De volta ao tema que alguns dizem esgotado outros eternamente espinhoso, queria lembrar que não estou centrando o assunto nas editoras. Cada editor sabe da sua consciência e das contas acumuladas no fim do mês. Se o suicida pula da ponte, não podemos culpar a ponte por estar lá parada esperando por ele. Não é explodindo as pontes que se reduz o número de suicídios. Minha posição aqui é passar informação e refletir sobre as razões que levam um autor iniciante a pagar para publicar, ajudando-o a tomar melhores decisões. Por isso bato na tecla de que o importante é ter transparência. Se você pagou para publicar, não tenha vergonha de dizer (se você sabia que teria vergonha, por que mesmo publicou?). Se você cobra para publicar, não finja que não cobra. Simples assim.
Para falar da ilusão número 3 me veio em mente uma música da Motown com o refrão na voz do Michael Jackson que era mais ou menos assim: “I always feel like somebody’s watching me. Is it just a dream?” A letra fala originalmente de paranóia, mas uso aqui para falar de visibilidade. Escritor não é modelo para gastar chão em shopping na esperança de esbarrar com olheiros de agência. Mesmo o modelo sabe em que shopping pode colher frutos e qual só serve para gastar dinheiro. Então, antes de entrar na canoa das coletâneas pagas, pense no seguinte: você está fazendo isso para chamar a atenção de quem? Vamos analisar algumas possibilidades.
Uma hipótese seria chamar a atenção do editor para o seu trabalho. Se ele se envolve com as coletâneas que organiza (alguns nem olham), ele é o seu primeiro alvo, o cara que conhecerá a qualidade do seu texto ou a falta dela. Lendo um conto ele passa a conhecer seu nome e seu potencial, podendo abrir ou fechar portas de acordo com a avaliação. Só não se esqueça de que se ele só publica coletâneas pagas, talvez esteja mais interessado em conhecer as qualidades da sua conta bancária, e que se não for esse o caso, é preciso que o seu texto seja bom de fato.
Outra hipótese seria apresentar o seu nome aos organizadores da coletânea. Algumas editoras escolhem nomes expressivos do nicho-alvo para fazer a seleção de contos e dialogar diretamente com os candidatos a uma vaga. Nesse caso, é provável que o editor tenha pouco contato com os textos e só leia o material já selecionado e revisado, fazendo o corte final. Uma boa dica é procurar saber mais sobre os organizadores. Se eles forem autores, procure se informar sobre suas obras. Procure o Web site, espie a biografia. Você se identifica com o que eles escrevem? Dê uma olhada nos livros deles, em contos na Internet. Se você considerar o texto de um organizador fraco, é o caso de recusar o convite e pensar em outra porta de entrada. Vale lembrar também que há pessoas que só organizam livros ou que são mais conhecidas por isso do que pelos livros que lançam como autor. Se for o caso, vá atrás dessas coletâneas e veja a qualidade da publicação. Se a pessoa foi capaz de reunir nomes fortes em torno de um tema interessante, ponto para ela.
Por último, mas não menos importante, conheça os seus companheiros de coletânea. Há livros que cumprem um papel muito maior de apresentá-lo a outros escritores do que o de colocá-lo em contato com o público. Geralmente, como forma de atrair candidatos, também são anunciados “escritores convidados”, nomes já publicados e com certo prestígio. Repita a pesquisa de campo que fez com os organizadores. Pense se confia de fato no seu material para se apresentar a essas pessoas. Por fim, tente conhecer as pessoas que estão na mesma situação que você. Quais são os demais autores iniciantes tentando uma vaga paga na coletânea? É difícil manter um padrão de qualidade do início ao fim de uma coletânea de um só autor, imagine de vários, mas é importante ter isso como objetivo. Conhecer os textos (ou simplesmente a biografia, dependendo de sua intenção) dos demais pode ser uma boa maneira de avaliar o projeto como um todo e decidir se ele vale a pena.
Mas e o público? Meu objetivo não deveria ser me apresentar aos leitores? Isso comento na ilusão número 4.

Eric, de minha parte, como leitor de blogues voltados à literatura (de gênero), venho acompanhando há muito tempo esta questão das coletâneas pagas. O assunto é delicado, espinhoso e tem rendido confrontos virtuais intensos. Acho que as coletâneas pagas, em algum sentido, algumas delas, prestam-se apenas para materializar o sonho de algum escritor amador que quer ver o seu texto impresso de alguma forma. É um desejo muito forte.
As chamadas na Internet são “extramente persuasivas”, principalmente quando se trata de Literatura de Gênero. Você vê a capa do livro onde o teu nome poderá constar. Então, se você tem um dinheirinho sobrando, embarca na canoa e seja o que Deus quiser.
O Tibor também vem discorrendo sobre o assunto há algum tempo. É claro que, às vezes, ele levanta a questão de modo duro, direto, realista, o que lhe tem granjeado comentários contundentes por sua postura. Mas penso que ele, assim como você, estão buscando trazer um pouco da realidade que se esconde por de trás das capas chamativas de futuras coletâneas.
E fico a pensar se uma coletânea, onde se determine contos curtos, de poucas páginas, em que se reúne, muitas vezes, 25, 30, 35 autores, de fato venha se preocupar com a qualidade ou com o fato da conta ser menos pesada para cada um e, portanto, mais fácil da própria vingar em termos financeiros (estou falando no caso da editora).
É o mundo capitalista cruel de sempre!
Não sou contra coletâneas pagas, mas desde que o autor-consumidor não seja enganado a respeito daquilo que está comprando. Se ele quer realizar o fetiche da obra em papel, beleza, é a maneira mais fácil (e barata) mesmo.
Agora, como escritor? Não sei como uma antologia-loteamento, usando a terminologia da Ana Cristina, pode ajudar, por si só, um autor a se divulgar (principalmente por um ponto interessante: ele vai ser julgado também pela qualidade de seus companheiros de edição. Se é um apanhado de textos lamentáveis, um bom texto vai se perder no meio).
Para mim, honestidade nunca cai mal. Se as antologias pagas existem, é porque dão lucro em alguma parte da cadeia produtiva, mas eu só acho que os editores deveriam ser sinceros com seus consumidores (sim, consumidores, eles estão comprando um produto)sobre o que esperar do investimento.
“I always feel like somebody’s watching me. Is it just a dream?”
\O/ eu tenho certeza! It’s not a dream!
Verdade, Alex.
No seu caso tem tudo a ver rs.
Abss! Valeu pela visita.