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	<title>Eric Novello &#187; Textos online</title>
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	<description>Escritor, tradutor e roteirista.</description>
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		<title>25. Em pleno vôo</title>
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		<pubDate>Tue, 12 Jan 2010 03:43:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
				<category><![CDATA[a sombra no sol]]></category>

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		<description><![CDATA[Das grades lustradas da varanda, me atiro. Me retiro do recinto numa única tacada, numa jogada que preserve meus bons modos, impeça os gritos não gritados, sopre de volta os bem doloridos que implodem gargantas, fazem ranger os dentes, obrigam o corpo a desabar. Tento mirar as estrelas, a ponta da antena de um edifício, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Das grades lustradas da varanda, me atiro. Me retiro do recinto numa única tacada, numa jogada que preserve meus bons modos, impeça os gritos não gritados, sopre de volta os bem doloridos que implodem gargantas, fazem ranger os dentes, obrigam o corpo a desabar. Tento mirar as estrelas, a ponta da antena de um edifício, mas é a imagem dele que vejo contra a escuridão, o sujeito que roubou a minha arte. Estico a mão para me segurar em transmissões via satélite, uma distração qualquer que evite a queda ou que a acelere de uma vez. Ineficiente em meu rancor, a nada me apego. Continuo a desabar acompanhado da coleção de instantes que se projeta na parede, se enfileira quadro a quadro, me persegue quadra a quadra, até faltar o ar.</p>
<p style="text-align: justify;">Não lembro ao certo como cheguei nessa esquina, se de corridas na escada ou de ansiedade na porta do elevador construí o meu caminho. De certeza tenho o vento impresso em minha cara, um vento que descamou restos e levou sujeiras invisíveis, arrancou um cílio que não se sustentava mais. Quero fingir que ele é uma dessas coisas pequenas que só nos atrapalha, que posso descartá-lo com a ponta dos dedos. Quero mandar Patrícia e seu pintor para o quinto dos infernos, um quente, católico e tradicional, que derreta as plásticas d’uma e chamusque os olhos d’outro, me içando de seu verde de alto-mar. Mas o que quero é vago diante do que sinto, e uma dor de canelas doídas e joelhos ralados me joga na cara que nada irá mudar. A lufada forte como um soco não me quebrou os dentes nem varreu as rugas, deixou somente um aperto que me embaralha as entranhas e não se desfaz.</p>
<p style="text-align: justify;">Experimento a ardência no nariz de quem passa muito tempo sem respirar. Sinto o cheiro da queda livre, o cheiro que se sente quando tudo em que se acredita se desmancha num esguicho de aguarrás. Minha sorte é que esse vento seca por dentro e por fora, inibe as lágrimas e o sentimentalismo, me devolve ao modus operandi da sobrevivência. Quando sinto a ponta da língua raspar no asfalto, sei que é hora de abrir as asas e voltar a voar. Pouso com maestria no lugar de onde nunca saí e cumprimento meu interlocutor. Meus olhos rapineiros percorrem seu corpo, decoram suas curvas, simplesmente relembram o sabor da presa.</p>
<p style="text-align: justify;">Pedindo um drinque como quem é de casa, me posiciono onde sou mais noir, refazendo o jogo de luz e sombras que me cai como um terno de grife. Pelas palavras que pesco no ar, começo a me inteirar da conversa e respondo as perguntas acumuladas durante o vôo.  Opto por não usar as garras, já que Gabriel agora é testemunha de uma festa onde eu não deveria estar. Mastigo frases manjadas prontas para cuspi-las como o mais doce carinho quando o dealer bate no meu braço. A impressão de que serei colocado pra fora se desfaz assim que identifico seu sorriso. Mesmo aves de rapina podem ser predadas, deliciosas iguarias.</p>
<p style="text-align: justify;">Sem muita surpresa sou apresentado ao empresário, aperto de mão, muito prazer. Sua roupa impecável e o tom cinzento de minhas asas dizem muito a nosso respeito. No fundo no fundo, só mais um, pensamos juntos, ambos enganados. Ele fala de Patrícia com a intimidade de um velho amigo que trepa por diversão sem precisar pagar. Meu sangue de refém gela por um segundo, mas acabo rindo ao perceber que o pesadelo que levarei para casa essa noite não é mais o rosto de Gabriel. Acompanho o bom papo como se não estivesse ali por acaso, escondido, num gesto de rebeldia que poderia custar meus trocados.</p>
<p style="text-align: justify;">Entre um gole e outro e risadas programadas, encaro o dealer nos olhos e proponho um acordo silencioso. Um álibi por uma carreira. Não é preciso pedir duas vezes.</p>
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		<title>19. O azar é meu amigo</title>
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		<pubDate>Thu, 07 Jan 2010 02:19:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
				<category><![CDATA[o diário secreto de Lucas Moginie]]></category>

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		<description><![CDATA[Quando a sorte bateu na minha porta num dia de domingo eu gritei “já disse que não quero comprar enciclopédia nenhuma, cacete”, e ela nunca mais voltou. Só me dei conta do ocorrido dois dias depois quando a porta deu cupim. Sabe aqueles seres voadores que todo mundo acha uma graça e chama de bichinho [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Quando a sorte bateu na minha porta num dia de domingo eu gritei “já disse que não quero comprar enciclopédia nenhuma, cacete”, e ela nunca mais voltou. Só me dei conta do ocorrido dois dias depois quando a porta deu cupim. Sabe aqueles seres voadores que todo mundo acha uma graça e chama de bichinho de luz? Bichinho de luz seria se nascesse dentro da lâmpada ou surgisse ao riscar o fósforo. Esses nascem mesmo na madeira que, diga-se de passagem, eles comem, digerem e botam para fora. É uma espécie de arte contemporânea só que com mais significado.</p>
<p style="text-align: justify;">Chamei um especialista e ele me disse para ficar despreocupado, que o cupim de madeira seca não passa para outras madeiras. Só come aquela até acabar e depois a colônia morre. Claro, claro. E como esse veio parar aqui então? Esse não, essa, ele me corrigiu. As fêmeas voam quando adultas procurando um novo lar. Que bonito, um novo lar. Você podia ser político, meu velho. A sorte, ele disse, é que elas são como espermatozóides, só uma acerta o caminho. Provido da imagem desagradável que associava meus lindos espermatozóides a insetos voadores e a fechadura da porta a&#8230; deixa pra lá&#8230; só não desmaiei porque outra percepção me desestabilizou.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando atentei à palavra sorte tremi dos pés à cabeça e entendi que naquele dia não era o gorducho de bigode que batia à minha porta. Era ela.</p>
<p style="text-align: justify;">Muita gente atribui tudo ao Azar, mas esquece que a sorte também levanta de pé esquerdo. Quer ver a sorte se enfurecer é ela sair toda arrumadinha para o trabalho e um carro jogar água suja na sua roupa. Um segundo depois está todo mundo sofrendo o mesmo. Se ela sonhar que a Virgem de Guadalupe está cantando um Axé então, preparem seus guarda-chuvas porque os pombos vão estar incontroláveis. Nada de exagero. É que a sorte veste branco, e poça de chuva enlameada mancha. A sorte é prática, meu caro.</p>
<p style="text-align: justify;">No dia em que a desprezei, porém, ela decidiu fazer o mesmo para o resto da minha vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Nem preciso relatar que naquele mês tive que andar de metrô no horário do rush, o Dan Brown lançou outro livro, descobri que o Tom Hanks ia fazer o filme com a Audrey Tautou, uma velhinha recitou metade de um livro de auto-ajuda dizendo que eu estava com a energia ruim, um ogro não parou de falar durante a exibição do cinema, sujei meu único par de tênis em sabe-se lá o que, pisei em um chiclete de tutti-fruti e comi a famosa minhoca da goiaba.</p>
<p style="text-align: justify;">Sentei-me à mesa decidido a escrever uma carta para a sorte, desculpando-me pelos maus tratos. Começava a contar o dinheiro para as flores (a sorte gosta de margaridas), quando a campainha tocou. Tremi de novo. Fui devagarzinho até a porta, espiei pelo olho mágico e vi um senhor, por volta de 50 anos, magro, ossudo, vestindo um terno preto que chegava a brilhar.</p>
<p style="text-align: justify;">Pensei em não abrir a porta, vai que é assalto, mas não quis cometer o mesmo erro duas vezes.</p>
<p style="text-align: justify;">- Sorte? &#8211; perguntei desconfiado.<br />
 &#8211; Azar, posso entrar?<br />
 O Azar não me pediu nada além de um café. Bebericou, desenrolou um jornal, experimentou a dureza do meu sofá e disse sem pestanejar:<br />
 &#8211; A Sorte morreu.<br />
 &#8211; O quê?</p>
<p style="text-align: justify;">- Veio aqui falar com você, ouviu o grito de um vizinho doido que a tinha xingado uma semana antes, achou que não tinha ninguém em casa e foi embora. Decidiu entrar numa cafeteria para beliscar alguma coisa, uma senhora tropeçou no salto, caiu de cara em uma torta de morango e morreu de diabetes. A Sorte ficou deprimida. Como alguém podia morrer por mero acaso diante dela? Foi demais, sabe. Ela andava meio esgotada dos nervos. Diziam por aí que estava uma pilha de estresse, viciada em tranqüilizantes e leite condensado. Num gesto rápido, enganando o garçom, ela pegou uma coxinha gordurosa e engoliu, de uma só vez, para ver se driblava o destino e fazia graça. Mas a coxinha era de enfeite, cera pintada, uma puta falta de sorte. Morreu entalada, caída em cima da velhinha, cada uma com sua respectiva bunda virada para um lado diferente.</p>
<p style="text-align: justify;">- Não sei o que dizer.<br />
 &#8211; Então não diga. Não é todo dia que a Sorte tem um azar como esse.<br />
 &#8211; E o que você quer de mim?<br />
 &#8211; Vim te dar os parabéns. A Sorte nunca soube que era você, mas eu sei muito bem quem deu aquele grito.<br />
 &#8211; Mas e tudo aquilo que aconteceu comigo? O pombo? O cachorro? O cupim? O chiclete? A vizinha que ouve ópera? Os correios? Cheguei a achar uma pedra no meu arroz. E achei com os dentes postiços. <br />
 &#8211; Coincidência. Culpa. Vai saber. A vida é cheia de mistérios. Só vim te dar a notícia.    <br />
 Até outro dia.</p>
<p style="text-align: justify;">- Mas e você? Não vai me pedir nada? Exigir algo em troca para me devolver a… &#8211; calei-me pesaroso.<br />
 &#8211; A mim basta um bom café.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele levantou, esticou os braços para o alto até o pescoço estalar. No caminho para o corredor passou a mão na porta e todos os cupins caíram secos, com as boquinhas abertas e retorcidas. Contágio por um fungo raríssimo que produz toxinas de ação imediata. Ouvi um grito da vizinha também. Soube depois que o aparelho de som deu um curto e ejetou o cd de ópera com tamanha velocidade que do gato só sobrou o bigode.</p>
<p style="text-align: justify;">Fechei a porta mais calmo, mas estava incrivelmente entristecido.<br />
 Além de não ter mais a sorte para culpar, descobri que o azar é meu amigo.</p>
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		<title>18. Assim foi o Natal</title>
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		<pubDate>Thu, 24 Dec 2009 12:29:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
				<category><![CDATA[o diário secreto de Lucas Moginie]]></category>

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		<description><![CDATA[Da última vez que fiz um texto de Natal, Noé tinha resolvido sair para passear no Rio de Janeiro e alagou tudo. Sabe pobre quando sai na chuva para lavar o carro? O velhinho tinha feito o mesmo com a arca, com direito a esfregão e sabão em pó. Lavar um bando de bichos só [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Da última vez que fiz um texto de Natal, Noé tinha resolvido sair para passear no Rio de Janeiro e alagou tudo. Sabe pobre quando sai na chuva para lavar o carro? O velhinho tinha feito o mesmo com a arca, com direito a esfregão e sabão em pó. Lavar um bando de bichos só na mangueira deve dar mesmo trabalho e o coitado não tem mais idade para isso. Quem mandou escolher um casal de cada espécie e deixar os empregados de fora? Dessa vez não estou na chuva do Rio, mas no calor de São Paulo. Parece um universo paralelo, falando assim. Aqui está um bafo de dragão. Deve ter ficado algum empalado nas antenas da Av. Paulista com a respiração ofegante. Se eu sair sem camisa é capaz de ser vendido como presunto Pata Negra quando chegar no fim da rua. Um lance meio &#8220;assou, ta novo&#8221;. Mas hoje não é dia de reclamar, tem o tal do espírito natalino. Queria ver um médium baixar esse espírito só para poder dizer umas verdades na cara dele. Aposto que ele não passa horas no mercado apra comprar saco de cerejas e Sidra Cereser.</p>
<p style="text-align: justify;">Você deve estar pensando &#8220;que pessoa normal está acordada numa véspera de natal escrevendo no blog?&#8221; Bem, surpresa!, eu não sou normal. Se você frequenta o blog há algum tempo já deve saber disso. Se não frequenta, resolveu começar justo hoje por quê? Vá visitar a sua avó e comer tremoços. Para piorar, eu também não bebo. Então, enquanto as pessoas normais estarão de ressaca, com um bafo de vinho que espanta até zumbi, a barriga cheia de rabanada e bolinho de bacalhau, eu tenho que inventar o que fazer para o tempo passar, e só me resta escrever e ouvir REM, a opção depressiva mais próxima dos meus dedos.</p>
<p style="text-align: justify;">Se eu gosto pelo menos do Papai Noel? Nem me fale nele. O velho parou aqui em casa duas da manhã, assaltou a geladeira, ainda me pediu dinheiro emprestado para pagar a última prestação do trenó. Curiosamente, não acho meu cartão de crédito desde então. O velho estava tão bêbado que saiu daqui e bateu de cara em uma chaminé. E olha que achar chaminé em São Paulo é complicado! Tiveram que chamar um guincho para dar jeito na coisa. Tem uma rena presa em um fio de alta tensão aqui perto até agora tomando choque. Você não imagina como uma rena pode berrar durante a madrugada. Isso sem falar no cheiro de churrasquinho. Acho que jogaram vinagrete em cima. O velho barbudo deu um olé nos bombeiros e sumiu sem deixar vestígios. A carteira de motorista espacial era falsa.</p>
<p style="text-align: justify;">A última vez que viram o tal do coroa foi em uma boate junto com o Maradona. Estava enrolando tanto a língua que mandou cada uma comprar o seu presente e colocar na conta. Na minha conta! É muito mau humor. E nem é por causa do tal do consumismo que o Papa Nazi reclamou. Porque se as pessoas consumissem e me dessem presente estava ótimo. Mas é que eu moro em uma espécie de réplica do inferno. E para meu desespero, além das górgonas berrando e dos centauros dando patadas  também se comemora NATAL! Pior ainda é ter que comprar presentes para eles e só receber chamuscada de labaredas e perfume de enxofre. O último panetone que teve aqui foi um tal de Marcelo Panetone que São Pedro mandou descer por ter feito hóstia com o pão que o diabo amassou.</p>
<p style="text-align: justify;">World Sucks! And Word sucks too! O meu acabou de travar, por isso vou encurtar o texto. Mas é Natal. E daí que o mundo está em guerra, que o Brasil é um hospício a céu aberto e que tudo de ruim que já existia continuará existindo, independente do sotaque. Hoje é o dia da utopia, hoje é o dia de alterar os sentidos mesmo sem beber. É dia de fingir que o mundo é perfeito, que a sua vida é uma maravilha, que a sua vizinha é gostosa e que a família é unida pra cara!ho, mesmo que amanhã você esteja na varanda falando mal de todo mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">Ho Ho Hic! Pior é pensar no Ano Novo e no Carnaval.</p>
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		<title>24. Quando os corpos se levantam</title>
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		<pubDate>Fri, 20 Nov 2009 00:01:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
				<category><![CDATA[a sombra no sol]]></category>

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		<description><![CDATA[Ainda de olhos fechados com a brisa da janela refrescando a noite, me imagino enterrado em uma cova profunda feita sob medida para os meus destroços. Das histórias que invento por inventar só para combater a lerdeza das horas, escolho ser derrubado por inaptidão no meio do campo de batalha. O breu não permite que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Ainda de olhos fechados com a brisa da janela refrescando a noite, me imagino enterrado em uma cova profunda feita sob medida para os meus destroços. Das histórias que invento por inventar só para combater a lerdeza das horas, escolho ser derrubado por inaptidão no meio do campo de batalha. O breu não permite que eu veja de onde veio o tiro, se fogo amigo ou inimigo. Ponho a mão no peito até que ela se avermelhe e tombo na areia de um parque, com crianças de fralda ao meu redor. Perco o Oscar de melhor ator no último instante, mas ganho o de melhor fotografia. Como bom indigente sentimental, dispenso o aroma amadeirado do caixão e o terno de defunto. Graças a uma cláusula do contrato, posso mergulhar diretamente na terra úmida, deixando que ela me invada os ouvidos e a boca e me prive de qualquer comunicação com o mundo exterior. Também não estão lá as homenagens, os discursos. Ninguém para dizer se fui um herói, um covarde ou só mais um tolo entre tantos. Meu enterro é uma ode a mais pura solidão, mas cansei de sofrer sozinho.</p>
<p style="text-align: justify;">Pelo apartamento, nem rastro de Patrícia. Se não fossem os arranhões nas minhas coxas, consideraria tudo um delírio de vingança. Manutenção de rotina. Ainda lutando contra a inércia, procuro o celular nos móveis, pelas frestas, entre as almofadas. Coleciono nele pequenos tesouros que me são proibidos, telefones de clientes particulares e pessoas que conheço nos vaivéns das colunas sociais. O objetivo é um ator em começo de carreira que faz uns bicos como dealer no intervalo das novelas. Sou contra destruir o corpo, prejudicar a ferramenta de trabalho, mas uma semana de férias não fará mal ao bolso de ninguém.</p>
<p style="text-align: justify;">Chego já pela noite em sua casa, atravesso a pseudofesta que rola na sala e vou direto ao quarto que me foi reservado. Pago na moeda que prometi, de língua quente e olhos profundos. Repito a dose para expandir meu networking e também porque eu posso. Recebo em troca o primeiro comprimido mágico que arrancará das narinas o cheiro de terebentina. Mais tarde, o segundo que removerá da pele as texturas que aprenderei a odiar como uma forma de esquecimento. Ouço batidas na porta e um fantasma se materializa na minha frente. É ela, minha sombra no sol, minha atriz querida que se findou numa overdose. Troca algumas palavras com o dealer, pede para ficar.</p>
<p style="text-align: justify;">O dealer sai com cara de preocupado. Ela me acalma dizendo que é apenas um empresário de mau humor, figura dessas que não se contraria nem em acesso de raiva psicodélico. Com algum esforço, imagino seu chilique querendo saber onde foi parar o anfitrião da festa, que sumiu no quarto com um sujeitinho que nem serviria de figurante. Enquanto trocamos piadas sobre o assunto, ela me acaricia na barriga, pede que eu feche os olhos. Traz na ponta da língua o comprimido que eu só deveria engolir horas depois. Sinto e<em>cs</em>tasiado a descida a seco pela garganta, sua língua umedecendo meus lábios entorpecidos. Me bate uma louca vontade de sair para dançar uma música que só eu escute, mixando a melodia que se espalha pela casa.</p>
<p style="text-align: justify;">Chego a tocar a maçaneta, puxá-la pelo braço, mas ela não cede. Não é em mim que está interessada, mas no conteúdo das gavetas. Enquanto colore as narinas, espio o desenrolar da festa como um jornalista enrustido. O dealer bajula seu futuro empresário, oferece material de primeira, tenta recuperar o sorriso e a carreira. Nem acredita quando saio do quarto, dançando sem parar. Giro seguindo os riscos que se desprendem das lâmpadas, cintilantes como minhas pupilas. Acompanho cores que jamais aprendi a catalogar.</p>
<p style="text-align: justify;">É num grito de euforia, num pulo mais alto para pegar silfos encantados, que me viro para a varanda. Sinto o ar ir embora sem se despedir. Nem um até amanhã, volte sempre. E não é que a história de que o desgosto nos deixa instantaneamente caretas é verdadeira? Por instinto, volto para a minha cova até a grama roçar meu nariz. Tiro forças farmacoquímicas sabe-se lá de onde para ir enfrentar o mundo. Talvez não seja tão ruim assim pular sabendo o que me espera. Apoiado nas grandes da varanda, reencontro as cores de Gabriel. Sorridente, meu pintor apresenta sua nova companhia. É uma pena que eu não saiba voar.</p>
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		<title>17. O pombo se danou</title>
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		<pubDate>Sun, 15 Nov 2009 03:03:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
				<category><![CDATA[o diário secreto de Lucas Moginie]]></category>

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		<description><![CDATA[Hoje vi um pombo ser atropelado. Fiquei na dúvida se era um bom ou mau sinal. Optei pelo bom. Já vi um pombo atropelado antes e também imaginei o atropelamento de um pombo, mas nunca tinha testemunhado o ato em si. E eu estava do lado dele, pdv da vítima, não do motorista. A culpa [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Hoje vi um pombo ser atropelado. Fiquei na dúvida se era um bom ou mau sinal. Optei pelo bom. Já vi um pombo atropelado antes e também imaginei o atropelamento de um pombo, mas nunca tinha testemunhado o ato em si. E eu estava do lado dele, pdv da vítima, não do motorista.</p>
<p style="text-align: justify;">A culpa foi do pombo, coitado. Atravessou com o sinal aberto. A faixa de pedestre foi feita para fazer todo mundo andar na linha. O pombo andou, acreditou, ferrou-se. <br />
 Foi assim, vários pombos na calçada voaram para o meio da rua com o sinal aberto, carros passando, todos eles perceberam a mancada e interromperam o pouso, voaram um pouco mais e pararam na outra calçada. Esse pombo não; desceu e ficou na dele esperando. Talvez eu tenha sido testemunha de um suicídio de pombo. Ou talvez o pombo não enxergasse muito bem, achou que estava na praia de Copacabana e que o carro era uma chuva de pipoca.</p>
<p style="text-align: justify;">Teve então o baque, ouvi o barulho. Evitei olhar, mas olhei e ele estava vivo. Uma perna quebrada. Voou para o meio fio e parou. Fiquei morrendo de nojo de ele voar em cima de mim, um pombo atropelado, e fui para o lado da moça que também fugiu com nojo do pombo. Nós dois, adultos, correndo de um pombo atropelado. Estávamos na faixa esperando o sinal fechar e o pombo se arrastou na nossa direção.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando voltei para casa ele ainda estava lá, sem dar um pio, olhando tudo com uma cara de não tem jeito. Se for corajoso vai tentar uma manobra arriscada e morrer de vez. Se resolver poupar forças para se recuperar, o mais provável é que a noite caia e um gato o coma. Também é um final nobre. Em pé na árvore é que não vai ficar.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma vez voltando de madrugada para casa vi um pombo andando e um gato atrás, sorrateiro. Foi assustador pra mim e para o pombo, divertido para o gato. Não sei se voltarei até o local para descobrir o destino do corpo. Na verdade acho que o único controle populacional de pombos se dá por atropelamentos, já que tanta gente porca joga farelos variados para eles. Mas não tenho opinião formada. Poderia dizer que odeio pombos, que gostaria de colocar chumbinho no alpiste, mas a sensação de testemunhar o ato não foi das melhores. Se outro pombo viesse me contar na hora do café, não teria sido tão estranho.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa é a pluralidade humana. Alguém que não gosta de pombos não sabe o que sentir quando um pombo morre por andar na linha. Nem todos foram feitos para andar na linha, quem nasceu para voar acaba se acidentando.</p>
<p style="text-align: justify;">E nada me tira a sensação de que ele queria estar ali.</p>
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		<title>23. Prêmio de consolação</title>
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		<pubDate>Sat, 14 Nov 2009 02:07:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Três meses se passam sem nenhum contato do pintor. Sigo indo a festas, enchendo os bolsos de Patrícia ao atender aos clientes com meus frutos tipo exportação. Um gaiato decide reclamar do meu desempenho, do olhar perdido enquanto declamo as palavras combinadas na conversa prévia regada a falsidades. Sou obrigado a um segundo encontro, de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Três meses se passam sem nenhum contato do pintor. Sigo indo a festas, enchendo os bolsos de Patrícia ao atender aos clientes com meus frutos tipo exportação. Um gaiato decide reclamar do meu desempenho, do olhar perdido enquanto declamo as palavras combinadas na conversa prévia regada a falsidades. Sou obrigado a um segundo encontro, de graça, para compensá-lo, pois sua esposa anda muito deprimida e dinheiro é investimento, a situação na bolsa, você deveria saber, uma crise que só vendo. Um jeito amador de falar ponha-se no seu lugar, com um sotaque brega capitalista. Saio de lá esfolado, corpo em cacos, e deixo os dois exaustos na cama, com a bandeja de café que eu preparei, uma ajuda para curar a ressaca moral.</p>
<p style="text-align: justify;">No dia seguinte, Patrícia me liga dizendo que está tudo bem, sem máculas no meu currículo ou queda no valor de mercado. Reforça que faz parte do negócio saber fechar feridas e massagear o ego alheio e que se continuar assim blábláblá. Ponho o telefone na mesa e me sirvo de água gelada na cozinha, um calor dos infernos. Volto em tempo de me fazer presente, você tem toda a razão, como não, anos de experiência. Vou cavando espaços e ensaio um belo rodeio para perguntar de Gabriel, um ensaio mal programado que não disfarça em nada a ansiedade que ele alimenta com seu sumiço. Não é que eu queira apenas um cliente, eu digo, e que para ela não faz a menor diferença contanto que a agenda continue cheia.</p>
<p style="text-align: justify;">Engulo seco o seu silêncio, o tilintar de preocupação. Isso não está bem, é coisa que passa, não podemos acreditar em tudo que vemos, não nesse ramo. Tenho vontade de rir da palavra ramo, uma vontade legítima pelo menos. Sei que ela não argumenta para me consolar, mas para me lembrar de que o ilusionista sou eu, que posso ser o que quiser e é por isso que me querem tanto. Se fosse real eu não estaria ali, jogando conversa fora no desespero de conseguir um número de telefone. Será que eu me enganei contigo, meu rapaz? E então marcamos um acerto de contas, cara a cara, naquela noite.</p>
<p style="text-align: justify;">- Não é possível que ele não queira mais nada – digo cheio de mim, escondendo que raspo o tacho de minha auto-estima.</p>
<p style="text-align: justify;">- Mas ele quer, querido. Só que não é com você.</p>
<p style="text-align: justify;">A pronúncia cantada de <em>querido</em>, milimetricamente ritmada por sua língua sibilante, me corta das costelas ao ventre, deixando fígado, pulmão e rins espalhados pelo chão. O coração se aguenta no lugar, preso às artérias, se recusando a perder sua posição de prestígio. Por um segundoduvido, mas ele bate. Bate bombeando para o vazio dos órgãos que não existem mais.</p>
<p style="text-align: justify;">Meu silêncio é resposta digna o suficiente para manter meu emprego, mas não pretendo me arriscar. Tento ler nos olhos de Patrícia quantos já estiveram na mesma situação, quantos modelos e musas foram aprisionados nas telas de Gabriel, mas nada escapa. Melhor assim. Levanto do sofá batendo um pó invisível das calças, rebootando no cérebro o instinto predatório. Cato em minha adega o vinho mais caro que já comprei para comemorarmos uma futilidade qualquer. Resolvo contar o que fiz com o casal insatisfeito, repito movimentos, imito entonações, e ela seca os olhos no seu riso engasgado.</p>
<p style="text-align: justify;">Conforme a garrafa esvazia e o líquido tinto estreita o espaço entre nós, me debruço sobre sua superioridade ilusória, conquistando carícias, arrancando um beijo, e a arrasto para a cama.</p>
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		<title>16. Um Carioca em São Paulo</title>
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		<pubDate>Mon, 02 Nov 2009 13:17:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
				<category><![CDATA[o diário secreto de Lucas Moginie]]></category>
		<category><![CDATA[humor]]></category>

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		<description><![CDATA[Quando eu digo ninguém acredita, mas eu adoro essa cidade. Onde mais o esquadrão antibombas interditaria uma avenida, com direito a helicóptero, só para desarmar um pote de geléia esquecido no chão? O segurança do banco que denunciou ou ganhou o prêmio de funcionário mais atencioso do mês ou passou a vergonha do ano. Como [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Quando eu digo ninguém acredita, mas eu adoro essa cidade. Onde mais o esquadrão antibombas interditaria uma avenida, com direito a helicóptero, só para desarmar um pote de geléia esquecido no chão? O segurança do banco que denunciou ou ganhou o prêmio de funcionário mais atencioso do mês ou passou a vergonha do ano. Como se não bastasse, interditaram uma ponte na Marginal Tietê para desarmar um vidro de perfume. A coisa aqui é séria. Certo, o perfume tinha o formato de uma granada. Você puxa o pino e explode. Coisa fina. Channel nº5 fica no chinelo. Até eu me enganaria. Prêmio mau gosto total para quem inventou a tranqueira.</p>
<p style="text-align: justify;">Nos meus dois anos de convivência, conheci três tipos de paulista. O primeiro não entende como eu pude viver trinta anos no Rio de Janeiro. Como alguém pode preferir qualquer cidade do país a São Paulo, ó ceus? É aquele que acha que a dengue é só uma forma de seleção natural e que o tsunami errou de alvo. Quer um, só assim, para dar uma afogada geral abrindo espaço para a recolonização. O segundo tipo não entende o que eu vim fazer aqui. Geralmente é alguém que fica três horas preso no trânsito todos os dias, faz terapia duas vezes por semana e acha que São Paulo é a única cidade onde a chuva traz engarrafamento. Está torcendo pelo dia em que a cidade vai parar congestionada só para poder dizer “eu avisei”. O terceiro tipo não está nem aí. Cidade é cidade, tudo a mesma porcaria, quem quis mudar foi você, agora se vira. Moro aqui porque moro, amanhã posso me mudar e ninguém tem nada a ver com isso. É o tipo de paulista que sabe se divertir e curte happy hour quarta-feira.</p>
<p style="text-align: justify;">Meu choque de realidade com essa nova civilização foi estudar o Cervantes. Eu não sabia o que dizer nem como me comportar diante das criaturas míticas que falam “ô meu” de cinco em cinco minutos. Foi lá que descobri que existe uma gradação para o “ô meu”, batizada de omeuzômetro. Tem gente com o ô meu totalmente sedutor. É algo natural. As vogais saem numa cadência harmônica que encanta, de verdade. É o grau dez. Já outras têm ô meu mais fundo do poço que já ouvi. Raspa de tacho em dia de pouco movimento. É aquele ô meu de bar depois da quinta cerveja. Grau zero na lata, literalmente. Chega a doer o ouvido. Outra experiência única foi comentar que sou carioca na prova oral do espanhol e a professora começar a me descascar, ciente de que nenhum aluno são bate boca com professor em dia de prova. Ela estava indignada porque no banheiro do palácio do catete havia uma placa escrita “não lave os pés na pia”. Praia. Pé. Areia. Popular. População. Percebe? Revoltou-se também porque em Copacabana alguém atirou um saco de lixo pela janela em cima dela. Pensei em explicar que o problema não era Copa, mas ela, mas preferi preservar a minha nota e terminar logo com a tortura. Se você conhecesse a peça me entenderia. Até na Finlândia tacariam um saco de lixo. Quando me despedi falando “boas férias” ela retrucou “ta, mas anda logo e fecha a porta”. Uma coisa fofa dessas que dá vontade de apertar a bochecha. E arrancar o siso no percurso.</p>
<p style="text-align: justify;">Outra coisa engraçada de São Paulo são as passeatas na Avenida Paulista. Todo dia tem uma. Parece sorteio de programa de auditório. Vai alguém lá, enfia a mão no chapéu e sorteia um tema. Tem fora Serra, fora Lula, fora Sarney, fora Chavez, fora Bush, fora terráqueos. Viva a Independência de Saturno. Direitos iguais para os poodles. Passeata para todos os gostos, com todas as trilhas sonoras e sempre com meia dúzia de pingados. Se bobear tem gente que ganha a vida assim, participando de passeata. Trinta reais a hora, só para ver se enche.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas nem só de passeata vive a Paulista. No Natal há uma espécie de tour dentro de um trenzinho para ver os enfeites que os grandes prédios e bancos armam na calçada. É um tour de hora marcada para você ouvir as músicas e ver as apresentações automáticas dos robôs mega zords barbudos e sorridentes que fazem hohoho. Se o Anthony Burgess tivesse pensado nisso, o final de Laranja Mecânica seria diferente. Lobotomia avançadíssima.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando não tem música de Natal nem passeata, quem gosta de andar para lá e para cá sou eu. O bom de andar numa avenida é que você não tem ponto de chegada. É só ir, cansar, voltar e tomar sorvete e chamar isso de programa. Não tem praia de um lado nem favela do outro, mas ainda assim vale o passeio.</p>
<p style="text-align: justify;">Quem sabe não vem um <a  rel="nofollow" href="http://ericnovello.com.br/livros/" target="_blank"><strong>Histórias da Noite Paulistana</strong></a> por aí?</p>
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		<title>15. Lucas Moginie Talk Show I</title>
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		<pubDate>Sun, 25 Oct 2009 03:28:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
				<category><![CDATA[o diário secreto de Lucas Moginie]]></category>
		<category><![CDATA[humor]]></category>

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		<description><![CDATA[Lucas, meu nome é Sandro, sou seu fã e assisto seu programa todos os dias no intervalo do canal pornô de assinatura. Faz uns 10 anos tenho uma caspa horrível que não consigo tratar, fico envergonhado. Você tem alguma sugestão? Meu caro Sandro, antes de tudo, obrigado pela audiência. O canal pornô anda caído, não? [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Lucas, meu nome é Sandro, sou seu fã e assisto seu programa todos os dias no intervalo do canal pornô de assinatura. Faz uns 10 anos tenho uma caspa horrível que não consigo tratar, fico envergonhado. Você tem alguma sugestão?</p>
<p style="text-align: justify;">Meu caro Sandro, antes de tudo, obrigado pela audiência. O canal pornô anda caído, não? O seu problema é muito simples. Deixe um boné no armário com cinco pedras de naftalina em cima. Quando for sair, coloque o boné e use camisas claras. A naftalina não diminui a caspa, mas como ninguém vai chegar perto de você, o antrax vai passar despercebido. Você sabe, não? O que os olhos não vêem… <br />
 (aplauses)</p>
<p style="text-align: justify;">Lucas, sou Sueli da Costa e não me conformo com o fato de você ter roubado a vaga da Marcia Goldsmith. Mas como só tem tu, quero tirar uma dúvida. Ontem minhas amigas disseram que para deixar de ser virgem é preciso dar três vezes. Isso é verdade?</p>
<p style="text-align: justify;">Sueli. Da Costa ou da frente, deu uma já era. Inclusive manda um beijo pra sua vizinha e diz que ela esqueceu o celular aqui em casa. Provavelmente ela se confundiu com uma piada antiga sobre o sexo masculino que não vem ao caso. Aliás, me tira uma dúvida, você é um travesti, Sueli? Foi só pra rimar, viu. Boa sorte na noitada. <br />
 (aplauses)</p>
<p style="text-align: justify;">Lucas, eu já afoguei Santo Antônio, esfreguei mamão macho na calcinha, roubei a cueca do pretendente no varal e molhei com leite de cabrita, e até agora nada. Você tem uma simpatia dessas bem boas, bem arretadas para eu conseguir um namorado?</p>
<p style="text-align: justify;">Olha, anônima, dá próxima vez seja educada e diga seu nome, combinado? Se eu fosse Santo Antônio pós-afogamento o único homem da tua vida seria o coveiro. Mas vou te dar uma dica, tem uma mãe de santo aqui perto de casa que traz a pessoa amada em três dias. Se ela não der jeito te passo o telefone de um garoto de programa porreta que atendeu todas as minhas tias encalhadas e triplicou a minha herança.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma última dica, lave a calcinha com o mamão, ok? Vai que dá formiga, e aí já era a pessoa amada e o resto também.</p>
<p style="text-align: justify;">(risos)<br />
 (aplauses)</p>
<p style="text-align: justify;">E agora uma pergunta por e-mail, que eu sou chique e tenho laptop no programa.</p>
<p style="text-align: justify;">Lucas, me chamo Eduardo, tenho 17 anos, sou católico e virgem. Minha namorado não quer me masturbar porque tem medo de engravidar se cair esperma na sua mão. O que eu digo para ela?</p>
<p style="text-align: justify;">Oi, Eduardo. É sempre bom ter gente nova por aqui. Em primeiro lugar “na minha mão” não, na dela, por favor, que ainda não me convidaram pro ménage. Em segundo lugar ou é minha ou é namorado! Foi erro de digitação ou o quê? Hum? Bem, o medo dela tem fundamento sim. Como você só sabe se masturbar onde acha que ela vai enfiar a mão depois? Engravidar do próprio dedo seria muito triste. Vê se cresce, aparece, trepa logo e manda a tua namorada arrumar alguém melhorzinho.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas não é só isso, Eduardo! Pela pior pergunta da noite você acaba de ganhar um tênis montreal, um pacote de camisinha total flex e um mês de assinatura da revista Tricô! Afinal, precisa fortalecer a outra mão também, não é? Cuidado com as agulhas!</p>
<p style="text-align: justify;">(aplauses)<br />
 (more aplauses)</p>
<p style="text-align: justify;">É isso, pessoal. Espero ter esclarecido essas dúvidas tão pertinentes e tornado a vida de vocês um pouco melhor. Até o próximo programa.</p>
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		<title>14. As formigas querem dominar o mundo</title>
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		<pubDate>Sun, 11 Oct 2009 03:56:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
				<category><![CDATA[o diário secreto de Lucas Moginie]]></category>

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		<description><![CDATA[Os mosquitos que se preparem. Algum pesquisador, que um dia foi chamado de louco como eu, conseguiu provar que as formigas podem transmitir conhecimento. Sabe aquela fila de formiguinhas na sua parede? É treinamento militar descarado. A formiga tenente passeia com a formiga cabo por toda a sua casa falando sobre os seus horários, onde [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Os mosquitos que se preparem.<br />
 Algum pesquisador, que um dia foi chamado de louco como eu, conseguiu provar que as formigas podem transmitir conhecimento. Sabe aquela fila de formiguinhas na sua parede? É treinamento militar descarado. A formiga tenente passeia com a formiga cabo por toda a sua casa falando sobre os seus horários, onde você dorme, quando está mais vulnerável, quando está de cueca e meia lavando louça e aproveita para exercitar as pernas, que, caso não tenha percebido, ela tem mais do que você. A tropa é mais numerosa e mais preparada do que a nossa, estamos em desvantagem. Fora a disciplina.</p>
<p style="text-align: justify;">Dizem que a formiga é tão disciplinada que jamais aperta o snooze do despertador, a mãe nunca precisa chamar para jantar e seu quarto é todo arrumadinho, com gavetas separadas para o mofo, o açúcar e os restos orgânicos.</p>
<p style="text-align: justify;">A conversa sobre Rainha é pura enganação. As formigas optaram pelo parlamentarismo. Se alguém quiser te convencer de que só há uma formiga capaz de se reproduzir, atenção, esse alguém pode ser um formigueiro disfarçado. Vi isso na TV, em um especial do Horror Movies Discovery Geographic &#8211; a verdade por trás do mito.</p>
<p style="text-align: justify;">As formigas começam andando pelas suas pernas, fingem estar sempre perdidas em um prato ou copo, e você só mandando formiga para dentro. Quando vai dar a primeira mordida ela salta agilmente e se prende na campainha (sabe aquela cosquinha que você julgou ser a casca da lentinha? errou!).</p>
<p style="text-align: justify;">Se um dia você olhar para a esquerda e os olhos virarem para a direita, cuidado! Já está sendo dominado.<br />
 Outro dia cheguei bêbado em casa, fui dormir no quarto e acordei na sala. Fiquei com aquilo na cabeça um bom tempo, preocupado pensando em tudo o que eu poderia ter feito sem me lembrar, ainda mais bêbado. Pois hoje sei que foram elas, uma divisão inteira de formigas me levou para sala para explorar o quarto e não teve tempo de me devolver, já que as surpreendi acordando mais cedo para enjoar até as tripas no banheiro!! Boa tática, boa tática, Lucas Moginie.</p>
<p style="text-align: justify;">E eu achando que a empregada estava comendo as Nhá Bentas. Formigas descaradas. Devem ter pego para alguma festinha em particular. Quem sabe qual outro inseto não anda se reunindo com essas víboras? Bem que achei as aranhas do corredor meio estranhas.</p>
<p style="text-align: justify;">Pensava sobre o meu dilema formigas inteligentes/neurose de quinto grau assistindo MTV quando percebi umas formigas na TV. Como um felino mambembe peguei a minha lupa de última geração e as surpreendi por trás. Com meu olho ampliado 100.000 vezes vi cinco delas montando uma coreografia de lambada e outras cinco tendo aulas de ginástica localizada. Entrei em desespero, espirrei meu desodorante axe (que é pior que raid protector) acabando com a farra e corri para o blog.</p>
<p style="text-align: justify;">Precisava desabafar.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-</p>
<p style="text-align: justify;">Esse texto do Lucas é tão antigo que vocês nem fazem idéia. O mais engraçado, e não resisti em comentar, é que eu realmente uso o Axe para matar insetos hoje em dia! Inclusive cochonilha nas plantas da sala. Será que absorvi as neuroses do Lucas sem perceber?</p>
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		<title>13. Eu queria ser transgênico</title>
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		<pubDate>Sun, 04 Oct 2009 03:49:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
				<category><![CDATA[o diário secreto de Lucas Moginie]]></category>

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		<description><![CDATA[Oi, eu sou o Camelo. Esbarrei com Lucas Moginie em um bar cafona de Copacabana e agora estou aqui, contando a minha história. Mas como sou um tanto lerdo, quem vai narrar é o Lucas. Digitar com casco é um desafio, experimente escrever seu nome com o cotovelo e terá uma sensação parecida. Camelo teve [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Oi, eu sou o Camelo. Esbarrei com Lucas Moginie em um bar cafona de Copacabana e agora estou aqui, contando a minha história. Mas como sou um tanto lerdo, quem vai narrar é o Lucas. Digitar com casco é um desafio, experimente escrever seu nome com o cotovelo e terá uma sensação parecida.</p>
<p style="text-align: justify;">Camelo teve uma infância complicada por dois motivos. O primeiro era se chamar Camelo, que não era seu sobrenome, e sim o primeiro. Sua vida no colégio se resumiu a ver os amigos imitando aquele jeito linguão caído do camelo e a escutar os perversos colegas dizendo que ele daria um bom camelô. O gorducho da sala vivia perguntando como ia o primo dromedário.</p>
<p style="text-align: justify;">O segundo motivo era ouvir em casa, pelos cantos, uma palavra que não entendia muito bem. Cresceu achando que era um transgênero e toda noite se olhava no espelho imaginando quando cresceriam os peitinhos. Tinha certa decepção consigo mesmo, não sabia se brincava de carrinho ou boneca, não sabia se ficava melhor de cabelo curto ou deixava crescer, e o pior, por não saber direito o que era um transgênero, se baseava nas revistas que achava em um buraco no colchão dos pais.</p>
<p style="text-align: justify;">Com a adolescência e muitas discussões veio a importante conversa. Os pais, com os olhos marejados, abraçaram o filho e disseram: Camelo, você é transgênico.</p>
<p style="text-align: justify;">“Quer dizer que não vou ter peitinhos?”, ele respondeu de imeditado, feliz da vida.    <br />
 “Talvez tetas”, os pais cuspiram em resposta. Camelo era o resultado de uma experiência secreta do governo brasileiro e misturava centenas de fragmentos de DNA de outros animais, uma verdadeira orgia de banco genético. Ninguém sabe se o experimento foi proposital, fruto de um espirro ou sarro entre pesquisadores.</p>
<p style="text-align: justify;">Na primeira semana achou legal, sonhou que virava o homem-aranha e copulava com a Viúva Negra. Depois passou a ter pesadelos em que uma corcova nascia de suas costas, e depois outra. Num dos sonhos a corcova nasceu no lugar errado e ele não conseguiu se sentar. Ficou filosofando sobre as idéias que jogamos ao vento. Por exemplo, sua mãe dizia que gostaria de ser um pássaro, ser livre a voar. Um pássaro?</p>
<p style="text-align: justify;">Camelo se imaginou recebendo no café da manhã aquele pedaço de besouro mastigado direto do bico da mãe. Toma, meu filho, delicioso e nutritivo. Fora o intestino incontrolável. E se tivesse coceira no pé? Definitivamente não queria que seu DNA de pássaro se ativasse. Tinha alergia às penas, seu travesseiro era de silicone. Lembrou então da mosquinha de seu pai. “Eu queria ser uma mosquinha para bisbilhotar a reunião do fulano”. Claro, claro. Bisbilhotar a reunião do fulano, voar até um montinho de cocô de cachorro e depois ficar passando as patinhas na cabeça, lamber os beiços, lamber as asas e enxergar tudo como um míope, estrábico e hipermetrope ao mesmo tempo. Isso tudo com óculos no grau errado. Moscas eram nojentas. Mas Camelo continuava a sonhar com uma vida melhor. Para quem veste camisa xadrez e bermuda caqui, ser transgênico pode ser uma solução.</p>
<p style="text-align: justify;">Se um dia despertasse cavalo, pensou diante do espelho sem muitas esperanças, seria ator de filme pornô. Se despertasse barata, filosofou diante das migalhas, personagem de livro. Se acordasse morcego, viraria DJ. Se virasse cigarra, cantor de ópera. Ruim seria virar gente. <br />
 Camelo ainda não desenvolveu nenhuma característica além de fiapos perdidos na bochecha, apesar de fazer uns ruídos estranhos quando esfrega as pernas, e a língua vez por outra fugir da boca sem controle. Fora isso, é um adolescente normal e vai prestar vestibular para Veterinária no ano que vem. Quer fazer a sua tese sobre uma planta rara do pantanal. Seu pai sugeriu um teste vocacional, mas não quer forçar o filho a escolher uma direção.</p>
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