Category: o diário secreto de Lucas Moginie


“Luuucas! Você precisa de foco! como quer vender? Você precisa entender que o mundo mudou, somos globalizados, pense grande!! Foco, Lucas, foco foco foco! Repete comigo. Foooóco!”

Essa frase não sai da minha cabeça. Ouvi na última reunião com a editora e desde então tenho pesadelos globalizados. Sonho com personagens japonesas lésbicas imigrantes se apaixonando por padres protestantes que se convertem ao islamismo e descobrem ser grandes jogadores de futebol em um retiro no oriente médio, fazendo o gol da vitória do campeonato mundial de sei lá quê.

Outro dia, meio dormindo, imaginei encontrar uma senhora de olhos violetas que me dizia “duas semanas em primeiro lugar em saturno. As saturninas te amam”. E depois me bolinava com seus tentáculos.

Socorro. O trauma é tanto que fui procurar minha psicóloga e descobri que a falta de foco está relacionada ao medo do futuro. Mas como não ter medo do futuro com esses filmes me aterrorizando dia e noite. Sou um cara influenciável. Leio o globo terrestre. A-versão globalizada de o Globo. Sofro até hoje pensando na baba que pingou em Alien o Oitavo Passageiro. Não posso pisar em uma poça de xixi que penso: é ele!

Saiba que nunca mais fui à praia desde que vi Tubarão. Fiquei meses sem ver TV depois de Poltergeist e larguei a Yoga depois que vi a menininha de O exorcista descendo a escada de cabeça para baixo. Sei lá, não era legal. Acho que todos são ETs por causa de Men in black e toda vez que um cano estoura na rua, acho que seremos exterminados como em Guerra dos mundos. O único filme que não me assuta é O Chamado. Não posso respeitar um fantasma que se acha atendente de telemarketing e fica ligando para outros importunando “7 days… ”. Minha gerente de banco assuta bem mais do que isso, posso garantir. Boa tarde, senhor Lucas. Estamos com um título de capitalização… 7 days my ass.

Mas o futuro pode ser bem pior que os meus pesadelos. Você vai encontrar aquele amigo que não vê desde sempre e falar “350 já? O corpinho é de 240! E a voz robotrônica está um charme”.

Ele prontamente irá responder “instalei um sintetizador vocal do Darth Vader na traquéia. Ganhei de brinde quando comprei o sintetizador da Briteny Spears para a minha filha!”

Sim, porque se seremos imortais a Britney também será, meu amigo. Os estádios na lua irão lotar com apresentações da banda Apocalyps0, com entradas triunfais direto de suas naves. E, pior, as roupas douradas que eles usam estarão na moda para todos nós.

Não teremos mais ônibus. Você será assaltado no seu transportador de multineutrons e se uma mosca entrar com você, já sabe, David Cronenberg avisou. Vai ter que comprar roupas em outra rede mundial.

Esqueça identidade, será apenas leitor de digital. Tendinite certa. E o de íris. Já pensou uma epidemia de conjuntivite? Não teremos mais gripe do frango, pois ele, um ser evoluído, já fabricará seus próprios antibióticos, e poderemos criar peixes fora do aquário, levando-os para passear na coleira.

De manhã, acabou o sucrilho, você vai para o banheiro. Quando senta na privada ouve um “bom dia, sr. Lucas. Gostou do café? Posso ler o seu horóscopo?”. Muito inspirador. A quiromancia se transformando em leitura de linhas da nádega esquerda. Sua linha da vida, Sr. Lucas, é tão longa.

Mas há o lado bom. Ecologistas poderão se fundir geneticamente às espécies que defendem, estudando melhor seus modos de vida. Mulheres-pinguim, homens-lagarto de Galápagos. O exame de próstata será a laser, executado pelo ET, o Extraterrestre. Quando você pensa em laser como Amplificação de Luz por Emissão Estimulada de Radiação a coisa fica ainda mais estranha.

Ai, o futuro, a humanidade mais unida, todos no único pedaço de terra que sobreviveu à destruição do meio-ambiente… a Antártida. Será que vai existir alguma livraria por lá?

Há dois motivos para eu duvidar da teoria da evolução de Darwin. O primeiro é a existência do microorganismo unicelular pseudotrópode que habita as fendas escuras de falhas vulcânicas ricas em enxofre e de temperatura elevada na faixa pré-formada de Nova Guiné. Se a teoria funcionasse é claro que o microorganismo unicelular pseudotrópode iria habitar as fendas escuras de falhas vulcânicas ricas em enxofre e de temperatura elevada em Zurique (!) ou Las Vegas (!!). Deve haver uma fenda (…) por lá.

O segundo motivo são os mosquistos. Eu queria ver Darwin, vivinho, me explicar por que acordo toda noite com pelo menos cinco picadas pelo corpo e depois me convencer de que é para o bem da humanidade. Não é que eu não ame a natureza, só não quero que ela passe pela minha janela. É tão bonito natureza do lado de fora, passarinho, plantinha, mico. Os mosquitos devem ter acesso a bichos simpáticos no meio do mato. O gosto do sangue é parecido. Eu como folha também. Eles vêm atrás de mim de crueldade. Calma. Eu tenho uma violeta e uma samambaia no apartamento. Um amante clássico do meio ambiente.

Se ainda fossem as baratas eu entenderia. As baratas se encolhem, se enterram, nadam, cantam, dançam, representam, são resistentes aos raios gama, fazem pilates e ainda voam. Merecem uma medalha de honra ao mérito do Instituo Darwin. Mas os mosquitos. Você então me diz. Eles servem para alimentar sapos e lagartixas que por sua vez alimentam cobras que alimentam aves e lagartos. Eu te pergunto – então a mosca serve para quê?

Sei que, revoltado, espirrei meio vidro de raid em um mosquito. Era tarde e eu estava com sono, mas juro que vi o bicho levantar a patinha e perfumar o sovaco com o inseticida. Foi nesse dia até que descobri que mosquitas não raspam as axilas. Você sabe que quem morde é a mosquita e não o mosquito. O mosquito se alimenta de luz. Pertence a uma religião alternativa que ativa a glândula pineal com reza braba. Está lá, na teoria de Darwin.

O quarto ficou com um cheiro horrível e eu fui dormir na sala.
Acordei me coçando e descobri uma maravilha moderna, o repelente.
Espalhei pelo corpo inteiro. Acordei intoxicado e com picadas na mão. O maldito do mosquito mordeu a mão que usei para segurar o repelente e borrifar no corpo! Quase saio por aí espalhando que eles são seres de inteligência superior – um tipo de alienígena que não tem mais o que fazer e acha que cutucar intestino de vaca é muito chato. Sabe aquela história de “eu queria ser um mosquitinho só para ver…?” Só não faço porque eles grudam no papel pega mosca. Se fossem inteligentes não grudariam. Vai ver possuem outro alfabeto. Será que são egípcios?

De tanto experimentar incensos, boi sacrificial, repelente eletrônico, criação de aranha, fita isolante e uns apetrechos sadomaso, descobri a fórmula ideal para afastá-los: CD de FUNK evangélico.

Não tem UM mosquito que se atreva a entrar no quarto.
O problema é que eu também não durmo. Estou com uma mancha  negra embaixo dos olhos que só vendo. Pareço um gótico.
——–
Lucas Moginie é fruto da minha imaginação e não da sua. Suspenda os medicamentos. Ao persistirem os sintomas seja criativo e escolha seu próprio amigo imaginário.

A entrevista com o capeta aconteceu dentro do metrô. Ele sugeriu que ficássemos vagando entre as linhas, uma questão filosófica que não entendi muito bem. Logo de cara me surpreendeu a idade. O sujeito era novo, trinta e poucos, e em nada lembrava a figura pitoresca que eu imaginava. Roupas simples, diferente do cara cascudo e peludo dos filmes de terror.
– Como prefere que eu te chame? Capeta? Demo? Satã?
– Satã era meu pai.
– Pai? Não sabia que você tinha um pai.
– Todo mundo tem. Ou você acreditou que Maria era virgem? – aqui ele me deu um tapa no ombro e começou a rir. Um riso tímido que logo desapareceu em um engasgo – É o cigarro – justificou – Fumo demais.
– E Satã trabalhava muito?
– Meio preguiçoso. Se aposentou no último ano de governo do FHC. Estafado.
– Fez bem, essas leis mudam toda hora. Mas você não respondeu como te chamo.
– Pode me chamar de Príncipe dos Infernos. Pí, para os amigos.
– Muito prazer, Pí. Lucas Moginie, ou P.
– Conheço você. Desde pequeno, aliás, mas isso não vem ao caso. Gosto muito dos seus livros.
– Agora estou surpreso.
– Leio muito quando estou viajando. Os transportes são caóticos nos reinos inferiores. Igual aqui. Fui eu que inventei a roleta do ônibus, sabia?
– Vivendo e aprendendo. Viaja muito, Pí?
– O tempo todo. Sou muito requisitado para conselhos.
– O que veio fazer no Rio de Janeiro?
– Curtir o dia do sací. Sou muito patriótico.
– Patriótico?
– Sim, sou brasileiro.
– Que furo de reportagem!
– Se Deus é brasileiro…
– Parentesco?
– E não falam que sou neto do sujeito? Pode ser até mentira, mas todo natal chega uns presentinhos legais lá na minha gruta flamejante. Todo mundo vem com aquele papo de que foi o bom velhinho que colocou na árvore, mas já tenho uma certa idade sabe… não caio nessas histórias.
– Deve ficar muito tempo?
– Pouco. Antes do ano novo eu vou embora.
– Achei que gostasse de festa.
– Detesto multidões. Carnaval então… viajo pra serra. Gosto do clima frio.
– Pí, eu vou falar uma palavra e você fala a primeira coisa que vier em mente, pode ser?
– Claro, sem problemas.
– Cor
– Verde
– Verde? Não dá pra ter mais impacto?
– Está certo, vamos de novo.
– Cor
– Verde cadáver pútrido!
– Perfeito, você pegou o espírito.
– É o que mais faço, pegar espíritos. – e um novo tapa no ombro – Escuta, vamos parar com isso, vim aqui falar com você.
– Pois diga.
– Quero que escreva a minha biografia.
– Tão novo?
– 506 anos, meu chapa.
– Fico lisonjeado, mas não posso aceitar.
– Então vou te cobrar Direitos autorais.
– De quê?
– Dos textos do teu blogue! Capeta pra cá, capeta pra lá… pensa que não vi?
– Até você quer me explorar?
– Você explora a minha imagem e agora se faz de vítima?
– Ah, quer saber? Vai andar de metrô sozinho, filho dos infernos.
– Muito melhor que aquele teu apartamento apertado, cheio de goteira.
– Sem educação!
– Aproveitador! Eu te processo! Fui eu que inventei o advogado também!
Desci do metrô na Uruguaiana. Uma confusão de gente e barraquinhas vendendo tudo o que é tipo de contrabando e produto roubado. Vi o dono de uma loja colocando um ladrão para fora:
– não respeita mais quem trabalha?
– e você que não respeita um desempregado tentando tirar um troco.

Sentei na calçada, deprimido. O cheiro de espiga de milho entrando pelo nariz, o pé dentro de uma poça suja. O vento soprou panfletos de um novo “espaço de laser” ali por perto. Uma batida funk dominou o remix sertanejo brega que estava tocando. Resolvi descer a escada e voltar para o metrô. Se tivesse sorte, Pí ainda estaria lá.

Como eu imaginava o capeta não apareceu para responder. Banquinho especial está lá desde que o mundo é mundo, certamente o capeta – que também está aqui desde que Brasília é Brasília – faria um comentário proveitoso. Uma pena, não podermos mais confiar em ninguém. Então, lá vou eu:

Sabe aquela pessoa que estica um real para o morador de rua, finge para si mesmo que resolveu o problema da humanidade inteira e se sente tranqüilo para torrar o dinheiro no shopping depois? É uma solução barata, mas que não deixa de custar um real. Um real, meu amigo! Os tempos estão difíceis. Aposto que você se abaixa na rua para apanhar um real. Pois o banquinho especial sai de graça, é uma revolução. Afinal, você já estava lá mesmo, indo para algum lugar no fim da linha.

Com o banquinho especial você finge estar fazendo caridade e exerce todo o seu poder de julgamento, sente-se poderoso, volta aos tempos da guilhotina, das lutas de gladiadores. Quem acredita mesmo no banquinho especial não senta nem no liberado. Fica em pé apertado com os demais. Igualdade, Liberdade, Pisada no dedão e Fraternidade.

Mas sentando você pode escolher para quem vai dar o lugar, veja que interessante. Você, é você mesmo, dono da verdade absoluta e da permissão universal, decide qual dos pobres infelizes na sua frente teria a graça concedida de sentar no lugar que anteriormente foi seu. É de uma nobreza que me espanta. Posso até imaginar você sentado, um magrinho na sua frente de pernas trêmulas. Você estica a mão com polegar em riste. Os olhinhos do candidato se enchem de água e você, vromm, dá aquela virada repentina de polegar para baixo (favor imaginar uma risada malévola neste momento). Quanta decepção! Serão anos de terapia para o infeliz. Você então levanta sorridente, acerta a barra da camisa e senta de novo (outra risada).

Assim como os vírus e as bactérias, nós evoluímos rapidamente e em nosso esquema de falso poder passamos a escolher alguém para sentar em nosso lugar mesmo quando vamos descer do metrô. Não basta simplesmente sair, tirar a bunda do banco. Você antes cutuca alguém a quem queira favorecer, puxa para perto do banco e levanta. Não sei por qual razão, mas Brasília voltou aos meus pensamentos.

Outra idéia brilhante é parecer caridoso com o banco dos outros. Você já está de pé mesmo, se ferrou, acordou tarde, por isso não pode traficar banquinhos. Logo, escolhe alguém e diz: não está vendo que tem uma senhora ali de pé, levanta rapaz. Senhora, vem que o garoto vai levantar. Vamos, vamos.

Chega então clímax: senta senhora! Não te perguntei se estava cansada! Tirei o moleque do lugar e agora vou te fazer sentar o rabo aí querendo ou não!

Outro dia um cara passou mal. Desmaiou. Acordou tarde, correu, baixou pressão. Ficaram todos olhando para a minha cara, esperando que eu quebrasse o lacre e berrasse: emergência! Eu fiquei olhando para o cara desmaiado, que apoiado na parede do vagão já se levantava. Quase me bateram. Quebrei o lacre, parei a vida de todo mundo e pedi ajuda. Na estação seguinte o cara já estava bem, queria seguir viagem. Colocaram o sujeito para fora quase na porrada. Eu quis te ajudar e você não quer ser ajudado? Quer sim! Adios, seu traste.

Sartre diz que o inferno são os outros. Nelson Rodrigues que a família é o inferno de cada um. Pois eu digo a verdade: o inferno é o metrô. Sério. E não me refiro só ao metrô do Rio de Janeiro, pode ser qualquer metrô. Aposto que tem alguma religião que acha que o inferno é no metrô só por ser debaixo da terra. Tem religião pra tudo, você sabe.

O que eu sei é que se eu acreditasse em diabo a vida seria muito mais fácil. Uma gotinha de sangue como entrada, alma em três reencarnações sem juros e pronto. Dinheiro, relógio de ouro, orgias na piscina do terraço. Pensando bem, ia ser um porre no mesmo jeito. Melhor deixar o chifrudo lá no inferno. No dele, claro. Porque o meu já tá lotado.

Ao invés de fazer um pacto eu faria uma entrevista: vem cá, como é o teu inferno? Teu inferno tem família? Tem político? Tem academia? Ia ficar famoso por ser o primeiro escritor a entrevistar o demo. Vai que o cascudo é talentoso, acaba numa peça da Bia Lessa, pula para um filme do Heitor Dhalia e em um piscar de olhos está como âncora da novela das oito. Ser empresário do capeta deve dar trabalho. O cara provavelmente recebe propostas o dia inteiro. Fora que se quiser vira uma loira peituda e ainda grava um comercial de cerveja. Não ia faltar grana e o dono do contrato seria eu. É, pensando bem…

Mas é claro que para trabalhar com alguém é preciso um mínimo de afinidade. Não se pode pensar só no dinheiro. Ninguém sabe disso melhor do que o capeta. Se não fosse assim tava todo mundo no inferno. Ou você acha que foi pro céu porque mereceu? Cai na real! Foi enxotado. Não passou no teste. O Daniel de Oliveira teve que engolir papel para conseguir representar o Cazuza, você acha que é só fazer umas traquinagens e vai pro cinco estrelas da terra do enxofre? Quanta inocência. Só por isso eu já te despachava para o céu. E São Pedro que se virasse.

Para descobrir se eu e o capeta temos um mínimo de afinidade (profissional), faria a seguinte pergunta:
O que você (ou o senhor, ou o doutor, ou guri, piá, não sei se o mizinfim gosta de tratamento formal)… O que você acha do banquinho especial do metrô?

Como não acredito no dito cujo (já tinha esquecido, aposto), respondo eu no próximo texto.

Tive um sonho em que eu era uma versão de Alice, só que em vez de cair por um buraco no país das maravilhas, eu caí foi do mundo mesmo. Eu estava no sinal de trânsito fazendo um quatro para convencer um guardinha de que bêbados também tem equilíbrio quando tudo virou um borrão. Na hora eu achei que era efeito do vinho vagabundo, mas depois entendi que o problema não era comigo: o mundo estava girando rapidamente. Tinha até um zuuum assim no meu ouvido. A Terra se movia cada vez mais rápido e eu lá de quatro, quer dizer, com o quatro formado e de braços abertos. Igual a um girocóptero de pirulito dos anos oitenta, eu saí voando com o impulso e falta de gravidade. Pelo menos não parecia tão grave enquanto eu bebia, mas pelo efeito eu estava enganado.

Eu subi girando muito rápido para o meu estômago cheio de engov. Solucei assim como quem não quer nada tentando manter tudo no lugar e acabei dando de cara num satélite. Tanta coisa importante lá embaixo, as geleiras derretendo, e eu aqui. Não faz sentido, mas foi o que pensei na hora. Todo mundo tem um momento de lucidez dentro dos sonhos. Esse foi o meu, e durou pouco. Quando me dei conta não estava num satélite, mas no Hubble. Sabe aquela foto da Lua de Júpiter? Era a minha cabeça. Pode reparar que tem um sorrisinho besta mais para a esquerda.

Esse extremo contato com a realidade, infelizmente, não foi capaz de me acordar. Eu sabia que era um sonho, o calmante sabia também, mas eu continuava lá do mesmo jeito dando tchau para os ETs. Comecei a ficar preocupado. Pensei logo: já que meu eu corpóreo está babando no travesseiro, vou ter que me virar sozinho. Peguei na lataria de um ônibus espacial pirata, achei umas caixas com pílulas de proteína vegetal e me salvei. O motorista era daqueles lerdos, parava em tudo quanto é sinal, freava de repente para ajeitar a galera, mas pelo menos consegui voltar para a Terra.

Como nunca me liguei em astronomia, ainda não descobri se comprei cartão postal de marte ou de mercúrio. Maldita hora em que cancelei o curso no Planetário.

É uma daquelas perguntas de um milhão de dólares pré-crise financeira: por que as pessoas que se esforçam tanto para ter um ar cult underground não se mudam de vez para o esgoto? Antes eu sugeriria o metrô, mas com a atual superlotação e a dificuldade que eu tenho de ir de uma porta até a outra, o esgoto está de bom tamanho. O esgoto tem sombra, água e faz eco surround sound para discursos vazios, ampliando o alcance das baboseiras.

Não sei se são os níveis extremos de poluição, se é radiação ultravioleta ou se é falta de sexo mesmo, o fato é que o mundo passa por uma proliferação descontrolada desse tipo de pseudointelectualóide, chegando a níveis jamais registrados nos anais da psicanálise freudiana. Al Gore tentou até fazer um documentário, mas morreu de tédio depois das primeiras entrevistas.

Como não sou o Al Gore e, portanto, não alimento pingüim com nota de cem reais, resolvi tirar proveito desse surto de algas humanas para montar um manual de como agir em público sem danificar a sua imagem de pós-vanguardista-ubber-prego.

Dica nº1: se um autor vendeu mais de 200 cópias ele é pop demais para o seu estilo. Dê preferência aos desconhecidos da Letônia em edição carcomida de sebo. Se você for do tipo alga-cientista, faça uma análise dos mofos desenvolvidos nas últimas páginas do livro. Underground que é underground só espirra com fungos não catalogados.

Dica nº2: se o autor da Letônia for resenhado em jornal, jogue fora imediatamente. Sua fama de underground pode sofrer danos irreparáveis. Poetas construtivistas que falam catalão no sul da África são uma boa medida de recuperação neuronal.

Dica nº3: nunca diga que trabalha em uma mesa de computador ou escrivaninha. Batize o espaço místico onde seu ID supera a inconstância da pós-contemporaneidade de bureau criativo.

Dicas nº4: não ouça artistas famosos. Eles merecem seu ódio. Solte rugidos ao ouvir Madonna ou qualquer outro artista que já tenha cometido o pecado capital de tocar na rádio. Fale mal constantemente de todos eles… em público. É falando mal que uma criatura cult underground constrói sua legião de seguidores.

Dicas nº5: não elogie os grupos que você curte. Quanto menos divulgado e relevante, melhor para seu currículo blasé. Só cite-os em contraponto a outros artistas que ninguém jamais ouviu falar. Dizer que um desconhecido é modinha dará arrepios nos seus concorrentes.

Dicas nº6: quando for falar em público, coma antes buchada com pimenta. Sua cara de nojo será entendida como intelecto e imitada. Para prolongar os efeitos, troque o papel higiênico por lixa granulação 36. Sérios riscos de indicação ao Jabuti.

Que a vida é uma merda todo mundo já sabe, não preciso de taróloga, astróloga ou twitteróloga para me contar algo assim. Para ser sincero, nunca fui muito de brincar com especialistas em futorologia. Na única visita que fiz a uma cartomante ela falou tudo sobre a minha vida. Sabia mais de mim do que a Receita Federal. Disse de onde eu vinha, para onde iria, o nome dos meus pais, meu endereço, cor preferida de cueca. Disse até que eu estava sem cueca, mas isso pode ter sido por causa da calça escorregando.O importante é  que gelei. Sabe quando você pensa: cartomante? hummm… psicopata? humm… chamo a policia ou pago o  dobro? Foi mais ou menos assim.

Depois de me impressionar com os super poderes, me esticou um livro e pediu um autógrafo. Disse que era fã e que lia o blog todo dia. Que como ninguém ia na porra da barraca (nesses termos chulos, a mulher) e ela não agüentava mais cheirar incenso, tinha levado um livro para passar as horas porque o celular que passa clipes estava quebrado.

Vidente coisa nenhuma, somente bem informada. Aposto que a bola de cristal usava Firefox com as abinhas  abertas no Google e na Wikipedia.

Como o mundo dá voltas, depois de cinco minutos (volta de ansioso é assim mais rápida), minha fé retornou. Está certo, não foi a Virgem Santíssima do Veja Multiuso que apareceu no vidro da janela, o Michael Jackson também não apareceu na minha forma engordurada e as formigas do meu quintal não esburacam as folhas do pé de romã desenhando o menino Jesus. (Mesmo que desenhassem iam tomar era
veneno).

Foi um biscoitinho da sorte.

Sabe aquela porcaria que vem junto com a comida chinesa? Aquele troço ruim com gosto de ovo e manteiga com uma mensagem ridícula dentro? Ele mesmo. Quebrei o infeliz e tirei meu papelzinho. Descrente, esperando algo no estilo minuto de sabedoria me deparei com a seguinte frase: “Eu me dando bem, os outros que se explodam”. Sabedoria chinesa é o que há.

De curioso, tentei conhecer o autor, mas o menino da gráfica tinha sido demitido pelo chefe pelancudo. Não é preciso ser vidente para saber que esse aí arruma emprego fácil fácil.

Estive sumido, eu confesso, mas tenho uma boa justificativa. Estava envolvido em um novo relacionamento e acabei preso por acidente no hospício. Os médicos não se convenciam de jeito nenhum que eu só estava ali para visitar uma paciente. E pior que ela nem ficou maluca por minha causa, quando conheci já estava assim. A criatura era tão esquizofrênica que sozinha já dava um ménage. Eu só sabia com quem estava falando quando ela ligava para o celular, porque os números eram diferentes.

No nosso primeiro encontro Samanta jogou dois comprimidos no champanhe, mexeu com o dedão e entornou garganta abaixo. A minha primeira reação foi de inveja por ter esquecido os meus calmantes em casa, a segunda foi de intensa paixão. Por qual das personalidades eu não sei. Até hoje acho que duas delas se chamavam Samanta, o que me confundia muito. A terceira não falava comigo, então nunca soube seu nome. O máximo que consegui foi uma parede desenhada com símbolos pornográficos, um coração e um go to hell. Esse foi o nosso primeiro desentendimento, eu tinha acabado de pintar o apartamento.

Bem, após aquela mexidinha no drinque pedimos a comida e ela começou a imitar um orgasmo, o que fez metade das velhinhas do restaurante pedir o mesmo prato que ela. Depois disso, minha cara vermelha, me encarou séria e pediu que eu adivinhasse o filme. Eu não sei qual o filme que ela estava imitando, mas eu me senti no meio de Os Sonhadores de Bertolucci. Não demorou muito e um homem de terno veio falar conosco. Achei que seríamos expulsos, mas o sujeito era o dono do restaurante e nos ofereceu mais uma garrafa de champanhe por conta da casa. Perguntou se não poderíamos fingir aquele orgasmo uma vez por semana, de preferência com pratos diferentes. Eu disse que não sabia se era uma boa idéia, uma pessoa famosa, podia não pegar bem. Duas garrafas de vinho depois e eu já estava fazendo tudo de graça.

Claro que depois disso, paramos no motel. No meio do caminho tomei um tapa na cara e quase bati num poste. Samanta virou para mim e perguntou o que eu estava fazendo com outra mulher dentro do carro. Argumentei que a outra mulher era ela, mas pelo visto não importou porque apanhei de novo. Decidi ligar para o celular e provar que ela era ela mesma, mas o telefone não tocou. Comecei a imaginar se não teria trocado de Samanta na saída do restaurante. Ando tão distraído, pode acontecer com qualquer um.

Foi só um susto. Ela se acalmou, pediu desculpas e me contou que tinha múltipla personalidade. Eu disse que tudo bem, que tinha amnésia então um distúrbio compensaria o outro. Perguntei se ela ainda tinha uns comprimidos na bolsa para me emprestar. Na verdade, a bolsa era uma pequena drogaria com toda a sorte de tarja preta. Se não me engano, um deles saiu de circulação quando minha avó ganhou o primeiro dente. Precisava perguntar o nome do fornecedor.

Obviamente a note foi um fiasco. Era um beijo, um grito, um tapa, uma transa, uma confissão, uma bagunça, uma cadeira elétrica, socorro, me tira daqui. Uma das personalidades perguntou tanto da minha vida que me deixou a impressão de ter dormido com Lady Dominatrix e acordado com Freud.

Bastou uma semana para terminarmos. A culpa nem foi das personalidades, até me agradava cada hora estar com uma pessoa diferente. O problema é que Samanta, a original, parecia um pinóquio de sex shop, em tudo queria meter o nariz. Se já não gosto de uma pessoa me controlando, o que dirá dezesseis. Dezesseis até a minha última contagem.

O resto você já sabe, muito papo para convencer os médicos e os enfermeiros, duas semanas tomando sopa e usando avental azul. O bom disso tudo foi poder pegar sol no jardim, estou até mais corado. O lado ruim foi ter arrumado um novo vício. Vira e mexe me pego enfiando o dedo na tomada.

Se fosse o Lucas, já estaria fazendo gracinhas com o Introdução aí de cima. Mas vou tentar manter o alterego na garrafa enquanto explico para vocês a idéia desses textos. O diário secreto de Lucas Moginie será publicado todo domingo aqui no site, or something like that. É uma série baseada no universo do meu livro Histórias da Noite Carioca. Escrevi, obviamente, para divulgar o livro, mas o jeitão louquinho do Lucas nos contos acabou conquistando fãs à parte. Eu não sei precisar quando os primeiros contos (ou seriam crônicas?) entraram no ar, mas eles estiveram por aqui até o final de 2008 mais ou menos. Tá, eu também não sei precisar quando eles saíram do ar. Para que datas na vida de um ser humano? O importante é que o Lucas Moginie é um escritor muito porra louca que rouba histórias da vida alheia. Você tropeçou na frente dele, ele anota. Contou da tragédia familiar? Vira livro. E assim ele segue, subvertendo tudo com seu ponto de vista peculiar de quem mistura vodka com prozac e conversa com personagens e pessoas reais (existem?) da mesma maneira. Alguns textos são mais sarcásticos, outros mais non-sense, alguns deles filosóficos, acreditem se quiser, tudo depende da inspiração do momento e da história que eu (ou ele?) roubei durante a semana.

Quem acompanhou a série desde o começo, não se preocupe, de vez em quando pintarão textos novos. Mas a maioria é repeteco mesmo. Se eu releio e rio, vocês também conseguem. Vida longa e próspera a esse diário secretíssimo de Lucas Moginie.

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