09. Sci-Farsa

“Luuucas! Você precisa de foco! como quer vender? Você precisa entender que o mundo mudou, somos globalizados, pense grande!! Foco, Lucas, foco foco foco! Repete comigo. Foooóco!”

Essa frase não sai da minha cabeça. Ouvi na última reunião com a editora e desde então tenho pesadelos globalizados. Sonho com personagens japonesas lésbicas imigrantes se apaixonando por padres protestantes que se convertem ao islamismo e descobrem ser grandes jogadores de futebol em um retiro no oriente médio, fazendo o gol da vitória do campeonato mundial de sei lá quê.

Outro dia, meio dormindo, imaginei encontrar uma senhora de olhos violetas que me dizia “duas semanas em primeiro lugar em saturno. As saturninas te amam”. E depois me bolinava com seus tentáculos.

Socorro. O trauma é tanto que fui procurar minha psicóloga e descobri que a falta de foco está relacionada ao medo do futuro. Mas como não ter medo do futuro com esses filmes me aterrorizando dia e noite. Sou um cara influenciável. Leio o globo terrestre. A-versão globalizada de o Globo. Sofro até hoje pensando na baba que pingou em Alien o Oitavo Passageiro. Não posso pisar em uma poça de xixi que penso: é ele!

Saiba que nunca mais fui à praia desde que vi Tubarão. Fiquei meses sem ver TV depois de Poltergeist e larguei a Yoga depois que vi a menininha de O exorcista descendo a escada de cabeça para baixo. Sei lá, não era legal. Acho que todos são ETs por causa de Men in black e toda vez que um cano estoura na rua, acho que seremos exterminados como em Guerra dos mundos. O único filme que não me assuta é O Chamado. Não posso respeitar um fantasma que se acha atendente de telemarketing e fica ligando para outros importunando “7 days… ”. Minha gerente de banco assuta bem mais do que isso, posso garantir. Boa tarde, senhor Lucas. Estamos com um título de capitalização… 7 days my ass.

Mas o futuro pode ser bem pior que os meus pesadelos. Você vai encontrar aquele amigo que não vê desde sempre e falar “350 já? O corpinho é de 240! E a voz robotrônica está um charme”.

Ele prontamente irá responder “instalei um sintetizador vocal do Darth Vader na traquéia. Ganhei de brinde quando comprei o sintetizador da Briteny Spears para a minha filha!”

Sim, porque se seremos imortais a Britney também será, meu amigo. Os estádios na lua irão lotar com apresentações da banda Apocalyps0, com entradas triunfais direto de suas naves. E, pior, as roupas douradas que eles usam estarão na moda para todos nós.

Não teremos mais ônibus. Você será assaltado no seu transportador de multineutrons e se uma mosca entrar com você, já sabe, David Cronenberg avisou. Vai ter que comprar roupas em outra rede mundial.

Esqueça identidade, será apenas leitor de digital. Tendinite certa. E o de íris. Já pensou uma epidemia de conjuntivite? Não teremos mais gripe do frango, pois ele, um ser evoluído, já fabricará seus próprios antibióticos, e poderemos criar peixes fora do aquário, levando-os para passear na coleira.

De manhã, acabou o sucrilho, você vai para o banheiro. Quando senta na privada ouve um “bom dia, sr. Lucas. Gostou do café? Posso ler o seu horóscopo?”. Muito inspirador. A quiromancia se transformando em leitura de linhas da nádega esquerda. Sua linha da vida, Sr. Lucas, é tão longa.

Mas há o lado bom. Ecologistas poderão se fundir geneticamente às espécies que defendem, estudando melhor seus modos de vida. Mulheres-pinguim, homens-lagarto de Galápagos. O exame de próstata será a laser, executado pelo ET, o Extraterrestre. Quando você pensa em laser como Amplificação de Luz por Emissão Estimulada de Radiação a coisa fica ainda mais estranha.

Ai, o futuro, a humanidade mais unida, todos no único pedaço de terra que sobreviveu à destruição do meio-ambiente… a Antártida. Será que vai existir alguma livraria por lá?

08. A teoria da evolução

Há dois motivos para eu duvidar da teoria da evolução de Darwin. O primeiro é a existência do microorganismo unicelular pseudotrópode que habita as fendas escuras de falhas vulcânicas ricas em enxofre e de temperatura elevada na faixa pré-formada de Nova Guiné. Se a teoria funcionasse é claro que o microorganismo unicelular pseudotrópode iria habitar as fendas escuras de falhas vulcânicas ricas em enxofre e de temperatura elevada em Zurique (!) ou Las Vegas (!!). Deve haver uma fenda (…) por lá.

O segundo motivo são os mosquistos. Eu queria ver Darwin, vivinho, me explicar por que acordo toda noite com pelo menos cinco picadas pelo corpo e depois me convencer de que é para o bem da humanidade. Não é que eu não ame a natureza, só não quero que ela passe pela minha janela. É tão bonito natureza do lado de fora, passarinho, plantinha, mico. Os mosquitos devem ter acesso a bichos simpáticos no meio do mato. O gosto do sangue é parecido. Eu como folha também. Eles vêm atrás de mim de crueldade. Calma. Eu tenho uma violeta e uma samambaia no apartamento. Um amante clássico do meio ambiente.

Se ainda fossem as baratas eu entenderia. As baratas se encolhem, se enterram, nadam, cantam, dançam, representam, são resistentes aos raios gama, fazem pilates e ainda voam. Merecem uma medalha de honra ao mérito do Instituo Darwin. Mas os mosquitos. Você então me diz. Eles servem para alimentar sapos e lagartixas que por sua vez alimentam cobras que alimentam aves e lagartos. Eu te pergunto – então a mosca serve para quê?

Sei que, revoltado, espirrei meio vidro de raid em um mosquito. Era tarde e eu estava com sono, mas juro que vi o bicho levantar a patinha e perfumar o sovaco com o inseticida. Foi nesse dia até que descobri que mosquitas não raspam as axilas. Você sabe que quem morde é a mosquita e não o mosquito. O mosquito se alimenta de luz. Pertence a uma religião alternativa que ativa a glândula pineal com reza braba. Está lá, na teoria de Darwin.

O quarto ficou com um cheiro horrível e eu fui dormir na sala.
Acordei me coçando e descobri uma maravilha moderna, o repelente.
Espalhei pelo corpo inteiro. Acordei intoxicado e com picadas na mão. O maldito do mosquito mordeu a mão que usei para segurar o repelente e borrifar no corpo! Quase saio por aí espalhando que eles são seres de inteligência superior – um tipo de alienígena que não tem mais o que fazer e acha que cutucar intestino de vaca é muito chato. Sabe aquela história de “eu queria ser um mosquitinho só para ver…?” Só não faço porque eles grudam no papel pega mosca. Se fossem inteligentes não grudariam. Vai ver possuem outro alfabeto. Será que são egípcios?

De tanto experimentar incensos, boi sacrificial, repelente eletrônico, criação de aranha, fita isolante e uns apetrechos sadomaso, descobri a fórmula ideal para afastá-los: CD de FUNK evangélico.

Não tem UM mosquito que se atreva a entrar no quarto.
O problema é que eu também não durmo. Estou com uma mancha  negra embaixo dos olhos que só vendo. Pareço um gótico.
——–
Lucas Moginie é fruto da minha imaginação e não da sua. Suspenda os medicamentos. Ao persistirem os sintomas seja criativo e escolha seu próprio amigo imaginário.

07. A teoria do banco especial do metrô III

A entrevista com o capeta aconteceu dentro do metrô. Ele sugeriu que ficássemos vagando entre as linhas, uma questão filosófica que não entendi muito bem. Logo de cara me surpreendeu a idade. O sujeito era novo, trinta e poucos, e em nada lembrava a figura pitoresca que eu imaginava. Roupas simples, diferente do cara cascudo e peludo dos filmes de terror.
- Como prefere que eu te chame? Capeta? Demo? Satã?
- Satã era meu pai.
- Pai? Não sabia que você tinha um pai.
- Todo mundo tem. Ou você acreditou que Maria era virgem? – aqui ele me deu um tapa no ombro e começou a rir. Um riso tímido que logo desapareceu em um engasgo – É o cigarro – justificou – Fumo demais.
- E Satã trabalhava muito?
- Meio preguiçoso. Se aposentou no último ano de governo do FHC. Estafado.
- Fez bem, essas leis mudam toda hora. Mas você não respondeu como te chamo.
- Pode me chamar de Príncipe dos Infernos. Pí, para os amigos.
- Muito prazer, Pí. Lucas Moginie, ou P.
- Conheço você. Desde pequeno, aliás, mas isso não vem ao caso. Gosto muito dos seus livros.
- Agora estou surpreso.
- Leio muito quando estou viajando. Os transportes são caóticos nos reinos inferiores. Igual aqui. Fui eu que inventei a roleta do ônibus, sabia?
- Vivendo e aprendendo. Viaja muito, Pí?
- O tempo todo. Sou muito requisitado para conselhos.
- O que veio fazer no Rio de Janeiro?
- Curtir o dia do sací. Sou muito patriótico.
- Patriótico?
- Sim, sou brasileiro.
- Que furo de reportagem!
- Se Deus é brasileiro…
- Parentesco?
- E não falam que sou neto do sujeito? Pode ser até mentira, mas todo natal chega uns presentinhos legais lá na minha gruta flamejante. Todo mundo vem com aquele papo de que foi o bom velhinho que colocou na árvore, mas já tenho uma certa idade sabe… não caio nessas histórias.
- Deve ficar muito tempo?
- Pouco. Antes do ano novo eu vou embora.
- Achei que gostasse de festa.
- Detesto multidões. Carnaval então… viajo pra serra. Gosto do clima frio.
- Pí, eu vou falar uma palavra e você fala a primeira coisa que vier em mente, pode ser?
- Claro, sem problemas.
- Cor
- Verde
- Verde? Não dá pra ter mais impacto?
- Está certo, vamos de novo.
- Cor
- Verde cadáver pútrido!
- Perfeito, você pegou o espírito.
- É o que mais faço, pegar espíritos. – e um novo tapa no ombro – Escuta, vamos parar com isso, vim aqui falar com você.
- Pois diga.
- Quero que escreva a minha biografia.
- Tão novo?
- 506 anos, meu chapa.
- Fico lisonjeado, mas não posso aceitar.
- Então vou te cobrar Direitos autorais.
- De quê?
- Dos textos do teu blogue! Capeta pra cá, capeta pra lá… pensa que não vi?
- Até você quer me explorar?
- Você explora a minha imagem e agora se faz de vítima?
- Ah, quer saber? Vai andar de metrô sozinho, filho dos infernos.
- Muito melhor que aquele teu apartamento apertado, cheio de goteira.
- Sem educação!
- Aproveitador! Eu te processo! Fui eu que inventei o advogado também!
Desci do metrô na Uruguaiana. Uma confusão de gente e barraquinhas vendendo tudo o que é tipo de contrabando e produto roubado. Vi o dono de uma loja colocando um ladrão para fora:
- não respeita mais quem trabalha?
- e você que não respeita um desempregado tentando tirar um troco.

Sentei na calçada, deprimido. O cheiro de espiga de milho entrando pelo nariz, o pé dentro de uma poça suja. O vento soprou panfletos de um novo “espaço de laser” ali por perto. Uma batida funk dominou o remix sertanejo brega que estava tocando. Resolvi descer a escada e voltar para o metrô. Se tivesse sorte, Pí ainda estaria lá.

06. A teoria do banco especial do metrô II

Como eu imaginava o capeta não apareceu para responder. Banquinho especial está lá desde que o mundo é mundo, certamente o capeta – que também está aqui desde que Brasília é Brasília – faria um comentário proveitoso. Uma pena, não podermos mais confiar em ninguém. Então, lá vou eu:

Sabe aquela pessoa que estica um real para o morador de rua, finge para si mesmo que resolveu o problema da humanidade inteira e se sente tranqüilo para torrar o dinheiro no shopping depois? É uma solução barata, mas que não deixa de custar um real. Um real, meu amigo! Os tempos estão difíceis. Aposto que você se abaixa na rua para apanhar um real. Pois o banquinho especial sai de graça, é uma revolução. Afinal, você já estava lá mesmo, indo para algum lugar no fim da linha.

Com o banquinho especial você finge estar fazendo caridade e exerce todo o seu poder de julgamento, sente-se poderoso, volta aos tempos da guilhotina, das lutas de gladiadores. Quem acredita mesmo no banquinho especial não senta nem no liberado. Fica em pé apertado com os demais. Igualdade, Liberdade, Pisada no dedão e Fraternidade.

Mas sentando você pode escolher para quem vai dar o lugar, veja que interessante. Você, é você mesmo, dono da verdade absoluta e da permissão universal, decide qual dos pobres infelizes na sua frente teria a graça concedida de sentar no lugar que anteriormente foi seu. É de uma nobreza que me espanta. Posso até imaginar você sentado, um magrinho na sua frente de pernas trêmulas. Você estica a mão com polegar em riste. Os olhinhos do candidato se enchem de água e você, vromm, dá aquela virada repentina de polegar para baixo (favor imaginar uma risada malévola neste momento). Quanta decepção! Serão anos de terapia para o infeliz. Você então levanta sorridente, acerta a barra da camisa e senta de novo (outra risada).

Assim como os vírus e as bactérias, nós evoluímos rapidamente e em nosso esquema de falso poder passamos a escolher alguém para sentar em nosso lugar mesmo quando vamos descer do metrô. Não basta simplesmente sair, tirar a bunda do banco. Você antes cutuca alguém a quem queira favorecer, puxa para perto do banco e levanta. Não sei por qual razão, mas Brasília voltou aos meus pensamentos.

Outra idéia brilhante é parecer caridoso com o banco dos outros. Você já está de pé mesmo, se ferrou, acordou tarde, por isso não pode traficar banquinhos. Logo, escolhe alguém e diz: não está vendo que tem uma senhora ali de pé, levanta rapaz. Senhora, vem que o garoto vai levantar. Vamos, vamos.

Chega então clímax: senta senhora! Não te perguntei se estava cansada! Tirei o moleque do lugar e agora vou te fazer sentar o rabo aí querendo ou não!

Outro dia um cara passou mal. Desmaiou. Acordou tarde, correu, baixou pressão. Ficaram todos olhando para a minha cara, esperando que eu quebrasse o lacre e berrasse: emergência! Eu fiquei olhando para o cara desmaiado, que apoiado na parede do vagão já se levantava. Quase me bateram. Quebrei o lacre, parei a vida de todo mundo e pedi ajuda. Na estação seguinte o cara já estava bem, queria seguir viagem. Colocaram o sujeito para fora quase na porrada. Eu quis te ajudar e você não quer ser ajudado? Quer sim! Adios, seu traste.

05. A teoria do banco especial do metrô I

Sartre diz que o inferno são os outros. Nelson Rodrigues que a família é o inferno de cada um. Pois eu digo a verdade: o inferno é o metrô. Sério. E não me refiro só ao metrô do Rio de Janeiro, pode ser qualquer metrô. Aposto que tem alguma religião que acha que o inferno é no metrô só por ser debaixo da terra. Tem religião pra tudo, você sabe.

O que eu sei é que se eu acreditasse em diabo a vida seria muito mais fácil. Uma gotinha de sangue como entrada, alma em três reencarnações sem juros e pronto. Dinheiro, relógio de ouro, orgias na piscina do terraço. Pensando bem, ia ser um porre no mesmo jeito. Melhor deixar o chifrudo lá no inferno. No dele, claro. Porque o meu já tá lotado.

Ao invés de fazer um pacto eu faria uma entrevista: vem cá, como é o teu inferno? Teu inferno tem família? Tem político? Tem academia? Ia ficar famoso por ser o primeiro escritor a entrevistar o demo. Vai que o cascudo é talentoso, acaba numa peça da Bia Lessa, pula para um filme do Heitor Dhalia e em um piscar de olhos está como âncora da novela das oito. Ser empresário do capeta deve dar trabalho. O cara provavelmente recebe propostas o dia inteiro. Fora que se quiser vira uma loira peituda e ainda grava um comercial de cerveja. Não ia faltar grana e o dono do contrato seria eu. É, pensando bem…

Mas é claro que para trabalhar com alguém é preciso um mínimo de afinidade. Não se pode pensar só no dinheiro. Ninguém sabe disso melhor do que o capeta. Se não fosse assim tava todo mundo no inferno. Ou você acha que foi pro céu porque mereceu? Cai na real! Foi enxotado. Não passou no teste. O Daniel de Oliveira teve que engolir papel para conseguir representar o Cazuza, você acha que é só fazer umas traquinagens e vai pro cinco estrelas da terra do enxofre? Quanta inocência. Só por isso eu já te despachava para o céu. E São Pedro que se virasse.

Para descobrir se eu e o capeta temos um mínimo de afinidade (profissional), faria a seguinte pergunta:
O que você (ou o senhor, ou o doutor, ou guri, piá, não sei se o mizinfim gosta de tratamento formal)… O que você acha do banquinho especial do metrô?

Como não acredito no dito cujo (já tinha esquecido, aposto), respondo eu no próximo texto.