1. Qual a premissa de Os Dias da Peste?
“Os Dias da Peste” é a minha resposta a uma pergunta sobre uma questão simples: qual o nosso verdadeiro grau de dependência das máquinas? O “gatilho” que deflagrou a história foi o filme Matrix, que gerou o conto original, Um Diário dos Dias da Peste, escrito em 1999 e publicado em 2000 na coletânea de contos Interface com o Vampiro. Apesar de ter adorado o filme, sempre me incomodou muito esse clichê de as-máquinas-vão-dominar-o-homem. Por dois motivos: primeiro, as máquinas já dominam o homem. Numa cidade como São Paulo, por exemplo, todo mundo depende de carro ou de metrô (as pessoas também pensam que “máquinas” são apenas computadores, aliás), onde as pessoas não dependem de máquinas? Quando a Internet sai do ar, as pessoas não ficam malucas? Quando você está numa fila de banco e o caixa diz: “caiu o sistema”, qual é a sua reação? Há algum tempo, num papo com o Fausto Fawcett, ele me disse o seguinte: “Antigamente o pessoal queria derrubar o sistema. Hoje neguinho fica puto quando cai o sistema.” É por aí. Os Dias da Peste contam a história de um período no futuro bem próximo em que o sistema cai e isso provoca um “caos informático”, mas não só. As conseqüências desse caos acabam sendo maiores do que se esperava, e não necessariamente negativas para a humanidade.
2. Você construiu uma relação acadêmica com o tema em seu livro “A construção do imaginário Cyber”. De que maneira isso é diferente ou complementa a sua relação de autor com o universo ciberpunk de “Os Dias da Peste?”
Quando comecei a escrever, não pensava que iria algum dia estar na academia. Mas ao entrar para o Mestrado de Comunicação e Semiótica na PUC-SP, onde pensava inicialmente em fazer uma pesquisa sobre hipermídia, descobri com minha orientadora, a net-artist Giselle Beiguelman, que a ficção científica estava em alta na academia por suas vinculações com a cibercultura – mas que, pelo menos no Brasil, ninguém havia pensado até então em explorar essas relações muito a fundo. (Na verdade, como eu viria a saber logo em seguida, havia uma pessoa fazendo essa pesquisa junto comigo, e no doutorado: Adriana Amaral, que publicou sua tese sobre a relação entre Philip K. Dick e os cyberpunks como um excelente livro, Visões Perigosas.)
Então desloquei o foco do mestrado para a ficção científica como formadora, moldadora da cibercultura como a conhecemos hoje (na mesma linha que o Henry Jenkins defende também) e acabei escrevendo uma dissertação sobre a obra de William Gibson, que se transformou no livro A Construção do Imaginário Cyber. Isso acabou reforçando meu lugar na ficção científica brasileira não só como escritor de histórias relacionadas ao cyberpunk como também um pesquisador e professor que contribui para a informação e formação de novos autores e leitores. Isso tem me agradado imensamente, porque tem surgido uma novíssima geração de leitores que está muito interessada no cyber e no pós-cyber – e já começa a escrever suas primeiras histórias.
3. Tem uma frase do prefácio da Adriana Amaral que acho excelente. Reproduzo mais ou menos aqui: “Mas é na descrição acurada, e não na extrapolação, como diz Ursula Le Guin, que a FC, ou sci-fi (…) mata a cobra e mostra o pau!” Como essa idéia se relaciona com o seu romance?
Eu sou um apaixonado pela palavra. Desde sempre. Uma coisa que talvez poucos saibam a meu respeito é que eu comecei escrevendo poesia e teatro. Meu primeiro prêmio literário foi um prêmio nacional de dramaturgia que ganhei aos 19 anos, por um conjunto de esquetes, um dos quais foi adaptado em 1998 e foi levado aos palcos cariocas sob a direção de Luiz Armando Queiroz (Vestidos Brancos, a última direção do Luiz, aliás, um trabalho belíssimo dele que muito me honrou). Continuo escrevendo poemas que jamais publicarei e microcontos cujo foco é mais a forma que o conteúdo, embora eu não abra mão do sentido. Rosa, Leminski e Osman Lins estão entre meus autores mais queridos, de cabeceira. Catatau é leitura constante, oracular (volta e meia pego e abro ao acaso, leio e mergulho na narrativa caudalosa de Leminski). Talvez por isso, embora a extrapolação me fascine, a descrição mexa mais comigo. Gosto imensamente de descrever coisas, cenas, lugares, pessoas. Nem sempre sou rigoroso como quero, mas, como diz um poema de Margareth Castanheiro, que li quando jovem e nunca mais esqueci, “O acerto pode ser incerto/mas o erro tem que ser exato”.
4. A ficção-científica abre espaços para discussões que não seriam possíveis na literatura do cotidiano (o tal mainstream)?
Abre. A literatura de ficção científica faz parte do conjunto-universo que se convencionou chamar de literatura de invenção (muito embora praticamente toda literatura seja de invenção, mesmo as biografias), e isso nos dá uma excelente desculpa para tratarmos de todos os temas que a dita Literatura com L maiúsculo teme falar. Vou citar um exemplo que não pertence à esfera da FC mas pode dar uma idéia interessante: os romances históricos/conspiratórios/de ação na linha O Código Da Vinci. Recentemente eu estava conversando com um editor de uma grande casa editorial carioca (não posso citar nomes) e ele me disse que seu maior sonho era publicar um similar nacional do Best-seller de Dan Brown, e que ele próprio volta-e-meia convida autores brasileiros de porte, conhecidos, ganhadores do Jabuti e de outros prêmios, e a resposta é sempre a mesma: a maioria até gostaria de escrever um livro assim (vários inclusive afirmaram secretamente gostar desse tipo de literatura), mas jamais o faria por medo de ficar mal com a crítica e os colegas. Daí o horror, o horror, citando Conrad. Mas a FC é a literatura-Oscar-Wilde, ou seja, a que não tem medo de dizer seu nome: ela fala com absoluta tranqüilidade de seres alienígenas, universos paralelos, outros planetas, futuros distantes, muito embora (e grande parte da crítica brasileira parece ainda não ter entendido isso) continue falando da nossa realidade, do nosso presente, apenas com outra capa. É um outro modo, bastante elegante, de tratar de angústias e ansiedades. A capa de um realismo mais duro e cruel já foi muito bem tratada por Hemingway, Bukowski, Fante. A FC pode até explorar territórios semelhantes, mas com outros mapas.
5. Qual foi sua rotina de escrita do livro? Escrever um romance exigiu mais disciplina do que você precisava ter como contista?
Muito mais. Contos têm dinâmicas muito particulares, dependendo do tamanho ou da estrutura. Posso levar um dia ou dois meses para escrever um conto, e eles podem variar entre uma e vinte páginas (às vezes escrevo textos de trinta ou quarenta, mas atualmente têm sido mais raros). Para o romance, entretanto, me impus uma disciplina rígida: trabalhar todas as manhãs pelo menos uma hora. Isso me deu, ao fim e ao cabo, uma média de quatro laudas por dia (cerca de mil palavras). No caso de Os Dias da Peste, como eu já tinha dois textos-guia (além de Um Diário dos Dias da Peste, usei também sua continuação, Interface com o Vampiro, escrito em 2000 e publicado também na coletânea homônima). Eram mais ou menos trinta laudas – que acabaram virando 265 em pouco menos de um ano. Preciso dizer que nesse tempo escrevi o livro inteiro e fiz um sem-número de revisões – pelo menos umas nove. Ou seja, 265 laudas foram o produto final, mas devo ter escrito pelo menos o dobro disso.
6. Em uma palestra ouvi você dizer que os autores nacionais não ficam devendo em nada aos autores lá de fora. Disse isso quanto à qualidade dos textos. E na ousadia dos temas trabalhados? Já conseguimos manter paridade?
Não, na ousadia ainda não. Temos boas exceções, claro. Jacques Barcia, por exemplo, é uma delas. Ele sempre consegue me surpreender com histórias belas e terríveis, e domina o inglês (língua em que escreve a maior parte de suas histórias) como poucos. Mas percebo que acabo de incorrer num paradoxo: nosso melhor autor dos últimos dois anos talvez o seja justamente porque escreve em total sintonia com o que se escreve lá fora, e não aqui. Eu mesmo sofro de uma terrível esquizofrenia literária: neste ano já publiquei uns oito contos em inglês, que têm sido elogiados lá fora, com temas steampunk e new weird, mas que escrevo com uma grande preocupação em não reinventar a roda, ou seja, não fazer o que já fizeram antes. Os Dias da Peste é um livro cujo tema já foi muito explorado no mercado anglo-americano, e sou altamente devedor a nomes como William Gibson, John Shirley e Pat Cadigan, apenas para citar alguns. Mas não sei se (como alguns colegas americanos meus já me perguntaram) este livro será algum dia traduzido ou reescrito para o inglês. Acho que o cyberpunk é um subgênero que subitamente encontrou uma grande revitalização no Brasil, mas nos EUA e na Inglaterra tomou outro rumo, não tem mais a mesma pegada.
7. O quanto o autor Fábio Fernandes é ciberpunk? Qual a sua relação com os gadgets atuais?
Quem me olha deve achar que eu sou um sujeito completamente sem noção. Na verdade, apesar de ter tido uma formação como técnico em eletrônica no segundo grau e um conhecimento básico de programação, essa linguagem não é o meu forte (embora tenha me aventurado bem de leve nos últimos tempos, por conta dos cursos de tecnologia onde leciono). Mas sou fanático por dispositivos de última geração e procuro estar sempre por dentro das últimas tendências. Não tenho grana para ter os top de linha nem gosto de ser beta-tester (estou mais para delta ou gama-tester, mais pro fim da fila), mas tenho meu iPhonezinho, meu netbook e estou sempre conectado onde quer que eu vá. Ou onde quer que as redes wi-fi e 3G permitam, claro.

Ótima entrevista.
Me deixou anda mais curioso para ler Os Dias da Peste. Parabéns, Fábio, pelo excelente trabalho e parabéns, Eric, pela entrevista.
Abrços
Excelente entrevista. Concordo com o Rober: também fiquei curioso pra ler o livro dele.
=]
Curti muito o livro. :-)