Falar de morte é sempre complicado. Digo no trato da vida real e também na literatura. A morte literária não é um mero descarte de personagens como acontece em novelas, é preciso extrair dela um sentido que transcenda o próprio acontecimento. Beira o óbvio dizer que a morte valoriza os que estão vivos. Sabe aquela história de que só damos valor ao sentir falta? Quando alguém se esvai das páginas, os personagens sobreviventes ganham carga dramática instantaneamente. Sua existência passa a ter um algo mais, num truque de cartas e cartola narrativo.
Em Enquanto ele estava morto…, livro de Estevão Ribeiro, a morte está logo na primeira página, mostrando-se como fato real e força-motriz. Mas ela é também uma metáfora do vazio, do que realmente levamos adiante na bagagem emocional que pesa em nossos ombros. A carga da metáfora é potencializada por esse ser um relato autobiográfico, história de família, com as devidas liberdades poéticas. O autor narra do ponto presente parte de sua infância e adolescência, movido pelo drama de saber da morte de um irmão. É um telefonema sem muita explicação. Só se sabe que ele morreu em um garimpo na Bahia. Quer dizer, nem isso se sabe direito. A dúvida (vazio da certeza?) é fonte de angústia, prova da impotência diante do que não podemos controlar. E o que fazer quando não se pode fazer nada parece ser o x da questão para o personagem-autor. Estevão precisa descobrir onde está o corpo. Precisa porque assim determinou diante das contestações dos demais. Quer encontrar o irmão que nunca foi lá essas coisas, mas que com a morte assumiu a aura mítica de herói, e heróis não merecem ser enterrados como indigentes.
“Mas o maior ato de heroísmo de Daniel com o caçula foi livrar-me da morte certa. Uma infeliz coincidência me colocou numa situação onde vivi uma semana como se cada dia fosse o último. Garanto que não foi igual aos filmes hollywoodianos onde a pessoa começa a valorizar as pequenas coisas, vai à praia contemplar o Sol se pondo, acerta-se com a família, repara seus erros. Foi uma tensa espera pela hora da morte”.
Assim, durante 108 páginas que misturam textos e ilustrações do próprio autor, Estevão compartilha suas memórias, indo do drama ao humor e de volta ao drama. Fala dos muitos irmãos, da infância dormindo em barracos, da vida que por pouco não se perde em um corte no joelho ou num mal-entendido. As questões familiares estão presentes desde o primeiro instante, somando-se sinergicamente ao drama do irmão perdido. É curioso ver como algumas pessoas não acreditam na morte de Daniel. Há os que entram em negação porque gostavam do irmão e há os que não acreditam simplesmente porque vaso ruim não quebra. As dores são maiores quando não compartilhadas, e o único a trabalhar em busca da resposta é o narrador, mesmo que, nesse caso, o fim do vazio seja aceitar que um irmão morreu.
“Vivi uma infância de preconceito, não por causa de pele, e sim pela minha condição social e minha criação. Pobre e sem pai, eu era visto como um ser menor entre os amigos que tinham pais e padrastos. Faltaram-me valores e costas quentes. Numa família fragmentada, com quem se reclama de um menino que te bate na escola? Mamãe mandava pedir a Deus que parassem. Não adiantou muito”.
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Descontado o impacto inicial do tema, Enquanto ele estava morto… é um livro leve, desses que se lê numa piscada. Um trabalho honesto de remembrança.
Estevão Ribeiro é o criador do personagem Tristão e autor de Contos Tristes, livro que mistura ilustrações, contos, quadrinhos e poesia. Atualmente escreve a tirinha Os Pássaros.
