Um dos grandes riscos de quem lida com o fantástico é deixar que o universo de possibilidades engula a própria literatura. Em uma das melhores mesas que já vi no Fantasticon, Nelson de Oliveira, Ronaldo Bressane, Santiago Nazarian e Kizzy Ysatis discutiam suas práticas de escrita quando o Santiago jogou no ar a seguinte provocação (nas minhas palavras, não lembro mais as dele): que autores de gênero teriam um compromisso maior com o gênero do que com o texto, enquanto autores de literatura do cotidiano teriam um compromisso maior com a palavra e o refinamento das frases. Desde então, quando estou entre autores de literatura fantástica, levanto essa bola. A última vez, no podcast Papo na Estante, acabamos concordando que ainda há muito espaço para se melhorar. Generalizar nunca é o caso, mas pensando em todos os contemporâneos de literatura fantástica que li, o Santiago não deixa de ter razão. Alguns escritores de fantasia passam mais tempo pensando em seus universos do que no próprio texto. Parece ser mais importante definir o comércio entre “orcs” e “elfos” e colorir de canetinha o mapa das terras inabitáveis de Asgard  do que aprimorar as ferramentas de escrita e entregar ao leitor um texto forte por si só. Utilizando o audiovisual como exemplo, quero dizer que uma boa equipe de efeitos especiais não deve ser mais importante do que o diretor e o roteirista na composição do que se apresenta. Antes de pensar na equipe de 3D, converse com o seu diretor de fotografia, o cara que saca das sutilezas.

Assim, sempre aconselho autores de fantasia a lerem mais literatura realista, a.k.a. mainstream. Na hora de resolver uma cena, de apresentar o clímax, autores realistas não podem sacar bolas de fogo do chapéu nem dentes pontudos da cartola. Seus recursos são a diegese firmada desde a primeira página, o processo de mudança dos personagens e a literatura por si só (o que não significa que todos eles escrevam bem). Efeitos especiais não são permitidos, Sr. Spielberg. Se um autor de fantasia conseguir dominar esses recursos, será capaz de oferecer um livro sólido e de alcance mais amplo.

Venho tentando entender e, quando possível, ajudar a nova geração de autores de fantasia a criar suas obras, porque acredito que o fantástico tem de fato um papel dentro do universo maior da literatura. Pedi então para o novíssimo autor Jim Anotsu, que lançou esse ano Annabel e Sarah, participar da série Fronteiras da Fantasia, representando não só autor, como também o jovem em questão.

“Muita gente desenvolve seu gosto pela leitura através de livros de fantasia, ficção-científica, chick-lits. Então temos aí um dos fatores que tanto permitem a aproximação entre livros e leitores. Não acho que uma pessoa seja introduzida no mundo da literatura por Philip Roth ou Joyce”.

Perguntei também como ele lida com os dilemas da fantasia e se ele tinha alguma estratégia para fugir das armadilhas de um texto fantástico:

“O fantástico é muito importante  numa história, mas aquilo que conecta uma pessoa ao texto é o elemento com o qual ela pode se identificar. Se pegarmos os grandes clássicos da literatura fantástica, eles não foram imortalizados porque o monstro-polvo-rosa-choque é maior do que alguma criatura que veio antes”.
Seguindo a linha de raciocínio de que o fantástico é um recurso extra, que vem para somar, não para confundir, ele acrescenta: “Não se pode separar o elemento humano do fantástico, você pega todas essas coisas, idéias, o Caos Cremoso que Andre Gide comenta em ‘Diários dos Moedeiros Falsos’, e bate até que surja uma massa homogênea”.

Como o Jim tem uma percepção diferente da criação de mundos, pedi para ele falar como é o uso da fantasia no seu universo adolescente.

“A fantasia em “Annabel & Sarah” é o tíquete de metrô que permite você ler a história e acreditar nela. Então em primeiro lugar, ela aceita as duas garotas em posições e lugares que de outras formas elas não conheceriam. É a fantasia que cria o pacto de confiança entre as três entidades: leitor, narrador e personagem.  Em ‘Annabel e Sarah’, o uso da fantasia está em cada página, nos animais falantes que Annabel conhece ou na cidade de Allegria com sua ditadura da felicidade. E o leitor prossegue na história porque algum sentimento, alguma coisa ali é real o suficiente para criar uma identificação. Eu sabia desde o início que eu deveria tentar escrever a fantasia mais delirante possível, mas de uma forma que fizesse com que o leitor ainda se identificasse com eles. Porque se você retirar, por exemplo, Dean Chinaski, uma raposa delinqüente, do seu contexto, terá um jovem perdido como muitos outros por aí”

Para fechar, Jim Anotsu fala do momento atual da fantasia: “Estamos vivendo um ótimo momento, muitos autores estão ganhando a chance de mostrar seus trabalhos e as pessoas começam a finalmente respeitar um gênero que durante muito tempo sempre foi a irmã mais feia da ficção científica, mesmo que grandes clássicos como “A Divina Comédia” de Dante ou “A Tempestade” de Shakespeare sejam histórias de fantasia. Eu tenho esperanças de que muitas coisas super bacanas estão vindo por aí”.