Quando trabalhava em drogaria, a chefona da área vivia dizendo: “qualquer hora teremos advogado de porta de farmácia”, isso porque pequenos erros podem gerar grandes processos no caso de medicamentos, e o responsável por qualquer burrice dentro da farmácia é o… farmacêutico. É um raciocínio simples que se aplica também à literatura: onde há animais moribundos há hienas sorridentes, onde há carniça há urubus disfarçados de homens sábios.
Até pouco tempo, uma ou duas editoras eram odiadas por publicar livros pagos. Elas estão na lista negra de qualquer pessoa antenada que saiba acessar a comunidade certa do Orkut. Nenhum segredo. Mas, a natureza humana não falha e o capitalismo também não, por isso o “uma ou duas” se proliferou. Mesmos alguns escritores que diziam ser um absurdo pagar para publicar começaram a encher os bolsos colocando a idéia em prática.
Novamente, viva o capitalismo. Se abrir loja de suco de catuaba com guaraná selvagem está dando dinheiro, logo haverá zilhões de lojas iguais. E elas só continuam abertas porque existe público para isso. O esquema pague para publicar é bem diverso e não vou aqui entrar no mérito de cada um, qual ainda pode levantar a bandeira do orgulho editorial e qual só pode levantar a bandeira do navio pirata. Há quem cobre cerca de 18.000 para publicar um romance, há os que cobram para publicação de conto, há os que não cobram nada, mas também não pagam direitos autorais. A maquiagem varia, mas o palhaço é o mesmo. Então, queria me centrar num lado da equação que vem sendo esquecido nos debates: o escritor.
O que leva um escritor em sã consciência a pagar uma fortuna para publicar? O que leva um escritor a achar que pagar para publicar um conto de 4 páginas numa coletânea de 50 autores abrirá portas na sua carreira literária?
No que diz respeito a romances, vou deixar mais para frente, onde falarei da minha experiência pessoal e do que faria de diferente hoje em dia. Agora, vou analisar o mundo das coletâneas pagas, inspirado no verdadeiro banzé que ocorreu no prêmio de literatura organizado pela Ana Cristina Rodrigues, com gente colocando perfil até de neto recém-nascido para votar e ganhar o prêmio de melhor ‘conto que ninguém leu’ do ano. Foi uma confusão inesperada e que ensinou muito à Ana e aos que estão acompanhando o processo. Eu, pelo menos, estou aprendendo bastante.
Dito isso, vamos ao mundo das ilusões.
O que me vem em mente logo de cara é a ilusão de que só é escritor quem é publicado em papel. Isso é mentira. Tem muita gente com dois, três, quatro livros publicados que eu não considero escritor. Pelo menos nunca pensei em dublês como atores nem em garçons como chefs. Quem é publicado tende a montar cercadinho em volta da casa e dizer que lá dentro a grama é mais verde. Mas você não é obrigado a acreditar nisso. Deixe o cara gastar a garganta dele botando banca e vá fazer o que interessa: escrever. Existe gente com presença na Internet e/ou chegando só agora ao papel que tem um compromisso muito maior com a literatura do que os publicados, e ser escritor para mim é isso: usar de seu trabalho criativo para firmar um compromisso com a literatura. E vale repetir: literatura. A quem publica para firmar compromisso com o próprio ego, boa sorte.
A ilusão número 2 é a do “estou pronto para o mercado”. Você passou meses escrevendo, quem sabe anos. Mandou o texto para todos os amigos do colégio, mostrou para a sua mãe, para o seu pai e até para a sua avó. Todos elogiaram, por isso você se sente pronto para publicar aquele belo conto de três páginas que revolucionará o mundo e o levará a debates filosóficos em Paris. Hum. Hora de acender o alerta vermelho. Antes de mais nada, a avaliação de um texto só é válida quando feita por alguém que entende do assunto. Um leitor voraz poderá te falar algo relevante, mas ainda assim o ideal é buscar alguém do meio literário, procurar escritores e editores. Nem todos são reclusos. Pelo menos nos meandros da Fantasia e Ficção-científica é fácil achá-los em listas de discussão e comunidades do orkut.
Supondo que alguém tenha tempo e paciência de ler o seu conto, prepare-se para o choque de realidade. Digo isso por experiência própria. Recebo muitos textos para analisar, e uma parte das pessoas comete erros graves de português sem nem se dar conta disso. Nexo narrativo? Coisa rara. No fim das contas, o importante é entender que o que te prepara para o mercado é a experiência. Escreva e leia sem parar. Não julgue seu primeiro texto uma obra de arte. Ele não é. Provavelmente ele é um lixo. No futuro, quando for tirá-lo da gaveta, você irá rir de nervoso por ter escrito algo tão ruim e de felicidade por ter melhorado tanto ao longo dos anos. Quem te elogia para arrancar seu dinheiro não merece o seu respeito.
Agora pense comigo: você quer mesmo deixar registrada em papel a sua primeira tentativa como escritor? Porque quando você estiver no seu quinto livro, sempre terá alguém para lembrar: nossa, é o autor DAQUELE conto? Justo daquele?
É algo que repetirei nas próximas partes desse debate: use a Internet a seu favor. Não corra para a primeira coletânea paga que aparece na sua frente. Avalie com a mente e não com o coração se a proposta vale a pena.
No próximo post, as ilusões número 3 e número 4.

Aguardo ansioso a continuação.
Eric, gratas palavras, mais que na hora de tê-las por ai.
Recomendo, caso aches/m nos sebos da vida, “O Futuro Começou” (Hemus) e “No Mundo da Ficção-Científica” (Francisco Alves), ambos de Isaac Asimov. Neles, um bocado de conselhos para escritores iniciantes.
O primeiro livro, inclusive, no original se chama “The Early Asimov”, com contos de seu início de carreira, e ainda com “faixas comentadas” de cada conto, pois o Bom Doutor mantinha diários na época, contextualizando os contos com trechos de sua vida e seu aprendizado como escritor. A leitura é deliciosa.
Dentro dos meus palpites, acho que poderia haver uma palavra ou duas não somente sobre o autor iniciante – mas sobre o editor iniciante… não?
Abraços!
Lúcido e essencial. pelo que vi, coisas assim tem acontecido sem parar por aí. Aguardo os próximos.
Aguardo ansioso a continuação. (2)
Concordo em gênero e número e grau com tudo. E te digo que essa não é apenas a realidade do mundo literário. Se você soubesse o que rola no meio da imprensa brasileira, você iria se assustar.
=**
Muito bom!
Também acho meio roubada essas coletâneas! Já vi milhares de editoras que fazerem isso no Orkut, onde é cheio de propagandas delas!
É uma tristeza também, ver seu trabalho no meio de outros mil contos! A leitura vai ficando chata e às vezes você não consegue chegar aos contos finais ou até mesmo na metade, daí acaba lendo só o do seu amigo que ta participando (o que aconteceu no caso de uma coletânea que li)
Além do “mau trato” com a capa, fonte e principalmente o autor!
O melhor é fazer um blog e ir postando tudo lá! E quando estiver pronto correr atrás do seu pão sem moleza e descaso!
Bom… Um pouco do que eu penso
Oi Eric, tranquilo?
Bom, eu concordo em parte com tudo que você disse, especialmente em relação as coletâneas com 50 autores (antes que alguém jogue a pedra dizendo que eu publiquei em uma recentemente, é bom lembrar que fui autor convidado e prefaciador e não paguei para participar. E nem pagaria. Não sou contra pagar, mas com 50 eu não pagaria).
Mas acho que também não podemos generalizar. Tem organizadores e editores sério. Vamos pegar o Richard Diegues, por exemplo. A grande maioria dos textos da coleção Paradigmas é de muita qualidade. Tem textos ruins? Sim, claro. Mas isso não é porque é paga ou é gratuita.
Em relação a se destacar em antologias pagas, realmente é muito difícil, mas não impossível. Se o autor tem qualidade, acaba sendo comentado.
É errado seguir esse caminho? Talvez… Mas acho que te dá um pouco de experiência e é possível abrir portas sim. Já sai em algumas antologias pagas e por causa do trabalho apresentado nelas, hoje já tenho sido convidado para outros projetos e isso também facilitou o lançamento do meu livro solo (em breve) sem que eu precisasse pagar. Claro que vai aparecer um ou outro dizendo que a editora não presta, que o livro não presta, que a capa não presta… Normal. Nada nunca presta pra alguns a não ser o que eles mesmos escrevem.
No mais, excelente texto e tbm aguardo a continuação. Parabéns pelo trabalho, sempre.
Abraços,
M. D. Amado
Aguardo ansioso a continuação. (3)
Choque de realidade, muita gente precisa disso hoje em dia. É preciso ler bastante e vigiar em dobro pra se fazer alguma coisa que realmente possa ser lida por alguém.
E aquelas coletanias, tipo as da multifoco xD? Que tem os carinhas que analisam seu texto e pá! sem pagar nada u.u
nem esse se salva né?? xD
Deu até vergonha de perguntar isso…
Espero a continuação
Salve Amado!
Primeiro comentário que você faz no meu site!
Volte sempre. Ó, concordo contigo. Quanto ao Paradigmas, nem se fala. Tanto que estou lá com você no primeiro volume :)
Não acho que seja um caminho 100% (nem 90… nem 20…) errado. Mas acho que muita gente opta por ele na hora errada ou com ilusões demais na cabeça.
Pé no chão faz muita diferença nessa hora.
Abraços e valeu a visita.
Vinicius, a pergunta é menos “se presta” e mais “o que você espera delas”.
Abss!
Falou tudo Eric. Pés no chão… Coisa que até mesmo alguns que batem no peito pra criticar os outros, não tem.
Os meus estão aqui, pesados e bem grudados rsrsrs
Abraçao! (Saudades de vocês ai de Sampa)
Aguardo ansiosa a continuação. (4)
Aguardo ansiosa a continuação. (5)
Lembro que uma vez vc falou cmg sobre isso, tenho orgulho de poder falar sempre dessas coisas com você e aprender mais, viu como falar para o “mundo” dá certo?
Agora vou dormir e esperar o próximo…
“Quem te elogia para arrancar seu dinheiro não merece o seu respeito.”
Depois de ter entrado por essa via, agora o que não me faltam são convites e elogios. Mas foi bom pra aprender. Se é que se pode dizer assim.
Agora é puxar as rédeas e separar o verdadeiro do oportuno. Passei metade da vida aguardando. Acho que não perco por esperar um pouco mais.
Quero ler as outras partes.
Abraçus!
Eric, não vou mentir que estou virando mulher sem vergonha. Ou seja, adorando levar na cara.
Nesse ano muito se tem falado das antologias pagas, e tenho aprendido muito com isso. E me arrependido também.
Admito que enviei um conto para a antologia da Multifoco, – Ouviu Vinicius?! – que ainda não foi lançada.
Considero meus contos, uma merda, literalmente…
Bom, já fiz a merda. Agora vou esperar a chuva fazê-la desaparecer.
O único jeito de melhorar a situação que eu mesmo criei é mostrar que posso melhorar e que meus erros passados não justificam a qualidade das obras que produzirei…
Esperando a continuação.
Bom… acredito que realmente essa coletaneas pagas são um câncer ferrado no meio literário. Eu tenho dois contos pela multifoco, não me orgulho disso. No entanto, não tenho peso na consciência, uma vez que esses contos foram feitos “sob medida” para a multifoco.
Acho que todos tem contos preferidos, que julguem te ruma qualidade diferenciada. Nunca entregaria um destes para uma editora paga ou do genero.
Oi!
Sabe de uma coisa?
Gostei muito do texto, e concordo com o M.D. Amado (e não é só porque a carapuça me serve, já que estou em 2 Paradigmas!).
Pagar por pagar sai caro, e não só no dindin…
Pé no chão é fundamental.
E tem aquele povo que espinafra só por espinafrar, e isso eu acho doído demais.
E a generalização então?
Tá estressado, amigo?
Vai fazer um sexozinho que ajuda, né?
Não precisa descontar a carência em ninguém.
Beijos!
p.s.: tô esperando o resto!
Taí um conselho que vale a pena repetir: menos textos, mais sexo.
O que eu vejo na Paradigmas, sem entrar na discussão de se é paga, se não é, se é alguma outra coisa, é que a coleção traz gente nova, gente das antigas, mas todo mundo consciente do que está fazendo. Que é o que importa, ao meu ver.
Beijokas e valeu a visita =*
Acreidto que a dita coisa aí vale como experiência, até mesmo pra vc ter histórias pra contar pros netos. “Comecei com uma antologia paga e…”
O grande problema é quando isso vira hábito e o número torna-se mais importante que a qualidade.
E, na boa, quem no fandom pode levantar a mão e dizer dessa água jamais bebi?
Nice words, buddy! ;)
Eric, venho parabenizá-lo pelo ponderado post que você escreveu, principalmente com as dicas em relação aos que pretendem entrar em antologia pagas. Você critica, mas também, a exemplo de outros resenhistas que acompanho, procura dar dicas para o caminho das pedras. Se alguém um dia se decepcionar por não ter sido reconhecido como H. P. Lovecraft ou Ray bradbury, não foi por falta de aviso.
Muito justo as suas colocações. Acho que a maior dificuldade do escritor amador que pretende dar um salto mais elevado na sua condição é justamente num ponto que você levantou: o choque de realidade.
Não sei se você conhece, mas gerencio o “Contos Fantásticos” e recebo muitos contos para publicar online. Tenho que admitir que alguns contos não são, assim, vamos dizer, tão bons para se registrar, mas a falta de bons textos te obriga a trabalhar com o que você tem, né? Mas há excelentes textos por lá. O que quero dizer, para não perder o fio da meada, é que, mesmo eu não sendo um expert em literatura de gênero, quando procuro dar algumas dicas para melhoramentos dos contos… nossa, cara! O ego do escritor amador é algo difícil de lidar. Não vou entrar em detalhes.
Já tive no outro lado da linha. Enviei um conto para o Albarus Andreous, um amigo virtual, mas muito crítico. Ele foi taxativo: engaveta isso aí. Mas mandou engavetar, não sem ante me oferecer embasamento consistente para tanto.
Este teu post me fez lembrar o choque de realidade que tomei. É duro, mas tem que ser assim .(rs,rs,rs).
Oi, Afonso.
Obrigado pela visita.
Pois é. Aparentemente o pessoal prefere elogios vazios a críticas construtivas. Coisas do meio literário. Como li no site do Sérgio Rodrigues uma vez: elogio é açúcar, crítica é proteína. É o pensamento que mantenho ao lidar com essas situações.
E conheço o seu site sim! Não tinha ligado o nome a pessoa :) Li um conto do Leonardo e a entrevista com o Romeu recentemente.
Abs!
Olá, grande Eric!
Tá um debate bom aqui, né? Sem brigas, apenas argumentos expostos, bem civilizado.
Eu acompanho esse lance de antologias pagas há tempos e nunca participei, ou seja, pagar para alguém me publicar.
Comecei publicando quadrinhos para um jornal no ES, depois disso fiz de tudo para publicar minhas coisas com o menor prejuízo possível. Afinal, quando se produz algo, mesmo publicando de graça, você não está realmente no lucro, certo? Você gastou tempo ali que você poderia trabalhar com outra coisa, ou dedicar esse tempo a você mesmo.
Então, trabalharmos para publicar algo que não nos doa no bolso JÁ É um investimento!
Pagar para publicar é pagar dobrado por um trabalho. Agora, se for fazer isso, pagar para trabalhar, pague por algo SEU.
Publique seu romance, não junto com uma porrada de gente. Você pode achar que se garante e, de fato, pode se garantir, mas e os outros 528 participantes?
Eu ainda acho mais válido um cara que gasta toda sua grana pagando sua tiragem do bolso do que quem participa de uma antologia, porque assim, a pessoa assume o risco só, se as coisas derem erradas, será por ingenuidade ou falta de qualidade dela.
André Vianco, nosso exemplo maior, assumiu o risco, pagou pra ver (literalmente) e venceu.
E nem adianta culpar a editora. Ela só existe porque VOCÊ existe, caro autor.