É hoje o lançamento de Estudos sobre a leveza, do Fernando Torres, que tive o prazer de orelhar. Será no Bar Exquisito, na Rua Bela Cintra 532, por volta de 19h30. Devido à minha nova rotina de monge de horários certinhos, não ficarei por lá muito tempo, mas espero encontrar vocês! Falando niso, é hora de ir almoçar.

“Eu e Fernando Torres estávamos no bar trocando idéias sobre utopias, quando de sobrancelha erguida ele me perguntou: Eric, eu escrevo literatura realista? Claro que sim, respondi na hora, sem titubear. Fronteira de gêneros é comigo mesmo. Mas no meu livro tem um hipopótamo que fala, disse ele, derrubando minha certeza. Pensei em argumentar que o hipopótamo de Elogio à Fábula era tímido demais, talvez surtisse efeito, mas antes que eu pudesse organizar os pensamentos, Fernando me perguntou da formiga, que mais tarde fui lembrar, desfrutando de nova intimidade com o texto, se chamava Tainá. Dentro do formigueiro, tinha uma função a cumprir, ela debaixo da terra com sua folha nas costas, nós acima dela carregando pastas, correndo para não perder o ônibus, ajeitando o nó da gravata. Talvez o psiquiatra dobrasse meus remédios se me ouvisse falar isso, mas senti ali, naquela mesa de bar, que eu e Tainá tínhamos muito em comum, mais ainda do que eu dividia com o hipopótamo. Que cá entre nós, não fala nada. Bati na lona com prazer, ciente de que um bom texto não aceita rótulos, e passamos para o próximo tópico da conversa.

Os 22 contos de Estudos sobre a Leveza são feitos da matéria abstrata que se encontra no campo das idéias, daquela que escapa pelos dedos se apertarmos demais. São moldados pelas intempéries do cotidiano, juntando forma e conteúdo de modo que o leitor possa deslizar pelas entrelinhas, encontrando diferentes reflexos de si no que está retratado. Pode ser o som de um saxofone, uma lambida no sorvete, cineastas sem dinheiro como eu, a incerteza de um sonho, detalhes que facilmente encontram eco no leitor, e que aqui adquirem amplitude, sempre com as portas abertas para um novo significado.

Fernando Torres sabe que a boa literatura não impõe, ela agrega, vai se compondo de cada olhar que a destrinchar no decorrer de sua existência, fatia por fatia. Então não estranhe se a leitura passar num piscar de olhos e fluir com pura leveza. É esse o objetivo! No final de tudo, rótulos diluídos, é a qualidade do traço que faz a diferença, seja no contorno de um hipopótamo ou na trilha de uma formiguinha”.

Com ilustrações de Fernanda Fiamoncini.