqueira.</p>
<p style="text-align: justify;">Nos meus dois anos de convivência, conheci três tipos de paulista. O primeiro não entende como eu pude viver trinta anos no Rio de Janeiro. Como alguém pode preferir qualquer cidade do país a São Paulo, ó ceus? É aquele que acha que a dengue é só uma forma de seleção natural e que o tsunami errou de alvo. Quer um, só assim, para dar uma afogada geral abrindo espaço para a recolonização. O segundo tipo não entende o que eu vim fazer aqui. Geralmente é alguém que fica três horas preso no trânsito todos os dias, faz terapia duas vezes por semana e acha que São Paulo é a única cidade onde a chuva traz engarrafamento. Está torcendo pelo dia em que a cidade vai parar congestionada só para poder dizer “eu avisei”. O terceiro tipo não está nem aí. Cidade é cidade, tudo a mesma porcaria, quem quis mudar foi você, agora se vira. Moro aqui porque moro, amanhã posso me mudar e ninguém tem nada a ver com isso. É o tipo de paulista que sabe se divertir e curte happy hour quarta-feira.</p>
<p style="text-align: justify;">Meu choque de realidade com essa nova civilização foi estudar o Cervantes. Eu não sabia o que dizer nem como me comportar diante das criaturas míticas que falam “ô meu” de cinco em cinco minutos. Foi lá que descobri que existe uma gradação para o “ô meu”, batizada de omeuzômetro. Tem gente com o ô meu totalmente sedutor. É algo natural. As vogais saem numa cadência harmônica que encanta, de verdade. É o grau dez. Já outras têm ô meu mais fundo do poço que já ouvi. Raspa de tacho em dia de pouco movimento. É aquele ô meu de bar depois da quinta cerveja. Grau zero na lata, literalmente. Chega a doer o ouvido. Outra experiência única foi comentar que sou carioca na prova oral do espanhol e a professora começar a me descascar, ciente de que nenhum aluno são bate boca com professor em dia de prova. Ela estava indignada porque no banheiro do palácio do catete havia uma placa escrita “não lave os pés na pia”. Praia. Pé. Areia. Popular. População. Percebe? Revoltou-se também porque em Copacabana alguém atirou um saco de lixo pela janela em cima dela. Pensei em explicar que o problema não era Copa, mas ela, mas preferi preservar a minha nota e terminar logo com a tortura. Se você conhecesse a peça me entenderia. Até na Finlândia tacariam um saco de lixo. Quando me despedi falando “boas férias” ela retrucou “ta, mas anda logo e fecha a porta”. Uma coisa fofa dessas que dá vontade de apertar a bochecha. E arrancar o siso no percurso.</p>
<p style="text-align: justify;">Outra coisa engraçada de São Paulo são as passeatas na Avenida Paulista. Todo dia tem uma. Parece sorteio de programa de auditório. Vai alguém lá, enfia a mão no chapéu e sorteia um tema. Tem fora Serra, fora Lula, fora Sarney, fora Chavez, fora Bush, fora terráqueos. Viva a Independência de Saturno. Direitos iguais para os poodles. Passeata para todos os gostos, com todas as trilhas sonoras e sempre com meia dúzia de pingados. Se bobear tem gente que ganha a vida assim, participando de passeata. Trinta reais a hora, só para ver se enche.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas nem só de passeata vive a Paulista. No Natal há uma espécie de tour dentro de um trenzinho para ver os enfeites que os grandes prédios e bancos armam na calçada. É um tour de hora marcada para você ouvir as músicas e ver as apresentações automáticas dos robôs mega zords barbudos e sorridentes que fazem hohoho. Se o Anthony Burgess tivesse pensado nisso, o final de Laranja Mecânica seria diferente. Lobotomia avançadíssima.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando não tem música de Natal nem passeata, quem gosta de andar para lá e para cá sou eu. O bom de andar numa avenida é que você não tem ponto de chegada. É só ir, cansar, voltar e tomar sorvete e chamar isso de programa. Não tem praia de um lado nem favela do outro, mas ainda assim vale o passeio.</p>
<p style="text-align: justify;">Quem sabe não vem um <a rel="nofollow" href="http://ericnovello.com.br/livros/" target="_blank"><strong>Histórias da Noite Paulistana</strong></a> por aí?</p>
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		<title>15. Lucas Moginie Talk Show I</title>
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		<pubDate>Sun, 25 Oct 2009 03:28:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
				<category><![CDATA[o diário secreto de Lucas Moginie]]></category>
		<category><![CDATA[humor]]></category>

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		<description><![CDATA[Lucas, meu nome é Sandro, sou seu fã e assisto seu programa todos os dias no intervalo do canal pornô de assinatura. Faz uns 10 anos tenho uma caspa horrível que não consigo tratar, fico envergonhado. Você tem alguma sugestão? &#8230; <a href="http://ericnovello.com.br/15-lucas-moginie-talk-show-i/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Lucas, meu nome é Sandro, sou seu fã e assisto seu programa todos os dias no intervalo do canal pornô de assinatura. Faz uns 10 anos tenho uma caspa horrível que não consigo tratar, fico envergonhado. Você tem alguma sugestão?</p>
<p style="text-align: justify;">Meu caro Sandro, antes de tudo, obrigado pela audiência. O canal pornô anda caído, não? O seu problema é muito simples. Deixe um boné no armário com cinco pedras de naftalina em cima. Quando for sair, coloque o boné e use camisas claras. A naftalina não diminui a caspa, mas como ninguém vai chegar perto de você, o antrax vai passar despercebido. Você sabe, não? O que os olhos não vêem…<br />
(aplauses)</p>
<p style="text-align: justify;">Lucas, sou Sueli da Costa e não me conformo com o fato de você ter roubado a vaga da Marcia Goldsmith. Mas como só tem tu, quero tirar uma dúvida. Ontem minhas amigas disseram que para deixar de ser virgem é preciso dar três vezes. Isso é verdade?</p>
<p style="text-align: justify;">Sueli. Da Costa ou da frente, deu uma já era. Inclusive manda um beijo pra sua vizinha e diz que ela esqueceu o celular aqui em casa. Provavelmente ela se confundiu com uma piada antiga sobre o sexo masculino que não vem ao caso. Aliás, me tira uma dúvida, você é um travesti, Sueli? Foi só pra rimar, viu. Boa sorte na noitada.<br />
(aplauses)</p>
<p style="text-align: justify;">Lucas, eu já afoguei Santo Antônio, esfreguei mamão macho na calcinha, roubei a cueca do pretendente no varal e molhei com leite de cabrita, e até agora nada. Você tem uma simpatia dessas bem boas, bem arretadas para eu conseguir um namorado?</p>
<p style="text-align: justify;">Olha, anônima, dá próxima vez seja educada e diga seu nome, combinado? Se eu fosse Santo Antônio pós-afogamento o único homem da tua vida seria o coveiro. Mas vou te dar uma dica, tem uma mãe de santo aqui perto de casa que traz a pessoa amada em três dias. Se ela não der jeito te passo o telefone de um garoto de programa porreta que atendeu todas as minhas tias encalhadas e triplicou a minha herança.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma última dica, lave a calcinha com o mamão, ok? Vai que dá formiga, e aí já era a pessoa amada e o resto também.</p>
<p style="text-align: justify;">(risos)<br />
(aplauses)</p>
<p style="text-align: justify;">E agora uma pergunta por e-mail, que eu sou chique e tenho laptop no programa.</p>
<p style="text-align: justify;">Lucas, me chamo Eduardo, tenho 17 anos, sou católico e virgem. Minha namorado não quer me masturbar porque tem medo de engravidar se cair esperma na sua mão. O que eu digo para ela?</p>
<p style="text-align: justify;">Oi, Eduardo. É sempre bom ter gente nova por aqui. Em primeiro lugar “na minha mão” não, na dela, por favor, que ainda não me convidaram pro ménage. Em segundo lugar ou é minha ou é namorado! Foi erro de digitação ou o quê? Hum? Bem, o medo dela tem fundamento sim. Como você só sabe se masturbar onde acha que ela vai enfiar a mão depois? Engravidar do próprio dedo seria muito triste. Vê se cresce, aparece, trepa logo e manda a tua namorada arrumar alguém melhorzinho.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas não é só isso, Eduardo! Pela pior pergunta da noite você acaba de ganhar um tênis montreal, um pacote de camisinha total flex e um mês de assinatura da revista Tricô! Afinal, precisa fortalecer a outra mão também, não é? Cuidado com as agulhas!</p>
<p style="text-align: justify;">(aplauses)<br />
(more aplauses)</p>
<p style="text-align: justify;">É isso, pessoal. Espero ter esclarecido essas dúvidas tão pertinentes e tornado a vida de vocês um pouco melhor. Até o próximo programa.</p>
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		<title>14. As formigas querem dominar o mundo</title>
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		<pubDate>Sun, 11 Oct 2009 03:56:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
				<category><![CDATA[o diário secreto de Lucas Moginie]]></category>

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		<description><![CDATA[Os mosquitos que se preparem. Algum pesquisador, que um dia foi chamado de louco como eu, conseguiu provar que as formigas podem transmitir conhecimento. Sabe aquela fila de formiguinhas na sua parede? É treinamento militar descarado. A formiga tenente passeia &#8230; <a href="http://ericnovello.com.br/as-formigas-querem-dominar-o-mundo/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Os mosquitos que se preparem.<br />
Algum pesquisador, que um dia foi chamado de louco como eu, conseguiu provar que as formigas podem transmitir conhecimento. Sabe aquela fila de formiguinhas na sua parede? É treinamento militar descarado. A formiga tenente passeia com a formiga cabo por toda a sua casa falando sobre os seus horários, onde você dorme, quando está mais vulnerável, quando está de cueca e meia lavando louça e aproveita para exercitar as pernas, que, caso não tenha percebido, ela tem mais do que você. A tropa é mais numerosa e mais preparada do que a nossa, estamos em desvantagem. Fora a disciplina.</p>
<p style="text-align: justify;">Dizem que a formiga é tão disciplinada que jamais aperta o snooze do despertador, a mãe nunca precisa chamar para jantar e seu quarto é todo arrumadinho, com gavetas separadas para o mofo, o açúcar e os restos orgânicos.</p>
<p style="text-align: justify;">A conversa sobre Rainha é pura enganação. As formigas optaram pelo parlamentarismo. Se alguém quiser te convencer de que só há uma formiga capaz de se reproduzir, atenção, esse alguém pode ser um formigueiro disfarçado. Vi isso na TV, em um especial do Horror Movies Discovery Geographic &#8211; a verdade por trás do mito.</p>
<p style="text-align: justify;">As formigas começam andando pelas suas pernas, fingem estar sempre perdidas em um prato ou copo, e você só mandando formiga para dentro. Quando vai dar a primeira mordida ela salta agilmente e se prende na campainha (sabe aquela cosquinha que você julgou ser a casca da lentinha? errou!).</p>
<p style="text-align: justify;">Se um dia você olhar para a esquerda e os olhos virarem para a direita, cuidado! Já está sendo dominado.<br />
Outro dia cheguei bêbado em casa, fui dormir no quarto e acordei na sala. Fiquei com aquilo na cabeça um bom tempo, preocupado pensando em tudo o que eu poderia ter feito sem me lembrar, ainda mais bêbado. Pois hoje sei que foram elas, uma divisão inteira de formigas me levou para sala para explorar o quarto e não teve tempo de me devolver, já que as surpreendi acordando mais cedo para enjoar até as tripas no banheiro!! Boa tática, boa tática, Lucas Moginie.</p>
<p style="text-align: justify;">E eu achando que a empregada estava comendo as Nhá Bentas. Formigas descaradas. Devem ter pego para alguma festinha em particular. Quem sabe qual outro inseto não anda se reunindo com essas víboras? Bem que achei as aranhas do corredor meio estranhas.</p>
<p style="text-align: justify;">Pensava sobre o meu dilema formigas inteligentes/neurose de quinto grau assistindo MTV quando percebi umas formigas na TV. Como um felino mambembe peguei a minha lupa de última geração e as surpreendi por trás. Com meu olho ampliado 100.000 vezes vi cinco delas montando uma coreografia de lambada e outras cinco tendo aulas de ginástica localizada. Entrei em desespero, espirrei meu desodorante axe (que é pior que raid protector) acabando com a farra e corri para o blog.</p>
<p style="text-align: justify;">Precisava desabafar.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-</p>
<p style="text-align: justify;">Esse texto do Lucas é tão antigo que vocês nem fazem idéia. O mais engraçado, e não resisti em comentar, é que eu realmente uso o Axe para matar insetos hoje em dia! Inclusive cochonilha nas plantas da sala. Será que absorvi as neuroses do Lucas sem perceber?</p>
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		<title>13. Eu queria ser transgênico</title>
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		<pubDate>Sun, 04 Oct 2009 03:49:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
				<category><![CDATA[o diário secreto de Lucas Moginie]]></category>

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		<description><![CDATA[Oi, eu sou o Camelo. Esbarrei com Lucas Moginie em um bar cafona de Copacabana e agora estou aqui, contando a minha história. Mas como sou um tanto lerdo, quem vai narrar é o Lucas. Digitar com casco é um &#8230; <a href="http://ericnovello.com.br/13-eu-queria-ser-transgenico/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Oi, eu sou o Camelo. Esbarrei com Lucas Moginie em um bar cafona de Copacabana e agora estou aqui, contando a minha história. Mas como sou um tanto lerdo, quem vai narrar é o Lucas. Digitar com casco é um desafio, experimente escrever seu nome com o cotovelo e terá uma sensação parecida.</p>
<p style="text-align: justify;">Camelo teve uma infância complicada por dois motivos. O primeiro era se chamar Camelo, que não era seu sobrenome, e sim o primeiro. Sua vida no colégio se resumiu a ver os amigos imitando aquele jeito linguão caído do camelo e a escutar os perversos colegas dizendo que ele daria um bom camelô. O gorducho da sala vivia perguntando como ia o primo dromedário.</p>
<p style="text-align: justify;">O segundo motivo era ouvir em casa, pelos cantos, uma palavra que não entendia muito bem. Cresceu achando que era um transgênero e toda noite se olhava no espelho imaginando quando cresceriam os peitinhos. Tinha certa decepção consigo mesmo, não sabia se brincava de carrinho ou boneca, não sabia se ficava melhor de cabelo curto ou deixava crescer, e o pior, por não saber direito o que era um transgênero, se baseava nas revistas que achava em um buraco no colchão dos pais.</p>
<p style="text-align: justify;">Com a adolescência e muitas discussões veio a importante conversa. Os pais, com os olhos marejados, abraçaram o filho e disseram: Camelo, você é transgênico.</p>
<p style="text-align: justify;">“Quer dizer que não vou ter peitinhos?”, ele respondeu de imeditado, feliz da vida.<br />
“Talvez tetas”, os pais cuspiram em resposta. Camelo era o resultado de uma experiência secreta do governo brasileiro e misturava centenas de fragmentos de DNA de outros animais, uma verdadeira orgia de banco genético. Ninguém sabe se o experimento foi proposital, fruto de um espirro ou sarro entre pesquisadores.</p>
<p style="text-align: justify;">Na primeira semana achou legal, sonhou que virava o homem-aranha e copulava com a Viúva Negra. Depois passou a ter pesadelos em que uma corcova nascia de suas costas, e depois outra. Num dos sonhos a corcova nasceu no lugar errado e ele não conseguiu se sentar. Ficou filosofando sobre as idéias que jogamos ao vento. Por exemplo, sua mãe dizia que gostaria de ser um pássaro, ser livre a voar. Um pássaro?</p>
<p style="text-align: justify;">Camelo se imaginou recebendo no café da manhã aquele pedaço de besouro mastigado direto do bico da mãe. Toma, meu filho, delicioso e nutritivo. Fora o intestino incontrolável. E se tivesse coceira no pé? Definitivamente não queria que seu DNA de pássaro se ativasse. Tinha alergia às penas, seu travesseiro era de silicone. Lembrou então da mosquinha de seu pai. “Eu queria ser uma mosquinha para bisbilhotar a reunião do fulano”. Claro, claro. Bisbilhotar a reunião do fulano, voar até um montinho de cocô de cachorro e depois ficar passando as patinhas na cabeça, lamber os beiços, lamber as asas e enxergar tudo como um míope, estrábico e hipermetrope ao mesmo tempo. Isso tudo com óculos no grau errado. Moscas eram nojentas. Mas Camelo continuava a sonhar com uma vida melhor. Para quem veste camisa xadrez e bermuda caqui, ser transgênico pode ser uma solução.</p>
<p style="text-align: justify;">Se um dia despertasse cavalo, pensou diante do espelho sem muitas esperanças, seria ator de filme pornô. Se despertasse barata, filosofou diante das migalhas, personagem de livro. Se acordasse morcego, viraria DJ. Se virasse cigarra, cantor de ópera. Ruim seria virar gente.<br />
Camelo ainda não desenvolveu nenhuma característica além de fiapos perdidos na bochecha, apesar de fazer uns ruídos estranhos quando esfrega as pernas, e a língua vez por outra fugir da boca sem controle. Fora isso, é um adolescente normal e vai prestar vestibular para Veterinária no ano que vem. Quer fazer a sua tese sobre uma planta rara do pantanal. Seu pai sugeriu um teste vocacional, mas não quer forçar o filho a escolher uma direção.</p>
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