Category: Textos online


22. Fantasmas na parede

Dentro do quarto, me tranco em pensamentos. Se o futuro ainda se faz distante, é para o passado que me volto, e lá nos encontramos tão fugazes quanto um arrepio. Estou desprotegido, desarmado, entregue ao último combate, contando os mortos espalhados pelo chão. Sinto ao redor dos tornozelos dedos inexistentes. Provocam cócegas e espasmos, me ajudam a descobrir que os tendões são capazes de muitas formas de contorcionismo. O corpo segue firme, mesmo quando a mente pára. Não sou um ser autotrófico, mas aprendi a sobreviver do cansaço, me alimentar da desordem que transborda sempre que tento me orientar, organizar em frascos o que não pode ser rotulado.

Um espectro passeia pela cama, me atropela, me abraça. Sinto-o dedilhando suavemente as cordas de minha anatomia, um dedo de cada vez. Envolve minha cintura, revolve meus tormentos como um instrumentista em busca de melodias que ninguém além de nós consiga ouvir. Fecho os olhos para mantê-lo vivo nas entranhas, aprisioná-lo no calor das memórias, sendo eu também prisioneiro de sua ausência. Mas ele não se contenta com o espaço reservado em meus neurônios. No sopro que chega ao ouvido, sei que me pede mais. Prefere jorrar quente por veias e artérias num vermelho vivo, fluxo contínuo, bombeado cada vez mais forte, de cima para baixo, de fora para dentro, gritando aos meus hormônios que a vaga nitidez das lembranças jamais será suficiente para defini-lo. Que os contornos que enaltece são da carne, não do espírito. Que se um dia recitar poemas, caído de joelhos em frente aos meus olhos, que sejam eles épicos, heróicos, numa ode às formas, ao fio das espadas, ao gosto da pele e ao macio dos lábios, e nunca, definitivamente nunca, à pureza filosófica das idéias.

Procuro sua sombra na parede, sua impressão em meu sofá. Entendo de uma vez como é gostoso o seu silêncio. Converso sozinho sobre a solidão da alma, e ele repete: jamais. Talvez eu seja mesmo louco, vítima de uma esquizofrenia onírica. Ou talvez seja essa a minha realidade, uma que não caiba em pré-definições nem em pós-sabedorias. Aos que me querem sóbrio, cada centímetro do que faço bem. Aos que me abocanham inebriado, o mais doce dos meus delírios.

Nem só do gozo esparramado no colchão vive um colecionador de corpos. No momento em que penetro em suas vidas, dá-se uma troca inevitável: o orgulho por um sorriso, uma memória por um orgasmo, um vazio espiritual por meus fluidos mais mundanos. E nessa troca, talvez ainda estejam aqui, todos atrás de mim, fantasmagóricos em meu quarto, esperando o momento de me devorar vivo sem saber que me oferecem deleite e não punição. Me imagino engolido e regurgitado, agarrado a seus segredos. Peço demissão a mim mesmo. Quero outra vida, uma que de tão nova ofusque a visão e me permita errar tudo outra vez. Repetiria um por um os meus erros, caprichando melhor na pasta de dente, na arrumação do sofá. Esticaria o encontro dos lábios até o infinito, de um modo que o ar que de mim exalasse a mim retornasse com a umidade de seus pulmões.

Revivendo meus delírios e infortúnios, me invade a sensação de que nem toda cicatriz é um risco na pele, uma ranhura na parede. O lobo não foge ao seu instinto. De um moleque de porta de bordel a um garoto de programa de luxo, sou quem sou. E faria Darwin enlouquecer junto comigo, se uma noite e uma dose ele me desse.

Lucas Moginie não agüenta mais. Ponto. Ele não agüenta mais praticamente tudo. Ele não agüenta trânsito, prefeito que corta a verba da limpeza, vizinho que não paga condomínio. Lucas acha que o caos está estabelecido. E como é esperto, sabe que o caos é um excelente momento para se lançar candidato ao governo de São Paulo sem precisar cortar a verba da merenda.

(Aqui quem fala é o próprio Lucas, mas fica bem falar tudo em terceira pessoa nas campanhas eleitorais e já estou treinando. Nesse momento, inclusive, não olho para a câmera, que me filma de perfil).

Veja sua primeira e única medida:
Programa Para as Pessoas Mal Comidas, vulgo PPPMC, ou 3PMC, ou P = MC3. Lucas acha que fica bem uma sigla, porque de acordo com o Bonner, os brasileiros não entendem siglas, então pode ser qualquer porcaria que vai dar no mesmo já que o seu intelecto é igual ao do Homer Simpson. Mas vamos à campanha. Como não tinha grana para gastar com os marketeiros, criei no chuveiro num dia mais animadinho:

Você, minha jovem, meu senhor, com certeza foi ou conhece alguém que já foi vítima das pessoas mal comidas. As mal comidas estão se espalhando a uma velocidade assombrosa pela cidade, trazendo o caos e a desordem. As mal comidas alimentam o ciclo de violência na cidade. São como homens-bomba, estão do seu lado de jaqueta jeans e você só sabe que está em perigo quando elas explodem.

Certamente você já entrou em uma padaria, pediu pão francês, perguntou se estava fresquinho e recebeu um saco cheio de pão duro. Quando foi reclamar, o tempo fechou! A mal comida ou o mal comido começou a berrar coisas como “quer melhor, faz em casa”, “quer fresco, espera até as três”. Você, puto da vida, certamente pensou que ao invés de francês tradicional ela poderia colocar a baguete no forno, mas por pura educação, finíssimo, elitizado, pagou e foi curtir seu pão duro em casa.

Isso não pode continuar. Não podemos sofrer por causa do excesso de hormônio alheio. Prometo choque de ordem nos mal comidos já nos primeiros três meses. Com fio desencapado e tudo.

Veja as medidas:
1. Distribuição de calça jeans com zíper extra large. Para que dormir de calça jeans não seja mais problema, mas solução. Segundo dicas do meu assistente de mão cabeluda, uma costura mais grossa e felpuda também ajuda. Provavelmente serão fabricadas pela Daspu a preços populares. Depois do Vale Refeição e do vale Cultura, é a vez do Vá-sê!
2. Garotas e garotos de programa serão contratados e treinados nesse novo método assistencialista. Vai uma mãozinha? Esse é o nosso lema. Aqui não há discriminação. Praticamente um Rio, Arme-se e Desarme-se, Arme-se e Desarme-se. A taxa de desemprego cairá vertiginosamente.
3. Criação do McAN – Mal comidos anônimos. Três reuniões e o BigMac com batata frita é de graça. Servirá para que as pessoas possam trocar experiências e de preferência arrumar uma trepada rápida no fim de noite, para alegria do vizinho que não quer mais você reclamando do som alto.
4. Adesivos de alerta para carro inspirados nos broches da Herba Life. Alguns dos nossos dizeres: “Deixei de ser mal comida, pergunte-me e eu como” ou ainda “Quer trepar uma semana seguida? Eu tenho a solução”.
5. Plantações em horta comunitária de guaraná, cacau e catuaba geneticamente modificados.
6. Ovo de codorna e amendoim integrando a cesta básica de pessoas em estado crítico.
7. Programas de dicas de adolescentes sobre resoluções rápidas para um fim de noite frustrado. Venderemos luvas com texturas variadas, de couro de bezerro a pelica francesa.

Tudo isso bancado pelo governo com o seu dinheiro. Sim, sim. Mas não é só isso, Sílvio. Junto com a enganação você leva um pacote de camisinhas que brilham no escuro e um tênis Montreal.
Veja o depoimento de pessoas que estão servindo de cobaia nos experimentos ilegais do McAn:

“Antes, eu batia com as garrafas e copos na mesa dos clientes. Agora sou um novo homem. Depois que li o livro ‘sua mão, sua felicidade’ trato bem todo mundo e aumentei as gorjetas”.

“Eu sempre reclamava do barulho da bica do vizinho. Aquela goteira era insuportável. Ele vivia reclamando do meu cachorro, o Tatuí. Hoje, nem eu nem ele reclamamos mais. Eu e o vizinho passamos a noite fazendo tanto barulho que não percebemos a goteira nem o Tatuí. Aliás, acho que o Tatuí morreu, porque tenho sentido um cheiro estranho no banheiro de empregada. Pensando bem, pode ter sido a empregada”.

Não pense mais. Lucas para Governador. Nada de distribuir santinho nas esquinas. Vamos comemorar nos jogando nus na piscina do Copacaba Palace, que nu no lago do Ibirapuera com os gansos soltos é um perigo. Doe seus fundos! Venha já.

21. Cá entre nós

Nem o DNA é tão designativo quanto o sofrimento. Diferente do caráter coletivo da felicidade, não há duas pessoas que sofram da mesma maneira. Por mais que toda lágrima seja salgada e toda dor evoque o pranto, não é do lado de fora, mas lá dentro num recanto, que mora o que se chama sofrimento. Como um garoto pálido que vê no quarto sua última barricada, e ao ser vencido mistura o choro ao conforto do chuveiro, fico eu no encontro das paredes, pernas esticadas sobre o chão, fumando o último cigarro que me resta.

De pé, Gabriel desfila as cores de sua paleta, extravasa a alegria explicando suas obras, recitando poemas criados de relance. Penso em declamar ali a minha inveja, me deitar de olhos cravados no teto buscando algo que não vá além da brancura, revirando nos neurônios o que restou de meus anos de improviso.

Mas seus movimentos me distraem, me concentram. Deixo pra lá. Alterno as pernas para fugir da câimbra, braço esticado sobre o joelho, um jeito de lembrar que estou vivo. Ele passa em frente à janela sem se preocupar com a nudez, deixa claro o quanto é livre dos outros e de si mesmo, nada mais a me provar. Recostado no parapeito como também estive um dia, fingindo aproveitar a vista para que eu possa apreciá-lo, assovia uma melodia. Naquele ângulo, é pintor e é pintura, numa moldura surrealista de Dali. Faz isso sem saber que na tentativa de reter, me dispersa. Que o sol que banha suas costas expulsa da pele os resíduos de penumbra com que eu o impregnei.

Quando volta às explicações, avisa que prefere começar pelo fim, pelos retoques, mais uma diferença entre nós. Me imagino brevemente acelerando finais, encurtando começos, alternando a ordem de todas as noites de um jeito que, no final, seja meu o sorriso a durar. Sua voz fica cada vez mais distante, a audição sucumbe aos demais sentidos, preciso de todas as forças para voltar. No meio dos borrões, não vejo nada que possa competir com o verde de seus olhos, mas não posso esnobar a arte. Concordo com a cabeça, brindando-o com meu silêncio. Ele fala em rimas sobre a perfeição, desenha no ar com os dedos aquilo que jamais poderá tocar. Respira lentamente de tristeza e por um único instante somos iguais. Mas novamente se alegra, as mãos levemente borradas com as tintas que experimenta. Pincela com palavras uma igualdade que não existe e aquilo me fere de um jeito que jamais imaginei acontecer. Para revidar, trago do fundo dos pulmões a fumaça que sopro. Deixo que me tome a garganta, deslize pela língua e escape dos lábios, numa tentativa de preencher o espaço que nos separa. Vejo as partículas dominarem a sala, sem rumo, nebulosas, minha forma de retocar um quadro que julgo perfeito. Repito o ataque até que meu cinza tenha força para invadir seu sol. Enfim, ele parece me notar.

Gabriel se agacha ao meu lado, pede que eu levante, que eu dance. Ri das minhas roupas diante de sua nudez. Sugiro o retorno para o quarto, uma manobra estratégica que afogue os sentimentos e me torne novamente a criatura dominante, no topo da cadeia alimentar. Arranco um vislumbre de língua nos dentes, olhos perfurantes, um fluxo de prazer que me arrepia a nuca. Com um riso gostoso, ele estala os ossos e se põe novamente de pé. Vai de encontro à tela e volta a pintar, alimentado pela brevidade de nosso toque.
De olhos fechados, chego a sentir a água do chuveiro, mas a parede é áspera, não quer companhia. Antes de levantar, apago o cigarro no piso fino, deixando registrada a minha existência.

Por hoje, meu único gesto obsceno.

Estamos aqui reunidos, nesse momento de solidariedade para tentar a comunicação com a senhora…
– Porra, filha. Não tinha um médium mais gostosinho?
– Mamãe?
– Não, Madre Teresa. Lógico que é tua mãe, ou você acha que alguém mais ia ter saco de vir até aqui.
– Mãe! Olha as crianças…
– Já tá tudo grandinho. Acha que não falam palavrão?

- Não meus filhos.
– Pergunta para o Sandrinho do que que ele anda brincando na escola!
– Sandrinho!!
– Deixa o garoto! Você bota um médium raquítico, eu fico assim. Não consigo acomodar minha volúpia.
– Que vergonha, deus pai.
– Deus pai? Mas você é muito brega. Não fica dando uma de santinha não que eu te conheço.
– Não sou santa, só sou uma mulher de respeito.
– Mulher de respeito? Ia ser freira, vivia me recriminando, abandonou tudo para casar por dinheiro.
– O que é isso, mãe?
– Dinheiro sim. Desculpa, Alfredo, mas você já se olhou no espelho?
– Senhora!
– Filho, ninguém casaria contigo por beleza. Você parece que está do avesso e amarrotado.
– hahahaha.
– Sandrinho! Helena! Silêncio.
– Isso, desconta nas crianças. Elas não têm culpa de você chamar um médium picareta.
– Ele é muito respeitado aqui.
– Respeitado? Não fala nem com o gato dele. Se eu não quisesse descer vocês iam ficar tentando uns três dias. Ia ter papo de más influências, espíritos zombeteiros. Um pooorre. Vê se alguém vai querer descer em um sujeito que usa óculos torto no nariz? Tem gel até no ouvido! Só quem pode fazer isso é o Harry Potter, querida. Parece que não aprendeu nada comigo.
– Mamãe, você está esgotando ele. Ele está… está babando.
– Babando? Assim pode dizer que produziu alguma coisa na vida.
– Vamos nos acalmar, eu só queria…
– Saber onde eu escondi o testamento. Pois não vou contar.
– Mas o que custa? Se você não contar eu te aprisiono numa lâmpada!
– Isso é para gênio, sua burra. Eu vi Aladin duzentas vezes contigo para quê? Além do mais, passei a semana inteira ajudando alma perdida pra lá e pra cá só para poder descer e ter o gostinho de dizer: NÃO!
– Tarefas para descer?
– Sim, minha filha. Lá ninguém fica jogando gamão não, nem pode casar para não trabalhar igual você.
– Absurdo isso! É mentira, Alfredo.
– Absurdo foi perder o lançamento do novo filme do Hitchcok. Disque R para Reencarnar. Mas está valendo a pena, oh se está.
– Que decepção, mamãe.
– E você, tia Olívia. Seu decote já foi mais discreto!
– Não se meta, sua defunta.
– Defunta?
– Se achando a gostosona, já reparou que tem areia no teu bigode?
– Bigode??? Ora sua…
– Ah, é bom provar do próprio remédio. Pelo menos morta você me economiza.
– Sua biscate!
– Óooo!
– Márcio meu amigo, Paolo e Suzana não são teus filhos. Você é estéril. Quer dizer, agora você tá é impotente. Mas o amante ainda não, vê se compra um estimulante já que não pode mais pular a cerca comigo.
– Chega! Chega! Vamos fazer essa velha subir!
– Não, eu preciso saber onde está o testamento.
– Está no fundo falso da minha gaveta de calcinha.
– Sério?
– Juro!
– Obrigada, mamãe.
– Obrigada nada. Deixei tudo para a empregada.
– O quê?
– Mentira, mas a tua cara foi ótima!
– Vamos lá gente, uma corrente… força, força…
Pow!
– Que foi isso?
– A lâmpada estourou.
– Será que ela já foi?
– Acho que sim.
– Sr. médium, sr. médium?
– Quê? Ahn? Oi. O que aconteceu?
– Você conseguiu.
– É?
– É.
– Então agora todo mundo quietinho que isso é um assalto. Vai passando jóia, dinheiro e celular. Médium, rárá, vocês são muito otários mesmo.
– Eu não vou dar meu dinheiro pra esse raquítico.
Pow!
– O que houve? Ele sumiu?
– Acertei a cabeça dele com uma estátua.
– Sandrinho! Você matou o homem.
– Oba! Tem cinquenta reais na carteira. O táxi ta pago.
– Me ajuda a carregar. Vamos enterrar lá no quintal.
– Mas vai dar azar.
– A gente chama outro médium para limpar as energias.
– É! Mas nada de procurar no Google dessa vez.

20. Fama

Chego no carro de Patrícia, entrega a domicílio, sem atrasos nem meias conversas. No caminho, uma mudez constrangedora, a opção dela pelo meu silêncio. Vou fantasiado num tecido fino que me é estranho, as roupas não se encaixam, o sapato me aperta. Sinto saudade do jeans e das malhas, das peles que descamo todas as noites no colchão. Ela toca o interfone com um ar de desprendimento, articulações que não se dobram, como se o botão não oferecesse resistência. Diga a ele que é Patrícia, e um sorriso de quem tem todas as garantias do mundo. Sigo calado sem saber o que me aguarda, cliente surpresa, um teste para minhas reações. Me atropelam imagens de entrevistas de emprego, cadeiras de couro desconfortáveis, apertos de mão suada de nervoso. E então, senhor Ícaro, posso contar com seu comprometimento? Não. Não. Eu já sou um profissional. Não importa o que esteja do outro lado. Não há mais suor que de mim escorra sem a minha aprovação.

Imagino um casal de velhinhos, uma loira de vestido recatado. A decadência com elegância que é ainda mais degradante. O senhor me oferecerá um charuto. Rirá quando eu disser que não fumo. Preciso manter a saúde. E ele rirá ainda mais. A saúde. E se lembrará de que não escondeu a pilha de remédios no criado-mudo ao lado da cama. Comprou o lençol novo, mudou a fronha, perfumou a casa e, justo os remédios, esqueceu de tirar. Sua esposa então dirá: venha comigo. Me pegará pelo pulso como se desfrutássemos de uma intimidade de décadas, como se meu corpo herdasse as curvas de meus antecessores e ela pudesse me mapear só pelo toque. Me oferecerá uma bebida, a garrafa reservado ao seu mais novo brinquedinho. E o marido voltará com um aceno leve de cabeça, está tudo bem, já escondi as caixinhas de tarja vermelha. Deixei só a tarja preta, no caso de.

- Seja educado. – É o que diz Patrícia quando as portas do elevador se abrem. Diz isso para reaquecer as cordas vocais, se preparar para um tom de voz ensaiado durante os anos de profissão. Oi, querida, como você está? Esse é meu mais novo menino.

Dessa vez seus dedos se dobram mais humanos, sua unha risca levemente o botão, me dando arrepios. O silêncio se rompe no barulho da chave que balança acompanhando um assovio gostoso. Oi, querido, como você está? E ela entra, como se eu não estivesse ali. Permaneço estático, vulnerável, surpreso. É o riso de nervoso que me desperta. Não sei se meu ou dele. Na minha frente, um jovem de cabelos azuis e infinitos olhos verdes me convida a entrar. Patrícia socializa com as garrafas, troca figurinhas com o copo de uísque. Está em casa. Comenta a pintura na parede, coisa nova, hein?

Meu encanto pelos quadros, tinta direta na parede, não me impede de notar a proximidade do pintor. No fundo dos seus olhos, vejo que temos idades próximas. Talvez o que carregue em mim de todos os corpos que desvendei me faça ter por dentro mil anos mais. Mas é a aparência que conta, meu cartão de visitas.

- Finalmente. Ícaro? Patrícia falou muito de você. Espero que não se importe com a bagunça. Os quadros acabaram de voltar da galeria. Você curte exposições?

Exposição. Nu em um museu. Os visitantes admirando no espécime sua sagrada ignorância. Patrícia não resiste à cena que armou com tanto gosto. Me traz também um copo com gelo. O aroma amadeirado confortando minhas narinas. Abraça meu o ombro com uma delicadeza que esmigalha, mostrando sem dizer palavra o quanto tenho para aprender.

- Gabriel – diz, esticando a mão. – Muito prazer.

Esse fim de semana passei entre cineastas. Entre cineastas e um monte de garrafas, para ser sincero. Não. Não era exposição de arte moderna, era uma festinha mesmo. Entre uma taça e outra, fui tentado com a proposta de ter um filme sobre a minha vida. Rá rá. Você nem me conhece e já querem filmar minha biografia não-autorizada. Se tem uma coisa que um bom vinho faz é aumentar o grau de aceitação das coisas. Depois da segunda garrafa você aceita tudo. Os ETs teriam mais sucesso com abduções se viessem com um sommelier. É I do pra lá, I do para cá, os mais letrados em francês, esticando bem o bico, porque quanto mais bico mais cultura (e álcool no sangue, é claro). Além do mais, não pega bem recusar um convite deste porre e deste porte.

Prefiro ser discreto e guardar para mim os nomes dos responsáveis pelo convite. Por tanto os chamarei de P, J e V – o que não faz a menor diferença, já que não falarei mais deles durante o texto. Ou você acha que com uma oportunidade dessa eu ia ficar falando de terceiros?

Pois eles estavam lá. Cheguei meio desconfiado, mas os sanduíches de queijo bola logo desarmaram a guarda. A rúcula separei no pratinho. Rúcula não combina com audiovisual. A armadilha estava funcionando. Papos sobre literatura começaram. Falei sobre Vigna e seu A um passo. Retrucaram com Lessons with Eisenstein, de um de seus alunos. Anotei a dica em meu caderninho, apesar de não ter idéia de como escrever o nome do cara. Escrever Eisenstein bêbado funciona melhor que teste de bafômetro. Falei um pouco sobre Dostoievsky. Detesto parecer amante de Dostoievsky, soa um tanto estranho, melhor gostar de gibizinho, mas por circunstâncias esquisitas ando lendo o tio demais. A tradução, porque russo pra mim é um urso escrito com pressa. Ainda estou ensaiando o biquinho, um idioma de cada vez.

Quando percebi estávamos nas adaptações. As boas e más. Cineastas gostam de dividir tudo entre os bons, os maus e os feios, você deve saber. Pintou Estorvo – o filme, não o seu vizinho de blog – inclassificável. Rolou As Horas. Papo cinéfilo que se preze passa por ele, nem que seja o garçom falando no fim da noite: vamos fechar, já passou da… Tá, essa foi péssima. Nem tive coragem de terminar a frase. Falamos de muito. Os ruins que se acham, os bons que se calam. Falamos de bobagens, um monte de coisa. E finalmente, umas três garrafas depois, me fizeram a oferta.
Um filme sobre a minha vida, sei.
Bons atores? Adoraria ajudar a escolher os atores. Profissionais? Escola de teatro? Alguns testes. Rostos novos. Terá frescor. Mais frescor. Menta no bloco de gelo. Desconhecidos! Desconhecidos e baratos, deixemos claro. Esquece a escola? Só um ator, o restante sombras na parede… vozes, isso, vozes do além… gritos, sussurros distorcidos, tudo pós-moderno… luzes vermelhas que lembram os quartinhos do vaticano… continuem… vai… só uma câmera, uma lanterna, Bruxa de Blair.

Sem dinheiro para a lanterna? Acabou a pilha? Muito caro. Uma hora e vinte. Cortar a luz. Sem figurino. Todo mundo nu.
Um curta?
15 minutos?
12?
8.
Sorri. Bebi mais um gole de vinho. As garrafas sobre a mesa já custavam mais caro que o filme da minha vida. Falei de Kiarostami e me despedi, um sabor de cereja na boca.

Decidimos que o filme sobre a minha vida não teria atores. Seria uma vídeo-arte filmada no escuro com o homem do Rá gritando e cenas extirpadas de vídeos da Enya projetadas de cabeça para baixo num lustre vitoriano.
Nada como descobrir que o filme da sua vida rende um curta de 8 minutos.
Logo 8.

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Esse é um dos textos do Lucas de que mais gosto. Não está na lista dos ‘clássicos’, mas é um dos que melhor demonstra a proposta de brincar com a realidade, roubar coisas que vivencio e transformá-las em ficção. Alguns textos são tão loucos que o leitor, de repente, pode passar batido por essa inspiração. Mas está tudo espalhado por aí, nas esquinas da minha memória. Foi o primeiro a ser mais contido no humor, também.

“Luuucas! Você precisa de foco! como quer vender? Você precisa entender que o mundo mudou, somos globalizados, pense grande!! Foco, Lucas, foco foco foco! Repete comigo. Foooóco!”

Essa frase não sai da minha cabeça. Ouvi na última reunião com a editora e desde então tenho pesadelos globalizados. Sonho com personagens japonesas lésbicas imigrantes se apaixonando por padres protestantes que se convertem ao islamismo e descobrem ser grandes jogadores de futebol em um retiro no oriente médio, fazendo o gol da vitória do campeonato mundial de sei lá quê.

Outro dia, meio dormindo, imaginei encontrar uma senhora de olhos violetas que me dizia “duas semanas em primeiro lugar em saturno. As saturninas te amam”. E depois me bolinava com seus tentáculos.

Socorro. O trauma é tanto que fui procurar minha psicóloga e descobri que a falta de foco está relacionada ao medo do futuro. Mas como não ter medo do futuro com esses filmes me aterrorizando dia e noite. Sou um cara influenciável. Leio o globo terrestre. A-versão globalizada de o Globo. Sofro até hoje pensando na baba que pingou em Alien o Oitavo Passageiro. Não posso pisar em uma poça de xixi que penso: é ele!

Saiba que nunca mais fui à praia desde que vi Tubarão. Fiquei meses sem ver TV depois de Poltergeist e larguei a Yoga depois que vi a menininha de O exorcista descendo a escada de cabeça para baixo. Sei lá, não era legal. Acho que todos são ETs por causa de Men in black e toda vez que um cano estoura na rua, acho que seremos exterminados como em Guerra dos mundos. O único filme que não me assuta é O Chamado. Não posso respeitar um fantasma que se acha atendente de telemarketing e fica ligando para outros importunando “7 days… ”. Minha gerente de banco assuta bem mais do que isso, posso garantir. Boa tarde, senhor Lucas. Estamos com um título de capitalização… 7 days my ass.

Mas o futuro pode ser bem pior que os meus pesadelos. Você vai encontrar aquele amigo que não vê desde sempre e falar “350 já? O corpinho é de 240! E a voz robotrônica está um charme”.

Ele prontamente irá responder “instalei um sintetizador vocal do Darth Vader na traquéia. Ganhei de brinde quando comprei o sintetizador da Briteny Spears para a minha filha!”

Sim, porque se seremos imortais a Britney também será, meu amigo. Os estádios na lua irão lotar com apresentações da banda Apocalyps0, com entradas triunfais direto de suas naves. E, pior, as roupas douradas que eles usam estarão na moda para todos nós.

Não teremos mais ônibus. Você será assaltado no seu transportador de multineutrons e se uma mosca entrar com você, já sabe, David Cronenberg avisou. Vai ter que comprar roupas em outra rede mundial.

Esqueça identidade, será apenas leitor de digital. Tendinite certa. E o de íris. Já pensou uma epidemia de conjuntivite? Não teremos mais gripe do frango, pois ele, um ser evoluído, já fabricará seus próprios antibióticos, e poderemos criar peixes fora do aquário, levando-os para passear na coleira.

De manhã, acabou o sucrilho, você vai para o banheiro. Quando senta na privada ouve um “bom dia, sr. Lucas. Gostou do café? Posso ler o seu horóscopo?”. Muito inspirador. A quiromancia se transformando em leitura de linhas da nádega esquerda. Sua linha da vida, Sr. Lucas, é tão longa.

Mas há o lado bom. Ecologistas poderão se fundir geneticamente às espécies que defendem, estudando melhor seus modos de vida. Mulheres-pinguim, homens-lagarto de Galápagos. O exame de próstata será a laser, executado pelo ET, o Extraterrestre. Quando você pensa em laser como Amplificação de Luz por Emissão Estimulada de Radiação a coisa fica ainda mais estranha.

Ai, o futuro, a humanidade mais unida, todos no único pedaço de terra que sobreviveu à destruição do meio-ambiente… a Antártida. Será que vai existir alguma livraria por lá?

Há dois motivos para eu duvidar da teoria da evolução de Darwin. O primeiro é a existência do microorganismo unicelular pseudotrópode que habita as fendas escuras de falhas vulcânicas ricas em enxofre e de temperatura elevada na faixa pré-formada de Nova Guiné. Se a teoria funcionasse é claro que o microorganismo unicelular pseudotrópode iria habitar as fendas escuras de falhas vulcânicas ricas em enxofre e de temperatura elevada em Zurique (!) ou Las Vegas (!!). Deve haver uma fenda (…) por lá.

O segundo motivo são os mosquistos. Eu queria ver Darwin, vivinho, me explicar por que acordo toda noite com pelo menos cinco picadas pelo corpo e depois me convencer de que é para o bem da humanidade. Não é que eu não ame a natureza, só não quero que ela passe pela minha janela. É tão bonito natureza do lado de fora, passarinho, plantinha, mico. Os mosquitos devem ter acesso a bichos simpáticos no meio do mato. O gosto do sangue é parecido. Eu como folha também. Eles vêm atrás de mim de crueldade. Calma. Eu tenho uma violeta e uma samambaia no apartamento. Um amante clássico do meio ambiente.

Se ainda fossem as baratas eu entenderia. As baratas se encolhem, se enterram, nadam, cantam, dançam, representam, são resistentes aos raios gama, fazem pilates e ainda voam. Merecem uma medalha de honra ao mérito do Instituo Darwin. Mas os mosquitos. Você então me diz. Eles servem para alimentar sapos e lagartixas que por sua vez alimentam cobras que alimentam aves e lagartos. Eu te pergunto – então a mosca serve para quê?

Sei que, revoltado, espirrei meio vidro de raid em um mosquito. Era tarde e eu estava com sono, mas juro que vi o bicho levantar a patinha e perfumar o sovaco com o inseticida. Foi nesse dia até que descobri que mosquitas não raspam as axilas. Você sabe que quem morde é a mosquita e não o mosquito. O mosquito se alimenta de luz. Pertence a uma religião alternativa que ativa a glândula pineal com reza braba. Está lá, na teoria de Darwin.

O quarto ficou com um cheiro horrível e eu fui dormir na sala.
Acordei me coçando e descobri uma maravilha moderna, o repelente.
Espalhei pelo corpo inteiro. Acordei intoxicado e com picadas na mão. O maldito do mosquito mordeu a mão que usei para segurar o repelente e borrifar no corpo! Quase saio por aí espalhando que eles são seres de inteligência superior – um tipo de alienígena que não tem mais o que fazer e acha que cutucar intestino de vaca é muito chato. Sabe aquela história de “eu queria ser um mosquitinho só para ver…?” Só não faço porque eles grudam no papel pega mosca. Se fossem inteligentes não grudariam. Vai ver possuem outro alfabeto. Será que são egípcios?

De tanto experimentar incensos, boi sacrificial, repelente eletrônico, criação de aranha, fita isolante e uns apetrechos sadomaso, descobri a fórmula ideal para afastá-los: CD de FUNK evangélico.

Não tem UM mosquito que se atreva a entrar no quarto.
O problema é que eu também não durmo. Estou com uma mancha  negra embaixo dos olhos que só vendo. Pareço um gótico.
——–
Lucas Moginie é fruto da minha imaginação e não da sua. Suspenda os medicamentos. Ao persistirem os sintomas seja criativo e escolha seu próprio amigo imaginário.

A entrevista com o capeta aconteceu dentro do metrô. Ele sugeriu que ficássemos vagando entre as linhas, uma questão filosófica que não entendi muito bem. Logo de cara me surpreendeu a idade. O sujeito era novo, trinta e poucos, e em nada lembrava a figura pitoresca que eu imaginava. Roupas simples, diferente do cara cascudo e peludo dos filmes de terror.
– Como prefere que eu te chame? Capeta? Demo? Satã?
– Satã era meu pai.
– Pai? Não sabia que você tinha um pai.
– Todo mundo tem. Ou você acreditou que Maria era virgem? – aqui ele me deu um tapa no ombro e começou a rir. Um riso tímido que logo desapareceu em um engasgo – É o cigarro – justificou – Fumo demais.
– E Satã trabalhava muito?
– Meio preguiçoso. Se aposentou no último ano de governo do FHC. Estafado.
– Fez bem, essas leis mudam toda hora. Mas você não respondeu como te chamo.
– Pode me chamar de Príncipe dos Infernos. Pí, para os amigos.
– Muito prazer, Pí. Lucas Moginie, ou P.
– Conheço você. Desde pequeno, aliás, mas isso não vem ao caso. Gosto muito dos seus livros.
– Agora estou surpreso.
– Leio muito quando estou viajando. Os transportes são caóticos nos reinos inferiores. Igual aqui. Fui eu que inventei a roleta do ônibus, sabia?
– Vivendo e aprendendo. Viaja muito, Pí?
– O tempo todo. Sou muito requisitado para conselhos.
– O que veio fazer no Rio de Janeiro?
– Curtir o dia do sací. Sou muito patriótico.
– Patriótico?
– Sim, sou brasileiro.
– Que furo de reportagem!
– Se Deus é brasileiro…
– Parentesco?
– E não falam que sou neto do sujeito? Pode ser até mentira, mas todo natal chega uns presentinhos legais lá na minha gruta flamejante. Todo mundo vem com aquele papo de que foi o bom velhinho que colocou na árvore, mas já tenho uma certa idade sabe… não caio nessas histórias.
– Deve ficar muito tempo?
– Pouco. Antes do ano novo eu vou embora.
– Achei que gostasse de festa.
– Detesto multidões. Carnaval então… viajo pra serra. Gosto do clima frio.
– Pí, eu vou falar uma palavra e você fala a primeira coisa que vier em mente, pode ser?
– Claro, sem problemas.
– Cor
– Verde
– Verde? Não dá pra ter mais impacto?
– Está certo, vamos de novo.
– Cor
– Verde cadáver pútrido!
– Perfeito, você pegou o espírito.
– É o que mais faço, pegar espíritos. – e um novo tapa no ombro – Escuta, vamos parar com isso, vim aqui falar com você.
– Pois diga.
– Quero que escreva a minha biografia.
– Tão novo?
– 506 anos, meu chapa.
– Fico lisonjeado, mas não posso aceitar.
– Então vou te cobrar Direitos autorais.
– De quê?
– Dos textos do teu blogue! Capeta pra cá, capeta pra lá… pensa que não vi?
– Até você quer me explorar?
– Você explora a minha imagem e agora se faz de vítima?
– Ah, quer saber? Vai andar de metrô sozinho, filho dos infernos.
– Muito melhor que aquele teu apartamento apertado, cheio de goteira.
– Sem educação!
– Aproveitador! Eu te processo! Fui eu que inventei o advogado também!
Desci do metrô na Uruguaiana. Uma confusão de gente e barraquinhas vendendo tudo o que é tipo de contrabando e produto roubado. Vi o dono de uma loja colocando um ladrão para fora:
– não respeita mais quem trabalha?
– e você que não respeita um desempregado tentando tirar um troco.

Sentei na calçada, deprimido. O cheiro de espiga de milho entrando pelo nariz, o pé dentro de uma poça suja. O vento soprou panfletos de um novo “espaço de laser” ali por perto. Uma batida funk dominou o remix sertanejo brega que estava tocando. Resolvi descer a escada e voltar para o metrô. Se tivesse sorte, Pí ainda estaria lá.

Como eu imaginava o capeta não apareceu para responder. Banquinho especial está lá desde que o mundo é mundo, certamente o capeta – que também está aqui desde que Brasília é Brasília – faria um comentário proveitoso. Uma pena, não podermos mais confiar em ninguém. Então, lá vou eu:

Sabe aquela pessoa que estica um real para o morador de rua, finge para si mesmo que resolveu o problema da humanidade inteira e se sente tranqüilo para torrar o dinheiro no shopping depois? É uma solução barata, mas que não deixa de custar um real. Um real, meu amigo! Os tempos estão difíceis. Aposto que você se abaixa na rua para apanhar um real. Pois o banquinho especial sai de graça, é uma revolução. Afinal, você já estava lá mesmo, indo para algum lugar no fim da linha.

Com o banquinho especial você finge estar fazendo caridade e exerce todo o seu poder de julgamento, sente-se poderoso, volta aos tempos da guilhotina, das lutas de gladiadores. Quem acredita mesmo no banquinho especial não senta nem no liberado. Fica em pé apertado com os demais. Igualdade, Liberdade, Pisada no dedão e Fraternidade.

Mas sentando você pode escolher para quem vai dar o lugar, veja que interessante. Você, é você mesmo, dono da verdade absoluta e da permissão universal, decide qual dos pobres infelizes na sua frente teria a graça concedida de sentar no lugar que anteriormente foi seu. É de uma nobreza que me espanta. Posso até imaginar você sentado, um magrinho na sua frente de pernas trêmulas. Você estica a mão com polegar em riste. Os olhinhos do candidato se enchem de água e você, vromm, dá aquela virada repentina de polegar para baixo (favor imaginar uma risada malévola neste momento). Quanta decepção! Serão anos de terapia para o infeliz. Você então levanta sorridente, acerta a barra da camisa e senta de novo (outra risada).

Assim como os vírus e as bactérias, nós evoluímos rapidamente e em nosso esquema de falso poder passamos a escolher alguém para sentar em nosso lugar mesmo quando vamos descer do metrô. Não basta simplesmente sair, tirar a bunda do banco. Você antes cutuca alguém a quem queira favorecer, puxa para perto do banco e levanta. Não sei por qual razão, mas Brasília voltou aos meus pensamentos.

Outra idéia brilhante é parecer caridoso com o banco dos outros. Você já está de pé mesmo, se ferrou, acordou tarde, por isso não pode traficar banquinhos. Logo, escolhe alguém e diz: não está vendo que tem uma senhora ali de pé, levanta rapaz. Senhora, vem que o garoto vai levantar. Vamos, vamos.

Chega então clímax: senta senhora! Não te perguntei se estava cansada! Tirei o moleque do lugar e agora vou te fazer sentar o rabo aí querendo ou não!

Outro dia um cara passou mal. Desmaiou. Acordou tarde, correu, baixou pressão. Ficaram todos olhando para a minha cara, esperando que eu quebrasse o lacre e berrasse: emergência! Eu fiquei olhando para o cara desmaiado, que apoiado na parede do vagão já se levantava. Quase me bateram. Quebrei o lacre, parei a vida de todo mundo e pedi ajuda. Na estação seguinte o cara já estava bem, queria seguir viagem. Colocaram o sujeito para fora quase na porrada. Eu quis te ajudar e você não quer ser ajudado? Quer sim! Adios, seu traste.

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