Tenho voltado meus olhos para a literatura dita infantil e infanto-juvenil para entender melhor o mercado, estudar as diferenças de linguagem, indo de Goosebumps e Lygia Bojunga ao onipresente Harry Potter. Quem lê as resenhas aqui do Aguarrás deve conhecer a minha posição quanto aos ensinamentos e à moral dentro de uma história infanto-juvenil. Enalteço Alice por ser um texto que vira para o lado oposto e minimiza as pregações do que é bom ou ruim ao utilizar o nonsense. Me vem em mente a cena do julgamento de Alice, em que o Rei muda de opinião a cada linha e nunca sabe bem o que quer dizer. Não se trata de anular o herói. Não há dúvidas de que Alice seja uma heroína, ela resgata bebês, mesmo que esses virem porquinhos na cena seguinte. Mas é preciso brincar com as coisas, relaxar o arcabouço dos arquétipos. A Fantástica Fábrica de Chocolate dá o tom do que quero dizer. Antes do início da história, Roald Dahl apresenta os personagens da seguinte forma:

“Nesse livro aparecem cinco crianças: Augusto Glupe, o menino guloso; Veroca Sal, a menina mimada; Violeta Chataclete, a menina que masca chiclete o tempo todo; Miguel Tevel, o menino que só vê televisão; e Charlie Bucket, o herói”.

Charlie não precisa de coração puro ou alma caridosa. Ao ser anunciado como o herói, a descrição de seus adversários passa a ser vista como brincadeira. Não me interessa mais nada em Violeta, ela masca chiclete o tempo inteiro e você conhece bem esse tipo de pessoa, hum?

Fiz essa repescagem de idéias para deixar clara a minha leitura de Farei Meu Destino, de Miguel Carqueija. O que guiou minha opinião.

Farei meu destinoPrimeiro o que gostei:
Já na dedicatória, Carqueija comenta quem serviu de inspiração: Walt Disney, Naoko Takeushi e Charles Sheffield. Assumir referências e o diálogo com o entorno é coisa que falta a muitos autores de literatura fantástica, todos fazendo clássicos definitivos e reinventando a roda. Então, ponto positivo. De Walt Disney, por exemplo, vem uma entidade que aparece no espelho (que não é espelho meu). Elementos rearranjados dentro da mitologia dinâmica que o autor criou. Saber as referências até torna a leitura mais interessante, num jogo para decifrá-las.

A fluência do texto também é boa, e o autor demonstra conhecer a idade de seu público. Quanto à estrutura narrativa, Farei meu destino é livro de se ler rapidinho, com cenas de ação e pitadas de humor bem distribuídas. Fala o suficiente para apresentar a cena ao leitor e não sobrecarrega de informações ou descrições visuais, deixando espaço para a imaginação, o que é típico de um livro infanto-juvenil.

A heroína começa bem, corajosa. Queima quem tem que queimar, mata quem tem que matar, vira a mesa quando precisa. Faz isso contra vilões declarados, é claro, um bando de tarados, uma freira demoníaca e um suposto estuprador, mas não anula o fato de não ter medo das soluções que envolvem violência (não gratuita). Seu melhor momento é a piadinha sobre óleo de rícino no final.

“Quando recordo aqueles dias, reflito muito nas circunstâncias que convergiram aquelas meninas para junto de mim, uma a uma, até formar aquele grupo sólido e de total lealdade mútua”.

“Embora elas não o pegassem à força, rodeavam-no de tal maneira que ele se sentia prisioneiro. Sandy tinha quinze anos, não poderia lutar contra seis garotas adolescentes. Também nunca se vira rodeada por tantas, e tão charmosas (…)”.

O que não gostei:
Esse é quase um detalhe, mas vale o comentário. Diana, a protagonista, tem um amor durante a história. Mas é um amor muito rápido, um amor que já estava lá e um amor que estará lá, ele não é um amor de tempo presente, então o leitor não consegue torcer por ele, apesar da simpatia dos personagens envolvidos.

Agora o ponto-chave: a religião.
Não é de hoje que religião e literatura fantástica se misturam. Lilith Saintcrow faz isso na série de Jill Kismet, uma caçadora de demônios. Lilith tira a mitologia do preto no branco com sutilezas. A igreja não apoiar os caçadores e dizer que eles irão todos para o inferno junto com os demônios é um dos artifícios. Thomas E. Sniegoski vai bem mais fundo na brincadeira e usa e abusa da mitologia católica. O detetive é um anjo com um cachorro labrador que trabalha de freelancer. Num conto, ele é contratado por anjos caídos para desvendar o assassinato de Noé, numa plataforma de petróleo.

Carqueija também faz sua mistura. Há um toque mágico de pedras da luz, um papel importante da Lua, tobogã voador, bastões mágicos, mundo dos sonhos, dirigível capaz de sair da atmosfera terrestre, coisas que curti consideravelmente, mas tudo isso sucumbe diante da religião. A mitologia funciona direito, é divertida, mas quando a religião entra em cena ela se destaca demais. Não sei a religião do autor, mas me pareceu uma escolha consciente. O livro abre, inclusive, citando um salmo: “Não abandoneis ao abutre a vida de vossa pomba”. E com isso vem toda uma distribuição de peças: a do bem associado a estar ao lado de deus e a do mal dos ricos, o mal demoníaco que anula a força do mal humano. Insisto que me parece uma cartada narrativa consciente, que não passou da medida por acidente. Foi planejada para ser assim. O problema é que nisso se perde um público, pois a história passa a ser direcionada a quem curte princípios cristãos como eixo moral, que não é o meu caso.

“A Rainha da Serenidade preferiu zelar por todas, do Céu; mas vocês ainda devem permanecer no universo material, protegê-lo contra o Mal”.

“Neste sistema, a revelação de Jesus Cristo forneceu à humanidade as armas espirituais para barrar o caminho do inimigo íntimo, secreto, que vence pela tentação, pela perversão dos espíritos”.

Fui pego de surpresa, pois o livro começa com um tobogã voador, um castelo que abriga antigos segredos e poderes, e de repente a religião vai tomando conta. Faltou à capa, orelha ou contracapa dar uma dica do conteúdo do livro. Elas citam uma aventura fantástica e falam de mangás e animes como referências de trabalho recente do autor, sem dar pista do tom religioso que, ao meu ver, faz a diferença.

Não anula o fato de ser um livro bem escrito, mas isso poderia ficar mais claro.