<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Eric Novello &#187; o diário secreto de Lucas Moginie</title>
	<atom:link href="http://ericnovello.com.br/category/textos-online/o-diario-secreto-de-lucas-moginie/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>http://ericnovello.com.br</link>
	<description>Escritor, tradutor e roteirista.</description>
	<lastBuildDate>Fri, 30 Jul 2010 03:22:09 +0000</lastBuildDate>
	<language>en</language>
	<sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency>
	<generator>http://wordpress.org/?v=3.0.1</generator>
		<item>
		<title>19. O azar é meu amigo</title>
		<link>http://ericnovello.com.br/19-o-azar-e-meu-amigo/</link>
		<comments>http://ericnovello.com.br/19-o-azar-e-meu-amigo/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 07 Jan 2010 02:19:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
				<category><![CDATA[o diário secreto de Lucas Moginie]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://ericnovello.com.br/?p=11311</guid>
		<description><![CDATA[Quando a sorte bateu na minha porta num dia de domingo eu gritei “já disse que não quero comprar enciclopédia nenhuma, cacete”, e ela nunca mais voltou. Só me dei conta do ocorrido dois dias depois quando a porta deu cupim. Sabe aqueles seres voadores que todo mundo acha uma graça e chama de bichinho [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Quando a sorte bateu na minha porta num dia de domingo eu gritei “já disse que não quero comprar enciclopédia nenhuma, cacete”, e ela nunca mais voltou. Só me dei conta do ocorrido dois dias depois quando a porta deu cupim. Sabe aqueles seres voadores que todo mundo acha uma graça e chama de bichinho de luz? Bichinho de luz seria se nascesse dentro da lâmpada ou surgisse ao riscar o fósforo. Esses nascem mesmo na madeira que, diga-se de passagem, eles comem, digerem e botam para fora. É uma espécie de arte contemporânea só que com mais significado.</p>
<p style="text-align: justify;">Chamei um especialista e ele me disse para ficar despreocupado, que o cupim de madeira seca não passa para outras madeiras. Só come aquela até acabar e depois a colônia morre. Claro, claro. E como esse veio parar aqui então? Esse não, essa, ele me corrigiu. As fêmeas voam quando adultas procurando um novo lar. Que bonito, um novo lar. Você podia ser político, meu velho. A sorte, ele disse, é que elas são como espermatozóides, só uma acerta o caminho. Provido da imagem desagradável que associava meus lindos espermatozóides a insetos voadores e a fechadura da porta a&#8230; deixa pra lá&#8230; só não desmaiei porque outra percepção me desestabilizou.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando atentei à palavra sorte tremi dos pés à cabeça e entendi que naquele dia não era o gorducho de bigode que batia à minha porta. Era ela.</p>
<p style="text-align: justify;">Muita gente atribui tudo ao Azar, mas esquece que a sorte também levanta de pé esquerdo. Quer ver a sorte se enfurecer é ela sair toda arrumadinha para o trabalho e um carro jogar água suja na sua roupa. Um segundo depois está todo mundo sofrendo o mesmo. Se ela sonhar que a Virgem de Guadalupe está cantando um Axé então, preparem seus guarda-chuvas porque os pombos vão estar incontroláveis. Nada de exagero. É que a sorte veste branco, e poça de chuva enlameada mancha. A sorte é prática, meu caro.</p>
<p style="text-align: justify;">No dia em que a desprezei, porém, ela decidiu fazer o mesmo para o resto da minha vida.</p>
<p style="text-align: justify;">Nem preciso relatar que naquele mês tive que andar de metrô no horário do rush, o Dan Brown lançou outro livro, descobri que o Tom Hanks ia fazer o filme com a Audrey Tautou, uma velhinha recitou metade de um livro de auto-ajuda dizendo que eu estava com a energia ruim, um ogro não parou de falar durante a exibição do cinema, sujei meu único par de tênis em sabe-se lá o que, pisei em um chiclete de tutti-fruti e comi a famosa minhoca da goiaba.</p>
<p style="text-align: justify;">Sentei-me à mesa decidido a escrever uma carta para a sorte, desculpando-me pelos maus tratos. Começava a contar o dinheiro para as flores (a sorte gosta de margaridas), quando a campainha tocou. Tremi de novo. Fui devagarzinho até a porta, espiei pelo olho mágico e vi um senhor, por volta de 50 anos, magro, ossudo, vestindo um terno preto que chegava a brilhar.</p>
<p style="text-align: justify;">Pensei em não abrir a porta, vai que é assalto, mas não quis cometer o mesmo erro duas vezes.</p>
<p style="text-align: justify;">- Sorte? &#8211; perguntei desconfiado.<br />
 &#8211; Azar, posso entrar?<br />
 O Azar não me pediu nada além de um café. Bebericou, desenrolou um jornal, experimentou a dureza do meu sofá e disse sem pestanejar:<br />
 &#8211; A Sorte morreu.<br />
 &#8211; O quê?</p>
<p style="text-align: justify;">- Veio aqui falar com você, ouviu o grito de um vizinho doido que a tinha xingado uma semana antes, achou que não tinha ninguém em casa e foi embora. Decidiu entrar numa cafeteria para beliscar alguma coisa, uma senhora tropeçou no salto, caiu de cara em uma torta de morango e morreu de diabetes. A Sorte ficou deprimida. Como alguém podia morrer por mero acaso diante dela? Foi demais, sabe. Ela andava meio esgotada dos nervos. Diziam por aí que estava uma pilha de estresse, viciada em tranqüilizantes e leite condensado. Num gesto rápido, enganando o garçom, ela pegou uma coxinha gordurosa e engoliu, de uma só vez, para ver se driblava o destino e fazia graça. Mas a coxinha era de enfeite, cera pintada, uma puta falta de sorte. Morreu entalada, caída em cima da velhinha, cada uma com sua respectiva bunda virada para um lado diferente.</p>
<p style="text-align: justify;">- Não sei o que dizer.<br />
 &#8211; Então não diga. Não é todo dia que a Sorte tem um azar como esse.<br />
 &#8211; E o que você quer de mim?<br />
 &#8211; Vim te dar os parabéns. A Sorte nunca soube que era você, mas eu sei muito bem quem deu aquele grito.<br />
 &#8211; Mas e tudo aquilo que aconteceu comigo? O pombo? O cachorro? O cupim? O chiclete? A vizinha que ouve ópera? Os correios? Cheguei a achar uma pedra no meu arroz. E achei com os dentes postiços. <br />
 &#8211; Coincidência. Culpa. Vai saber. A vida é cheia de mistérios. Só vim te dar a notícia.    <br />
 Até outro dia.</p>
<p style="text-align: justify;">- Mas e você? Não vai me pedir nada? Exigir algo em troca para me devolver a… &#8211; calei-me pesaroso.<br />
 &#8211; A mim basta um bom café.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele levantou, esticou os braços para o alto até o pescoço estalar. No caminho para o corredor passou a mão na porta e todos os cupins caíram secos, com as boquinhas abertas e retorcidas. Contágio por um fungo raríssimo que produz toxinas de ação imediata. Ouvi um grito da vizinha também. Soube depois que o aparelho de som deu um curto e ejetou o cd de ópera com tamanha velocidade que do gato só sobrou o bigode.</p>
<p style="text-align: justify;">Fechei a porta mais calmo, mas estava incrivelmente entristecido.<br />
 Além de não ter mais a sorte para culpar, descobri que o azar é meu amigo.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://ericnovello.com.br/19-o-azar-e-meu-amigo/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>6</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>18. Assim foi o Natal</title>
		<link>http://ericnovello.com.br/18-assim-foi-o-natal/</link>
		<comments>http://ericnovello.com.br/18-assim-foi-o-natal/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 24 Dec 2009 12:29:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
				<category><![CDATA[o diário secreto de Lucas Moginie]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://ericnovello.com.br/?p=11280</guid>
		<description><![CDATA[Da última vez que fiz um texto de Natal, Noé tinha resolvido sair para passear no Rio de Janeiro e alagou tudo. Sabe pobre quando sai na chuva para lavar o carro? O velhinho tinha feito o mesmo com a arca, com direito a esfregão e sabão em pó. Lavar um bando de bichos só [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Da última vez que fiz um texto de Natal, Noé tinha resolvido sair para passear no Rio de Janeiro e alagou tudo. Sabe pobre quando sai na chuva para lavar o carro? O velhinho tinha feito o mesmo com a arca, com direito a esfregão e sabão em pó. Lavar um bando de bichos só na mangueira deve dar mesmo trabalho e o coitado não tem mais idade para isso. Quem mandou escolher um casal de cada espécie e deixar os empregados de fora? Dessa vez não estou na chuva do Rio, mas no calor de São Paulo. Parece um universo paralelo, falando assim. Aqui está um bafo de dragão. Deve ter ficado algum empalado nas antenas da Av. Paulista com a respiração ofegante. Se eu sair sem camisa é capaz de ser vendido como presunto Pata Negra quando chegar no fim da rua. Um lance meio &#8220;assou, ta novo&#8221;. Mas hoje não é dia de reclamar, tem o tal do espírito natalino. Queria ver um médium baixar esse espírito só para poder dizer umas verdades na cara dele. Aposto que ele não passa horas no mercado apra comprar saco de cerejas e Sidra Cereser.</p>
<p style="text-align: justify;">Você deve estar pensando &#8220;que pessoa normal está acordada numa véspera de natal escrevendo no blog?&#8221; Bem, surpresa!, eu não sou normal. Se você frequenta o blog há algum tempo já deve saber disso. Se não frequenta, resolveu começar justo hoje por quê? Vá visitar a sua avó e comer tremoços. Para piorar, eu também não bebo. Então, enquanto as pessoas normais estarão de ressaca, com um bafo de vinho que espanta até zumbi, a barriga cheia de rabanada e bolinho de bacalhau, eu tenho que inventar o que fazer para o tempo passar, e só me resta escrever e ouvir REM, a opção depressiva mais próxima dos meus dedos.</p>
<p style="text-align: justify;">Se eu gosto pelo menos do Papai Noel? Nem me fale nele. O velho parou aqui em casa duas da manhã, assaltou a geladeira, ainda me pediu dinheiro emprestado para pagar a última prestação do trenó. Curiosamente, não acho meu cartão de crédito desde então. O velho estava tão bêbado que saiu daqui e bateu de cara em uma chaminé. E olha que achar chaminé em São Paulo é complicado! Tiveram que chamar um guincho para dar jeito na coisa. Tem uma rena presa em um fio de alta tensão aqui perto até agora tomando choque. Você não imagina como uma rena pode berrar durante a madrugada. Isso sem falar no cheiro de churrasquinho. Acho que jogaram vinagrete em cima. O velho barbudo deu um olé nos bombeiros e sumiu sem deixar vestígios. A carteira de motorista espacial era falsa.</p>
<p style="text-align: justify;">A última vez que viram o tal do coroa foi em uma boate junto com o Maradona. Estava enrolando tanto a língua que mandou cada uma comprar o seu presente e colocar na conta. Na minha conta! É muito mau humor. E nem é por causa do tal do consumismo que o Papa Nazi reclamou. Porque se as pessoas consumissem e me dessem presente estava ótimo. Mas é que eu moro em uma espécie de réplica do inferno. E para meu desespero, além das górgonas berrando e dos centauros dando patadas  também se comemora NATAL! Pior ainda é ter que comprar presentes para eles e só receber chamuscada de labaredas e perfume de enxofre. O último panetone que teve aqui foi um tal de Marcelo Panetone que São Pedro mandou descer por ter feito hóstia com o pão que o diabo amassou.</p>
<p style="text-align: justify;">World Sucks! And Word sucks too! O meu acabou de travar, por isso vou encurtar o texto. Mas é Natal. E daí que o mundo está em guerra, que o Brasil é um hospício a céu aberto e que tudo de ruim que já existia continuará existindo, independente do sotaque. Hoje é o dia da utopia, hoje é o dia de alterar os sentidos mesmo sem beber. É dia de fingir que o mundo é perfeito, que a sua vida é uma maravilha, que a sua vizinha é gostosa e que a família é unida pra cara!ho, mesmo que amanhã você esteja na varanda falando mal de todo mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">Ho Ho Hic! Pior é pensar no Ano Novo e no Carnaval.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://ericnovello.com.br/18-assim-foi-o-natal/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>3</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>17. O pombo se danou</title>
		<link>http://ericnovello.com.br/17-o-pombo-se-danou/</link>
		<comments>http://ericnovello.com.br/17-o-pombo-se-danou/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 15 Nov 2009 03:03:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
				<category><![CDATA[o diário secreto de Lucas Moginie]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://ericnovello.com.br/?p=11117</guid>
		<description><![CDATA[Hoje vi um pombo ser atropelado. Fiquei na dúvida se era um bom ou mau sinal. Optei pelo bom. Já vi um pombo atropelado antes e também imaginei o atropelamento de um pombo, mas nunca tinha testemunhado o ato em si. E eu estava do lado dele, pdv da vítima, não do motorista. A culpa [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Hoje vi um pombo ser atropelado. Fiquei na dúvida se era um bom ou mau sinal. Optei pelo bom. Já vi um pombo atropelado antes e também imaginei o atropelamento de um pombo, mas nunca tinha testemunhado o ato em si. E eu estava do lado dele, pdv da vítima, não do motorista.</p>
<p style="text-align: justify;">A culpa foi do pombo, coitado. Atravessou com o sinal aberto. A faixa de pedestre foi feita para fazer todo mundo andar na linha. O pombo andou, acreditou, ferrou-se. <br />
 Foi assim, vários pombos na calçada voaram para o meio da rua com o sinal aberto, carros passando, todos eles perceberam a mancada e interromperam o pouso, voaram um pouco mais e pararam na outra calçada. Esse pombo não; desceu e ficou na dele esperando. Talvez eu tenha sido testemunha de um suicídio de pombo. Ou talvez o pombo não enxergasse muito bem, achou que estava na praia de Copacabana e que o carro era uma chuva de pipoca.</p>
<p style="text-align: justify;">Teve então o baque, ouvi o barulho. Evitei olhar, mas olhei e ele estava vivo. Uma perna quebrada. Voou para o meio fio e parou. Fiquei morrendo de nojo de ele voar em cima de mim, um pombo atropelado, e fui para o lado da moça que também fugiu com nojo do pombo. Nós dois, adultos, correndo de um pombo atropelado. Estávamos na faixa esperando o sinal fechar e o pombo se arrastou na nossa direção.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando voltei para casa ele ainda estava lá, sem dar um pio, olhando tudo com uma cara de não tem jeito. Se for corajoso vai tentar uma manobra arriscada e morrer de vez. Se resolver poupar forças para se recuperar, o mais provável é que a noite caia e um gato o coma. Também é um final nobre. Em pé na árvore é que não vai ficar.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma vez voltando de madrugada para casa vi um pombo andando e um gato atrás, sorrateiro. Foi assustador pra mim e para o pombo, divertido para o gato. Não sei se voltarei até o local para descobrir o destino do corpo. Na verdade acho que o único controle populacional de pombos se dá por atropelamentos, já que tanta gente porca joga farelos variados para eles. Mas não tenho opinião formada. Poderia dizer que odeio pombos, que gostaria de colocar chumbinho no alpiste, mas a sensação de testemunhar o ato não foi das melhores. Se outro pombo viesse me contar na hora do café, não teria sido tão estranho.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa é a pluralidade humana. Alguém que não gosta de pombos não sabe o que sentir quando um pombo morre por andar na linha. Nem todos foram feitos para andar na linha, quem nasceu para voar acaba se acidentando.</p>
<p style="text-align: justify;">E nada me tira a sensação de que ele queria estar ali.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://ericnovello.com.br/17-o-pombo-se-danou/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>5</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>16. Um Carioca em São Paulo</title>
		<link>http://ericnovello.com.br/16-um-carioca-em-sao-paulo/</link>
		<comments>http://ericnovello.com.br/16-um-carioca-em-sao-paulo/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 02 Nov 2009 13:17:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
				<category><![CDATA[o diário secreto de Lucas Moginie]]></category>
		<category><![CDATA[humor]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://ericnovello.com.br/?p=11000</guid>
		<description><![CDATA[Quando eu digo ninguém acredita, mas eu adoro essa cidade. Onde mais o esquadrão antibombas interditaria uma avenida, com direito a helicóptero, só para desarmar um pote de geléia esquecido no chão? O segurança do banco que denunciou ou ganhou o prêmio de funcionário mais atencioso do mês ou passou a vergonha do ano. Como [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Quando eu digo ninguém acredita, mas eu adoro essa cidade. Onde mais o esquadrão antibombas interditaria uma avenida, com direito a helicóptero, só para desarmar um pote de geléia esquecido no chão? O segurança do banco que denunciou ou ganhou o prêmio de funcionário mais atencioso do mês ou passou a vergonha do ano. Como se não bastasse, interditaram uma ponte na Marginal Tietê para desarmar um vidro de perfume. A coisa aqui é séria. Certo, o perfume tinha o formato de uma granada. Você puxa o pino e explode. Coisa fina. Channel nº5 fica no chinelo. Até eu me enganaria. Prêmio mau gosto total para quem inventou a tranqueira.</p>
<p style="text-align: justify;">Nos meus dois anos de convivência, conheci três tipos de paulista. O primeiro não entende como eu pude viver trinta anos no Rio de Janeiro. Como alguém pode preferir qualquer cidade do país a São Paulo, ó ceus? É aquele que acha que a dengue é só uma forma de seleção natural e que o tsunami errou de alvo. Quer um, só assim, para dar uma afogada geral abrindo espaço para a recolonização. O segundo tipo não entende o que eu vim fazer aqui. Geralmente é alguém que fica três horas preso no trânsito todos os dias, faz terapia duas vezes por semana e acha que São Paulo é a única cidade onde a chuva traz engarrafamento. Está torcendo pelo dia em que a cidade vai parar congestionada só para poder dizer “eu avisei”. O terceiro tipo não está nem aí. Cidade é cidade, tudo a mesma porcaria, quem quis mudar foi você, agora se vira. Moro aqui porque moro, amanhã posso me mudar e ninguém tem nada a ver com isso. É o tipo de paulista que sabe se divertir e curte happy hour quarta-feira.</p>
<p style="text-align: justify;">Meu choque de realidade com essa nova civilização foi estudar o Cervantes. Eu não sabia o que dizer nem como me comportar diante das criaturas míticas que falam “ô meu” de cinco em cinco minutos. Foi lá que descobri que existe uma gradação para o “ô meu”, batizada de omeuzômetro. Tem gente com o ô meu totalmente sedutor. É algo natural. As vogais saem numa cadência harmônica que encanta, de verdade. É o grau dez. Já outras têm ô meu mais fundo do poço que já ouvi. Raspa de tacho em dia de pouco movimento. É aquele ô meu de bar depois da quinta cerveja. Grau zero na lata, literalmente. Chega a doer o ouvido. Outra experiência única foi comentar que sou carioca na prova oral do espanhol e a professora começar a me descascar, ciente de que nenhum aluno são bate boca com professor em dia de prova. Ela estava indignada porque no banheiro do palácio do catete havia uma placa escrita “não lave os pés na pia”. Praia. Pé. Areia. Popular. População. Percebe? Revoltou-se também porque em Copacabana alguém atirou um saco de lixo pela janela em cima dela. Pensei em explicar que o problema não era Copa, mas ela, mas preferi preservar a minha nota e terminar logo com a tortura. Se você conhecesse a peça me entenderia. Até na Finlândia tacariam um saco de lixo. Quando me despedi falando “boas férias” ela retrucou “ta, mas anda logo e fecha a porta”. Uma coisa fofa dessas que dá vontade de apertar a bochecha. E arrancar o siso no percurso.</p>
<p style="text-align: justify;">Outra coisa engraçada de São Paulo são as passeatas na Avenida Paulista. Todo dia tem uma. Parece sorteio de programa de auditório. Vai alguém lá, enfia a mão no chapéu e sorteia um tema. Tem fora Serra, fora Lula, fora Sarney, fora Chavez, fora Bush, fora terráqueos. Viva a Independência de Saturno. Direitos iguais para os poodles. Passeata para todos os gostos, com todas as trilhas sonoras e sempre com meia dúzia de pingados. Se bobear tem gente que ganha a vida assim, participando de passeata. Trinta reais a hora, só para ver se enche.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas nem só de passeata vive a Paulista. No Natal há uma espécie de tour dentro de um trenzinho para ver os enfeites que os grandes prédios e bancos armam na calçada. É um tour de hora marcada para você ouvir as músicas e ver as apresentações automáticas dos robôs mega zords barbudos e sorridentes que fazem hohoho. Se o Anthony Burgess tivesse pensado nisso, o final de Laranja Mecânica seria diferente. Lobotomia avançadíssima.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando não tem música de Natal nem passeata, quem gosta de andar para lá e para cá sou eu. O bom de andar numa avenida é que você não tem ponto de chegada. É só ir, cansar, voltar e tomar sorvete e chamar isso de programa. Não tem praia de um lado nem favela do outro, mas ainda assim vale o passeio.</p>
<p style="text-align: justify;">Quem sabe não vem um <a  rel="nofollow" href="http://ericnovello.com.br/livros/" target="_blank"><strong>Histórias da Noite Paulistana</strong></a> por aí?</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://ericnovello.com.br/16-um-carioca-em-sao-paulo/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>5</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>15. Lucas Moginie Talk Show I</title>
		<link>http://ericnovello.com.br/15-lucas-moginie-talk-show-i/</link>
		<comments>http://ericnovello.com.br/15-lucas-moginie-talk-show-i/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 25 Oct 2009 03:28:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
				<category><![CDATA[o diário secreto de Lucas Moginie]]></category>
		<category><![CDATA[humor]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://ericnovello.com.br/?p=10983</guid>
		<description><![CDATA[Lucas, meu nome é Sandro, sou seu fã e assisto seu programa todos os dias no intervalo do canal pornô de assinatura. Faz uns 10 anos tenho uma caspa horrível que não consigo tratar, fico envergonhado. Você tem alguma sugestão? Meu caro Sandro, antes de tudo, obrigado pela audiência. O canal pornô anda caído, não? [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Lucas, meu nome é Sandro, sou seu fã e assisto seu programa todos os dias no intervalo do canal pornô de assinatura. Faz uns 10 anos tenho uma caspa horrível que não consigo tratar, fico envergonhado. Você tem alguma sugestão?</p>
<p style="text-align: justify;">Meu caro Sandro, antes de tudo, obrigado pela audiência. O canal pornô anda caído, não? O seu problema é muito simples. Deixe um boné no armário com cinco pedras de naftalina em cima. Quando for sair, coloque o boné e use camisas claras. A naftalina não diminui a caspa, mas como ninguém vai chegar perto de você, o antrax vai passar despercebido. Você sabe, não? O que os olhos não vêem… <br />
 (aplauses)</p>
<p style="text-align: justify;">Lucas, sou Sueli da Costa e não me conformo com o fato de você ter roubado a vaga da Marcia Goldsmith. Mas como só tem tu, quero tirar uma dúvida. Ontem minhas amigas disseram que para deixar de ser virgem é preciso dar três vezes. Isso é verdade?</p>
<p style="text-align: justify;">Sueli. Da Costa ou da frente, deu uma já era. Inclusive manda um beijo pra sua vizinha e diz que ela esqueceu o celular aqui em casa. Provavelmente ela se confundiu com uma piada antiga sobre o sexo masculino que não vem ao caso. Aliás, me tira uma dúvida, você é um travesti, Sueli? Foi só pra rimar, viu. Boa sorte na noitada. <br />
 (aplauses)</p>
<p style="text-align: justify;">Lucas, eu já afoguei Santo Antônio, esfreguei mamão macho na calcinha, roubei a cueca do pretendente no varal e molhei com leite de cabrita, e até agora nada. Você tem uma simpatia dessas bem boas, bem arretadas para eu conseguir um namorado?</p>
<p style="text-align: justify;">Olha, anônima, dá próxima vez seja educada e diga seu nome, combinado? Se eu fosse Santo Antônio pós-afogamento o único homem da tua vida seria o coveiro. Mas vou te dar uma dica, tem uma mãe de santo aqui perto de casa que traz a pessoa amada em três dias. Se ela não der jeito te passo o telefone de um garoto de programa porreta que atendeu todas as minhas tias encalhadas e triplicou a minha herança.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma última dica, lave a calcinha com o mamão, ok? Vai que dá formiga, e aí já era a pessoa amada e o resto também.</p>
<p style="text-align: justify;">(risos)<br />
 (aplauses)</p>
<p style="text-align: justify;">E agora uma pergunta por e-mail, que eu sou chique e tenho laptop no programa.</p>
<p style="text-align: justify;">Lucas, me chamo Eduardo, tenho 17 anos, sou católico e virgem. Minha namorado não quer me masturbar porque tem medo de engravidar se cair esperma na sua mão. O que eu digo para ela?</p>
<p style="text-align: justify;">Oi, Eduardo. É sempre bom ter gente nova por aqui. Em primeiro lugar “na minha mão” não, na dela, por favor, que ainda não me convidaram pro ménage. Em segundo lugar ou é minha ou é namorado! Foi erro de digitação ou o quê? Hum? Bem, o medo dela tem fundamento sim. Como você só sabe se masturbar onde acha que ela vai enfiar a mão depois? Engravidar do próprio dedo seria muito triste. Vê se cresce, aparece, trepa logo e manda a tua namorada arrumar alguém melhorzinho.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas não é só isso, Eduardo! Pela pior pergunta da noite você acaba de ganhar um tênis montreal, um pacote de camisinha total flex e um mês de assinatura da revista Tricô! Afinal, precisa fortalecer a outra mão também, não é? Cuidado com as agulhas!</p>
<p style="text-align: justify;">(aplauses)<br />
 (more aplauses)</p>
<p style="text-align: justify;">É isso, pessoal. Espero ter esclarecido essas dúvidas tão pertinentes e tornado a vida de vocês um pouco melhor. Até o próximo programa.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://ericnovello.com.br/15-lucas-moginie-talk-show-i/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>3</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>14. As formigas querem dominar o mundo</title>
		<link>http://ericnovello.com.br/as-formigas-querem-dominar-o-mundo/</link>
		<comments>http://ericnovello.com.br/as-formigas-querem-dominar-o-mundo/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 11 Oct 2009 03:56:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
				<category><![CDATA[o diário secreto de Lucas Moginie]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://ericnovello.com.br/?p=10899</guid>
		<description><![CDATA[Os mosquitos que se preparem. Algum pesquisador, que um dia foi chamado de louco como eu, conseguiu provar que as formigas podem transmitir conhecimento. Sabe aquela fila de formiguinhas na sua parede? É treinamento militar descarado. A formiga tenente passeia com a formiga cabo por toda a sua casa falando sobre os seus horários, onde [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Os mosquitos que se preparem.<br />
 Algum pesquisador, que um dia foi chamado de louco como eu, conseguiu provar que as formigas podem transmitir conhecimento. Sabe aquela fila de formiguinhas na sua parede? É treinamento militar descarado. A formiga tenente passeia com a formiga cabo por toda a sua casa falando sobre os seus horários, onde você dorme, quando está mais vulnerável, quando está de cueca e meia lavando louça e aproveita para exercitar as pernas, que, caso não tenha percebido, ela tem mais do que você. A tropa é mais numerosa e mais preparada do que a nossa, estamos em desvantagem. Fora a disciplina.</p>
<p style="text-align: justify;">Dizem que a formiga é tão disciplinada que jamais aperta o snooze do despertador, a mãe nunca precisa chamar para jantar e seu quarto é todo arrumadinho, com gavetas separadas para o mofo, o açúcar e os restos orgânicos.</p>
<p style="text-align: justify;">A conversa sobre Rainha é pura enganação. As formigas optaram pelo parlamentarismo. Se alguém quiser te convencer de que só há uma formiga capaz de se reproduzir, atenção, esse alguém pode ser um formigueiro disfarçado. Vi isso na TV, em um especial do Horror Movies Discovery Geographic &#8211; a verdade por trás do mito.</p>
<p style="text-align: justify;">As formigas começam andando pelas suas pernas, fingem estar sempre perdidas em um prato ou copo, e você só mandando formiga para dentro. Quando vai dar a primeira mordida ela salta agilmente e se prende na campainha (sabe aquela cosquinha que você julgou ser a casca da lentinha? errou!).</p>
<p style="text-align: justify;">Se um dia você olhar para a esquerda e os olhos virarem para a direita, cuidado! Já está sendo dominado.<br />
 Outro dia cheguei bêbado em casa, fui dormir no quarto e acordei na sala. Fiquei com aquilo na cabeça um bom tempo, preocupado pensando em tudo o que eu poderia ter feito sem me lembrar, ainda mais bêbado. Pois hoje sei que foram elas, uma divisão inteira de formigas me levou para sala para explorar o quarto e não teve tempo de me devolver, já que as surpreendi acordando mais cedo para enjoar até as tripas no banheiro!! Boa tática, boa tática, Lucas Moginie.</p>
<p style="text-align: justify;">E eu achando que a empregada estava comendo as Nhá Bentas. Formigas descaradas. Devem ter pego para alguma festinha em particular. Quem sabe qual outro inseto não anda se reunindo com essas víboras? Bem que achei as aranhas do corredor meio estranhas.</p>
<p style="text-align: justify;">Pensava sobre o meu dilema formigas inteligentes/neurose de quinto grau assistindo MTV quando percebi umas formigas na TV. Como um felino mambembe peguei a minha lupa de última geração e as surpreendi por trás. Com meu olho ampliado 100.000 vezes vi cinco delas montando uma coreografia de lambada e outras cinco tendo aulas de ginástica localizada. Entrei em desespero, espirrei meu desodorante axe (que é pior que raid protector) acabando com a farra e corri para o blog.</p>
<p style="text-align: justify;">Precisava desabafar.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-</p>
<p style="text-align: justify;">Esse texto do Lucas é tão antigo que vocês nem fazem idéia. O mais engraçado, e não resisti em comentar, é que eu realmente uso o Axe para matar insetos hoje em dia! Inclusive cochonilha nas plantas da sala. Será que absorvi as neuroses do Lucas sem perceber?</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://ericnovello.com.br/as-formigas-querem-dominar-o-mundo/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>2</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>13. Eu queria ser transgênico</title>
		<link>http://ericnovello.com.br/13-eu-queria-ser-transgenico/</link>
		<comments>http://ericnovello.com.br/13-eu-queria-ser-transgenico/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 04 Oct 2009 03:49:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
				<category><![CDATA[o diário secreto de Lucas Moginie]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://ericnovello.com.br/?p=10865</guid>
		<description><![CDATA[Oi, eu sou o Camelo. Esbarrei com Lucas Moginie em um bar cafona de Copacabana e agora estou aqui, contando a minha história. Mas como sou um tanto lerdo, quem vai narrar é o Lucas. Digitar com casco é um desafio, experimente escrever seu nome com o cotovelo e terá uma sensação parecida. Camelo teve [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Oi, eu sou o Camelo. Esbarrei com Lucas Moginie em um bar cafona de Copacabana e agora estou aqui, contando a minha história. Mas como sou um tanto lerdo, quem vai narrar é o Lucas. Digitar com casco é um desafio, experimente escrever seu nome com o cotovelo e terá uma sensação parecida.</p>
<p style="text-align: justify;">Camelo teve uma infância complicada por dois motivos. O primeiro era se chamar Camelo, que não era seu sobrenome, e sim o primeiro. Sua vida no colégio se resumiu a ver os amigos imitando aquele jeito linguão caído do camelo e a escutar os perversos colegas dizendo que ele daria um bom camelô. O gorducho da sala vivia perguntando como ia o primo dromedário.</p>
<p style="text-align: justify;">O segundo motivo era ouvir em casa, pelos cantos, uma palavra que não entendia muito bem. Cresceu achando que era um transgênero e toda noite se olhava no espelho imaginando quando cresceriam os peitinhos. Tinha certa decepção consigo mesmo, não sabia se brincava de carrinho ou boneca, não sabia se ficava melhor de cabelo curto ou deixava crescer, e o pior, por não saber direito o que era um transgênero, se baseava nas revistas que achava em um buraco no colchão dos pais.</p>
<p style="text-align: justify;">Com a adolescência e muitas discussões veio a importante conversa. Os pais, com os olhos marejados, abraçaram o filho e disseram: Camelo, você é transgênico.</p>
<p style="text-align: justify;">“Quer dizer que não vou ter peitinhos?”, ele respondeu de imeditado, feliz da vida.    <br />
 “Talvez tetas”, os pais cuspiram em resposta. Camelo era o resultado de uma experiência secreta do governo brasileiro e misturava centenas de fragmentos de DNA de outros animais, uma verdadeira orgia de banco genético. Ninguém sabe se o experimento foi proposital, fruto de um espirro ou sarro entre pesquisadores.</p>
<p style="text-align: justify;">Na primeira semana achou legal, sonhou que virava o homem-aranha e copulava com a Viúva Negra. Depois passou a ter pesadelos em que uma corcova nascia de suas costas, e depois outra. Num dos sonhos a corcova nasceu no lugar errado e ele não conseguiu se sentar. Ficou filosofando sobre as idéias que jogamos ao vento. Por exemplo, sua mãe dizia que gostaria de ser um pássaro, ser livre a voar. Um pássaro?</p>
<p style="text-align: justify;">Camelo se imaginou recebendo no café da manhã aquele pedaço de besouro mastigado direto do bico da mãe. Toma, meu filho, delicioso e nutritivo. Fora o intestino incontrolável. E se tivesse coceira no pé? Definitivamente não queria que seu DNA de pássaro se ativasse. Tinha alergia às penas, seu travesseiro era de silicone. Lembrou então da mosquinha de seu pai. “Eu queria ser uma mosquinha para bisbilhotar a reunião do fulano”. Claro, claro. Bisbilhotar a reunião do fulano, voar até um montinho de cocô de cachorro e depois ficar passando as patinhas na cabeça, lamber os beiços, lamber as asas e enxergar tudo como um míope, estrábico e hipermetrope ao mesmo tempo. Isso tudo com óculos no grau errado. Moscas eram nojentas. Mas Camelo continuava a sonhar com uma vida melhor. Para quem veste camisa xadrez e bermuda caqui, ser transgênico pode ser uma solução.</p>
<p style="text-align: justify;">Se um dia despertasse cavalo, pensou diante do espelho sem muitas esperanças, seria ator de filme pornô. Se despertasse barata, filosofou diante das migalhas, personagem de livro. Se acordasse morcego, viraria DJ. Se virasse cigarra, cantor de ópera. Ruim seria virar gente. <br />
 Camelo ainda não desenvolveu nenhuma característica além de fiapos perdidos na bochecha, apesar de fazer uns ruídos estranhos quando esfrega as pernas, e a língua vez por outra fugir da boca sem controle. Fora isso, é um adolescente normal e vai prestar vestibular para Veterinária no ano que vem. Quer fazer a sua tese sobre uma planta rara do pantanal. Seu pai sugeriu um teste vocacional, mas não quer forçar o filho a escolher uma direção.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://ericnovello.com.br/13-eu-queria-ser-transgenico/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>2</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>12. Cunho social</title>
		<link>http://ericnovello.com.br/12-cunho-social/</link>
		<comments>http://ericnovello.com.br/12-cunho-social/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 27 Sep 2009 03:27:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
				<category><![CDATA[o diário secreto de Lucas Moginie]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://ericnovello.com.br/?p=10841</guid>
		<description><![CDATA[Lucas Moginie não agüenta mais. Ponto. Ele não agüenta mais praticamente tudo. Ele não agüenta trânsito, prefeito que corta a verba da limpeza, vizinho que não paga condomínio. Lucas acha que o caos está estabelecido. E como é esperto, sabe que o caos é um excelente momento para se lançar candidato ao governo de São [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Lucas Moginie não agüenta mais. Ponto. Ele não agüenta mais praticamente tudo. Ele não agüenta trânsito, prefeito que corta a verba da limpeza, vizinho que não paga condomínio. Lucas acha que o caos está estabelecido. E como é esperto, sabe que o caos é um excelente momento para se lançar candidato ao governo de São Paulo sem precisar cortar a verba da merenda.</p>
<p style="text-align: justify;">(Aqui quem fala é o próprio Lucas, mas fica bem falar tudo em terceira pessoa nas campanhas eleitorais e já estou treinando. Nesse momento, inclusive, não olho para a câmera, que me filma de perfil).</p>
<p style="text-align: justify;">Veja sua primeira e única medida:<br />
 Programa Para as Pessoas Mal Comidas, vulgo PPPMC, ou 3PMC, ou P = MC3. Lucas acha que fica bem uma sigla, porque de acordo com o Bonner, os brasileiros não entendem siglas, então pode ser qualquer porcaria que vai dar no mesmo já que o seu intelecto é igual ao do Homer Simpson. Mas vamos à campanha. Como não tinha grana para gastar com os marketeiros, criei no chuveiro num dia mais animadinho:</p>
<p style="text-align: justify;">Você, minha jovem, meu senhor, com certeza foi ou conhece alguém que já foi vítima das pessoas mal comidas. As mal comidas estão se espalhando a uma velocidade assombrosa pela cidade, trazendo o caos e a desordem. As mal comidas alimentam o ciclo de violência na cidade. São como homens-bomba, estão do seu lado de jaqueta jeans e você só sabe que está em perigo quando elas explodem.</p>
<p style="text-align: justify;">Certamente você já entrou em uma padaria, pediu pão francês, perguntou se estava fresquinho e recebeu um saco cheio de pão duro. Quando foi reclamar, o tempo fechou! A mal comida ou o mal comido começou a berrar coisas como “quer melhor, faz em casa”, “quer fresco, espera até as três”. Você, puto da vida, certamente pensou que ao invés de francês tradicional ela poderia colocar a baguete no forno, mas por pura educação, finíssimo, elitizado, pagou e foi curtir seu pão duro em casa.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso não pode continuar. Não podemos sofrer por causa do excesso de hormônio alheio. Prometo choque de ordem nos mal comidos já nos primeiros três meses. Com fio desencapado e tudo.</p>
<p style="text-align: justify;">Veja as medidas: <br />
 1. Distribuição de calça jeans com zíper extra large. Para que dormir de calça jeans não seja mais problema, mas solução. Segundo dicas do meu assistente de mão cabeluda, uma costura mais grossa e felpuda também ajuda. Provavelmente serão fabricadas pela Daspu a preços populares. Depois do Vale Refeição e do vale Cultura, é a vez do Vá-sê!<br />
 2. Garotas e garotos de programa serão contratados e treinados nesse novo método assistencialista. Vai uma mãozinha? Esse é o nosso lema. Aqui não há discriminação. Praticamente um Rio, Arme-se e Desarme-se, Arme-se e Desarme-se. A taxa de desemprego cairá vertiginosamente. <br />
 3. Criação do McAN &#8211; Mal comidos anônimos. Três reuniões e o BigMac com batata frita é de graça. Servirá para que as pessoas possam trocar experiências e de preferência arrumar uma trepada rápida no fim de noite, para alegria do vizinho que não quer mais você reclamando do som alto.<br />
 4. Adesivos de alerta para carro inspirados nos broches da Herba Life. Alguns dos nossos dizeres: “Deixei de ser mal comida, pergunte-me e eu como” ou ainda “Quer trepar uma semana seguida? Eu tenho a solução”.<br />
 5. Plantações em horta comunitária de guaraná, cacau e catuaba geneticamente modificados. <br />
 6. Ovo de codorna e amendoim integrando a cesta básica de pessoas em estado crítico.<br />
 7. Programas de dicas de adolescentes sobre resoluções rápidas para um fim de noite frustrado. Venderemos luvas com texturas variadas, de couro de bezerro a pelica francesa.</p>
<p style="text-align: justify;">Tudo isso bancado pelo governo com o seu dinheiro. Sim, sim. Mas não é só isso, Sílvio. Junto com a enganação você leva um pacote de camisinhas que brilham no escuro e um tênis Montreal. <br />
 Veja o depoimento de pessoas que estão servindo de cobaia nos experimentos ilegais do McAn:</p>
<p style="text-align: justify;">“Antes, eu batia com as garrafas e copos na mesa dos clientes. Agora sou um novo homem. Depois que li o livro ‘sua mão, sua felicidade’ trato bem todo mundo e aumentei as gorjetas”.</p>
<p style="text-align: justify;">“Eu sempre reclamava do barulho da bica do vizinho. Aquela goteira era insuportável. Ele vivia reclamando do meu cachorro, o Tatuí. Hoje, nem eu nem ele reclamamos mais. Eu e o vizinho passamos a noite fazendo tanto barulho que não percebemos a goteira nem o Tatuí. Aliás, acho que o Tatuí morreu, porque tenho sentido um cheiro estranho no banheiro de empregada. Pensando bem, pode ter sido a empregada”.</p>
<p style="text-align: justify;">Não pense mais. Lucas para Governador. Nada de distribuir santinho nas esquinas. Vamos comemorar nos jogando nus na piscina do Copacaba Palace, que nu no lago do Ibirapuera com os gansos soltos é um perigo. Doe seus fundos! Venha já.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://ericnovello.com.br/12-cunho-social/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>1</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>11. Dia dos mortos é um perigo</title>
		<link>http://ericnovello.com.br/dia-dos-mortos-e-um-perigo/</link>
		<comments>http://ericnovello.com.br/dia-dos-mortos-e-um-perigo/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 20 Sep 2009 02:30:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
				<category><![CDATA[o diário secreto de Lucas Moginie]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://ericnovello.com.br/?p=10792</guid>
		<description><![CDATA[Estamos aqui reunidos, nesse momento de solidariedade para tentar a comunicação com a senhora… &#8211; Porra, filha. Não tinha um médium mais gostosinho? &#8211; Mamãe? &#8211; Não, Madre Teresa. Lógico que é tua mãe, ou você acha que alguém mais ia ter saco de vir até aqui. &#8211; Mãe! Olha as crianças… &#8211; Já tá [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Estamos aqui reunidos, nesse momento de solidariedade para tentar a comunicação com a senhora…<br />
 &#8211; Porra, filha. Não tinha um médium mais gostosinho?<br />
 &#8211; Mamãe?<br />
 &#8211; Não, Madre Teresa. Lógico que é tua mãe, ou você acha que alguém mais ia ter saco de vir até aqui.<br />
 &#8211; Mãe! Olha as crianças…<br />
 &#8211; Já tá tudo grandinho. Acha que não falam palavrão?</p>
<p><span style="font-size: 12pt; font-family: &quot;Times New Roman&quot;,&quot;serif&quot;;">- Não meus filhos.<br />
 &#8211; Pergunta para o Sandrinho do que que ele anda brincando na escola!<br />
 &#8211; Sandrinho!!<br />
 &#8211; Deixa o garoto! Você bota um médium raquítico, eu fico assim. Não consigo acomodar minha volúpia.<br />
 &#8211; Que vergonha, deus pai.<br />
 &#8211; Deus pai? Mas você é muito brega. Não fica dando uma de santinha não que eu te conheço.<br />
 &#8211; Não sou santa, só sou uma mulher de respeito.<br />
 &#8211; Mulher de respeito? Ia ser freira, vivia me recriminando, abandonou tudo para casar por dinheiro.<br />
 &#8211; O que é isso, mãe?<br />
 &#8211; Dinheiro sim. Desculpa, Alfredo, mas você já se olhou no espelho?<br />
 &#8211; Senhora!<br />
 &#8211; Filho, ninguém casaria contigo por beleza. Você parece que está do avesso e amarrotado.<br />
 &#8211; hahahaha.<br />
 &#8211; Sandrinho! Helena! Silêncio.<br />
 &#8211; Isso, desconta nas crianças. Elas não têm culpa de você chamar um médium picareta.<br />
 &#8211; Ele é muito respeitado aqui.<br />
 &#8211; Respeitado? Não fala nem com o gato dele. Se eu não quisesse descer vocês iam ficar tentando uns três dias. Ia ter papo de más influências, espíritos zombeteiros. Um pooorre. Vê se alguém vai querer descer em um sujeito que usa óculos torto no nariz? Tem gel até no ouvido! Só quem pode fazer isso é o Harry Potter, querida. Parece que não aprendeu nada comigo.<br />
 &#8211; Mamãe, você está esgotando ele. Ele está… está babando.<br />
 &#8211; Babando? Assim pode dizer que produziu alguma coisa na vida.<br />
 &#8211; Vamos nos acalmar, eu só queria…<br />
 &#8211; Saber onde eu escondi o testamento. Pois não vou contar.<br />
 &#8211; Mas o que custa? Se você não contar eu te aprisiono numa lâmpada! <br />
 &#8211; Isso é para gênio, sua burra. Eu vi Aladin duzentas vezes contigo para quê? Além do mais, passei a semana inteira ajudando alma perdida pra lá e pra cá só para poder descer e ter o gostinho de dizer: NÃO!<br />
 &#8211; Tarefas para descer?<br />
 &#8211; Sim, minha filha. Lá ninguém fica jogando gamão não, nem pode casar para não trabalhar igual você.<br />
 &#8211; Absurdo isso! É mentira, Alfredo.<br />
 &#8211; Absurdo foi perder o lançamento do novo filme do Hitchcok. Disque R para Reencarnar. Mas está valendo a pena, oh se está.<br />
 &#8211; Que decepção, mamãe. <br />
 &#8211; E você, tia Olívia. Seu decote já foi mais discreto!<br />
 &#8211; Não se meta, sua defunta.<br />
 &#8211; Defunta?<br />
 &#8211; Se achando a gostosona, já reparou que tem areia no teu bigode?<br />
 &#8211; Bigode??? Ora sua…<br />
 &#8211; Ah, é bom provar do próprio remédio. Pelo menos morta você me economiza. <br />
 &#8211; Sua biscate!<br />
 &#8211; Óooo!<br />
 &#8211; Márcio meu amigo, Paolo e Suzana não são teus filhos. Você é estéril. Quer dizer, agora você tá é impotente. Mas o amante ainda não, vê se compra um estimulante já que não pode mais pular a cerca comigo.<br />
 &#8211; Chega! Chega! Vamos fazer essa velha subir!<br />
 &#8211; Não, eu preciso saber onde está o testamento.<br />
 &#8211; Está no fundo falso da minha gaveta de calcinha.<br />
 &#8211; Sério?<br />
 &#8211; Juro!<br />
 &#8211; Obrigada, mamãe.<br />
 &#8211; Obrigada nada. Deixei tudo para a empregada.<br />
 &#8211; O quê?<br />
 &#8211; Mentira, mas a tua cara foi ótima!<br />
 &#8211; Vamos lá gente, uma corrente… força, força… <br />
 Pow!<br />
 &#8211; Que foi isso?<br />
 &#8211; A lâmpada estourou.<br />
 &#8211; Será que ela já foi?<br />
 &#8211; Acho que sim.<br />
 &#8211; Sr. médium, sr. médium?<br />
 &#8211; Quê? Ahn? Oi. O que aconteceu?<br />
 &#8211; Você conseguiu.<br />
 &#8211; É?<br />
 &#8211; É.<br />
 &#8211; Então agora todo mundo quietinho que isso é um assalto. Vai passando jóia, dinheiro e celular. Médium, rárá, vocês são muito otários mesmo.<br />
 &#8211; Eu não vou dar meu dinheiro pra esse raquítico. <br />
 Pow!<br />
 &#8211; O que houve? Ele sumiu?<br />
 &#8211; Acertei a cabeça dele com uma estátua.<br />
 &#8211; Sandrinho! Você matou o homem.<br />
 &#8211; Oba! Tem cinquenta reais na carteira. O táxi ta pago. <br />
 &#8211; Me ajuda a carregar. Vamos enterrar lá no quintal.<br />
 &#8211; Mas vai dar azar.<br />
 &#8211; A gente chama outro médium para limpar as energias.<br />
 &#8211; É! Mas nada de procurar no Google dessa vez. </span></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://ericnovello.com.br/dia-dos-mortos-e-um-perigo/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>12</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>10. Cinema Experimental</title>
		<link>http://ericnovello.com.br/cinema-experimental/</link>
		<comments>http://ericnovello.com.br/cinema-experimental/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 13 Sep 2009 12:45:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eric Novello</dc:creator>
				<category><![CDATA[o diário secreto de Lucas Moginie]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://ericnovello.com.br/?p=10746</guid>
		<description><![CDATA[Esse fim de semana passei entre cineastas. Entre cineastas e um monte de garrafas, para ser sincero. Não. Não era exposição de arte moderna, era uma festinha mesmo. Entre uma taça e outra, fui tentado com a proposta de ter um filme sobre a minha vida. Rá rá. Você nem me conhece e já querem [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Esse fim de semana passei entre cineastas. Entre cineastas e um monte de garrafas, para ser sincero. Não. Não era exposição de arte moderna, era uma festinha mesmo. Entre uma taça e outra, fui tentado com a proposta de ter um filme sobre a minha vida. Rá rá. Você nem me conhece e já querem filmar minha biografia não-autorizada. Se tem uma coisa que um bom vinho faz é aumentar o grau de aceitação das coisas. Depois da segunda garrafa você aceita tudo. Os ETs teriam mais sucesso com abduções se viessem com um sommelier. É I do pra lá, I do para cá, os mais letrados em francês, esticando bem o bico, porque quanto mais bico mais cultura (e álcool no sangue, é claro). Além do mais, não pega bem recusar um convite deste porre e deste porte.</p>
<p style="text-align: justify;">Prefiro ser discreto e guardar para mim os nomes dos responsáveis pelo convite. Por tanto os chamarei de P, J e V &#8211; o que não faz a menor diferença, já que não falarei mais deles durante o texto. Ou você acha que com uma oportunidade dessa eu ia ficar falando de terceiros?</p>
<p style="text-align: justify;">Pois eles estavam lá. Cheguei meio desconfiado, mas os sanduíches de queijo bola logo desarmaram a guarda. A rúcula separei no pratinho. Rúcula não combina com audiovisual. A armadilha estava funcionando. Papos sobre literatura começaram. Falei sobre Vigna e seu A um passo. Retrucaram com Lessons with Eisenstein, de um de seus alunos. Anotei a dica em meu caderninho, apesar de não ter idéia de como escrever o nome do cara. Escrever Eisenstein bêbado funciona melhor que teste de bafômetro. Falei um pouco sobre Dostoievsky. Detesto parecer amante de Dostoievsky, soa um tanto estranho, melhor gostar de gibizinho, mas por circunstâncias esquisitas ando lendo o tio demais. A tradução, porque russo pra mim é um urso escrito com pressa. Ainda estou ensaiando o biquinho, um idioma de cada vez.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando percebi estávamos nas adaptações. As boas e más. Cineastas gostam de dividir tudo entre os bons, os maus e os feios, você deve saber. Pintou Estorvo &#8211; o filme, não o seu vizinho de blog – inclassificável. Rolou As Horas. Papo cinéfilo que se preze passa por ele, nem que seja o garçom falando no fim da noite: vamos fechar, já passou da&#8230; Tá, essa foi péssima. Nem tive coragem de terminar a frase. Falamos de muito. Os ruins que se acham, os bons que se calam. Falamos de bobagens, um monte de coisa. E finalmente, umas três garrafas depois, me fizeram a oferta. <br />
 Um filme sobre a minha vida, sei.<br />
 Bons atores? Adoraria ajudar a escolher os atores. Profissionais? Escola de teatro? Alguns testes. Rostos novos. Terá frescor. Mais frescor. Menta no bloco de gelo. Desconhecidos! Desconhecidos e baratos, deixemos claro. Esquece a escola? Só um ator, o restante sombras na parede… vozes, isso, vozes do além… gritos, sussurros distorcidos, tudo pós-moderno… luzes vermelhas que lembram os quartinhos do vaticano… continuem… vai… só uma câmera, uma lanterna, Bruxa de Blair.</p>
<p style="text-align: justify;">Sem dinheiro para a lanterna? Acabou a pilha? Muito caro. Uma hora e vinte. Cortar a luz. Sem figurino. Todo mundo nu. <br />
 Um curta?<br />
 15 minutos?<br />
 12?<br />
 8.<br />
 Sorri. Bebi mais um gole de vinho. As garrafas sobre a mesa já custavam mais caro que o filme da minha vida. Falei de Kiarostami e me despedi, um sabor de cereja na boca.</p>
<p style="text-align: justify;">Decidimos que o filme sobre a minha vida não teria atores. Seria uma vídeo-arte filmada no escuro com o homem do Rá gritando e cenas extirpadas de vídeos da Enya projetadas de cabeça para baixo num lustre vitoriano. <br />
 Nada como descobrir que o filme da sua vida rende um curta de 8 minutos.<br />
 Logo 8.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;<br />
 Esse é um dos textos do Lucas de que mais gosto. Não está na lista dos &#8216;clássicos&#8217;, mas é um dos que melhor demonstra a proposta de brincar com a realidade, roubar coisas que vivencio e transformá-las em ficção. Alguns textos são tão loucos que o leitor, de repente, pode passar batido por essa inspiração. Mas está tudo espalhado por aí, nas esquinas da minha memória. Foi o primeiro a ser mais contido no humor, também.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://ericnovello.com.br/cinema-experimental/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>2</slash:comments>
		</item>
	</channel>
</rss>
