18. Assim foi o Natal

Da última vez que fiz um texto de Natal, Noé tinha resolvido sair para passear no Rio de Janeiro e alagou tudo. Sabe pobre quando sai na chuva para lavar o carro? O velhinho tinha feito o mesmo com a arca, com direito a esfregão e sabão em pó. Lavar um bando de bichos só na mangueira deve dar mesmo trabalho e o coitado não tem mais idade para isso. Quem mandou escolher um casal de cada espécie e deixar os empregados de fora? Dessa vez não estou na chuva do Rio, mas no calor de São Paulo. Parece um universo paralelo, falando assim. Aqui está um bafo de dragão. Deve ter ficado algum empalado nas antenas da Av. Paulista com a respiração ofegante. Se eu sair sem camisa é capaz de ser vendido como presunto Pata Negra quando chegar no fim da rua. Um lance meio “assou, ta novo”. Mas hoje não é dia de reclamar, tem o tal do espírito natalino. Queria ver um médium baixar esse espírito só para poder dizer umas verdades na cara dele. Aposto que ele não passa horas no mercado apra comprar saco de cerejas e Sidra Cereser.

Você deve estar pensando “que pessoa normal está acordada numa véspera de natal escrevendo no blog?” Bem, surpresa!, eu não sou normal. Se você frequenta o blog há algum tempo já deve saber disso. Se não frequenta, resolveu começar justo hoje por quê? Vá visitar a sua avó e comer tremoços. Para piorar, eu também não bebo. Então, enquanto as pessoas normais estarão de ressaca, com um bafo de vinho que espanta até zumbi, a barriga cheia de rabanada e bolinho de bacalhau, eu tenho que inventar o que fazer para o tempo passar, e só me resta escrever e ouvir REM, a opção depressiva mais próxima dos meus dedos.

Se eu gosto pelo menos do Papai Noel? Nem me fale nele. O velho parou aqui em casa duas da manhã, assaltou a geladeira, ainda me pediu dinheiro emprestado para pagar a última prestação do trenó. Curiosamente, não acho meu cartão de crédito desde então. O velho estava tão bêbado que saiu daqui e bateu de cara em uma chaminé. E olha que achar chaminé em São Paulo é complicado! Tiveram que chamar um guincho para dar jeito na coisa. Tem uma rena presa em um fio de alta tensão aqui perto até agora tomando choque. Você não imagina como uma rena pode berrar durante a madrugada. Isso sem falar no cheiro de churrasquinho. Acho que jogaram vinagrete em cima. O velho barbudo deu um olé nos bombeiros e sumiu sem deixar vestígios. A carteira de motorista espacial era falsa.

A última vez que viram o tal do coroa foi em uma boate junto com o Maradona. Estava enrolando tanto a língua que mandou cada uma comprar o seu presente e colocar na conta. Na minha conta! É muito mau humor. E nem é por causa do tal do consumismo que o Papa Nazi reclamou. Porque se as pessoas consumissem e me dessem presente estava ótimo. Mas é que eu moro em uma espécie de réplica do inferno. E para meu desespero, além das górgonas berrando e dos centauros dando patadas  também se comemora NATAL! Pior ainda é ter que comprar presentes para eles e só receber chamuscada de labaredas e perfume de enxofre. O último panetone que teve aqui foi um tal de Marcelo Panetone que São Pedro mandou descer por ter feito hóstia com o pão que o diabo amassou.

World Sucks! And Word sucks too! O meu acabou de travar, por isso vou encurtar o texto. Mas é Natal. E daí que o mundo está em guerra, que o Brasil é um hospício a céu aberto e que tudo de ruim que já existia continuará existindo, independente do sotaque. Hoje é o dia da utopia, hoje é o dia de alterar os sentidos mesmo sem beber. É dia de fingir que o mundo é perfeito, que a sua vida é uma maravilha, que a sua vizinha é gostosa e que a família é unida pra cara!ho, mesmo que amanhã você esteja na varanda falando mal de todo mundo.

Ho Ho Hic! Pior é pensar no Ano Novo e no Carnaval.

17. O pombo se danou

Hoje vi um pombo ser atropelado. Fiquei na dúvida se era um bom ou mau sinal. Optei pelo bom. Já vi um pombo atropelado antes e também imaginei o atropelamento de um pombo, mas nunca tinha testemunhado o ato em si. E eu estava do lado dele, pdv da vítima, não do motorista.

A culpa foi do pombo, coitado. Atravessou com o sinal aberto. A faixa de pedestre foi feita para fazer todo mundo andar na linha. O pombo andou, acreditou, ferrou-se.
Foi assim, vários pombos na calçada voaram para o meio da rua com o sinal aberto, carros passando, todos eles perceberam a mancada e interromperam o pouso, voaram um pouco mais e pararam na outra calçada. Esse pombo não; desceu e ficou na dele esperando. Talvez eu tenha sido testemunha de um suicídio de pombo. Ou talvez o pombo não enxergasse muito bem, achou que estava na praia de Copacabana e que o carro era uma chuva de pipoca.

Teve então o baque, ouvi o barulho. Evitei olhar, mas olhei e ele estava vivo. Uma perna quebrada. Voou para o meio fio e parou. Fiquei morrendo de nojo de ele voar em cima de mim, um pombo atropelado, e fui para o lado da moça que também fugiu com nojo do pombo. Nós dois, adultos, correndo de um pombo atropelado. Estávamos na faixa esperando o sinal fechar e o pombo se arrastou na nossa direção.

Quando voltei para casa ele ainda estava lá, sem dar um pio, olhando tudo com uma cara de não tem jeito. Se for corajoso vai tentar uma manobra arriscada e morrer de vez. Se resolver poupar forças para se recuperar, o mais provável é que a noite caia e um gato o coma. Também é um final nobre. Em pé na árvore é que não vai ficar.

Uma vez voltando de madrugada para casa vi um pombo andando e um gato atrás, sorrateiro. Foi assustador pra mim e para o pombo, divertido para o gato. Não sei se voltarei até o local para descobrir o destino do corpo. Na verdade acho que o único controle populacional de pombos se dá por atropelamentos, já que tanta gente porca joga farelos variados para eles. Mas não tenho opinião formada. Poderia dizer que odeio pombos, que gostaria de colocar chumbinho no alpiste, mas a sensação de testemunhar o ato não foi das melhores. Se outro pombo viesse me contar na hora do café, não teria sido tão estranho.

Essa é a pluralidade humana. Alguém que não gosta de pombos não sabe o que sentir quando um pombo morre por andar na linha. Nem todos foram feitos para andar na linha, quem nasceu para voar acaba se acidentando.

E nada me tira a sensação de que ele queria estar ali.

16. Um Carioca em São Paulo

Quando eu digo ninguém acredita, mas eu adoro essa cidade. Onde mais o esquadrão antibombas interditaria uma avenida, com direito a helicóptero, só para desarmar um pote de geléia esquecido no chão? O segurança do banco que denunciou ou ganhou o prêmio de funcionário mais atencioso do mês ou passou a vergonha do ano. Como se não bastasse, interditaram uma ponte na Marginal Tietê para desarmar um vidro de perfume. A coisa aqui é séria. Certo, o perfume tinha o formato de uma granada. Você puxa o pino e explode. Coisa fina. Channel nº5 fica no chinelo. Até eu me enganaria. Prêmio mau gosto total para quem inventou a tranqueira.

Nos meus dois anos de convivência, conheci três tipos de paulista. O primeiro não entende como eu pude viver trinta anos no Rio de Janeiro. Como alguém pode preferir qualquer cidade do país a São Paulo, ó ceus? É aquele que acha que a dengue é só uma forma de seleção natural e que o tsunami errou de alvo. Quer um, só assim, para dar uma afogada geral abrindo espaço para a recolonização. O segundo tipo não entende o que eu vim fazer aqui. Geralmente é alguém que fica três horas preso no trânsito todos os dias, faz terapia duas vezes por semana e acha que São Paulo é a única cidade onde a chuva traz engarrafamento. Está torcendo pelo dia em que a cidade vai parar congestionada só para poder dizer “eu avisei”. O terceiro tipo não está nem aí. Cidade é cidade, tudo a mesma porcaria, quem quis mudar foi você, agora se vira. Moro aqui porque moro, amanhã posso me mudar e ninguém tem nada a ver com isso. É o tipo de paulista que sabe se divertir e curte happy hour quarta-feira.

Meu choque de realidade com essa nova civilização foi estudar o Cervantes. Eu não sabia o que dizer nem como me comportar diante das criaturas míticas que falam “ô meu” de cinco em cinco minutos. Foi lá que descobri que existe uma gradação para o “ô meu”, batizada de omeuzômetro. Tem gente com o ô meu totalmente sedutor. É algo natural. As vogais saem numa cadência harmônica que encanta, de verdade. É o grau dez. Já outras têm ô meu mais fundo do poço que já ouvi. Raspa de tacho em dia de pouco movimento. É aquele ô meu de bar depois da quinta cerveja. Grau zero na lata, literalmente. Chega a doer o ouvido. Outra experiência única foi comentar que sou carioca na prova oral do espanhol e a professora começar a me descascar, ciente de que nenhum aluno são bate boca com professor em dia de prova. Ela estava indignada porque no banheiro do palácio do catete havia uma placa escrita “não lave os pés na pia”. Praia. Pé. Areia. Popular. População. Percebe? Revoltou-se também porque em Copacabana alguém atirou um saco de lixo pela janela em cima dela. Pensei em explicar que o problema não era Copa, mas ela, mas preferi preservar a minha nota e terminar logo com a tortura. Se você conhecesse a peça me entenderia. Até na Finlândia tacariam um saco de lixo. Quando me despedi falando “boas férias” ela retrucou “ta, mas anda logo e fecha a porta”. Uma coisa fofa dessas que dá vontade de apertar a bochecha. E arrancar o siso no percurso.

Outra coisa engraçada de São Paulo são as passeatas na Avenida Paulista. Todo dia tem uma. Parece sorteio de programa de auditório. Vai alguém lá, enfia a mão no chapéu e sorteia um tema. Tem fora Serra, fora Lula, fora Sarney, fora Chavez, fora Bush, fora terráqueos. Viva a Independência de Saturno. Direitos iguais para os poodles. Passeata para todos os gostos, com todas as trilhas sonoras e sempre com meia dúzia de pingados. Se bobear tem gente que ganha a vida assim, participando de passeata. Trinta reais a hora, só para ver se enche.

Mas nem só de passeata vive a Paulista. No Natal há uma espécie de tour dentro de um trenzinho para ver os enfeites que os grandes prédios e bancos armam na calçada. É um tour de hora marcada para você ouvir as músicas e ver as apresentações automáticas dos robôs mega zords barbudos e sorridentes que fazem hohoho. Se o Anthony Burgess tivesse pensado nisso, o final de Laranja Mecânica seria diferente. Lobotomia avançadíssima.

Quando não tem música de Natal nem passeata, quem gosta de andar para lá e para cá sou eu. O bom de andar numa avenida é que você não tem ponto de chegada. É só ir, cansar, voltar e tomar sorvete e chamar isso de programa. Não tem praia de um lado nem favela do outro, mas ainda assim vale o passeio.

Quem sabe não vem um Histórias da Noite Paulistana por aí?

15. Lucas Moginie Talk Show I

Lucas, meu nome é Sandro, sou seu fã e assisto seu programa todos os dias no intervalo do canal pornô de assinatura. Faz uns 10 anos tenho uma caspa horrível que não consigo tratar, fico envergonhado. Você tem alguma sugestão?

Meu caro Sandro, antes de tudo, obrigado pela audiência. O canal pornô anda caído, não? O seu problema é muito simples. Deixe um boné no armário com cinco pedras de naftalina em cima. Quando for sair, coloque o boné e use camisas claras. A naftalina não diminui a caspa, mas como ninguém vai chegar perto de você, o antrax vai passar despercebido. Você sabe, não? O que os olhos não vêem…
(aplauses)

Lucas, sou Sueli da Costa e não me conformo com o fato de você ter roubado a vaga da Marcia Goldsmith. Mas como só tem tu, quero tirar uma dúvida. Ontem minhas amigas disseram que para deixar de ser virgem é preciso dar três vezes. Isso é verdade?

Sueli. Da Costa ou da frente, deu uma já era. Inclusive manda um beijo pra sua vizinha e diz que ela esqueceu o celular aqui em casa. Provavelmente ela se confundiu com uma piada antiga sobre o sexo masculino que não vem ao caso. Aliás, me tira uma dúvida, você é um travesti, Sueli? Foi só pra rimar, viu. Boa sorte na noitada.
(aplauses)

Lucas, eu já afoguei Santo Antônio, esfreguei mamão macho na calcinha, roubei a cueca do pretendente no varal e molhei com leite de cabrita, e até agora nada. Você tem uma simpatia dessas bem boas, bem arretadas para eu conseguir um namorado?

Olha, anônima, dá próxima vez seja educada e diga seu nome, combinado? Se eu fosse Santo Antônio pós-afogamento o único homem da tua vida seria o coveiro. Mas vou te dar uma dica, tem uma mãe de santo aqui perto de casa que traz a pessoa amada em três dias. Se ela não der jeito te passo o telefone de um garoto de programa porreta que atendeu todas as minhas tias encalhadas e triplicou a minha herança.

Uma última dica, lave a calcinha com o mamão, ok? Vai que dá formiga, e aí já era a pessoa amada e o resto também.

(risos)
(aplauses)

E agora uma pergunta por e-mail, que eu sou chique e tenho laptop no programa.

Lucas, me chamo Eduardo, tenho 17 anos, sou católico e virgem. Minha namorado não quer me masturbar porque tem medo de engravidar se cair esperma na sua mão. O que eu digo para ela?

Oi, Eduardo. É sempre bom ter gente nova por aqui. Em primeiro lugar “na minha mão” não, na dela, por favor, que ainda não me convidaram pro ménage. Em segundo lugar ou é minha ou é namorado! Foi erro de digitação ou o quê? Hum? Bem, o medo dela tem fundamento sim. Como você só sabe se masturbar onde acha que ela vai enfiar a mão depois? Engravidar do próprio dedo seria muito triste. Vê se cresce, aparece, trepa logo e manda a tua namorada arrumar alguém melhorzinho.

Mas não é só isso, Eduardo! Pela pior pergunta da noite você acaba de ganhar um tênis montreal, um pacote de camisinha total flex e um mês de assinatura da revista Tricô! Afinal, precisa fortalecer a outra mão também, não é? Cuidado com as agulhas!

(aplauses)
(more aplauses)

É isso, pessoal. Espero ter esclarecido essas dúvidas tão pertinentes e tornado a vida de vocês um pouco melhor. Até o próximo programa.

14. As formigas querem dominar o mundo

Os mosquitos que se preparem.
Algum pesquisador, que um dia foi chamado de louco como eu, conseguiu provar que as formigas podem transmitir conhecimento. Sabe aquela fila de formiguinhas na sua parede? É treinamento militar descarado. A formiga tenente passeia com a formiga cabo por toda a sua casa falando sobre os seus horários, onde você dorme, quando está mais vulnerável, quando está de cueca e meia lavando louça e aproveita para exercitar as pernas, que, caso não tenha percebido, ela tem mais do que você. A tropa é mais numerosa e mais preparada do que a nossa, estamos em desvantagem. Fora a disciplina.

Dizem que a formiga é tão disciplinada que jamais aperta o snooze do despertador, a mãe nunca precisa chamar para jantar e seu quarto é todo arrumadinho, com gavetas separadas para o mofo, o açúcar e os restos orgânicos.

A conversa sobre Rainha é pura enganação. As formigas optaram pelo parlamentarismo. Se alguém quiser te convencer de que só há uma formiga capaz de se reproduzir, atenção, esse alguém pode ser um formigueiro disfarçado. Vi isso na TV, em um especial do Horror Movies Discovery Geographic – a verdade por trás do mito.

As formigas começam andando pelas suas pernas, fingem estar sempre perdidas em um prato ou copo, e você só mandando formiga para dentro. Quando vai dar a primeira mordida ela salta agilmente e se prende na campainha (sabe aquela cosquinha que você julgou ser a casca da lentinha? errou!).

Se um dia você olhar para a esquerda e os olhos virarem para a direita, cuidado! Já está sendo dominado.
Outro dia cheguei bêbado em casa, fui dormir no quarto e acordei na sala. Fiquei com aquilo na cabeça um bom tempo, preocupado pensando em tudo o que eu poderia ter feito sem me lembrar, ainda mais bêbado. Pois hoje sei que foram elas, uma divisão inteira de formigas me levou para sala para explorar o quarto e não teve tempo de me devolver, já que as surpreendi acordando mais cedo para enjoar até as tripas no banheiro!! Boa tática, boa tática, Lucas Moginie.

E eu achando que a empregada estava comendo as Nhá Bentas. Formigas descaradas. Devem ter pego para alguma festinha em particular. Quem sabe qual outro inseto não anda se reunindo com essas víboras? Bem que achei as aranhas do corredor meio estranhas.

Pensava sobre o meu dilema formigas inteligentes/neurose de quinto grau assistindo MTV quando percebi umas formigas na TV. Como um felino mambembe peguei a minha lupa de última geração e as surpreendi por trás. Com meu olho ampliado 100.000 vezes vi cinco delas montando uma coreografia de lambada e outras cinco tendo aulas de ginástica localizada. Entrei em desespero, espirrei meu desodorante axe (que é pior que raid protector) acabando com a farra e corri para o blog.

Precisava desabafar.

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Esse texto do Lucas é tão antigo que vocês nem fazem idéia. O mais engraçado, e não resisti em comentar, é que eu realmente uso o Axe para matar insetos hoje em dia! Inclusive cochonilha nas plantas da sala. Será que absorvi as neuroses do Lucas sem perceber?