Digo assim na lata que a fantasia é tão escapista quanto qualquer outro gênero literário. Não quero entrar nos méritos dos limites entre cinema ficcional e documentário (ops, mídia errada), mas é sempre bom lembrar que a ficção também é um registro do pensamento vigente em determinada época, e que o documentário jamais será 100% desprovido de interferência devido à intermediação do olhar, adicionando ao produto final uma dose de ficção. O cinema é uma arte liberada por parte de pai e mãe de qualquer obrigação que não seja a de contar uma boa história. Um filme não precisa de lição de moral para ser relevante. Muito pelo contrário, ensinamentos disfarçados de plots denunciam fraquezas condenáveis de roteiro.

Na literatura, vale a mesma regra. O que devemos perseguir como autores é o aprimoramento do contar, devemos ter como objetivo narrar uma boa história que não deixe o leitor escapar ileso ao virar de páginas. E a fantasia se apresenta como um terreno amplo para as mais diversas manobras, seja em livros de puro escapismo ou livros que falem da ditadura, da guerra, do preconceito contra minorias, do mundo cão, etc.

O que vejo cada vez mais é que a fantasia tem se fortalecido como um gênero capaz de fazer a ponte entre literatura e mercado, capaz de se conectar com o leitor e prender sua atenção na disputa acirrada com outras mídias.  A fantasia de qualidade consegue dialogar com o público jovem, ajudando na formação do leitor, e com o público adulto que sabe o que procurar no mar de informações.

“Nossa, Eric, que bonito isso. Foi por esse motivo nobre que você escolheu a fantasia para escrever? Fiquei até emocionado”. Para um livro dar certo é preciso que o autor tenha afinidade com o que está escrevendo. Até onde meus olhos alcançam eu jamais conseguiria escrever um bom livro de ficção-científica. Simplesmente não faz parte do meu DNA literário. Eu gosto de escrever na fronteira entre a fantasia e a literatura do cotidiano, é ai que me encontro, só isso. Mas também tenho o contato com o público como uma das minhas grandes recompensas como autor, por isso tenho pesado o pé mais para o lado da fantasia. Por isso também aceitei trabalhar com alguns novos autores na construção de seus trabalhos. Pode ser que daqui a 10 anos eu descubra que investi mesmo foi num imenso desperdício de tempo, mas o que acredito hoje é que uma nova leva de autores encontrou, assim como eu, a fantasia como ferramenta de comunicação e formação de público, então tento fazer parte disso desde sua estrutura primordial, dedicando tempo não só aos meus projetos pessoais, mas também ao desses autores que estão chegando agora (ou que já estavam escondidos por aí).

Terminei esses dias o copidesque de O Baronato de Shoah, de Roberto Vieira. O Zero (para os íntimos) anunciou a criação do livro passo a passo no twitter, chamando a atenção do público e da editora. Desde então, a história vem passando por um processo de reconstrução e amadurecimento, e eu entrei na etapa final. O Baronato une a estética steampunk, mais comumente relacionada à FC, com a ambientação da dark fantasy (a fantasia que não é fofinha cheia de fadas e elfos cintilantes). O Zero é de uma geração que viu os games evoluírem e levarem narrativas complexas ao mercado, apresentando clímaxes que competem de igual para igual com as produções Hollywoodianas. Como não poderia deixar de ser, sofre influência direta disso, mas de um jeito positivo. O próprio autor fala sobre o assunto ao explicar o universo do Baronato:

“Nordara é o principal continente do Baronato de Shoah, uma terra grandiosa, onde reinos e impérios humanos dividem espaço com territórios desconhecidos e perigosos. Sua estranha tecnologia a vapor é cria de uma era há muito passada, a Era dos Titãs, quando criaturas de imenso poder a tudo governavam. Máquinas de formas bizarras são vistas ao lado de construções antigas, que não foram derrubadas, mistérios arcanos são esquecidos enquanto o conhecimento científico avança cada vez mais, sem moral nem ética.

Utilizando a estética Steampunk o Baronato de Shoah é altamente influenciado pela literatura épica, o vitoriano, jogos de videogame, como a série Final Fantasy e histórias em quadrinhos, principalmente das revistas Heavy Metal e A Casta dos Metabarões. Além, é claro, de uma boa dose de ousadia.

A magia é rara em Nordara, tratada com respeito e medo, e um trunfo dos povos do norte, os Khans, que são considerados bárbaros pelos demais reinos. O oriente é um mistério a ser desvendado e um inimigo em potencial, e o passado é um monstro prestes a despertar e conquistar aquilo que acha que lhe pertence”.

O livro tem uma narrativa fragmentada que acompanha um pequeno grupo de heróis desde o colégio (uma escola que prepara guerreiros) até seus derradeiros destinos. A grande questão abordada é como um jovem se reposiciona diante da guerra, como ele redimensiona seus valores e o que ele faz quando o que quer é diferente do que a “sociedade” espera dele.

Se você se interessou pelo gênero (cada vez menos sub) Steampunk, um bom site de referência é o Cidade Phantástica, de Romeu Martins, com links para diversas fontes de informações. Quem tiver curiosidade sobre o Baronato de Shoah pode visitar o blog do autor Roberto Vieira. O lançamento está previsto para o segundo semestre de 2010.