Esse fim de semana passei entre cineastas. Entre cineastas e um monte de garrafas, para ser sincero. Não. Não era exposição de arte moderna, era uma festinha mesmo. Entre uma taça e outra, fui tentado com a proposta de ter um filme sobre a minha vida. Rá rá. Você nem me conhece e já querem filmar minha biografia não-autorizada. Se tem uma coisa que um bom vinho faz é aumentar o grau de aceitação das coisas. Depois da segunda garrafa você aceita tudo. Os ETs teriam mais sucesso com abduções se viessem com um sommelier. É I do pra lá, I do para cá, os mais letrados em francês, esticando bem o bico, porque quanto mais bico mais cultura (e álcool no sangue, é claro). Além do mais, não pega bem recusar um convite deste porre e deste porte.

Prefiro ser discreto e guardar para mim os nomes dos responsáveis pelo convite. Por tanto os chamarei de P, J e V – o que não faz a menor diferença, já que não falarei mais deles durante o texto. Ou você acha que com uma oportunidade dessa eu ia ficar falando de terceiros?

Pois eles estavam lá. Cheguei meio desconfiado, mas os sanduíches de queijo bola logo desarmaram a guarda. A rúcula separei no pratinho. Rúcula não combina com audiovisual. A armadilha estava funcionando. Papos sobre literatura começaram. Falei sobre Vigna e seu A um passo. Retrucaram com Lessons with Eisenstein, de um de seus alunos. Anotei a dica em meu caderninho, apesar de não ter idéia de como escrever o nome do cara. Escrever Eisenstein bêbado funciona melhor que teste de bafômetro. Falei um pouco sobre Dostoievsky. Detesto parecer amante de Dostoievsky, soa um tanto estranho, melhor gostar de gibizinho, mas por circunstâncias esquisitas ando lendo o tio demais. A tradução, porque russo pra mim é um urso escrito com pressa. Ainda estou ensaiando o biquinho, um idioma de cada vez.

Quando percebi estávamos nas adaptações. As boas e más. Cineastas gostam de dividir tudo entre os bons, os maus e os feios, você deve saber. Pintou Estorvo – o filme, não o seu vizinho de blog – inclassificável. Rolou As Horas. Papo cinéfilo que se preze passa por ele, nem que seja o garçom falando no fim da noite: vamos fechar, já passou da… Tá, essa foi péssima. Nem tive coragem de terminar a frase. Falamos de muito. Os ruins que se acham, os bons que se calam. Falamos de bobagens, um monte de coisa. E finalmente, umas três garrafas depois, me fizeram a oferta.
Um filme sobre a minha vida, sei.
Bons atores? Adoraria ajudar a escolher os atores. Profissionais? Escola de teatro? Alguns testes. Rostos novos. Terá frescor. Mais frescor. Menta no bloco de gelo. Desconhecidos! Desconhecidos e baratos, deixemos claro. Esquece a escola? Só um ator, o restante sombras na parede… vozes, isso, vozes do além… gritos, sussurros distorcidos, tudo pós-moderno… luzes vermelhas que lembram os quartinhos do vaticano… continuem… vai… só uma câmera, uma lanterna, Bruxa de Blair.

Sem dinheiro para a lanterna? Acabou a pilha? Muito caro. Uma hora e vinte. Cortar a luz. Sem figurino. Todo mundo nu.
Um curta?
15 minutos?
12?
8.
Sorri. Bebi mais um gole de vinho. As garrafas sobre a mesa já custavam mais caro que o filme da minha vida. Falei de Kiarostami e me despedi, um sabor de cereja na boca.

Decidimos que o filme sobre a minha vida não teria atores. Seria uma vídeo-arte filmada no escuro com o homem do Rá gritando e cenas extirpadas de vídeos da Enya projetadas de cabeça para baixo num lustre vitoriano.
Nada como descobrir que o filme da sua vida rende um curta de 8 minutos.
Logo 8.

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Esse é um dos textos do Lucas de que mais gosto. Não está na lista dos ‘clássicos’, mas é um dos que melhor demonstra a proposta de brincar com a realidade, roubar coisas que vivencio e transformá-las em ficção. Alguns textos são tão loucos que o leitor, de repente, pode passar batido por essa inspiração. Mas está tudo espalhado por aí, nas esquinas da minha memória. Foi o primeiro a ser mais contido no humor, também.