Se você consultar antigas paradas de sucesso notará que havia ciclos musicais bem-definidos, sempre com um gênero de maior destaque. Um exemplo que vem fácil à mente é o império da disco music, que dominou pistas, conseguiu chegar às rádios e ditou moda e comportamento. Numa evolução natural de influências, os anos 80 foram simbólicos para o pop e suas vertentes. Nomes como Human League, Pet Shop Boys, Depeche Mode, A-ha, Duran Duran, Cyndi Lauper, Alphaville, New Kids on the block e Madonna, entre outros, apareciam com freqüência na lista de mais executados. Nessa época surgiu o tecnopop na Europa, embalado por uma nova geração de sintetizadores, e o rockpop no Brasil, que perdura até hoje.

O pop foi tocado intensamente até o início da década de 90. Já no ano de 91, começou a época de transição em que o grunge, alavancado pelo ícone Nirvana e pela força do Soundgarden, assumiu o posto oficial de queridinho e desbancou o pop de seu trono. O grunge era hit nas rádios e reforçava o coro da rebeldia depressiva, enquanto Michael Jackson afundava a carreira e Madonna experimentava vendas baixas com o Erotica. Seguindo a regra da indústria fonográfica, quando os astros caem, os satélites desaparecem. Pelo que parecia, os adolescentes estavam interessados no grunge e o pop estava de molho na lista de prioridade das gravadoras.

Feliz ou infelizmente, o gênero tinha tons escuros demais para o mundo dos videoclipes e uma nova mudança de programação movida a suicídio e brigas nas bandas recolocou o pop no posto central. A Inglaterra, onde o pop e a dance music são realmente populares (como o sertanejo e o pagode aqui no Brasil), alimentou as vendas de uma boyband em início de carreira – o quinteto Backstreet Boys – e serviu de plataforma para o restante da Europa. Na mesma época, estourava o fenômeno mundial Spice Girls (1994), que rompeu barreiras em todo o planeta. Say you’ll be there, Wannabe e Stop eram canções de fácil assimilação, com videoclipes saídos de desfiles prêt-à-porter. A música e a moda caminhavam novamente de mãos dadas, e meninas de idades variadas não se separavam dos seus saltos plataforma. O R’n’B, que seguia forte nos Estados Unidos, não ameaçava o equilíbrio nas programações. Pelo mundo, o rap ainda era material para programas específicos de fim de noite e rádios alternativas.

Com essa abertura inesperada no mercado americano (geralmente avesso a dance music), o produtor Max Martin virou o motor da nova onda pop, lançando Britney Spears, N’Sync, Robyn e Five (esse mais badalado no mercado europeu e no Brasil). Um grupo parecia alimentar o sucesso do outro, funcionando como uma campanha contínua de marketing viral. Todos alcançaram sucesso de vendas e foram uma verdadeira febre adolescente. Michael Jackson, sempre um nome de peso mesmo nos piores momentos, aproveitou para lançar uma coletânea e um cd de inéditas, contando com a irmã Janet Jackson e uma pesada campanha na TV. Roxette, que estava na estrada desde 86, lançou Tourism e logo depois Crash! Boom! Bang!, dois grandes álbuns de música pop com força mundial. Bryan Adams, também em boa fase com seu rockpop farofa, revisitou seus sucessos em um acústico MTV.

Da Austrália, veio o Savage Garden, que conquistou o mundo com uma mistura de rock, dance e pop regada a baladas de refrão fácil, encerrando a tradição de grupos como Midnight Oil e Spy vs. Spy.

Nos EUA, Janet Jackson, depois de uma coletânea elogiada, virou febre com The Velvet Rope, conseguindo boa execução pelo mundo e repetiu a dose com All for you, três anos depois.

Outro ingrediente importante nessa salada pop foi o retorno de Ricky Martin ao cenário musical. Sua música tema para a Copa do Mundo chamou a atenção de nomes importantes como Madonna, que voltava com força total com o álbum Ray of Light (mais puxado para a eletrônica e para o rock), além de abrir portas para o seu cd em inglês com a onipresente Livin’ La Vida Loca. No rastro da moda latina, Shakira, que já havia se consolidado na América do Sul, lançou um acústico MTV e o álbum inglês/espanhol Laundry Service, que emplacou os hits Whenever Wherever e Underneath your clothes. Também importante nessa fusão de estilos e no início de uma nova transição estava Santana com o álbum Supernatural. A dobradinha Smooth com Rob Thomas foi a segunda música mais executada nos Estados Unidos no ano 2000. Em terceiro lugar, Santana aparece de novo com Maria Maria, dueto com o raper Wyclef Jam.

O pop parecia restabelecido. A dance tinha novamente saído das pistas para as rádios e Cher como garota-propaganda (com Believe e Strong Enough). TLC lançava o álbum mais pop da carreira, emplacando No Scrubs e Unpretty, e Britney conquistava o mundo com Hit me baby… one more time e Oops! I did it again.

Chegava a hora de novas mudanças. O império Max Martin começou a demonstrar o desgaste inato à fórmula das boybands, com grupos se desmantelando. A ícone adolescente Britney Spears vendia menos a cada cd (acima dos 10 milhões de cópias, é verdade) e os artistas satélites não queriam mais ficar à sombra dos originais, buscando formatos mais alternativos e novos produtores para seus trabalhos.

As rádios precisavam de renovação e os produtores e gravadoras viram no Hip hop a solução ideal. Sempre forte nos EUA, mas ainda visto como música de gueto, o hip hop encontrou uma arma nas fusões de estilos, que ainda eram exclusividade de produtores vanguardistas. Mariah Carey já se arriscava na mistura em 1995 com Fantasy (a cantora sempre promoveu o hip hop em seus remixes). Outra artista que alimentou a combinação de estilos foi Jennifer Lopez. Com influências latinas, beats de dance music, pop e um toque de r’n’b, seu primeiro álbum On the 6 conseguiu vendagens expressivas e firmou a cantora no cenário internacional, sendo um representante legítimo da transição.

Em outra frente de ataque, Puff Daddy/P.Diddy trabalhava para tornar o hip-hop… pop. Ele produziu N’Sync, Mary J. Blige, Aretha Franklin e TLC. Em seu cd No Way Out, transformou Every Breathe You Take do The Police no hit instantâneo I’ll be missing you, dueto com Faith Evans. Babyface, outro importante produtor, também vinha experimentando fusões trabalhando com o megatrio TLC, Madonna e até mesmo Eric Clapton.

Whitney Houston também levou às rádios o seu mix de estilos com My Love is Your love, que tinha duetos com Faith Evans, Wycleaf Jean e Missy Elliot. It’s not right, but is okay dominou as rádios com uma infinidade de remixes, atacando tanto na área dance quanto no r’n'b.

A fórmula mágica tinha funcionado. Atrás de boas vendas, todos começavam a se render ao hip-pop. Jennifer Lopez decidiu emendar a divulgação do álbum J.Lo no cd de remixes hip-hop, destacando-se com I’m real, testando diferentes proporções da mistura. Madonna, ícone do pop, usou as batidas do produtor francês Mirwais em Music, também aproveitando o som urbano.

O hip-hop, como quem não quer nada, deixou de ser mania americana e dominou o mundo. Se em 2000 e 2001 N’sync, Britney e Backstreet boys eram os destaques nas listas dos mais vendidos, nos anos seguintes foram Eminem, Nelly, 50 Cent os donos das primeiras posições.

Um pouco depois, Usher obteve enorme sucesso com Yeah! e My Boo e Alicia Keys se firmou como um nome forte do R’n’B. Beyonce, pós sucesso com o grupo Destiny Child, saiu em carreia solo com o single Crazy in Love. Gwen Stefani, também solo, largou o rock e apostou no hip-pop enjoativo de Hollaback girl. Aproveitando o bom momento para o tipo de sonoridade que dominava, Mariah Carey ressurgiu com força e lançou We Belong Together e uma enxurrada de músicas vindas de The Emancipation of Mimi. O mais puro hip-pop.

As frentes de resistência vinham com Maroon 5 e o rock de Green Day, mas o desequilíbrio de estilos na execução das rádios já era evidente. Aos poucos, o gênero dominou as paradas, só encontrando um contraponto nas inúmeras bandas EMO. O ciclo parecia interminável.

Para encerrar o massacre, o pop resolveu adotar a mesma estratégia de fusão. Com produtores como Timbaland e Will.i.am ganhando status de midas e Max Martin reconquistando força no cenário musical, uma nova fase começou.

Black Eyes Peas, grupo de Will.i.am, foi o responsável por hits com Where is the love? Shut up, Don’t phunk with my hear e Pump it. Discretamente, a quantidade do ingrediente pop aumentava de uma música para outra, rendendo enfim o álbum solo da cantora Fergie, que trouxe London Bridge, Big girls don’t cry e Fergalicious, um flerte com a sonoridade dos anos 80.

Sumida desde 2003, outro nome a ressurgir com força foi Nelly Furtado, na mesma linha pop com pitadas de hip-hop e sonoridades dos anos 80. Justin Timberlake, ex-integrante do N’Sync e agora um fenômeno de vendas, marcou presença com Sexy Back e LoveStoned, usando ingredientes similares. Madonna, na direção contrária à onda hip-pop americana, lançou um cd de dance, dando nova voz ao gênero. A cantora Pink, livre das amarras do início de carreira, foi presença constante na Europa e na Austrália com seu pop-rock de batidas hip-hop. Com uma boa estratégia de marketing da gravadora, retornou às paradas americanas com Stupid Girls, U+Ur Hand e Who Knew.

Shakira, depois do desempenho fraco de Don’t Bother conseguiu ótima execução com La tortura e Hips don’t lie (dueto com Wycleaf, um rapper). Timbaland lançou cd solo flertando com baladas, hip-hop e dance music. Jennifer Lopez retomou seu lado pop com o álbum Brave depois de um álbum em espanhol. Duran Duran reapareceu com Fallin Down, que apesar da pouca execução nos EUA está indo bem em alguns países europeus. Britney Spears ressurgiu das trevas com o sucesso instantâneo Gimme More, dando mais uma força ao lado dance. Kylie Minogue voltou com 2 Hearts, Kent lançou Ingeting, Eros Ramazzotti se uniu a Ricky Martin no dueto Non siamo soli. Seal lançou um cd orientado à dance music, e por aí vai.

Importante de lembrar é o nome de Rihanna e seu single Umbrella, certamente a música mais executada de 2007 e um representante de peso do hip-pop.

A lista de frutos dessa simbiose é extensa. Sem prejudicar nenhum dos lados, talvez permita maior variedade musical para os ouvintes e abra portas para o pop mais puro (alguém aí falou no retorno das Spice Girls ou no fenômeno adolescente High School Musical?) e o rock legítimo das antigas (eu ouvi alguém citar The Police?).

Como em alguns países a execução na rádio ainda é fator determinante de sucesso e de geração de renda com propaganda, qualquer dúvida sobre um artista pode colocá-lo fora da programação. De qualquer modo, os sinais indicam que um novo ciclo está para começar. Falta saber qual será o estilo ou artista dominante.