1. O vampiro antes de Drácula não é só um livro de contos. As 50 primeiras páginas trazem um material precioso de pesquisa histórica que não se vê todo dia por aí. O que o leitor deve esperar dessa parte?

A idéia de incluir no livro uma análise da evolução do mito do vampiro nasceu logo na primeira conversa que tive com o Silvio Alexandre (era o comecinho de 2006), em que ele sugeriu a antologia e eu topei. Achei interessante principalmente porque eu andava buscando algo assim e ainda não tinha visto em nenhum lugar. Eu tinha uma idéia modesta, de escrever um texto com umas dez páginas, só com a cronologia das principais obras. Mas à medida que ia pesquisando e me aprofundando no tema, percebi que era muito mais complexo do que eu imaginara. Depois que o Humberto entrou no projeto, em setembro ou outubro de 2007, passamos a ler, estudar e discutir o assunto obsessivamente. O resultado final foi além de nossas expectativas. Não acredito que exista, em português, outro estudo que aborde de forma tão minuciosa a trajetória do personagem vampírico através da história e das mudanças de comportamento da sociedade do século XIX, ao mesmo tempo situando-o dentro dos movimentos artísticos que se sucederam. Acho que, ao ler nosso ensaio, o leitor percebe claramente o porquê de afirmarmos que, mais que um personagem, o vampiro é um sintoma da sociedade que o criou.

2. Como foi pesquisar e traduzir todo esse material?

Foi um trabalho de paciência e perseverança, mas também foi uma delícia. Por dois anos e meio vasculhamos nossas próprias bibliotecas (e a do Humberto é inacreditável), livrarias e sebos de São Paulo, Rio, Buenos Aires e Toronto, os acervos disponíveis pela internet (viva o Google Books e o Projeto Gutenberg!) e os acervos pessoais de amigos. O caso mais complicado foi “A família do vurdalak”, de Alexei Tolstói, que só tínhamos em inglês e castelhano; durante dois anos procuramos o original francês, até que um dia, ao voltarmos de uma caçada improdutiva na Biblioteca Nacional e pelos sebos do Rio, pela milésima vez fiz uma busca pela internet, só para não perder o costume, e de repente o texto apareceu em dois sites! Já “O velho Éson”, de Arthur Quiller-Couch entrou no livro aos 45 do segundo tempo, quando estava tudo decidido e o prazo mais do que estourado. Fiquei encantada com o conto. Traduzi primeiro e perguntei depois se podíamos incluí-lo. Ainda bem que todo mundo também gostou!

3. Como sua bagagem como autora de fantasia ajudou na criação do livro?

A experiência como escritora ajudou bastante na hora de dar a forma final aos contos. O Humberto costuma brincar que fiz uma boa ação para com a memória de alguns dos autores, tornando seus textos legíveis e até elegantes (risos). Mas acho que o mais legal desse trabalho foi que ambos usamos nosso background de biólogos e pesquisadores tanto no processo de seleção dos contos quanto na análise da trajetória do vampiro ao longo do tempo e das sucessivas mudanças na sociedade. Acho que os leitores do livro vão perceber claramente a abordagem evolutiva que permeia toda a interpretação das sucessivas alterações que o mito foi sofrendo à medida que a sociedade mudava, e com ela o papel que não só se esperava mas se exigia que o vampiro desempenhasse.

4. Lord Byron parece ter participação fundamental na evolução do vampiro como tema literário. Como vocês chegaram até ele?

O papel de Byron na gênese do vampiro foi mencionado logo nos primeiros textos que consultamos em nossa pesquisa. É bem sabido que foi ele quem originalmente teve a idéia que depois John Polidori transformou no primeiro conto de vampiros. Mas o que mais nos surpreendeu foi saber que o estereótipo do vampiro clássico deve muito mais à personalidade e ao comportamento do próprio Byron do que à sua escrita. Polidori criou o primeiro vampiro da ficção baseando-se totalmente em Byron, e até hoje os vampiros exibem muitas características que vieram dele – a aura de mistério, o charme irresistível e perigoso, a postura de superioridade sobre os humanos “normais”. Isso tudo fazia parte da persona criada por Byron para si mesmo, e que o transformou num verdadeiro popstar em sua época.

5. Você acha que o papel de Bram Stoker na construção do mito dos vampiros é superestimado?

De forma alguma. Bram Stoker atualizou o velho vilão melodramático e kitsch da década de 1840, que se limitava a morder o pescoço de mocinhas, e o transformou numa ameaça à altura do desenvolvimento tecnológico do final do século XIX. Amalgamando o folclore centro-europeu, a literatura pregressa e suas próprias idéias, e imprimindo teatralidade à narrativa, ele “encorpou”o vampiro e fixou as características que conhecemos hoje. Em linhas gerais, tudo que se popularizou ao longo do século XX saiu do Drácula; a maioria dos elementos não nasceu ali, foi incorporada do que existia antes, mas praticamente só se perpetuou porque foi citada por Stoker. Elementos antes populares, que ele não aproveitou, acabaram caindo no esquecimento – o melhor exemplo é o papel do luar na reposição das forças do vampiro; é uma tradição literária que ainda aparece em 1872, em Carmilla, mas que se perdeu por não ter sido aproveitada no Drácula.

6. Qual conto agradou mais a leitora Martha Argel?

É difícil escolher. Gosto de cada um dos contos por diferentes motivos. Acho que destacaria “A floração da estranha orquídea”, de H. G. Wells, pelo ritmo incrivelmente contemporâneo, e pelo humor subjacente; “A dama pálida”, de Alexandre Dumas, pela qualidade quase cinematográfica; “Um mistério da Campagna”, de Anne Crawford, pela forma refinada e precisa como a autora criou os personagens; “O último dos vampiros”, não só pelo humor (outra vez!) como pela ambientação perfeita na floresta tropical; e “O velho Éson”, pelo lirismo e pela beleza da linguagem.

7. Li uma vez que Bram Stoker escolheu o contágio pelo sangue como uma forma de retratar o sentimento xenófobo de sua época, o olhar de que o estrangeiro contamina de certa forma o sangue dos que já vivem em uma região. Não sei se é verdade, mas é uma imagem forte que me marca até hoje. Para você, qual a metáfora dominante hoje nas histórias de vampiro? É tudo uma questão de imortalidade?

Não me sinto confortável em tentar “psicoanalisar” Stoker ou qualquer autor. Já se especulou muito sobre o que se oculta nas entrelinhas de Drácula. Mas é bom lembrar que Stoker era um gerente de teatro, apaixonado pelo que fazia, que nas horas vagas escrevia romances como hobby e não para ser eternizado como escritor. Em minha visão de alguém que também escreve, ele incluiu em Drácula os elementos que julgou necessários e suficientes para compor o clima e o enredo. Como todo autor, porém, ele sofreu a influência do meio em que viveu; se elementos como xenofobia, colonialismo e moralismo aparecem em sua obra, não quer dizer que, necessariamente, foram introduzidos de propósito. Podem ser apenas resultado e (de novo) sintomas da época.

Hoje, os vampiros podem ser considerados como metáfora para um zilhão de coisas: o medo da morte, o apego à juventude, a vontade de poder tudo, a ânsia de satisfação imediata dos desejos. O vampiro, ser imortal mais poderoso que os humanos normais, é principalmente a reafirmação do eu, a confirmação de que o eu está acima de tudo – dos outros, da sociedade e até da mais inevitável de todas as certezas da natureza: a morte.