Tive um sonho em que eu era uma versão de Alice, só que em vez de cair por um buraco no país das maravilhas, eu caí foi do mundo mesmo. Eu estava no sinal de trânsito fazendo um quatro para convencer um guardinha de que bêbados também tem equilíbrio quando tudo virou um borrão. Na hora eu achei que era efeito do vinho vagabundo, mas depois entendi que o problema não era comigo: o mundo estava girando rapidamente. Tinha até um zuuum assim no meu ouvido. A Terra se movia cada vez mais rápido e eu lá de quatro, quer dizer, com o quatro formado e de braços abertos. Igual a um girocóptero de pirulito dos anos oitenta, eu saí voando com o impulso e falta de gravidade. Pelo menos não parecia tão grave enquanto eu bebia, mas pelo efeito eu estava enganado.
Eu subi girando muito rápido para o meu estômago cheio de engov. Solucei assim como quem não quer nada tentando manter tudo no lugar e acabei dando de cara num satélite. Tanta coisa importante lá embaixo, as geleiras derretendo, e eu aqui. Não faz sentido, mas foi o que pensei na hora. Todo mundo tem um momento de lucidez dentro dos sonhos. Esse foi o meu, e durou pouco. Quando me dei conta não estava num satélite, mas no Hubble. Sabe aquela foto da Lua de Júpiter? Era a minha cabeça. Pode reparar que tem um sorrisinho besta mais para a esquerda.
Esse extremo contato com a realidade, infelizmente, não foi capaz de me acordar. Eu sabia que era um sonho, o calmante sabia também, mas eu continuava lá do mesmo jeito dando tchau para os ETs. Comecei a ficar preocupado. Pensei logo: já que meu eu corpóreo está babando no travesseiro, vou ter que me virar sozinho. Peguei na lataria de um ônibus espacial pirata, achei umas caixas com pílulas de proteína vegetal e me salvei. O motorista era daqueles lerdos, parava em tudo quanto é sinal, freava de repente para ajeitar a galera, mas pelo menos consegui voltar para a Terra.
Como nunca me liguei em astronomia, ainda não descobri se comprei cartão postal de marte ou de mercúrio. Maldita hora em que cancelei o curso no Planetário.

