04. Alice com Midazolam

Tive um sonho em que eu era uma versão de Alice, só que em vez de cair por um buraco no país das maravilhas, eu caí foi do mundo mesmo. Eu estava no sinal de trânsito fazendo um quatro para convencer um guardinha de que bêbados também tem equilíbrio quando tudo virou um borrão. Na hora eu achei que era efeito do vinho vagabundo, mas depois entendi que o problema não era comigo: o mundo estava girando rapidamente. Tinha até um zuuum assim no meu ouvido. A Terra se movia cada vez mais rápido e eu lá de quatro, quer dizer, com o quatro formado e de braços abertos. Igual a um girocóptero de pirulito dos anos oitenta, eu saí voando com o impulso e falta de gravidade. Pelo menos não parecia tão grave enquanto eu bebia, mas pelo efeito eu estava enganado.

Eu subi girando muito rápido para o meu estômago cheio de engov. Solucei assim como quem não quer nada tentando manter tudo no lugar e acabei dando de cara num satélite. Tanta coisa importante lá embaixo, as geleiras derretendo, e eu aqui. Não faz sentido, mas foi o que pensei na hora. Todo mundo tem um momento de lucidez dentro dos sonhos. Esse foi o meu, e durou pouco. Quando me dei conta não estava num satélite, mas no Hubble. Sabe aquela foto da Lua de Júpiter? Era a minha cabeça. Pode reparar que tem um sorrisinho besta mais para a esquerda.

Esse extremo contato com a realidade, infelizmente, não foi capaz de me acordar. Eu sabia que era um sonho, o calmante sabia também, mas eu continuava lá do mesmo jeito dando tchau para os ETs. Comecei a ficar preocupado. Pensei logo: já que meu eu corpóreo está babando no travesseiro, vou ter que me virar sozinho. Peguei na lataria de um ônibus espacial pirata, achei umas caixas com pílulas de proteína vegetal e me salvei. O motorista era daqueles lerdos, parava em tudo quanto é sinal, freava de repente para ajeitar a galera, mas pelo menos consegui voltar para a Terra.

Como nunca me liguei em astronomia, ainda não descobri se comprei cartão postal de marte ou de mercúrio. Maldita hora em que cancelei o curso no Planetário.

03. Manual do cult underground

É uma daquelas perguntas de um milhão de dólares pré-crise financeira: por que as pessoas que se esforçam tanto para ter um ar cult underground não se mudam de vez para o esgoto? Antes eu sugeriria o metrô, mas com a atual superlotação e a dificuldade que eu tenho de ir de uma porta até a outra, o esgoto está de bom tamanho. O esgoto tem sombra, água e faz eco surround sound para discursos vazios, ampliando o alcance das baboseiras.

Não sei se são os níveis extremos de poluição, se é radiação ultravioleta ou se é falta de sexo mesmo, o fato é que o mundo passa por uma proliferação descontrolada desse tipo de pseudointelectualóide, chegando a níveis jamais registrados nos anais da psicanálise freudiana. Al Gore tentou até fazer um documentário, mas morreu de tédio depois das primeiras entrevistas.

Como não sou o Al Gore e, portanto, não alimento pingüim com nota de cem reais, resolvi tirar proveito desse surto de algas humanas para montar um manual de como agir em público sem danificar a sua imagem de pós-vanguardista-ubber-prego.

Dica nº1: se um autor vendeu mais de 200 cópias ele é pop demais para o seu estilo. Dê preferência aos desconhecidos da Letônia em edição carcomida de sebo. Se você for do tipo alga-cientista, faça uma análise dos mofos desenvolvidos nas últimas páginas do livro. Underground que é underground só espirra com fungos não catalogados.

Dica nº2: se o autor da Letônia for resenhado em jornal, jogue fora imediatamente. Sua fama de underground pode sofrer danos irreparáveis. Poetas construtivistas que falam catalão no sul da África são uma boa medida de recuperação neuronal.

Dica nº3: nunca diga que trabalha em uma mesa de computador ou escrivaninha. Batize o espaço místico onde seu ID supera a inconstância da pós-contemporaneidade de bureau criativo.

Dicas nº4: não ouça artistas famosos. Eles merecem seu ódio. Solte rugidos ao ouvir Madonna ou qualquer outro artista que já tenha cometido o pecado capital de tocar na rádio. Fale mal constantemente de todos eles… em público. É falando mal que uma criatura cult underground constrói sua legião de seguidores.

Dicas nº5: não elogie os grupos que você curte. Quanto menos divulgado e relevante, melhor para seu currículo blasé. Só cite-os em contraponto a outros artistas que ninguém jamais ouviu falar. Dizer que um desconhecido é modinha dará arrepios nos seus concorrentes.

Dicas nº6: quando for falar em público, coma antes buchada com pimenta. Sua cara de nojo será entendida como intelecto e imitada. Para prolongar os efeitos, troque o papel higiênico por lixa granulação 36. Sérios riscos de indicação ao Jabuti.

02. Biscoitinho da sorte

Que a vida é uma merda todo mundo já sabe, não preciso de taróloga, astróloga ou twitteróloga para me contar algo assim. Para ser sincero, nunca fui muito de brincar com especialistas em futorologia. Na única visita que fiz a uma cartomante ela falou tudo sobre a minha vida. Sabia mais de mim do que a Receita Federal. Disse de onde eu vinha, para onde iria, o nome dos meus pais, meu endereço, cor preferida de cueca. Disse até que eu estava sem cueca, mas isso pode ter sido por causa da calça escorregando.O importante é  que gelei. Sabe quando você pensa: cartomante? hummm… psicopata? humm… chamo a policia ou pago o  dobro? Foi mais ou menos assim.

Depois de me impressionar com os super poderes, me esticou um livro e pediu um autógrafo. Disse que era fã e que lia o blog todo dia. Que como ninguém ia na porra da barraca (nesses termos chulos, a mulher) e ela não agüentava mais cheirar incenso, tinha levado um livro para passar as horas porque o celular que passa clipes estava quebrado.

Vidente coisa nenhuma, somente bem informada. Aposto que a bola de cristal usava Firefox com as abinhas  abertas no Google e na Wikipedia.

Como o mundo dá voltas, depois de cinco minutos (volta de ansioso é assim mais rápida), minha fé retornou. Está certo, não foi a Virgem Santíssima do Veja Multiuso que apareceu no vidro da janela, o Michael Jackson também não apareceu na minha forma engordurada e as formigas do meu quintal não esburacam as folhas do pé de romã desenhando o menino Jesus. (Mesmo que desenhassem iam tomar era
veneno).

Foi um biscoitinho da sorte.

Sabe aquela porcaria que vem junto com a comida chinesa? Aquele troço ruim com gosto de ovo e manteiga com uma mensagem ridícula dentro? Ele mesmo. Quebrei o infeliz e tirei meu papelzinho. Descrente, esperando algo no estilo minuto de sabedoria me deparei com a seguinte frase: “Eu me dando bem, os outros que se explodam”. Sabedoria chinesa é o que há.

De curioso, tentei conhecer o autor, mas o menino da gráfica tinha sido demitido pelo chefe pelancudo. Não é preciso ser vidente para saber que esse aí arruma emprego fácil fácil.

01. Nuts do it better

Estive sumido, eu confesso, mas tenho uma boa justificativa. Estava envolvido em um novo relacionamento e acabei preso por acidente no hospício. Os médicos não se convenciam de jeito nenhum que eu só estava ali para visitar uma paciente. E pior que ela nem ficou maluca por minha causa, quando conheci já estava assim. A criatura era tão esquizofrênica que sozinha já dava um ménage. Eu só sabia com quem estava falando quando ela ligava para o celular, porque os números eram diferentes.

No nosso primeiro encontro Samanta jogou dois comprimidos no champanhe, mexeu com o dedão e entornou garganta abaixo. A minha primeira reação foi de inveja por ter esquecido os meus calmantes em casa, a segunda foi de intensa paixão. Por qual das personalidades eu não sei. Até hoje acho que duas delas se chamavam Samanta, o que me confundia muito. A terceira não falava comigo, então nunca soube seu nome. O máximo que consegui foi uma parede desenhada com símbolos pornográficos, um coração e um go to hell. Esse foi o nosso primeiro desentendimento, eu tinha acabado de pintar o apartamento.

Bem, após aquela mexidinha no drinque pedimos a comida e ela começou a imitar um orgasmo, o que fez metade das velhinhas do restaurante pedir o mesmo prato que ela. Depois disso, minha cara vermelha, me encarou séria e pediu que eu adivinhasse o filme. Eu não sei qual o filme que ela estava imitando, mas eu me senti no meio de Os Sonhadores de Bertolucci. Não demorou muito e um homem de terno veio falar conosco. Achei que seríamos expulsos, mas o sujeito era o dono do restaurante e nos ofereceu mais uma garrafa de champanhe por conta da casa. Perguntou se não poderíamos fingir aquele orgasmo uma vez por semana, de preferência com pratos diferentes. Eu disse que não sabia se era uma boa idéia, uma pessoa famosa, podia não pegar bem. Duas garrafas de vinho depois e eu já estava fazendo tudo de graça.

Claro que depois disso, paramos no motel. No meio do caminho tomei um tapa na cara e quase bati num poste. Samanta virou para mim e perguntou o que eu estava fazendo com outra mulher dentro do carro. Argumentei que a outra mulher era ela, mas pelo visto não importou porque apanhei de novo. Decidi ligar para o celular e provar que ela era ela mesma, mas o telefone não tocou. Comecei a imaginar se não teria trocado de Samanta na saída do restaurante. Ando tão distraído, pode acontecer com qualquer um.

Foi só um susto. Ela se acalmou, pediu desculpas e me contou que tinha múltipla personalidade. Eu disse que tudo bem, que tinha amnésia então um distúrbio compensaria o outro. Perguntei se ela ainda tinha uns comprimidos na bolsa para me emprestar. Na verdade, a bolsa era uma pequena drogaria com toda a sorte de tarja preta. Se não me engano, um deles saiu de circulação quando minha avó ganhou o primeiro dente. Precisava perguntar o nome do fornecedor.

Obviamente a note foi um fiasco. Era um beijo, um grito, um tapa, uma transa, uma confissão, uma bagunça, uma cadeira elétrica, socorro, me tira daqui. Uma das personalidades perguntou tanto da minha vida que me deixou a impressão de ter dormido com Lady Dominatrix e acordado com Freud.

Bastou uma semana para terminarmos. A culpa nem foi das personalidades, até me agradava cada hora estar com uma pessoa diferente. O problema é que Samanta, a original, parecia um pinóquio de sex shop, em tudo queria meter o nariz. Se já não gosto de uma pessoa me controlando, o que dirá dezesseis. Dezesseis até a minha última contagem.

O resto você já sabe, muito papo para convencer os médicos e os enfermeiros, duas semanas tomando sopa e usando avental azul. O bom disso tudo foi poder pegar sol no jardim, estou até mais corado. O lado ruim foi ter arrumado um novo vício. Vira e mexe me pego enfiando o dedo na tomada.

Introdução: O diário secreto de Lucas Moginie

Se fosse o Lucas, já estaria fazendo gracinhas com o Introdução aí de cima. Mas vou tentar manter o alterego na garrafa enquanto explico para vocês a idéia desses textos. O diário secreto de Lucas Moginie será publicado todo domingo aqui no site, or something like that. É uma série baseada no universo do meu livro Histórias da Noite Carioca. Escrevi, obviamente, para divulgar o livro, mas o jeitão louquinho do Lucas nos contos acabou conquistando fãs à parte. Eu não sei precisar quando os primeiros contos (ou seriam crônicas?) entraram no ar, mas eles estiveram por aqui até o final de 2008 mais ou menos. Tá, eu também não sei precisar quando eles saíram do ar. Para que datas na vida de um ser humano? O importante é que o Lucas Moginie é um escritor muito porra louca que rouba histórias da vida alheia. Você tropeçou na frente dele, ele anota. Contou da tragédia familiar? Vira livro. E assim ele segue, subvertendo tudo com seu ponto de vista peculiar de quem mistura vodka com prozac e conversa com personagens e pessoas reais (existem?) da mesma maneira. Alguns textos são mais sarcásticos, outros mais non-sense, alguns deles filosóficos, acreditem se quiser, tudo depende da inspiração do momento e da história que eu (ou ele?) roubei durante a semana.

Quem acompanhou a série desde o começo, não se preocupe, de vez em quando pintarão textos novos. Mas a maioria é repeteco mesmo. Se eu releio e rio, vocês também conseguem. Vida longa e próspera a esse diário secretíssimo de Lucas Moginie.