13. Eu queria ser transgênico

Oi, eu sou o Camelo. Esbarrei com Lucas Moginie em um bar cafona de Copacabana e agora estou aqui, contando a minha história. Mas como sou um tanto lerdo, quem vai narrar é o Lucas. Digitar com casco é um desafio, experimente escrever seu nome com o cotovelo e terá uma sensação parecida.

Camelo teve uma infância complicada por dois motivos. O primeiro era se chamar Camelo, que não era seu sobrenome, e sim o primeiro. Sua vida no colégio se resumiu a ver os amigos imitando aquele jeito linguão caído do camelo e a escutar os perversos colegas dizendo que ele daria um bom camelô. O gorducho da sala vivia perguntando como ia o primo dromedário.

O segundo motivo era ouvir em casa, pelos cantos, uma palavra que não entendia muito bem. Cresceu achando que era um transgênero e toda noite se olhava no espelho imaginando quando cresceriam os peitinhos. Tinha certa decepção consigo mesmo, não sabia se brincava de carrinho ou boneca, não sabia se ficava melhor de cabelo curto ou deixava crescer, e o pior, por não saber direito o que era um transgênero, se baseava nas revistas que achava em um buraco no colchão dos pais.

Com a adolescência e muitas discussões veio a importante conversa. Os pais, com os olhos marejados, abraçaram o filho e disseram: Camelo, você é transgênico.

“Quer dizer que não vou ter peitinhos?”, ele respondeu de imeditado, feliz da vida.
“Talvez tetas”, os pais cuspiram em resposta. Camelo era o resultado de uma experiência secreta do governo brasileiro e misturava centenas de fragmentos de DNA de outros animais, uma verdadeira orgia de banco genético. Ninguém sabe se o experimento foi proposital, fruto de um espirro ou sarro entre pesquisadores.

Na primeira semana achou legal, sonhou que virava o homem-aranha e copulava com a Viúva Negra. Depois passou a ter pesadelos em que uma corcova nascia de suas costas, e depois outra. Num dos sonhos a corcova nasceu no lugar errado e ele não conseguiu se sentar. Ficou filosofando sobre as idéias que jogamos ao vento. Por exemplo, sua mãe dizia que gostaria de ser um pássaro, ser livre a voar. Um pássaro?

Camelo se imaginou recebendo no café da manhã aquele pedaço de besouro mastigado direto do bico da mãe. Toma, meu filho, delicioso e nutritivo. Fora o intestino incontrolável. E se tivesse coceira no pé? Definitivamente não queria que seu DNA de pássaro se ativasse. Tinha alergia às penas, seu travesseiro era de silicone. Lembrou então da mosquinha de seu pai. “Eu queria ser uma mosquinha para bisbilhotar a reunião do fulano”. Claro, claro. Bisbilhotar a reunião do fulano, voar até um montinho de cocô de cachorro e depois ficar passando as patinhas na cabeça, lamber os beiços, lamber as asas e enxergar tudo como um míope, estrábico e hipermetrope ao mesmo tempo. Isso tudo com óculos no grau errado. Moscas eram nojentas. Mas Camelo continuava a sonhar com uma vida melhor. Para quem veste camisa xadrez e bermuda caqui, ser transgênico pode ser uma solução.

Se um dia despertasse cavalo, pensou diante do espelho sem muitas esperanças, seria ator de filme pornô. Se despertasse barata, filosofou diante das migalhas, personagem de livro. Se acordasse morcego, viraria DJ. Se virasse cigarra, cantor de ópera. Ruim seria virar gente.
Camelo ainda não desenvolveu nenhuma característica além de fiapos perdidos na bochecha, apesar de fazer uns ruídos estranhos quando esfrega as pernas, e a língua vez por outra fugir da boca sem controle. Fora isso, é um adolescente normal e vai prestar vestibular para Veterinária no ano que vem. Quer fazer a sua tese sobre uma planta rara do pantanal. Seu pai sugeriu um teste vocacional, mas não quer forçar o filho a escolher uma direção.

12. Cunho social

Lucas Moginie não agüenta mais. Ponto. Ele não agüenta mais praticamente tudo. Ele não agüenta trânsito, prefeito que corta a verba da limpeza, vizinho que não paga condomínio. Lucas acha que o caos está estabelecido. E como é esperto, sabe que o caos é um excelente momento para se lançar candidato ao governo de São Paulo sem precisar cortar a verba da merenda.

(Aqui quem fala é o próprio Lucas, mas fica bem falar tudo em terceira pessoa nas campanhas eleitorais e já estou treinando. Nesse momento, inclusive, não olho para a câmera, que me filma de perfil).

Veja sua primeira e única medida:
Programa Para as Pessoas Mal Comidas, vulgo PPPMC, ou 3PMC, ou P = MC3. Lucas acha que fica bem uma sigla, porque de acordo com o Bonner, os brasileiros não entendem siglas, então pode ser qualquer porcaria que vai dar no mesmo já que o seu intelecto é igual ao do Homer Simpson. Mas vamos à campanha. Como não tinha grana para gastar com os marketeiros, criei no chuveiro num dia mais animadinho:

Você, minha jovem, meu senhor, com certeza foi ou conhece alguém que já foi vítima das pessoas mal comidas. As mal comidas estão se espalhando a uma velocidade assombrosa pela cidade, trazendo o caos e a desordem. As mal comidas alimentam o ciclo de violência na cidade. São como homens-bomba, estão do seu lado de jaqueta jeans e você só sabe que está em perigo quando elas explodem.

Certamente você já entrou em uma padaria, pediu pão francês, perguntou se estava fresquinho e recebeu um saco cheio de pão duro. Quando foi reclamar, o tempo fechou! A mal comida ou o mal comido começou a berrar coisas como “quer melhor, faz em casa”, “quer fresco, espera até as três”. Você, puto da vida, certamente pensou que ao invés de francês tradicional ela poderia colocar a baguete no forno, mas por pura educação, finíssimo, elitizado, pagou e foi curtir seu pão duro em casa.

Isso não pode continuar. Não podemos sofrer por causa do excesso de hormônio alheio. Prometo choque de ordem nos mal comidos já nos primeiros três meses. Com fio desencapado e tudo.

Veja as medidas:
1. Distribuição de calça jeans com zíper extra large. Para que dormir de calça jeans não seja mais problema, mas solução. Segundo dicas do meu assistente de mão cabeluda, uma costura mais grossa e felpuda também ajuda. Provavelmente serão fabricadas pela Daspu a preços populares. Depois do Vale Refeição e do vale Cultura, é a vez do Vá-sê!
2. Garotas e garotos de programa serão contratados e treinados nesse novo método assistencialista. Vai uma mãozinha? Esse é o nosso lema. Aqui não há discriminação. Praticamente um Rio, Arme-se e Desarme-se, Arme-se e Desarme-se. A taxa de desemprego cairá vertiginosamente.
3. Criação do McAN – Mal comidos anônimos. Três reuniões e o BigMac com batata frita é de graça. Servirá para que as pessoas possam trocar experiências e de preferência arrumar uma trepada rápida no fim de noite, para alegria do vizinho que não quer mais você reclamando do som alto.
4. Adesivos de alerta para carro inspirados nos broches da Herba Life. Alguns dos nossos dizeres: “Deixei de ser mal comida, pergunte-me e eu como” ou ainda “Quer trepar uma semana seguida? Eu tenho a solução”.
5. Plantações em horta comunitária de guaraná, cacau e catuaba geneticamente modificados.
6. Ovo de codorna e amendoim integrando a cesta básica de pessoas em estado crítico.
7. Programas de dicas de adolescentes sobre resoluções rápidas para um fim de noite frustrado. Venderemos luvas com texturas variadas, de couro de bezerro a pelica francesa.

Tudo isso bancado pelo governo com o seu dinheiro. Sim, sim. Mas não é só isso, Sílvio. Junto com a enganação você leva um pacote de camisinhas que brilham no escuro e um tênis Montreal.
Veja o depoimento de pessoas que estão servindo de cobaia nos experimentos ilegais do McAn:

“Antes, eu batia com as garrafas e copos na mesa dos clientes. Agora sou um novo homem. Depois que li o livro ‘sua mão, sua felicidade’ trato bem todo mundo e aumentei as gorjetas”.

“Eu sempre reclamava do barulho da bica do vizinho. Aquela goteira era insuportável. Ele vivia reclamando do meu cachorro, o Tatuí. Hoje, nem eu nem ele reclamamos mais. Eu e o vizinho passamos a noite fazendo tanto barulho que não percebemos a goteira nem o Tatuí. Aliás, acho que o Tatuí morreu, porque tenho sentido um cheiro estranho no banheiro de empregada. Pensando bem, pode ter sido a empregada”.

Não pense mais. Lucas para Governador. Nada de distribuir santinho nas esquinas. Vamos comemorar nos jogando nus na piscina do Copacaba Palace, que nu no lago do Ibirapuera com os gansos soltos é um perigo. Doe seus fundos! Venha já.

11. Dia dos mortos é um perigo

 

Estamos aqui reunidos, nesse momento de solidariedade para tentar a comunicação com a senhora…
- Porra, filha. Não tinha um médium mais gostosinho?
- Mamãe?
- Não, Madre Teresa. Lógico que é tua mãe, ou você acha que alguém mais ia ter saco de vir até aqui.
- Mãe! Olha as crianças…
- Já tá tudo grandinho. Acha que não falam palavrão?

- Não meus filhos.
- Pergunta para o Sandrinho do que que ele anda brincando na escola!
- Sandrinho!!
- Deixa o garoto! Você bota um médium raquítico, eu fico assim. Não consigo acomodar minha volúpia.
- Que vergonha, deus pai.
- Deus pai? Mas você é muito brega. Não fica dando uma de santinha não que eu te conheço.
- Não sou santa, só sou uma mulher de respeito.
- Mulher de respeito? Ia ser freira, vivia me recriminando, abandonou tudo para casar por dinheiro.
- O que é isso, mãe?
- Dinheiro sim. Desculpa, Alfredo, mas você já se olhou no espelho?
- Senhora!
- Filho, ninguém casaria contigo por beleza. Você parece que está do avesso e amarrotado.
- hahahaha.
- Sandrinho! Helena! Silêncio.
- Isso, desconta nas crianças. Elas não têm culpa de você chamar um médium picareta.
- Ele é muito respeitado aqui.
- Respeitado? Não fala nem com o gato dele. Se eu não quisesse descer vocês iam ficar tentando uns três dias. Ia ter papo de más influências, espíritos zombeteiros. Um pooorre. Vê se alguém vai querer descer em um sujeito que usa óculos torto no nariz? Tem gel até no ouvido! Só quem pode fazer isso é o Harry Potter, querida. Parece que não aprendeu nada comigo.
- Mamãe, você está esgotando ele. Ele está… está babando.
- Babando? Assim pode dizer que produziu alguma coisa na vida.
- Vamos nos acalmar, eu só queria…
- Saber onde eu escondi o testamento. Pois não vou contar.
- Mas o que custa? Se você não contar eu te aprisiono numa lâmpada!
- Isso é para gênio, sua burra. Eu vi Aladin duzentas vezes contigo para quê? Além do mais, passei a semana inteira ajudando alma perdida pra lá e pra cá só para poder descer e ter o gostinho de dizer: NÃO!
- Tarefas para descer?
- Sim, minha filha. Lá ninguém fica jogando gamão não, nem pode casar para não trabalhar igual você.
- Absurdo isso! É mentira, Alfredo.
- Absurdo foi perder o lançamento do novo filme do Hitchcok. Disque R para Reencarnar. Mas está valendo a pena, oh se está.
- Que decepção, mamãe.
- E você, tia Olívia. Seu decote já foi mais discreto!
- Não se meta, sua defunta.
- Defunta?
- Se achando a gostosona, já reparou que tem areia no teu bigode?
- Bigode??? Ora sua…
- Ah, é bom provar do próprio remédio. Pelo menos morta você me economiza.
- Sua biscate!
- Óooo!
- Márcio meu amigo, Paolo e Suzana não são teus filhos. Você é estéril. Quer dizer, agora você tá é impotente. Mas o amante ainda não, vê se compra um estimulante já que não pode mais pular a cerca comigo.
- Chega! Chega! Vamos fazer essa velha subir!
- Não, eu preciso saber onde está o testamento.
- Está no fundo falso da minha gaveta de calcinha.
- Sério?
- Juro!
- Obrigada, mamãe.
- Obrigada nada. Deixei tudo para a empregada.
- O quê?
- Mentira, mas a tua cara foi ótima!
- Vamos lá gente, uma corrente… força, força…
Pow!
- Que foi isso?
- A lâmpada estourou.
- Será que ela já foi?
- Acho que sim.
- Sr. médium, sr. médium?
- Quê? Ahn? Oi. O que aconteceu?
- Você conseguiu.
- É?
- É.
- Então agora todo mundo quietinho que isso é um assalto. Vai passando jóia, dinheiro e celular. Médium, rárá, vocês são muito otários mesmo.
- Eu não vou dar meu dinheiro pra esse raquítico.
Pow!
- O que houve? Ele sumiu?
- Acertei a cabeça dele com uma estátua.
- Sandrinho! Você matou o homem.
- Oba! Tem cinquenta reais na carteira. O táxi ta pago.
- Me ajuda a carregar. Vamos enterrar lá no quintal.
- Mas vai dar azar.
- A gente chama outro médium para limpar as energias.
- É! Mas nada de procurar no Google dessa vez.

10. Cinema Experimental

Esse fim de semana passei entre cineastas. Entre cineastas e um monte de garrafas, para ser sincero. Não. Não era exposição de arte moderna, era uma festinha mesmo. Entre uma taça e outra, fui tentado com a proposta de ter um filme sobre a minha vida. Rá rá. Você nem me conhece e já querem filmar minha biografia não-autorizada. Se tem uma coisa que um bom vinho faz é aumentar o grau de aceitação das coisas. Depois da segunda garrafa você aceita tudo. Os ETs teriam mais sucesso com abduções se viessem com um sommelier. É I do pra lá, I do para cá, os mais letrados em francês, esticando bem o bico, porque quanto mais bico mais cultura (e álcool no sangue, é claro). Além do mais, não pega bem recusar um convite deste porre e deste porte.

Prefiro ser discreto e guardar para mim os nomes dos responsáveis pelo convite. Por tanto os chamarei de P, J e V – o que não faz a menor diferença, já que não falarei mais deles durante o texto. Ou você acha que com uma oportunidade dessa eu ia ficar falando de terceiros?

Pois eles estavam lá. Cheguei meio desconfiado, mas os sanduíches de queijo bola logo desarmaram a guarda. A rúcula separei no pratinho. Rúcula não combina com audiovisual. A armadilha estava funcionando. Papos sobre literatura começaram. Falei sobre Vigna e seu A um passo. Retrucaram com Lessons with Eisenstein, de um de seus alunos. Anotei a dica em meu caderninho, apesar de não ter idéia de como escrever o nome do cara. Escrever Eisenstein bêbado funciona melhor que teste de bafômetro. Falei um pouco sobre Dostoievsky. Detesto parecer amante de Dostoievsky, soa um tanto estranho, melhor gostar de gibizinho, mas por circunstâncias esquisitas ando lendo o tio demais. A tradução, porque russo pra mim é um urso escrito com pressa. Ainda estou ensaiando o biquinho, um idioma de cada vez.

Quando percebi estávamos nas adaptações. As boas e más. Cineastas gostam de dividir tudo entre os bons, os maus e os feios, você deve saber. Pintou Estorvo – o filme, não o seu vizinho de blog – inclassificável. Rolou As Horas. Papo cinéfilo que se preze passa por ele, nem que seja o garçom falando no fim da noite: vamos fechar, já passou da… Tá, essa foi péssima. Nem tive coragem de terminar a frase. Falamos de muito. Os ruins que se acham, os bons que se calam. Falamos de bobagens, um monte de coisa. E finalmente, umas três garrafas depois, me fizeram a oferta.
Um filme sobre a minha vida, sei.
Bons atores? Adoraria ajudar a escolher os atores. Profissionais? Escola de teatro? Alguns testes. Rostos novos. Terá frescor. Mais frescor. Menta no bloco de gelo. Desconhecidos! Desconhecidos e baratos, deixemos claro. Esquece a escola? Só um ator, o restante sombras na parede… vozes, isso, vozes do além… gritos, sussurros distorcidos, tudo pós-moderno… luzes vermelhas que lembram os quartinhos do vaticano… continuem… vai… só uma câmera, uma lanterna, Bruxa de Blair.

Sem dinheiro para a lanterna? Acabou a pilha? Muito caro. Uma hora e vinte. Cortar a luz. Sem figurino. Todo mundo nu.
Um curta?
15 minutos?
12?
8.
Sorri. Bebi mais um gole de vinho. As garrafas sobre a mesa já custavam mais caro que o filme da minha vida. Falei de Kiarostami e me despedi, um sabor de cereja na boca.

Decidimos que o filme sobre a minha vida não teria atores. Seria uma vídeo-arte filmada no escuro com o homem do Rá gritando e cenas extirpadas de vídeos da Enya projetadas de cabeça para baixo num lustre vitoriano.
Nada como descobrir que o filme da sua vida rende um curta de 8 minutos.
Logo 8.

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Esse é um dos textos do Lucas de que mais gosto. Não está na lista dos ‘clássicos’, mas é um dos que melhor demonstra a proposta de brincar com a realidade, roubar coisas que vivencio e transformá-las em ficção. Alguns textos são tão loucos que o leitor, de repente, pode passar batido por essa inspiração. Mas está tudo espalhado por aí, nas esquinas da minha memória. Foi o primeiro a ser mais contido no humor, também.

09. Sci-Farsa

“Luuucas! Você precisa de foco! como quer vender? Você precisa entender que o mundo mudou, somos globalizados, pense grande!! Foco, Lucas, foco foco foco! Repete comigo. Foooóco!”

Essa frase não sai da minha cabeça. Ouvi na última reunião com a editora e desde então tenho pesadelos globalizados. Sonho com personagens japonesas lésbicas imigrantes se apaixonando por padres protestantes que se convertem ao islamismo e descobrem ser grandes jogadores de futebol em um retiro no oriente médio, fazendo o gol da vitória do campeonato mundial de sei lá quê.

Outro dia, meio dormindo, imaginei encontrar uma senhora de olhos violetas que me dizia “duas semanas em primeiro lugar em saturno. As saturninas te amam”. E depois me bolinava com seus tentáculos.

Socorro. O trauma é tanto que fui procurar minha psicóloga e descobri que a falta de foco está relacionada ao medo do futuro. Mas como não ter medo do futuro com esses filmes me aterrorizando dia e noite. Sou um cara influenciável. Leio o globo terrestre. A-versão globalizada de o Globo. Sofro até hoje pensando na baba que pingou em Alien o Oitavo Passageiro. Não posso pisar em uma poça de xixi que penso: é ele!

Saiba que nunca mais fui à praia desde que vi Tubarão. Fiquei meses sem ver TV depois de Poltergeist e larguei a Yoga depois que vi a menininha de O exorcista descendo a escada de cabeça para baixo. Sei lá, não era legal. Acho que todos são ETs por causa de Men in black e toda vez que um cano estoura na rua, acho que seremos exterminados como em Guerra dos mundos. O único filme que não me assuta é O Chamado. Não posso respeitar um fantasma que se acha atendente de telemarketing e fica ligando para outros importunando “7 days… ”. Minha gerente de banco assuta bem mais do que isso, posso garantir. Boa tarde, senhor Lucas. Estamos com um título de capitalização… 7 days my ass.

Mas o futuro pode ser bem pior que os meus pesadelos. Você vai encontrar aquele amigo que não vê desde sempre e falar “350 já? O corpinho é de 240! E a voz robotrônica está um charme”.

Ele prontamente irá responder “instalei um sintetizador vocal do Darth Vader na traquéia. Ganhei de brinde quando comprei o sintetizador da Briteny Spears para a minha filha!”

Sim, porque se seremos imortais a Britney também será, meu amigo. Os estádios na lua irão lotar com apresentações da banda Apocalyps0, com entradas triunfais direto de suas naves. E, pior, as roupas douradas que eles usam estarão na moda para todos nós.

Não teremos mais ônibus. Você será assaltado no seu transportador de multineutrons e se uma mosca entrar com você, já sabe, David Cronenberg avisou. Vai ter que comprar roupas em outra rede mundial.

Esqueça identidade, será apenas leitor de digital. Tendinite certa. E o de íris. Já pensou uma epidemia de conjuntivite? Não teremos mais gripe do frango, pois ele, um ser evoluído, já fabricará seus próprios antibióticos, e poderemos criar peixes fora do aquário, levando-os para passear na coleira.

De manhã, acabou o sucrilho, você vai para o banheiro. Quando senta na privada ouve um “bom dia, sr. Lucas. Gostou do café? Posso ler o seu horóscopo?”. Muito inspirador. A quiromancia se transformando em leitura de linhas da nádega esquerda. Sua linha da vida, Sr. Lucas, é tão longa.

Mas há o lado bom. Ecologistas poderão se fundir geneticamente às espécies que defendem, estudando melhor seus modos de vida. Mulheres-pinguim, homens-lagarto de Galápagos. O exame de próstata será a laser, executado pelo ET, o Extraterrestre. Quando você pensa em laser como Amplificação de Luz por Emissão Estimulada de Radiação a coisa fica ainda mais estranha.

Ai, o futuro, a humanidade mais unida, todos no único pedaço de terra que sobreviveu à destruição do meio-ambiente… a Antártida. Será que vai existir alguma livraria por lá?