Para falar do Céu de Lúcifer (Azougue, 2003), precisei espanar a poeira tanto da capa quanto dos neurônios. Faz tempo que encontrei esse livro na Primavera dos Livros, uma feira que rola no Rio e em São Paulo só com pequenas editoras. É uma versão bem mais interessante da Bienal para quem gosta de garimpar bons títulos. Céu de Lúcifer fecha a trilogia conceitual que o Ronaldo Bressane batizou de A outra comédia. O livro traz 19 contos. O primeiro deles, ironicamente, narrado por um jornalista que não agüenta mais informações e se isola do mundo. As notícias chegam como drogas por debaixo da porta, pílulas em doses pequenas para que a abstinência não leve à morte. Os cinco eleitos para alimentá-lo são batizados de infotraficantes, termo que acho muito bem sacado.
Quem estava na mesa-redonda que o autor participou no Fantasticon encontrará muito do Bressane nesse texto. Pé na realidade apresentado, o conto descreve as viagens particulares do jornalista em suas férias mentais, com tiradas como “jornalista mata gigolô por amor a Dostoievski.” Apesar dos cenários e situações cotidianas, como Avenida Paulista, um quarto de hotel, sambinha de Noel Rosa, os contos encontram seus limiares fantásticos em um flerte constante com o onírico. Minha dica são os contos Assassinato em Matutu e Atrás do Sol, que já começa derrubando com um “eles rastejavam atrás do sol por séculos de poeira”. É para quem gosta de literatura em camadas, onde nada vem mastigado. A capa e as ilustrações são de Eduardo Kerges.

Excelentes dicas Eric.
Fiquei curioso para ler O Céu de Lúcifer, parece ser muito interessante.
Ganhei O Céu de Lúcifer lá no Fantasticon! Cheio de ilustrações pitorescas. Será uma de minhas próximas leituras.
Bjos